Jornada Terceira - Perdão e desfecho A Vida é Sonho · Capítulo 17 de 17
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Jornada Terceira - Perdão e desfecho

Jornada Terceira - Perdão e desfecho

SOLDADO.

Na intrincada espessura do monte,

Entre seus densos ramos,

O Rei se esconde.

SEGISM.

Segui-o!

Não fique em seus cumes planta

Que não examine o cuidado,

Tronco a tronco, ramo a ramo.

CLOTAL.

Foge, senhor!

BASILIO.

Para quê?

ASTOLFO.

Que intentas?

BASILIO.

Astolfo, aparta.

CLOTAL.

Que queres?

BASILIO.

Fazer, Clotaldo,

Um remédio que me falta.

Se a mim, buscando-me, vais, (A Segismundo.)

Já estou, príncipe, a teus pés:

(Ajoelhando-se.)

Seja deles branca alfombra

Esta neve de minhas cãs.

Pisa minha cerviz, e calca

Minha coroa; prostra, arrasta

Meu decoro e meu respeito;

Toma de meu honor vingança,

Serve-te de mim cativo;

E, após prevenções tamanhas,

Cumpra o fado sua homenagem,

Cumpra o céu sua palavra.

SEGISM.

Corte ilustre da Polônia,

Que de admirações tantas

Sois testemunhas, atendei,

Que vos fala o vosso príncipe.

O que está determinado

Pelo céu, e em azul tábua

Deus com o dedo escreveu,

De que são cifras e estampas

Tantos papéis azuis

Que adornam letras douradas,

Nunca engana, nunca mente;

Porque quem mente e engana

É quem, para delas usar mal,

As penetra e as alcança.

Meu pai, que está presente,

Por excusar-se à sanha

De minha condição, fez-me

Um bruto, uma fera humana:

De sorte que, quando eu,

Por minha nobreza galharda,

Por meu sangue generoso,

Por minha condição bizarra,

Houvesse nascido dócil

E humilde, só bastara

Tal gênero de viver,

Tal linhagem de criação,

A fazer feras minhas costumes:

Que bom modo de estorvá-las!

Se a qualquer homem dissessem:

“Alguma fera inumana

Te dará morte”, escolhera

Bom remédio em despertá-la

Quando estivesse dormindo?

Se dissessem: “Esta espada

Que trazes cingida há de ser

Quem te dê a morte”, vã

Diligência de evitá-lo

Fora então desnudá-la

E pô-la contra o peito.

Se dissessem: “Golfos de água

Hão de ser tua sepultura

Em monumentos de prata”,

Mal faria em dar-se ao mar,

Quando soberbo levanta

Rizados montes de neve,

De cristal crespas montanhas.

O mesmo lhe sucedeu

Que a quem, porque o ameaça

Uma fera, a desperta;

Que a quem, temendo uma espada,

A desnuda; e que a quem move

As ondas de uma borrasca:

E quando fosse — escutai-me —

Dormida fera minha sanha,

Temperada espada minha fúria,

Meu rigor quieta bonança,

A fortuna não se vence

Com injustiça e vingança,

Porque antes se incita mais;

E assim, quem vencer aguarda

Sua fortuna, há de ser

Com cordura e temperança.

Não antes de vir o dano

Se reserva nem se guarda

Quem o previne; que embora

Possa humilde — coisa é clara —

Reservar-se dele, não é

Senão depois que se acha

Na ocasião, porque esta

Não há caminho de estorvá-la.

Sirva de exemplo este raro

Espetáculo, esta estranha

Admiração, este horror,

Este prodígio; pois nada

É mais que chegar a ver,

Com prevenções tão várias,

Rendido a meus pés um pai,

E atropelado um monarca.

Sentença do céu foi;

Por mais que quis estorvá-la

Ele, não pôde; e poderei eu,

Que sou menor nas cãs,

No valor e na ciência,

Vencê-la? — Senhor, levanta, (Ao Rei.)

Dá-me tua mão; que já

Que o céu te desengana

De que erraste no modo

De vencê-la, humilde aguarda

Meu colo a que tu te vingues:

Rendido estou a teus pés.

BASILIO.

Filho, que tão nobre ação

Outra vez em minhas entranhas

Te engendra, príncipe és.

A ti o laurel e a palma

Se te devem; tu venceste;

Coroem-te tuas façanhas.

TODOS.

Viva Segismundo, viva!

SEGISM.

Pois que já vencer aguarda

Meu valor grandes vitórias,

Hoje há de ser a mais alta

Vencer-me a mim. — Astolfo dê

Logo a mão a Rosaura,

Pois sabe que de seu honor

É dívida, e eu hei de cobrá-la.

ASTOLFO.

Embora seja verdade que lhe devo

Obrigações, repara

Que ela não sabe quem é;

E é baixeza e é infâmia

Casar-me eu com mulher...

CLOTAL.

Não prossigas, detém-te, aguarda;

Porque Rosaura é tão nobre

Como tu, Astolfo, e minha espada

O defenderá no campo;

Que é minha filha, e isto basta.

ASTOLFO.

Que dizes?

CLOTAL.

Que eu, até vê-la

Casada, nobre e honrada,

Não a quis descobrir.

A história disto é mui larga;

Mas, enfim, é filha minha.

ASTOLFO.

Pois sendo assim, minha palavra

Cumprirei.

SEGISM.

Pois para que Estrella

Não fique desconsolada,

Vendo que perde um príncipe

De tanto valor e fama,

De minha própria mão eu

Com esposo hei de casá-la,

Que em méritos e fortuna,

Se não o excede, o iguala.

Dá-me a mão.

ESTREL.

Eu ganho

Em merecer dita tanta.

SEGISM.

A Clotaldo, que leal

Serviu a meu pai, aguardam

Meus braços, com as mercês

Que ele pedir que eu lhe faça.

SOLDADO.

Se assim a quem não te serviu

Honras, a mim, que fui causa

Do alvoroço do reino,

E da torre em que estavas

Te tirei, que me darás?

SEGISM.

A torre; e para que não saias

Dela nunca, até morrer

Hás de estar ali com guardas;

Que o traidor não é mister

Sendo a traição passada.

BASILIO.

Teu engenho a todos admira.

ASTOLFO.

Que condição tão mudada!

ROSAURA.

Quão discreto e quão prudente!

SEGISM.

Que vos admira? Que vos espanta,

Se foi meu mestre um sonho,

E estou temendo em minhas ânsias

Que hei de despertar e achar-me

Outra vez em minha fechada

Prisão? E quando não seja,

Só o sonhá-lo basta;

Pois assim cheguei a saber

Que toda a dita humana,

Enfim, passa como um sonho,

E quero hoje aproveitá-la

O tempo que me durar:

Pedindo de nossas faltas

Perdão, pois de peitos nobres

É tão próprio perdoá-las.

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