Jornada Primeira - A espada e o segredo
Jornada Primeira - A espada e o segredo
Se nasceste
Humano, baste o prostrar-me
A teus pés para livrar-me.
SEGISM.
Tua voz pôde enternecer-me,
Tua presença suspender-me
E teu respeito turbar-me.
Quem és? Que embora eu aqui
Tão pouco do mundo saiba,
Que berço e sepulcro foi
Esta torre para mim;
E embora desde que nasci
— Se isto é nascer — só perceba
Este rústico deserto,
Onde miserável vivo,
Sendo um esqueleto vivo,
Sendo um animado morto;
E embora nunca visse nem falasse
Senão a um homem somente,
Que aqui minhas desditas sente,
Por quem as notícias sei
Do céu e terra; e embora
Aqui, para que mais te assombres
E monstro humano me nomes,
Entre assombros e quimeras,
Sou um homem entre as feras
E uma fera entre os homens;
E embora em desditas tão graves
A política tenha estudado,
Dos brutos ensinado,
Advertido pelas aves,
E dos astros suaves
Os círculos tenha medido;
Tu só, tu tens suspendido
A paixão dos meus enojos,
A suspensão de meus olhos,
A admiração de meu ouvido.
Cada vez que te vejo
Nova admiração me dás,
E quando te miro mais,
Ainda mais mirar-te desejo.
Olhos hidrópicos creio
Que meus olhos devem ser;
Pois, quando é morte beber,
Bebem mais; e desta sorte,
Vendo que o ver me dá morte,
Estou morrendo por ver.
Mas veja-te eu e morra;
Que já rendido não sei,
Se ver-te morte me dá,
O não ver-te que me dera.
Fora mais que morte fera,
Ira, raiva e dor forte;
Fora morte: desta sorte
Seu rigor tenho ponderado.
Pois dar vida a um desditado
É dar a um ditoso morte.
ROSAURA.
Com assombro de mirar-te,
Com admiração de ouvir-te,
Nem sei que possa dizer-te,
Nem que possa perguntar-te:
Só direi que a esta parte
Hoje o céu me há guiado
Para haver-me consolado,
Se consolo pode ser
Do que é desditado, ver
Outro que é mais desditado.
Contam de um sábio que um dia
Tão pobre e mísero estava,
Que só se sustentava
De umas ervas que colhia.
“Haverá outro” — entre si dizia —
“Mais pobre e triste que eu?”
E quando o rosto voltou,
Achou a resposta, vendo
Que ia outro sábio colhendo
As folhas que ele atirou.
Queixoso da fortuna,
Eu neste mundo vivia,
E quando entre mim dizia:
“Haverá pessoa alguma
De sorte mais importuna?”
Piedoso me respondeste;
Pois, tornando a meu sentido,
Acho que as penas minhas,
Para fazê-las tu alegrias,
As terias recolhido.
E se acaso minhas penas
Podem em algo aliviar-te,
Ouve-as atento, e toma
As que delas me sobrarem.
Eu sou...
CENA III.
CLOTALDO, SOLDADOS. — SEGISMUNDO, ROSAURA, CLARIN.
CLOTAL.
(Dentro.) Guardas desta torre,
Que, adormecidas ou covardes,
Destes passagem a duas pessoas
Que violaram o cárcere...
ROSAURA.
Nova confusão padeço.
SEGISM.
Este é Clotaldo, meu alcaide.
Ainda não acabam minhas desditas?
CLOTAL.
(Dentro.) Acudi, e vigilantes,
Sem que possam defender-se,
Ou prendei-os, ou matai-os.
Vozes.
(Dentro.) Traição!
CLARIN.
Guardas desta torre,
Que entrar aqui nos deixastes,
Pois que nos dais a escolher,
O prender-nos é mais fácil.
(Saem Clotaldo e os soldados: ele com uma pistola, e todos com os
rostos cobertos.)
CLOTAL.
(À parte aos soldados, ao sair.)
Todos cobri os rostos;
Que é diligência importante,
Enquanto estamos aqui,
Que não nos conheça ninguém.
CLARIN.
Há mascaradinhos aqui?
CLOTAL.
Ó vós, que ignorantes,
Deste vedado sítio
O couto e termo passastes
Contra o decreto do Rei,
Que manda que não ouse ninguém
Examinar o prodígio
Que entre esses penhascos jaz,
Rendei as armas e vidas,
Ou esta pistola, áspide
De metal, cuspirá
O veneno penetrante
De duas balas, cujo fogo
Será escândalo do ar.
SEGISM.
Primeiro, tirano dono,
Que os ofendas ou agravies,
Será minha vida despojo
Destes laços miseráveis;
Pois neles, vive Deus,
Tenho de despedaçar-me
Com as mãos, com os dentes,
Entre estas penhas, antes
Que sua desdita consinta
E que chore seus ultrajes.
CLOTAL.
Se sabes que tuas desditas,
Segismundo, são tão grandes,
Que antes de nascer morreste
Por lei do céu; se sabes
Que estas prisões são
De tuas fúrias arrogantes
Um freio que as detenha
E uma roda que as pare,
Por que te vanglorias? A porta (Aos soldados.)
Cerrai dessa estreita cadeia;
Escondei-o nela.
SEGISM.
Ah, céus,
Quão bem fazeis em tirar-me
A liberdade! Porque fora
Contra vós gigante,
Que para quebrar ao sol
Esses vidros e cristais,
Sobre alicerces de pedra
Pusera montes de jaspe.
CLOTAL.
Talvez, para que não os ponhas,
Hoje padeces tantos males.
(Alguns soldados levam Segismundo e encerram-no em sua prisão.)
CENA IV.
ROSAURA, CLOTALDO, CLARIN, SOLDADOS.
ROSAURA.
Já que vi que a soberba
Tanto te ofendeu, ignorante
Fora em não pedir-te humilde
Vida que a teus pés jaz.
Mova-te em mim a piedade;
Que será rigor notável
Que não achem favor em ti
Nem soberbas nem humildades.
CLARIN.
E se humildade nem soberba
Não te obrigam, personagens
Que hão movido e removido
Mil autos sacramentais,
Eu, nem humilde nem soberbo,
Senão entre as duas metades
Entreverado, te peço
Que nos remedies e ampares.
CLOTAL.
Olá!
SOLDADO.
Senhor...
CLOTAL.
Aos dois
Tirai as armas, e atai-lhes
Os olhos, para que não vejam
Como nem de onde saem.
ROSAURA.
Minha espada é esta, que a ti
Somente há de entregar-se,
Porque enfim, de todos és
O principal, e não sabe
Render-se a menor valor.
CLARIN.
A minha é tal, que pode dar-se
Ao mais ruim: tomai-a vós. (A um soldado.)
ROSAURA.
E, se hei de morrer, deixar-te
Quero, em fé desta piedade,
Penhor que pôde estimar-se
Pelo dono que algum dia
A cingiu: que a guardes
Te encargo, porque, embora eu
Não saiba que segredo alcance,
Sei que esta dourada espada
Encerra mistérios grandes,
Pois só fiado nela
Venho à Polônia vingar-me
De um agravo.
CLOTAL.
(À parte.) Santos céus!
Que é isto! Já são mais graves
Minhas penas e confusões,
Minhas ânsias e meus pesares.
Quem te a deu?
ROSAURA.
Uma mulher.
CLOTAL.
Como se chama?
ROSAURA.
Que cale
Seu nome é força.
CLOTAL.
De que
Infere agora, ou sabes,
Que há segredo nesta espada?
ROSAURA.
Quem ma deu, disse: “Parte
Para a Polônia, e procura,
Com engenho, estudo ou arte,
Que vejam essa espada
Os nobres e principais,
Que eu sei que algum deles
Te favoreça e ampare”;
Que, por se acaso era morto,
Não quis então nomeá-lo.
CLOTAL.