Jornada Terceira - A torre se abre A Vida é Sonho · Capítulo 12 de 17
Obra Menu

Jornada Terceira - A torre se abre

Jornada Terceira - A torre se abre

Numa encantada torre,

Pelo que sei, vivo preso:

Que me farão pelo que ignoro,

Se pelo que sei me mataram?

Que um homem com tanta fome

Viesse a morrer vivendo!

Tenho lástima de mim;

Todos dirão: “bem o creio”;

E bem se pode crer,

Pois para mim este silêncio

Não se conforma com o nome

Clarin, e calar não posso.

Quem me faz companhia

Aqui, se acerto em dizê-lo,

São aranhas e ratões:

Vede que doces pintassilgos!

Dos sonhos desta noite

A triste cabeça tenho

Cheia de mil charamelas,

De trombetas e embustes,

De procissões, de cruzes,

De disciplinantes; e estes,

Uns sobem, outros descem,

Uns desmaiam vendo

O sangue que levam outros:

Mas eu, a verdade dizendo,

De não comer desmaio;

Que numa prisão me vejo,

Onde já todos os dias

No filósofo leio

Nicômedes, e as noites

No concílio Niceno.

Se chamam santo ao calar,

Como em calendário novo,

São Segredo é para mim,

Pois o jejuo e não o festejo;

Embora esteja bem merecido

O castigo que padeço,

Pois calei, sendo criado,

Que é o maior sacrilégio.

(Ruído de caixas e clarins, e vozes dentro.)

CENA II.

SOLDADOS. — CLARIN.

SOLDADO 1.º

(Dentro.) Esta é a torre em que está.

Lançai a porta ao chão:

Entrai todos.

CLARIN.

Vive Deus!

Que a mim me buscam, é certo,

Pois dizem que aqui estou.

Que me quererão?

SOLDADO 1.º

(Dentro.) Entrai dentro.

(Saem vários soldados.)

SOLDADO 2.º

Aqui está.

CLARIN.

Não está.

SOLDADOS

(Todos.) Senhor...

CLARIN.

(À parte.) Se vêm bêbados estes?

SOLDADO 1.º

Tu és nosso príncipe;

Nem admitimos nem queremos

Senão o senhor natural,

E não príncipe estrangeiro.

A todos nos dá os pés.

SOLDADOS

Viva o grande Príncipe nosso!

CLARIN.

(À parte.) Vive Deus, que vai deveras.

Será costume neste reino

Prender um homem cada dia

E fazê-lo príncipe, e logo

Torná-lo à torre? Sim,

Pois cada dia o vejo:

Forçoso é fazer meu papel.

SOLDADOS

Dá-nos tuas plantas.

CLARIN.

Não posso,

Porque as hei mister

Para mim, e fora defeito

Ser príncipe desplanteado.

SOLDADO 2.º

Todos a teu próprio pai

Dissemos que a ti só

Por príncipe conhecemos,

Não ao da Moscóvia.

CLARIN.

A meu pai

Perdesteis o respeito?

Sois uns tais por quais.

SOLDADO 1.º

Foi lealdade de nosso peito.

CLARIN.

Se foi lealdade, eu vos perdoo.

SOLDADO 2.º

Sai a restaurar teu império.

Viva Segismundo!

TODOS.

Viva!

CLARIN.

(À parte.) Segismundo dizem? Bom:

Segismundos chamam todos

Os príncipes contrafeitos.

CENA III.

SEGISMUNDO. — CLARIN, SOLDADOS.

SEGISM.

Quem nomeia aqui Segismundo?

CLARIN.

(À parte.) Mais parece que sou príncipe oco!

SOLDADO 1.º

Quem é Segismundo?

SEGISM.

Eu.

SOLDADO 2.º

(A Clarin.) Pois como, atrevido e néscio,

Tu te fazias Segismundo?

CLARIN.

Eu Segismundo? Isso nego.

Vós é que fostes os que

Me segismundastes: logo

Vossa há sido somente

A necedade e o atrevimento.

SOLDADO 1.º

Grande príncipe Segismundo

— Que os sinais que trazemos

Teus são, embora por fé

Te aclamemos senhor nosso —,

Teu pai, o grande rei Basilio,

Temeroso que os céus

Cumpram um fado, que diz

Que há de ver-se a teus pés posto,

Vencido por ti, pretende

Tirar-te ação e direito

E dá-lo a Astolfo, duque

Da Moscóvia. Para isto

Juntou sua corte, e o vulgo,

Penetrando já e sabendo

Que tem rei natural,

Não quer que um estrangeiro

Venha mandar-lhe. E assim,

Fazendo nobre desprezo

Da inclemência do fado,

Buscou-te onde preso

Vives, para que assistido

De suas armas, e saindo

Desta torre a restaurar

Tua imperial coroa e cetro,

Lhos tires a um tirano.

Sai, pois; que nesse deserto,

Exército numeroso

De bandidos e plebeus

Te aclama: a liberdade

Te espera; ouve seus acentos.

Vozes.

(Dentro.) Viva Segismundo, viva!

SEGISM.

Outra vez — que é isto, céus! —

Quereis que sonhe grandezas,

Que há de desfazer o tempo?

Outra vez quereis que veja

Entre sombras e esboços

A majestade e a pompa

Desvanecida do vento?

Outra vez quereis que toque

O desengano, ou o risco

A que o humano poder

Nasce humilde e vive atento?

Pois não há de ser, não há de ser

Mirar-me outra vez sujeito

À minha fortuna; e pois sei

Que toda esta vida é sonho,

Ide-vos, sombras, que fingis

Hoje a meus sentidos mortos

Corpo e voz, sendo verdade

Que nem tendes voz nem corpo;

Que não quero majestades

Fingidas, pompas não quero

Fantásticas, ilusões

Que ao sopro menos ligeiro

Da aura hão de desfazer-se,

Bem como o florido amendoeiro,

Que, por madrugar suas flores,

Sem aviso e sem conselho,

Ao primeiro sopro se apagam,

Murchando e desluzindo

De seus rosados capuchos

Beleza, luz e ornamento.

Já vos conheço, já vos conheço,

E sei que vos passa o mesmo

Com qualquer que adormece;

Para mim não há fingimentos;

Que, desenganado já,

Sei bem que a vida é sonho.

SOLDADO 2.º

Se pensas que te enganamos,

Volve a esses montes soberbos

Os olhos, para que vejas

A gente que aguarda neles

Para obedecer-te.

SEGISM.

Outra vez vi isto mesmo

Tão clara e distintamente

Como agora o estou vendo,

E foi sonho.

SOLDADO 2.º

Coisas grandes

Sempre, grande senhor, trouxeram

Anúncios; e isto seria,

Se o sonhaste primeiro.

SEGISM.

Dizes bem, anúncio foi;

E caso fosse certo,

Pois que a vida é tão curta,

Sonhemos, alma, sonhemos

Outra vez; mas há de ser

Com atenção e conselho

De que havemos de despertar

Deste gosto ao melhor tempo;

Que, levando-o sabido,

Será menor o desengano;

Que é zombar do dano

Antecipar-lhe o conselho.

E com esta prevenção

De que, quando fosse certo,

É todo o poder emprestado

E há de volver a seu dono,

Atrevamo-nos a tudo.

Vassalos, eu vos agradeço

A lealdade; em mim levais

Quem vos livre, ousado e destro,

De estrangeira escravidão.

Tocai às armas, que presto

Vereis meu imenso valor.

Contra meu pai pretendo

Tomar armas, e tirar

Verdadeiros os céus.

Presto hei de vê-lo a meus pés...

(À parte.) Mas se antes disto desperto,

Não será bem não dizê-lo,

Posto que não hei de fazê-lo?

TODOS.

Viva Segismundo, viva!

CENA IV.

CLOTALDO. — SEGISMUNDO, CLARIN, SOLDADOS.

CLOTAL.

Que alvoroço é este, céus?

SEGISM.

Clotaldo.

CLOTAL.

Senhor... (À parte.) Em mim

Seu rigor prova.

CLARIN.

(À parte.) Eu aposto

Que o despenha do monte. (Vai-se.)

CLOTAL.

A tuas reais plantas chego,

Já sei que a morrer.

SEGISM.

Levanta,

Levanta, pai, do chão;

Que tu hás de ser norte e guia

De quem fie meus acertos;

Que já sei que minha criação

À tua muita lealdade devo.

Dá-me os braços.

CLOTAL.

Que dizes?

SEGISM.

1/1
Menu

Fazer anotação