Jornada Segunda - Poder, desejo e assombro A Vida é Sonho · Capítulo 8 de 17
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Jornada Segunda - Poder, desejo e assombro

Jornada Segunda - Poder, desejo e assombro

(Voltando.) Caiu do balcão ao mar:

Vive Deus! que pôde ser[3].

[3] A Polônia não tinha portos: Calderón, por conseguinte, não pôde

colocar a ação do drama numa cidade marítima. A esta censura que se

fez ao autor por estes dois versos creio que se responde muito

facilmente. Mar se chamava no tempo de Calderón ao de Ontígola,

que é um tanque; Mar se chamou depois ao tanque grande dos jardins

da Granja. Caiu do balcão ao mar quererá, segundo isto, dizer:

“caiu num tanque dos jardins do palácio, caiu no tanque que está

debaixo do balcão.”

ASTOLFO.

Pois medi com mais espaço

Vossas ações severas,

Que o que vai de homens a feras

Vai de um monte a um palácio.

SEGISM.

Pois, se dais tão severo

Em falar com inteireza,

Talvez não acheis cabeça

Em que vos fique o chapéu.

(Vai-se Astolfo.)

CENA VI.

BASILIO. — SEGISMUNDO, CLARIN, CRIADOS.

BASILIO.

Que foi isto?

SEGISM.

Nada foi.

A um homem que me cansou,

Deste balcão arrojei.

CLARIN.

(A Segismundo.) Que é o Rei está advertido.

BASILIO.

Tão depressa uma vida custa

Tua vinda no primeiro dia?

SEGISM.

Disse-me que não podia

Fazer-se, e ganhei a aposta.

BASILIO.

Muito me pesa que quando,

Príncipe, a ver-te hei vindo,

Pensando achar-te advertido,

De fados e estrelas triunfando,

Com tanto rigor te veja,

E que a primeira ação

Que fizeste nesta ocasião

Um grave homicídio seja.

Com que amor chegarei

A dar-te agora meus braços,

Se de seus soberbos laços,

Que estão ensinados, sei,

A dar morte? Quem chegou

A ver desnudo o punhal

Que deu uma ferida mortal,

Que não temesse? Quem viu

Sangrento o lugar, onde

A outro homem deram morte,

Que não sinta? que o mais forte

A seu natural responde.

Eu assim, que em teus braços miro

Desta morte o instrumento,

E miro o lugar sangrento,

De teus braços me retiro;

E embora em amorosos laços

Cingir teu colo pensei,

Sem eles me tornarei,

Que tenho medo a teus braços.

SEGISM.

Sem eles me poderei estar

Como tenho estado até aqui;

Que um pai que contra mim

Tanto rigor sabe usar,

Que sua condição ingrata

De seu lado me desvia,

Como a uma fera me cria,

E como a um monstro me trata

E minha morte solicita,

De pouca importância foi

Que os braços não me dê,

Quando o ser de homem me tira.

BASILIO.

Ao céu e a Deus prouvesse

Que a dá-lo não chegara;

Pois nem tua voz escutara,

Nem teu atrevimento vira.

SEGISM.

Se não mo houvesses dado,

Não me queixara de ti;

Mas uma vez dado, sim,

Por havê-lo tirado;

Pois embora o dar a ação é

Mais nobre e mais singular,

É maior baixeza o dar

Para depois retirar.

BASILIO.

Bem me agradeces ver-te,

De humilde e pobre preso,

Príncipe já!

SEGISM.

Pois nisso

Que tenho que agradecer-te?

Tirano de meu arbítrio,

Se velho e caduco estás,

Morrendo-te, que me dás?

Dás-me mais do que é meu?

Meu pai és e meu rei;

Logo toda esta grandeza

Me dá a natureza

Por direito de sua lei.

Logo, embora em tal estado,

Obrigado não te fico,

E pedir-te contas posso

Do tempo em que me hás tirado

Liberdade, vida e honor;

E assim, agradece-me a mim

Que eu não cobre de ti,

Pois és tu meu devedor.

BASILIO.

Bárbaro és e atrevido:

Cumpriu sua palavra o céu;

E assim, para ele mesmo apelo,

Soberbo e desvanecido.

E embora saibas já quem és,

E desenganado estejas,

E embora num lugar te vejas

Onde a todos te preferes,

Mira bem o que te advirto:

Que sejas humilde e brando,

Porque talvez estás sonhando,

Embora vejas que estás desperto. (Vai-se.)

SEGISM.

Que talvez sonhando estou,

Embora desperto me veja?

Não sonho, pois toco e creio

O que fui e o que sou.

E embora agora te arrependas,

Pouco remédio terás;

Sei quem sou, e não poderás,

Embora suspires e sintas,

Tirar-me o haver nascido

Desta coroa herdeiro;

E se me viste primeiro

Às prisões rendido,

Foi porque ignorei quem era,

Mas já informado estou

De quem sou, e sei que sou

Um composto de homem e fera.

CENA VII.

ROSAURA, em traje de mulher. — SEGISMUNDO, CLARIN, CRIADOS.

ROSAURA.

(À parte.) Seguindo Estrella venho,

E grande temor de achar Astolfo tenho;

Que Clotaldo deseja

Que não saiba quem sou, e não me veja,

Porque diz que importa ao honor meu:

E de Clotaldo fio

Seu efeito, pois lhe devo agradecida

Aqui o amparo de meu honor e vida.

CLARIN.

(A Segismundo.) Que é o que te agradou

Mais de quanto aqui viste e admiraste?

SEGISM.

Nada me suspendeu;

Que tudo o tinha prevenido;

Mas, se admirar-me houvera

Algo no mundo, a formosura fora

Da mulher. Lia

Uma vez eu nos livros que tinha,

Que o que a Deus maior estudo deve

Era o homem, por ser um mundo breve;

Mas já que o é, receio,

A mulher, pois há sido um breve céu;

E mais beleza encerra

Que o homem, quanto vai de céu a terra;

E mais se é a que miro.

ROSAURA.

(À parte.) O Príncipe está aqui; eu me retiro.

SEGISM.

Ouve, mulher, detém-te;

Não juntes o ocaso e o oriente,

Fugindo ao primeiro passo;

Que juntos o oriente e o ocaso,

A luz e a sombra fria,

Serás sem dúvida síncope do dia.

Mas que é isto que vejo?

ROSAURA.

O mesmo que estou vendo duvido e creio.

SEGISM.

(À parte.) Eu vi esta beleza

Outra vez.

ROSAURA.

(À parte.) Eu esta pompa, esta grandeza

Vi reduzida

A uma estreita prisão.

SEGISM.

(À parte.) Já achei minha vida.

Mulher, que este nome

É o melhor requebro para o homem,

Quem és? Que, sem ver-te,

Adoração me deves, e de sorte

Pela fé te conquisto,

Que me persuado a que outra vez te hei visto.

Quem és, mulher bela?

ROSAURA.

Dissimular me importa. Sou de Estrella

Uma infeliz dama.

SEGISM.

Não digas tal; diz o sol, a cuja chama

Aquela estrela vive,

Pois de teus raios resplendor recebe;

Eu vi em reino de odores

Que presidia entre esquadrão de flores

A deidade da rosa,

E era sua imperatriz por mais formosa;

Eu vi entre pedras finas

Da douta academia de suas minas

Preferir o diamante,

E ser seu imperador por mais brilhante;

Eu, nessas cortes belas

Da inquieta república de estrelas,

Vi em lugar primeiro

Por rei das estrelas o luzeiro;

Eu, em esferas perfeitas,

Chamando o sol às cortes os planetas,

Vi que ele presidia,

Como maior oráculo do dia.

Pois como, se entre flores, entre estrelas,

Pedras, signos, planetas, as mais belas

Preferem, tu hás servido

A de menor beleza, havendo sido

Por mais bela e formosa,

Sol, luzeiro, diamante, estrela e rosa?

CENA VIII.

CLOTALDO, que fica ao pano. — SEGISMUNDO, ROSAURA, CLARIN, CRIADOS.

CLOTAL.

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