Jornada Primeira - O segredo do rei A Vida é Sonho · Capítulo 4 de 17
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Jornada Primeira - O segredo do rei

Jornada Primeira - O segredo do rei

Sobrinhos, dai-me os braços,

E crede, pois que leais

A meu preceito amoroso

Vindes com afetos tais,

Que a ninguém deixarei queixoso

E ambos ficareis iguais:

E assim, quando me confesso

Rendido ao prolixo peso,

Só vos peço na ocasião

Silêncio, que admiração

Há de pedi-lo o sucesso.

Já sabeis — estai-me atentos,

Amados sobrinhos meus,

Corte ilustre da Polônia,

Vassalos, parentes e amigos —,

Já sabeis que eu no mundo

Por minha ciência hei merecido

O sobrenome de douto,

Pois, contra o tempo e o olvido,

Os pincéis de Timantes,

Os mármores de Lisipo,

No âmbito do orbe

Aclamam-me o grande Basilio.

Já sabeis que são as ciências

Que mais curso e mais estimo,

Matemáticas sutis,

Por quem ao tempo lhe tiro,

Por quem à fama rompo

A jurisdição e o ofício

De ensinar mais cada dia;

Pois quando em minhas tábuas miro

Presentes as novidades

Dos vindouros séculos,

Ganho ao tempo as graças

De contar o que eu hei dito.

Esses círculos de neve,

Esses dosséis de vidro

Que o sol ilumina a raios,

Que parte a lua em giros;

Esses orbes de diamantes,

Esses globos cristalinos

Que as estrelas adornam

E em que campeiam os signos,

São o estudo maior

De meus anos, são os livros

Onde em papel de diamante,

Em cadernos de safira,

Escreve com linhas de ouro,

Em caracteres distintos,

O céu nossos sucessos,

Ora adversos, ora benignos.

Estes leio tão veloz,

Que com meu espírito sigo

Seus rápidos movimentos

Por rumos e por caminhos.

Prouvera ao céu que, antes

Que meu engenho houvesse sido

Comentário de suas margens,

E registro de suas folhas,

Houvesse sido minha vida

O primeiro desperdício

De suas iras, e que nelas

Minha tragédia houvesse sido,

Porque dos infelizes

Até o mérito é cutelo,

Que a quem o saber danifica,

Homicida é de si mesmo!

Diga-o eu, embora melhor

O dirão sucessos meus,

Para cuja admiração

Outra vez silêncio vos peço.

Em Clorilene, minha esposa,

Tive um infeliz filho,

Em cujo parto os céus

Se esgotaram de prodígios.

Antes que à luz formosa

O desse o sepulcro vivo

De um ventre — porque nascer

E morrer são parecidos —,

Sua mãe, infinitas vezes,

Entre ideias e delírios

Do sono, viu que rompia

Suas entranhas atrevido

Um monstro em forma de homem,

E, entre seu sangue tingido,

Dava-lhe morte, nascendo

Víbora humana do século.

Chegou de seu parto o dia,

E os presságios cumpridos

— Porque tarde ou nunca são

Mentirosos os ímpios —,

Nasceu em horóscopo tal,

Que o sol, em seu sangue tinto,

Entrava sanhudamente

Com a lua em desafio;

E sendo a terra a liça,

Os dois faróis divinos

À luz inteira lutavam,

Já que não a braço partido.

O maior, o mais horrendo

Eclipse que padeceu

O sol, depois que com sangue

Chorou a morte de Cristo,

Este foi, porque, afogado

O orbe em incêndios vivos,

Presumiu que padecia

O último paroxismo:

Os céus se escureceram,

Tremeram os edifícios,

Choveram pedras as nuvens,

Correram sangue os rios.

Neste, pois, do sol

Já frenesi, já delírio,

Nasceu Segismundo, dando

De sua condição indícios,

Pois deu morte à sua mãe,

Com cuja fiereza disse:

Homem sou, pois que já começo

A pagar mal benefícios.

Eu, acudindo a meus estudos,

Neles e em tudo miro

Que Segismundo seria

O homem mais atrevido,

O príncipe mais cruel

E o monarca mais ímpio,

Por quem seu reino viria

A ser parcial e dividido,

Escola das traições

E academia dos vícios;

E ele, por seu furor levado,

Entre assombros e delitos,

Havia de pôr em mim

As plantas, e eu rendido

A seus pés me havia de ver

— Com que vergonha o digo! —,

Sendo tapete de suas plantas

As cãs do rosto meu.

Quem não dá crédito ao dano,

E mais ao dano que viu

Em seu estudo, onde faz

O amor próprio seu ofício?

Pois dando crédito eu

Aos fados, que divinos

Me prognosticavam danos

Em fatais vaticínios,

Determinei encerrar

A fera que havia nascido,

Por ver se o sábio tinha

Nas estrelas domínio.

Publicou-se que o infante

Nasceu morto, e prevenido

Fiz lavrar uma torre

Entre as penhas e os riscos

Desses montes, onde apenas

A luz achou caminho,

Por defender-lhe a entrada

Seus rústicos obeliscos.

As graves penas e leis

Que com públicos editos

Declararam que nenhum

Entrasse em vedado sítio

Do monte, ocasionaram-se

Das causas que vos hei dito.

Ali Segismundo vive

Mísero, pobre e cativo,

Onde somente Clotaldo

Lhe falou, tratou e viu.

Este lhe ensinou ciências;

Este na lei o instruiu

Católica, sendo apenas

De suas misérias testemunho.

Aqui há três coisas: a uma,

Que eu, Polônia, vos estimo

Tanto, que vos quero livrar

Da opressão e serviço

De um rei tirano, porque

Não fora senhor benigno

Aquele que a sua pátria e império

Pusesse em tanto perigo.

A outra é considerar

Que, se a meu sangue retiro

O direito que lhe deram

Humano foro e divino,

Não é cristã caridade;

Pois nenhuma lei há dito

Que, por preservar eu outro

De tirano e de atrevido,

Possa eu sê-lo, suposto

Que, se é tirano meu filho,

Para que ele delitos não faça,

Venho eu a fazer os delitos.

É a última e terceira

Ver quanto erro tem sido

Dar crédito facilmente

Aos sucessos previstos;

Pois, embora sua inclinação

Lhe dite seus precipícios,

Talvez não o vencerão,

Porque o fado mais esquivo,

A inclinação mais violenta,

O planeta mais ímpio,

Só inclinam o arbítrio,

Não forçam o arbítrio.

E assim, entre uma e outra causa,

Vacilante e discursivo,

Preveni um remédio tal,

Que vos suspenda os sentidos.

Eu hei de pô-lo amanhã,

Sem que ele saiba que é meu filho

E Rei vosso, a Segismundo

— Que este seu nome há sido —,

Em meu dossel, em minha cadeira,

E enfim, no lugar meu,

Onde vos governe e mande,

E onde todos rendidos

A obediência lhe jureis;

Pois com isto consigo

Três coisas, com que respondo

Às outras três que hei dito.

É a primeira que, sendo

Prudente, cordato e benigno,

Desmentindo em tudo o fado

Que dele tantas coisas disse,

Gozareis o natural

Príncipe vosso, que há sido

Cortesão de uns montes

E de suas feras vizinho.

É a segunda que, se ele,

Soberbo, ousado, atrevido

E cruel, com rédea solta

Corre o campo de seus vícios,

Haverei eu piedoso então

Com minha obrigação cumprido;

E logo, em despojá-lo,

Farei como Rei invicto,

Sendo o torná-lo ao cárcere

Não crueldade, senão castigo.

É a terceira que, sendo

O príncipe como vos digo,

Pelo que vos amo, vassalos,

Dar-vos-ei reis mais dignos

Da coroa e do cetro;

Pois serão meus dois sobrinhos,

Que, junto em um o direito

Dos dois, e avenidos

Com a fé do matrimônio,

Terão o que hão merecido.

Isto como rei vos mando,

Isto como pai vos peço,

Isto como sábio vos rogo,

Isto como ancião vos digo;

E se o Sêneca espanhol,

Que era humilde escravo, disse,

De sua república a um rei,

Como escravo vo-lo suplico.

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