Jornada Terceira - O retorno de Rosaura
Jornada Terceira - O retorno de Rosaura
De ti recebi a vida,
E tu mesmo me disseste,
Quando a vida me deste,
Que a que estava ofendida
Não era vida: logo eu
Nada de ti recebi;
Pois vida não vida foi
A que tua mão me deu.
E se deves ser primeiro
Liberal que agradecido
— Como de ti mesmo ouvi —,
Que me dês a vida espero,
Que não ma deste; e pois
O dar engrandece mais,
Se antes liberal, serás
Agradecido depois.
CLOTAL.
Vencido por teu argumento,
Antes liberal serei.
Eu, Rosaura, te darei
Minha fazenda, e num convento
Vive; que está bem pensado
O meio que solicito;
Pois, fugindo de um delito,
Recolhes-te a um sagrado;
Que, quando desditas sente
O reino, tão dividido,
Havendo nobre nascido,
Não hei de ser quem as aumente.
Com o remédio escolhido
Sou no reino leal,
Sou contigo liberal,
Com Astolfo agradecido;
E assim escolhe o que te quadre,
Ficando-se entre nós dois,
Que não fizera — vive Deus! —
Mais, quando fora teu pai.
ROSAURA.
Quando tu meu pai foras,
Sofrera essa injúria eu;
Mas não o sendo, não.
CLOTAL.
Pois que é o que fazer esperas?
ROSAURA.
Matar o Duque.
CLOTAL.
Uma dama,
Que pai não há conhecido,
Tanto valor há tido?
ROSAURA.
Sim.
CLOTAL.
Quem te alenta?
ROSAURA.
Minha fama.
CLOTAL.
Olha que Astolfo hás de ver...
ROSAURA.
Toda minha honra atropela.
CLOTAL.
Teu rei, e esposo de Estrella.
ROSAURA.
Vive Deus que não há de ser!
CLOTAL.
É loucura.
ROSAURA.
Já o vejo.
CLOTAL.
Pois vence-a.
ROSAURA.
Não poderei.
CLOTAL.
Pois perderás...
ROSAURA.
Já o sei.
CLOTAL.
Vida e honra.
ROSAURA.
Bem o creio.
CLOTAL.
Que intentas?
ROSAURA.
Minha morte.
CLOTAL.
Olha
Que isso é despeito.
ROSAURA.
É honra.
CLOTAL.
É desatino.
ROSAURA.
É valor.
CLOTAL.
É frenesi.
ROSAURA.
É raiva, é ira.
CLOTAL.
Enfim, que não se dá meio
À tua cega paixão?
ROSAURA.
Não.
CLOTAL.
Quem há de ajudar-te?
ROSAURA.
Eu.
CLOTAL.
Não há remédio?
ROSAURA.
Não há remédio.
CLOTAL.
Pensa bem se há outros modos...
ROSAURA.
Perder-me de outra maneira. (Vai-se.)
CLOTAL.
Pois, se hás de perder-te, espera,
Filha, e percamo-nos todos. (Vai-se.)
Campo.
CENA IX.
SEGISMUNDO, vestido de peles; SOLDADOS, marchando; CLARIN.
(Tocam caixas.)
SEGISM.
Se este dia me visse
Roma nos triunfos de sua idade primeira,
Oh, quanto se alegrara
Vendo lograr ocasião tão rara,
De ter uma fera
Que seus grandes exércitos regera,
A cujo altivo alento
Fora pouca conquista o firmamento!
Mas o voo abatamos,
Espírito; não desvaneçamos assim
Este aplauso incerto,
Se há de pesar-me, quando esteja desperto,
De havê-lo conseguido
Para havê-lo perdido;
Pois quanto menos for,
Menos se sentirá, se se perder.
(Toca um clarim.)
CLARIN.
Em veloz cavalo
— Perdoa-me, que força é pintá-lo
Quando me vem a conto —,
Em quem um mapa se desenha atento,
Pois o corpo é a terra,
O fogo a alma que no peito encerra,
A espuma o mar, e o ar é o suspiro,
Em cuja confusão um caos admiro;
Pois em alma, espuma, corpo, alento,
Monstro é de fogo, terra, mar e vento;
De cor remendada,
Ruço, e a seu propósito rodado,
Daquele que bate a espora;
Que em vez de correr voa;
À tua presença chega
Airosa uma mulher.
SEGISM.
Sua luz me cega.
CLARIN.
Vive Deus, que é Rosaura! (Retira-se.)
SEGISM.
O céu à minha presença a restaura.
CENA X.
ROSAURA, com vaqueiro, espada e adaga. — SEGISMUNDO, SOLDADOS.
ROSAURA.