Jornada Segunda - Toda a vida é sonho
Jornada Segunda - Toda a vida é sonho
(À parte. Como posso
Sair de lance tão forte?)
Embora queira, formosa Estrella,
Servir-te e obedecer-te,
Não poderei dar-te o retrato
Que me pedes, porque...
ESTREL.
És
Vilão e grosseiro amante.
Não quero que mo entregues;
Porque eu tampouco quero,
Ao tomá-lo, que me lembres
Que eu o pedi a ti. (Vai-se.)
ASTOLFO.
Ouve, escuta, olha, adverte.
Valha-te Deus por Rosaura!
Onde, como ou de que sorte
Hoje à Polônia vieste
A perder-me e a perder-te? (Vai-se.)
Prisão do Príncipe na torre.
CENA XVII.
SEGISMUNDO, como ao princípio, com peles e cadeia, deitado no
chão; CLOTALDO, DOIS CRIADOS e CLARIN.
CLOTAL.
Aqui o haveis de deixar,
Pois hoje sua soberba acaba
Onde começou.
UM CRIADO.
Como estava,
A cadeia torno a atar.
CLARIN.
Não acabes de despertar,
Segismundo, para ver-te
Perder, trocada a sorte,
Sendo tua glória fingida,
Uma sombra da vida
E uma chama da morte.
CLOTAL.
A quem sabe discorrer
Assim, é bem que se previna
Uma estância onde tenha
Bastante lugar para arguir.
Este é o que haveis de prender, (Aos criados.)
E neste quarto encerrar.
(Assinalando a peça imediata.)
CLARIN.
Por que a mim?
CLOTAL.
Porque há de estar
Guardado em prisão tão grave,
Clarin que segredos sabe,
Onde não possa soar.
CLARIN.
Eu, por acaso, solicito
Dar morte a meu pai? Não.
Lancei eu do balcão
O Ícaro de pouquinho?
Eu sonho ou durmo? A que fim
Me encerram?
CLOTAL.
És Clarin.
CLARIN.
Pois já digo que serei
Corneta, e que calarei,
Que é instrumento ruim.
(Levam-no, e fica só Clotaldo.)
CENA XVIII.
BASILIO, rebuçado. — CLOTALDO, SEGISMUNDO, adormecido.
BASILIO.
Clotaldo.
CLOTAL.
Senhor! Assim
Vem vossa Majestade?
BASILIO.
A néscia curiosidade
De ver o que passa aqui
A Segismundo — ai de mim! —,
Deste modo me há trazido.
CLOTAL.
Mira-o ali reduzido
A seu miserável estado.
BASILIO.
Ai, Príncipe desditado
E em triste ponto nascido!
Chega a despertá-lo, já
Que força e vigor perdeu
Com o ópio que bebeu.
CLOTAL.
Inquieto, senhor, está,
E falando.
BASILIO.
Que sonhará
Agora? Escutemos, pois.
SEGISM.
(Entre sonhos.) Piedoso príncipe é
O que castiga tiranos:
Clotaldo morra a minhas mãos.
Meu pai beije meus pés.
CLOTAL.
Com a morte me ameaça.
BASILIO.
A mim com rigor e afronta.
CLOTAL.
Tirar-me a vida intenta.
BASILIO.
Render-me a seus pés traça.
SEGISM.
(Entre sonhos.) Saia à espaçosa praça
Do grande teatro do mundo
Este valor sem segundo:
Para que minha vingança quadre,
Vejam triunfar de seu pai
O príncipe Segismundo. (Desperta.)
Mas ai de mim! Onde estou?
BASILIO.
Pois a mim não me há de ver: (A Clotaldo.)
Já sabes o que hás de fazer.
Dali irei escutá-lo. (Retira-se.)
SEGISM.
Sou eu porventura? Sou
Aquele que, preso e aferrolhado,
Chego a ver-me em tal estado?
Não sois meu sepulcro vós,
Torre? Sim. Valha-me Deus,
Que de coisas hei sonhado!
CLOTAL.
(À parte.) A mim me toca chegar
A fazer a desfeita agora.
É já hora de despertar?
SEGISM.
Sim, hora é já de despertar.
CLOTAL.
Todo o dia hás de estar
Dormindo? Desde que eu
A águia que voou
Com tardo voo segui,
E tu ficaste aqui,
Nunca despertaste?
SEGISM.
Não,
Nem ainda agora despertei;
Que, segundo, Clotaldo, entendo,
Todavia estou dormindo:
E não estou muito enganado;
Porque, se foi sonhado
O que vi palpável e certo,
O que vejo será incerto;
E não é muito que rendido,
Pois vejo estando dormido,
Sonhe estando desperto.
CLOTAL.
O que sonhaste me dize.
SEGISM.
Posto que sonho foi,
Não direi o que sonhei,
O que vi, Clotaldo, sim.
Eu despertei, eu me vi
— Que crueldade tão lisonjeira! —
Num leito, que pudera
Com matizes e cores
Ser o catre das flores
Que teceu a primavera.
Ali mil nobres rendidos
A meus pés nome me deram
De seu príncipe, e serviram
Galas, joias e vestidos.
A calma dos meus sentidos
Tu trocaste em alegria,
Dizendo a ventura minha,
Que, embora esteja desta maneira,
Príncipe na Polônia era.
CLOTAL.
Boas alvíssaras teria.
SEGISM.
Não muito boas: por traidor,
Com peito atrevido e forte,
Duas vezes te dava morte.
CLOTAL.
Para mim tanto rigor?
SEGISM.
De todos era senhor,
E de todos me vingava;
Só a uma mulher amava...
Que foi verdade, creio eu,
Em que tudo se acabou,
E isto só não se acaba. (Vai-se o Rei.)
CLOTAL.
(À parte.) Enternecido se foi
O Rei por havê-lo escutado.
Como havíamos falado
Daquela águia, dormido,
Teus sonhos impérios têm sido;
Mas em sonhos fora bem
Honrar então a quem
Te criou em tantos empenhos,
Segismundo, que ainda em sonhos
Não se perde o fazer bem. (Vai-se.)
CENA XIX.
SEGISMUNDO.
É verdade; pois reprimamos
Esta fera condição,
Esta fúria, esta ambição,
Por se alguma vez sonhamos:
E sim faremos, pois estamos
Em mundo tão singular,
Que o viver só é sonhar;
E a experiência me ensina
Que o homem que vive sonha
O que é, até despertar.
Sonha o rei que é rei, e vive
Com este engano mandando,
Dispondo e governando;
E este aplauso, que recebe
Emprestado, no vento escreve;
E em cinzas o converte
A morte — desdita forte! —
Há quem intente reinar,
Vendo que há de despertar
No sonho da morte?
Sonha o rico em sua riqueza,
Que mais cuidados lhe oferece;
Sonha o pobre que padece
Sua miséria e sua pobreza;
Sonha o que a medrar começa,
Sonha o que afana e pretende,
Sonha o que agrava e ofende,
E no mundo, em conclusão,
Todos sonham o que são,
Embora ninguém o entenda.
Eu sonho que estou aqui
Destas prisões carregado,
E sonhei que em outro estado
Mais lisonjeiro me vi.
Que é a vida? Um frenesi:
Que é a vida? Uma ilusão,
Uma sombra, uma ficção,
E o maior bem é pequeno;
Que toda a vida é sonho,
E os sonhos sonhos são.
JORNADA TERCEIRA.
CENA PRIMEIRA.
CLARIN.