Jornada Primeira - Clotaldo reconhece o passado A Vida é Sonho · Capítulo 3 de 17
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Jornada Primeira - Clotaldo reconhece o passado

Jornada Primeira - Clotaldo reconhece o passado

(À parte.) Valha-me o céu, que escuto!

Ainda não sei determinar-me

Se tais sucessos são

Ilusões ou verdades.

Esta é a espada que eu

Deixei à formosa Violante.

Pelos sinais, quem cingida

A trouxesse, havia de achar-me

Amoroso como a filho,

E piedoso como pai.

Pois que hei de fazer — ai de mim! —

Em confusão semelhante,

Se quem a traz por favor,

Para sua morte a traz,

Pois, sentenciado à morte,

Chega a meus pés? Que notável

Confusão! Que triste fado!

Que sorte tão inconstante!

Este é meu filho, e os sinais

Concordam bem com os sinais

Do coração, que, por vê-lo,

Chama ao peito, e nele bate

As asas, e não podendo

Romper os ferrolhos, faz

O que aquele que está encerrado,

E ouvindo ruído na rua,

Assoma-se à janela:

Ele assim, como não sabe

O que se passa, e ouve o ruído,

Vai aos olhos assomar-se,

Que são janelas do peito

Por onde em lágrimas sai.

Que hei de fazer? Valham-me, céus!

Que hei de fazer? Porque levá-lo

Ao Rei é levá-lo — ai, triste! —

A morrer. Pois ocultá-lo

Ao Rei não posso, conforme

À lei da homenagem.

De uma parte o amor próprio,

E a lealdade de outra parte

Me rendem. Mas que duvido?

A lealdade ao Rei não é antes

Que a vida e que a honra?

Pois ela viva, e ele falte.

Fora que, se agora atendo

A que disse que a vingar-se

Vem de um agravo, homem

Que está agravado é infame.

Não é meu filho, não é meu filho,

Nem tem meu nobre sangue.

Mas se já sucedeu

Um perigo, de que ninguém

Se livrou, porque a honra

É de matéria tão frágil

Que com uma ação se quebra

Ou se mancha com um ar,

Que mais pode fazer, que mais,

Aquele que é nobre, de sua parte,

Que, à custa de tantos riscos,

Haver vindo buscá-lo?

Meu filho é, meu sangue tem,

Pois tem valor tão grande;

E assim, entre uma e outra dúvida,

O meio mais importante

É ir-me ao Rei, e dizer-lhe

Que é meu filho, e que o mate.

Talvez a mesma piedade

De minha honra possa obrigá-lo;

E se o mereço vivo,

Eu o ajudarei a vingar-se

De seu agravo; mas, se o Rei,

Em seus rigores constante,

Lhe dá morte, morrerá

Sem saber que sou seu pai.

Vinde comigo, estrangeiros,

(A Rosaura e Clarin.)

Não temais, não, que vos falte

Companhia nas desditas,

Pois em dúvida semelhante

De viver ou de morrer,

Não sei quais são maiores. (Vão-se.)

Salão do Palácio Real na corte[2].

[2] Calderón não a nomeia: sem dúvida lhe pareceu pouco necessário,

por ser o drama de pura invenção.

CENA V.

ASTOLFO E SOLDADOS, que saem por um lado, e pelo outro A INFANTA

ESTRELLA E DAMAS. Música militar dentro e salvas.

ASTOLFO.

Bem, ao ver os excelentes

Raios, que foram cometas,

Misturam salvas diferentes

As caixas e as trombetas,

Os pássaros e as fontes:

Sendo com música igual,

E com maravilha suma,

À tua vista celestial,

Uns clarins de pluma,

E outras aves de metal;

E assim vos saúdam, senhora,

Como à sua rainha as balas,

Os pássaros como Aurora,

As trombetas como a Palas

E as flores como a Flora;

Porque sois, burlando o dia

Que já a noite desterra,

Aurora na alegria,

Flora na paz, Palas na guerra,

E rainha na alma minha.

ESTREL.

Se a voz se há de medir

Com as ações humanas,

Mal fizestes em dizer

Finezas tão cortesãs,

Onde vos possa desmentir

Todo esse marcial troféu

Com quem já atrevida luto;

Pois não condizem, segundo creio,

As lisonjas que vos escuto,

Com os rigores que vejo.

E adverti que é baixa ação,

Que só a uma fera toca,

Mãe de engano e traição,

O afagar com a boca

E matar com a intenção.

ASTOLFO.

Muito mal informada estais,

Estrella, pois que a fé

De minhas finezas duvidais,

E vos suplico que me ouçais

A causa, a ver se a sei.

Faleceu Eustorgio Terceiro,

Rei da Polônia, e ficou

Basilio por herdeiro,

E duas filhas, de quem eu

E vós nascemos. Não quero

Cansar-vos com o que tem

Lugar aqui. Clorilene,

Vossa mãe e minha senhora,

Que em melhor império agora

Dossel de luzeiros tem,

Foi a maior, de quem vós

Sois filha; foi a segunda,

Mãe e tia de nós dois,

A galharda Recisunda,

Que guarde mil anos Deus;

Casou na Moscóvia, de quem

Nasci eu. Voltar agora

Ao outro princípio convém.

Basilio, que já, senhora,

Se rende ao comum desdém

Do tempo, mais inclinado

Aos estudos que dado

A mulheres, enviuvou

Sem filhos, e vós e eu

Aspiramos a este Estado.

Vós alegais que haveis sido

Filha de irmã maior;

Eu, que varão hei nascido,

E embora de irmã menor,

Vos devo ser preferido.

Vossa intenção e a minha

A nosso tio contamos:

Ele respondeu que queria

Compor-nos, e aprazamos

Este posto e este dia.

Com esta intenção saí

Da Moscóvia e de sua terra;

Com esta cheguei aqui,

Em vez de fazer-vos eu guerra,

A que me façais a mim.

Oh! queira Amor, sábio deus,

Que o vulgo, astrólogo certo,

Hoje o seja com nós dois,

E que pare este concerto

Em que sejais Rainha vós,

Mas Rainha em meu arbítrio,

Dando-vos, para mais honor,

Sua coroa nosso tio,

Seus triunfos vosso valor

E seu império o amor meu.

ESTREL.

A tão cortês bizarria

Menos meu peito não mostra,

Pois a imperial monarquia,

Para somente fazê-la vossa,

Folgara eu que fosse minha;

Embora não esteja satisfeito

Meu amor de que sois ingrato,

Se, em quanto dizeis, suspeito

Que vos desmente esse retrato

Que está pendente do peito.

ASTOLFO.

Satisfazer-vos intento

Com ele... Mas lugar não dá

Tanto sonoro instrumento, (Tocam caixas.)

Que avisa que sai já

O Rei com seu parlamento.

CENA VI.

O REI BASILIO, ACOMPANHAMENTO. — ASTOLFO, ESTRELLA, DAMAS, SOLDADOS.

ESTREL.

Sábio Tales...

ASTOLFO.

Douto Euclides...

ESTREL.

Que entre signos...

ASTOLFO.

Que entre estrelas...

ESTREL.

Hoje governas...

ASTOLFO.

Hoje resides...

ESTREL.

E seus caminhos...

ASTOLFO.

Suas pegadas...

ESTREL.

Descreves...

ASTOLFO.

Taxas e medes...

ESTREL.

Deixa que em humildes laços...

ASTOLFO.

Deixa que em ternos abraços...

ESTREL.

Hera desse tronco seja.

ASTOLFO.

Rendido a teus pés me veja.

BASILIO.

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