Jornada Terceira - Perdão e desfecho
Jornada Terceira - Perdão e desfecho
SOLDADO.
Na intrincada espessura do monte,
Entre seus densos ramos,
O Rei se esconde.
SEGISM.
Segui-o!
Não fique em seus cumes planta
Que não examine o cuidado,
Tronco a tronco, ramo a ramo.
CLOTAL.
Foge, senhor!
BASILIO.
Para quê?
ASTOLFO.
Que intentas?
BASILIO.
Astolfo, aparta.
CLOTAL.
Que queres?
BASILIO.
Fazer, Clotaldo,
Um remédio que me falta.
Se a mim, buscando-me, vais, (A Segismundo.)
Já estou, príncipe, a teus pés:
(Ajoelhando-se.)
Seja deles branca alfombra
Esta neve de minhas cãs.
Pisa minha cerviz, e calca
Minha coroa; prostra, arrasta
Meu decoro e meu respeito;
Toma de meu honor vingança,
Serve-te de mim cativo;
E, após prevenções tamanhas,
Cumpra o fado sua homenagem,
Cumpra o céu sua palavra.
SEGISM.
Corte ilustre da Polônia,
Que de admirações tantas
Sois testemunhas, atendei,
Que vos fala o vosso príncipe.
O que está determinado
Pelo céu, e em azul tábua
Deus com o dedo escreveu,
De que são cifras e estampas
Tantos papéis azuis
Que adornam letras douradas,
Nunca engana, nunca mente;
Porque quem mente e engana
É quem, para delas usar mal,
As penetra e as alcança.
Meu pai, que está presente,
Por excusar-se à sanha
De minha condição, fez-me
Um bruto, uma fera humana:
De sorte que, quando eu,
Por minha nobreza galharda,
Por meu sangue generoso,
Por minha condição bizarra,
Houvesse nascido dócil
E humilde, só bastara
Tal gênero de viver,
Tal linhagem de criação,
A fazer feras minhas costumes:
Que bom modo de estorvá-las!
Se a qualquer homem dissessem:
“Alguma fera inumana
Te dará morte”, escolhera
Bom remédio em despertá-la
Quando estivesse dormindo?
Se dissessem: “Esta espada
Que trazes cingida há de ser
Quem te dê a morte”, vã
Diligência de evitá-lo
Fora então desnudá-la
E pô-la contra o peito.
Se dissessem: “Golfos de água
Hão de ser tua sepultura
Em monumentos de prata”,
Mal faria em dar-se ao mar,
Quando soberbo levanta
Rizados montes de neve,
De cristal crespas montanhas.
O mesmo lhe sucedeu
Que a quem, porque o ameaça
Uma fera, a desperta;
Que a quem, temendo uma espada,
A desnuda; e que a quem move
As ondas de uma borrasca:
E quando fosse — escutai-me —
Dormida fera minha sanha,
Temperada espada minha fúria,
Meu rigor quieta bonança,
A fortuna não se vence
Com injustiça e vingança,
Porque antes se incita mais;
E assim, quem vencer aguarda
Sua fortuna, há de ser
Com cordura e temperança.
Não antes de vir o dano
Se reserva nem se guarda
Quem o previne; que embora
Possa humilde — coisa é clara —
Reservar-se dele, não é
Senão depois que se acha
Na ocasião, porque esta
Não há caminho de estorvá-la.
Sirva de exemplo este raro
Espetáculo, esta estranha
Admiração, este horror,
Este prodígio; pois nada
É mais que chegar a ver,
Com prevenções tão várias,
Rendido a meus pés um pai,
E atropelado um monarca.
Sentença do céu foi;
Por mais que quis estorvá-la
Ele, não pôde; e poderei eu,
Que sou menor nas cãs,
No valor e na ciência,
Vencê-la? — Senhor, levanta, (Ao Rei.)
Dá-me tua mão; que já
Que o céu te desengana
De que erraste no modo
De vencê-la, humilde aguarda
Meu colo a que tu te vingues:
Rendido estou a teus pés.
BASILIO.
Filho, que tão nobre ação
Outra vez em minhas entranhas
Te engendra, príncipe és.
A ti o laurel e a palma
Se te devem; tu venceste;
Coroem-te tuas façanhas.
TODOS.
Viva Segismundo, viva!
SEGISM.
Pois que já vencer aguarda
Meu valor grandes vitórias,
Hoje há de ser a mais alta
Vencer-me a mim. — Astolfo dê
Logo a mão a Rosaura,
Pois sabe que de seu honor
É dívida, e eu hei de cobrá-la.
ASTOLFO.
Embora seja verdade que lhe devo
Obrigações, repara
Que ela não sabe quem é;
E é baixeza e é infâmia
Casar-me eu com mulher...
CLOTAL.
Não prossigas, detém-te, aguarda;
Porque Rosaura é tão nobre
Como tu, Astolfo, e minha espada
O defenderá no campo;
Que é minha filha, e isto basta.
ASTOLFO.
Que dizes?
CLOTAL.
Que eu, até vê-la
Casada, nobre e honrada,
Não a quis descobrir.
A história disto é mui larga;
Mas, enfim, é filha minha.
ASTOLFO.
Pois sendo assim, minha palavra
Cumprirei.
SEGISM.
Pois para que Estrella
Não fique desconsolada,
Vendo que perde um príncipe
De tanto valor e fama,
De minha própria mão eu
Com esposo hei de casá-la,
Que em méritos e fortuna,
Se não o excede, o iguala.
Dá-me a mão.
ESTREL.
Eu ganho
Em merecer dita tanta.
SEGISM.
A Clotaldo, que leal
Serviu a meu pai, aguardam
Meus braços, com as mercês
Que ele pedir que eu lhe faça.
SOLDADO.
Se assim a quem não te serviu
Honras, a mim, que fui causa
Do alvoroço do reino,
E da torre em que estavas
Te tirei, que me darás?
SEGISM.
A torre; e para que não saias
Dela nunca, até morrer
Hás de estar ali com guardas;
Que o traidor não é mister
Sendo a traição passada.
BASILIO.
Teu engenho a todos admira.
ASTOLFO.
Que condição tão mudada!
ROSAURA.
Quão discreto e quão prudente!
SEGISM.
Que vos admira? Que vos espanta,
Se foi meu mestre um sonho,
E estou temendo em minhas ânsias
Que hei de despertar e achar-me
Outra vez em minha fechada
Prisão? E quando não seja,
Só o sonhá-lo basta;
Pois assim cheguei a saber
Que toda a dita humana,
Enfim, passa como um sonho,
E quero hoje aproveitá-la
O tempo que me durar:
Pedindo de nossas faltas
Perdão, pois de peitos nobres
É tão próprio perdoá-las.