Jornada Segunda - Poder, desejo e assombro
Jornada Segunda - Poder, desejo e assombro
(Voltando.) Caiu do balcão ao mar:
Vive Deus! que pôde ser[3].
[3] A Polônia não tinha portos: Calderón, por conseguinte, não pôde
colocar a ação do drama numa cidade marítima. A esta censura que se
fez ao autor por estes dois versos creio que se responde muito
facilmente. Mar se chamava no tempo de Calderón ao de Ontígola,
que é um tanque; Mar se chamou depois ao tanque grande dos jardins
da Granja. Caiu do balcão ao mar quererá, segundo isto, dizer:
“caiu num tanque dos jardins do palácio, caiu no tanque que está
debaixo do balcão.”
ASTOLFO.
Pois medi com mais espaço
Vossas ações severas,
Que o que vai de homens a feras
Vai de um monte a um palácio.
SEGISM.
Pois, se dais tão severo
Em falar com inteireza,
Talvez não acheis cabeça
Em que vos fique o chapéu.
(Vai-se Astolfo.)
CENA VI.
BASILIO. — SEGISMUNDO, CLARIN, CRIADOS.
BASILIO.
Que foi isto?
SEGISM.
Nada foi.
A um homem que me cansou,
Deste balcão arrojei.
CLARIN.
(A Segismundo.) Que é o Rei está advertido.
BASILIO.
Tão depressa uma vida custa
Tua vinda no primeiro dia?
SEGISM.
Disse-me que não podia
Fazer-se, e ganhei a aposta.
BASILIO.
Muito me pesa que quando,
Príncipe, a ver-te hei vindo,
Pensando achar-te advertido,
De fados e estrelas triunfando,
Com tanto rigor te veja,
E que a primeira ação
Que fizeste nesta ocasião
Um grave homicídio seja.
Com que amor chegarei
A dar-te agora meus braços,
Se de seus soberbos laços,
Que estão ensinados, sei,
A dar morte? Quem chegou
A ver desnudo o punhal
Que deu uma ferida mortal,
Que não temesse? Quem viu
Sangrento o lugar, onde
A outro homem deram morte,
Que não sinta? que o mais forte
A seu natural responde.
Eu assim, que em teus braços miro
Desta morte o instrumento,
E miro o lugar sangrento,
De teus braços me retiro;
E embora em amorosos laços
Cingir teu colo pensei,
Sem eles me tornarei,
Que tenho medo a teus braços.
SEGISM.
Sem eles me poderei estar
Como tenho estado até aqui;
Que um pai que contra mim
Tanto rigor sabe usar,
Que sua condição ingrata
De seu lado me desvia,
Como a uma fera me cria,
E como a um monstro me trata
E minha morte solicita,
De pouca importância foi
Que os braços não me dê,
Quando o ser de homem me tira.
BASILIO.
Ao céu e a Deus prouvesse
Que a dá-lo não chegara;
Pois nem tua voz escutara,
Nem teu atrevimento vira.
SEGISM.
Se não mo houvesses dado,
Não me queixara de ti;
Mas uma vez dado, sim,
Por havê-lo tirado;
Pois embora o dar a ação é
Mais nobre e mais singular,
É maior baixeza o dar
Para depois retirar.
BASILIO.
Bem me agradeces ver-te,
De humilde e pobre preso,
Príncipe já!
SEGISM.
Pois nisso
Que tenho que agradecer-te?
Tirano de meu arbítrio,
Se velho e caduco estás,
Morrendo-te, que me dás?
Dás-me mais do que é meu?
Meu pai és e meu rei;
Logo toda esta grandeza
Me dá a natureza
Por direito de sua lei.
Logo, embora em tal estado,
Obrigado não te fico,
E pedir-te contas posso
Do tempo em que me hás tirado
Liberdade, vida e honor;
E assim, agradece-me a mim
Que eu não cobre de ti,
Pois és tu meu devedor.
BASILIO.
Bárbaro és e atrevido:
Cumpriu sua palavra o céu;
E assim, para ele mesmo apelo,
Soberbo e desvanecido.
E embora saibas já quem és,
E desenganado estejas,
E embora num lugar te vejas
Onde a todos te preferes,
Mira bem o que te advirto:
Que sejas humilde e brando,
Porque talvez estás sonhando,
Embora vejas que estás desperto. (Vai-se.)
SEGISM.
Que talvez sonhando estou,
Embora desperto me veja?
Não sonho, pois toco e creio
O que fui e o que sou.
E embora agora te arrependas,
Pouco remédio terás;
Sei quem sou, e não poderás,
Embora suspires e sintas,
Tirar-me o haver nascido
Desta coroa herdeiro;
E se me viste primeiro
Às prisões rendido,
Foi porque ignorei quem era,
Mas já informado estou
De quem sou, e sei que sou
Um composto de homem e fera.
CENA VII.
ROSAURA, em traje de mulher. — SEGISMUNDO, CLARIN, CRIADOS.
ROSAURA.
(À parte.) Seguindo Estrella venho,
E grande temor de achar Astolfo tenho;
Que Clotaldo deseja
Que não saiba quem sou, e não me veja,
Porque diz que importa ao honor meu:
E de Clotaldo fio
Seu efeito, pois lhe devo agradecida
Aqui o amparo de meu honor e vida.
CLARIN.
(A Segismundo.) Que é o que te agradou
Mais de quanto aqui viste e admiraste?
SEGISM.
Nada me suspendeu;
Que tudo o tinha prevenido;
Mas, se admirar-me houvera
Algo no mundo, a formosura fora
Da mulher. Lia
Uma vez eu nos livros que tinha,
Que o que a Deus maior estudo deve
Era o homem, por ser um mundo breve;
Mas já que o é, receio,
A mulher, pois há sido um breve céu;
E mais beleza encerra
Que o homem, quanto vai de céu a terra;
E mais se é a que miro.
ROSAURA.
(À parte.) O Príncipe está aqui; eu me retiro.
SEGISM.
Ouve, mulher, detém-te;
Não juntes o ocaso e o oriente,
Fugindo ao primeiro passo;
Que juntos o oriente e o ocaso,
A luz e a sombra fria,
Serás sem dúvida síncope do dia.
Mas que é isto que vejo?
ROSAURA.
O mesmo que estou vendo duvido e creio.
SEGISM.
(À parte.) Eu vi esta beleza
Outra vez.
ROSAURA.
(À parte.) Eu esta pompa, esta grandeza
Vi reduzida
A uma estreita prisão.
SEGISM.
(À parte.) Já achei minha vida.
Mulher, que este nome
É o melhor requebro para o homem,
Quem és? Que, sem ver-te,
Adoração me deves, e de sorte
Pela fé te conquisto,
Que me persuado a que outra vez te hei visto.
Quem és, mulher bela?
ROSAURA.
Dissimular me importa. Sou de Estrella
Uma infeliz dama.
SEGISM.
Não digas tal; diz o sol, a cuja chama
Aquela estrela vive,
Pois de teus raios resplendor recebe;
Eu vi em reino de odores
Que presidia entre esquadrão de flores
A deidade da rosa,
E era sua imperatriz por mais formosa;
Eu vi entre pedras finas
Da douta academia de suas minas
Preferir o diamante,
E ser seu imperador por mais brilhante;
Eu, nessas cortes belas
Da inquieta república de estrelas,
Vi em lugar primeiro
Por rei das estrelas o luzeiro;
Eu, em esferas perfeitas,
Chamando o sol às cortes os planetas,
Vi que ele presidia,
Como maior oráculo do dia.
Pois como, se entre flores, entre estrelas,
Pedras, signos, planetas, as mais belas
Preferem, tu hás servido
A de menor beleza, havendo sido
Por mais bela e formosa,
Sol, luzeiro, diamante, estrela e rosa?
CENA VIII.
CLOTALDO, que fica ao pano. — SEGISMUNDO, ROSAURA, CLARIN, CRIADOS.
CLOTAL.