Jornada Primeira - A espada e o segredo A Vida é Sonho · Capítulo 2 de 17
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Jornada Primeira - A espada e o segredo

Jornada Primeira - A espada e o segredo

Se nasceste

Humano, baste o prostrar-me

A teus pés para livrar-me.

SEGISM.

Tua voz pôde enternecer-me,

Tua presença suspender-me

E teu respeito turbar-me.

Quem és? Que embora eu aqui

Tão pouco do mundo saiba,

Que berço e sepulcro foi

Esta torre para mim;

E embora desde que nasci

— Se isto é nascer — só perceba

Este rústico deserto,

Onde miserável vivo,

Sendo um esqueleto vivo,

Sendo um animado morto;

E embora nunca visse nem falasse

Senão a um homem somente,

Que aqui minhas desditas sente,

Por quem as notícias sei

Do céu e terra; e embora

Aqui, para que mais te assombres

E monstro humano me nomes,

Entre assombros e quimeras,

Sou um homem entre as feras

E uma fera entre os homens;

E embora em desditas tão graves

A política tenha estudado,

Dos brutos ensinado,

Advertido pelas aves,

E dos astros suaves

Os círculos tenha medido;

Tu só, tu tens suspendido

A paixão dos meus enojos,

A suspensão de meus olhos,

A admiração de meu ouvido.

Cada vez que te vejo

Nova admiração me dás,

E quando te miro mais,

Ainda mais mirar-te desejo.

Olhos hidrópicos creio

Que meus olhos devem ser;

Pois, quando é morte beber,

Bebem mais; e desta sorte,

Vendo que o ver me dá morte,

Estou morrendo por ver.

Mas veja-te eu e morra;

Que já rendido não sei,

Se ver-te morte me dá,

O não ver-te que me dera.

Fora mais que morte fera,

Ira, raiva e dor forte;

Fora morte: desta sorte

Seu rigor tenho ponderado.

Pois dar vida a um desditado

É dar a um ditoso morte.

ROSAURA.

Com assombro de mirar-te,

Com admiração de ouvir-te,

Nem sei que possa dizer-te,

Nem que possa perguntar-te:

Só direi que a esta parte

Hoje o céu me há guiado

Para haver-me consolado,

Se consolo pode ser

Do que é desditado, ver

Outro que é mais desditado.

Contam de um sábio que um dia

Tão pobre e mísero estava,

Que só se sustentava

De umas ervas que colhia.

“Haverá outro” — entre si dizia —

“Mais pobre e triste que eu?”

E quando o rosto voltou,

Achou a resposta, vendo

Que ia outro sábio colhendo

As folhas que ele atirou.

Queixoso da fortuna,

Eu neste mundo vivia,

E quando entre mim dizia:

“Haverá pessoa alguma

De sorte mais importuna?”

Piedoso me respondeste;

Pois, tornando a meu sentido,

Acho que as penas minhas,

Para fazê-las tu alegrias,

As terias recolhido.

E se acaso minhas penas

Podem em algo aliviar-te,

Ouve-as atento, e toma

As que delas me sobrarem.

Eu sou...

CENA III.

CLOTALDO, SOLDADOS. — SEGISMUNDO, ROSAURA, CLARIN.

CLOTAL.

(Dentro.) Guardas desta torre,

Que, adormecidas ou covardes,

Destes passagem a duas pessoas

Que violaram o cárcere...

ROSAURA.

Nova confusão padeço.

SEGISM.

Este é Clotaldo, meu alcaide.

Ainda não acabam minhas desditas?

CLOTAL.

(Dentro.) Acudi, e vigilantes,

Sem que possam defender-se,

Ou prendei-os, ou matai-os.

Vozes.

(Dentro.) Traição!

CLARIN.

Guardas desta torre,

Que entrar aqui nos deixastes,

Pois que nos dais a escolher,

O prender-nos é mais fácil.

(Saem Clotaldo e os soldados: ele com uma pistola, e todos com os

rostos cobertos.)

CLOTAL.

(À parte aos soldados, ao sair.)

Todos cobri os rostos;

Que é diligência importante,

Enquanto estamos aqui,

Que não nos conheça ninguém.

CLARIN.

Há mascaradinhos aqui?

CLOTAL.

Ó vós, que ignorantes,

Deste vedado sítio

O couto e termo passastes

Contra o decreto do Rei,

Que manda que não ouse ninguém

Examinar o prodígio

Que entre esses penhascos jaz,

Rendei as armas e vidas,

Ou esta pistola, áspide

De metal, cuspirá

O veneno penetrante

De duas balas, cujo fogo

Será escândalo do ar.

SEGISM.

Primeiro, tirano dono,

Que os ofendas ou agravies,

Será minha vida despojo

Destes laços miseráveis;

Pois neles, vive Deus,

Tenho de despedaçar-me

Com as mãos, com os dentes,

Entre estas penhas, antes

Que sua desdita consinta

E que chore seus ultrajes.

CLOTAL.

Se sabes que tuas desditas,

Segismundo, são tão grandes,

Que antes de nascer morreste

Por lei do céu; se sabes

Que estas prisões são

De tuas fúrias arrogantes

Um freio que as detenha

E uma roda que as pare,

Por que te vanglorias? A porta (Aos soldados.)

Cerrai dessa estreita cadeia;

Escondei-o nela.

SEGISM.

Ah, céus,

Quão bem fazeis em tirar-me

A liberdade! Porque fora

Contra vós gigante,

Que para quebrar ao sol

Esses vidros e cristais,

Sobre alicerces de pedra

Pusera montes de jaspe.

CLOTAL.

Talvez, para que não os ponhas,

Hoje padeces tantos males.

(Alguns soldados levam Segismundo e encerram-no em sua prisão.)

CENA IV.

ROSAURA, CLOTALDO, CLARIN, SOLDADOS.

ROSAURA.

Já que vi que a soberba

Tanto te ofendeu, ignorante

Fora em não pedir-te humilde

Vida que a teus pés jaz.

Mova-te em mim a piedade;

Que será rigor notável

Que não achem favor em ti

Nem soberbas nem humildades.

CLARIN.

E se humildade nem soberba

Não te obrigam, personagens

Que hão movido e removido

Mil autos sacramentais,

Eu, nem humilde nem soberbo,

Senão entre as duas metades

Entreverado, te peço

Que nos remedies e ampares.

CLOTAL.

Olá!

SOLDADO.

Senhor...

CLOTAL.

Aos dois

Tirai as armas, e atai-lhes

Os olhos, para que não vejam

Como nem de onde saem.

ROSAURA.

Minha espada é esta, que a ti

Somente há de entregar-se,

Porque enfim, de todos és

O principal, e não sabe

Render-se a menor valor.

CLARIN.

A minha é tal, que pode dar-se

Ao mais ruim: tomai-a vós. (A um soldado.)

ROSAURA.

E, se hei de morrer, deixar-te

Quero, em fé desta piedade,

Penhor que pôde estimar-se

Pelo dono que algum dia

A cingiu: que a guardes

Te encargo, porque, embora eu

Não saiba que segredo alcance,

Sei que esta dourada espada

Encerra mistérios grandes,

Pois só fiado nela

Venho à Polônia vingar-me

De um agravo.

CLOTAL.

(À parte.) Santos céus!

Que é isto! Já são mais graves

Minhas penas e confusões,

Minhas ânsias e meus pesares.

Quem te a deu?

ROSAURA.

Uma mulher.

CLOTAL.

Como se chama?

ROSAURA.

Que cale

Seu nome é força.

CLOTAL.

De que

Infere agora, ou sabes,

Que há segredo nesta espada?

ROSAURA.

Quem ma deu, disse: “Parte

Para a Polônia, e procura,

Com engenho, estudo ou arte,

Que vejam essa espada

Os nobres e principais,

Que eu sei que algum deles

Te favoreça e ampare”;

Que, por se acaso era morto,

Não quis então nomeá-lo.

CLOTAL.

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