Jornada Segunda - Rosaura e Estrella A Vida é Sonho · Capítulo 9 de 17
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Jornada Segunda - Rosaura e Estrella

Jornada Segunda - Rosaura e Estrella

(À parte.) A Segismundo reduzir desejo,

Pois enfim o criei: mas que vejo!

ROSAURA.

Teu favor reverencio:

Responda-te retórico o silêncio;

Quando tão torpe a razão se acha,

Melhor fala, senhor, quem melhor cala.

SEGISM.

Não hás de ausentar-te, espera.

Como queres deixar dessa maneira

Às escuras meu sentido?

ROSAURA.

Esta licença a vossa Alteza peço.

SEGISM.

Ir-te com tal violência

Não é pedi-la, é tomar-te a licença.

ROSAURA.

Pois, se tu não a dás, tomá-la espero.

SEGISM.

Farás que de cortês passe a grosseiro,

Porque a resistência

É veneno cruel de minha paciência.

ROSAURA.

Pois quando esse veneno,

De fúria, de rigor e sanha cheio,

A paciência vencesse,

Meu respeito não ousara, nem pudesse.

SEGISM.

Só para ver se posso,

Farás que perca a tua formosura o medo,

Que sou muito inclinado

A vencer o impossível: hoje hei lançado

Desse balcão um homem que dizia

Que fazer-se não podia;

E assim, por ver se posso, coisa é clara,

Que lançarei tua honra pela janela.

CLOTAL.

(À parte.) Muito se vai empenhando.

Que hei de fazer, céus, quando,

Após louco desejo,

Minha honra segunda vez em risco vejo?

ROSAURA.

Não em vão prevenia

A este reino infeliz tua tirania

Escândalos tão fortes

De delitos, traições, iras, mortes.

Mas que há de fazer um homem,

Que não tem de humano mais que o nome,

Atrevido, inumano,

Cruel, soberbo, bárbaro e tirano,

Nascido entre as feras?

SEGISM.

Porque tu esse baldão não me dissesses,

Tão cortês me mostrava,

Pensando que com isto te obrigava;

Mas, se o sou falando deste modo,

Hás de dizê-lo, vive Deus, por tudo.

Olá, deixai-nos sós, e essa porta

Se feche, e não entre ninguém.

(Vão-se Clarin e os criados.)

ROSAURA.

Estou morta.

Adverte...

SEGISM.

Sou tirano,

E já pretendes reduzir-me em vão.

CLOTAL.

(À parte.) Oh, que lance tão forte!

Sairei a estorvá-lo, embora me dê a morte.

Senhor, atende, olha. (Chega.)

SEGISM.

Segunda vez me provocaste à ira,

Velho caduco e louco.

Meu enojo e meu rigor tens em pouco?

Como até aqui chegaste?

CLOTAL.

Dos acentos desta voz chamado,

A dizer-te que sejas

Mais aprazível, se reinar desejas;

E não, por ver-te já de todos dono,

Sejas cruel, porque talvez é sonho.

SEGISM.

À raiva me provocas,

Quando a luz do desengano tocas.

Verei, dando-te a morte,

Se é sonho ou se é verdade.

(Ao ir tirar a adaga, Clotaldo a detém e se põe de joelhos.)

CLOTAL.

Eu desta sorte

Livrar minha vida espero.

SEGISM.

Tira a ousada mão do aço.

CLOTAL.

Até que gente venha,

Que teu rigor e cólera detenha,

Não hei de soltar-te.

ROSAURA.

Ai, céu!

SEGISM.

Solta, digo,

Caduco, louco, bárbaro, inimigo,

Ou será desta sorte, (Lutam.)

Dando-te agora entre meus braços morte.

ROSAURA.

Acudi todos depressa,

Que matam Clotaldo. (Vai-se.)

(Sai Astolfo no momento em que Clotaldo cai a seus pés, e ele se põe no

meio.)

CENA IX.

ASTOLFO. — SEGISMUNDO, CLOTALDO.

ASTOLFO.

Pois que é isto,

Príncipe generoso?

Assim se mancha aço tão brioso

Em sangue tão gelado?

Volte à bainha tão luzida espada.

SEGISM.

Quando a vir tingida

Nesse infame sangue.

ASTOLFO.

Já sua vida

Tomou a meus pés sagrado,

E de algo há de servir-lhe haver chegado.

SEGISM.

Sirva-te de morrer; pois desta sorte

Também saberei vingar-me com tua morte

Daquele passado enojo.

ASTOLFO.

Eu defendo

Minha vida; assim a majestade não ofendo.

(Astolfo tira a espada, e pelejam.)

CLOTAL.

Não o ofendas, senhor.

CENA X.

BASILIO, ESTRELLA E ACOMPANHAMENTO. — SEGISMUNDO, ASTOLFO, CLOTALDO.

BASILIO.

Pois aqui espadas?

ESTREL.

(À parte.) Astolfo é, ai de mim, penas iradas!

BASILIO.

Pois que é o que se há passado?

ASTOLFO.

Nada, senhor, havendo tu chegado. (Embainham.)

SEGISM.

Muito, senhor, embora hajas tu vindo:

Eu a esse velho matar hei pretendido.

BASILIO.

Respeito não tinhas

A estas cãs?

CLOTAL.

Senhor, vede que são minhas:

Que não importa vereis.

SEGISM.

Ações vãs,

Querer que eu tenha respeito a cãs;

Pois ainda essas poderia (Ao Rei.)

Ser que visse a meus pés algum dia,

Porque ainda não estou vingado

Do modo injusto com que me hás criado.

(Vai-se.)

BASILIO.

Pois antes que o vejas,

Voltarás a dormir onde creias

Que quanto te há passado,

Como foi bem do mundo, foi sonhado.

(Vão-se o Rei, Clotaldo e o acompanhamento.)

CENA XI.

ESTRELLA, ASTOLFO.

ASTOLFO.

Quão poucas vezes o fado,

Que diz desditas, mente,

Pois é tão certo nos males,

Quanto duvidoso nos bens!

Que bom astrólogo fora,

Se sempre casos cruéis

Anunciasse; pois não há dúvida

Que eles seriam verdade sempre!

Conhecer-se esta experiência

Em mim e Segismundo pode,

Estrella, pois em nós dois

Faz mostras diferentes.

Nele preveniu rigores,

Soberbas, desditas, mortes,

E em tudo disse verdade,

Porque tudo, enfim, sucede;

Mas em mim, que ao ver, senhora,

Esses raios excelentes,

De quem o sol foi uma sombra

E o céu um breve ensaio,

Que me preveniu venturas,

Troféus, aplausos, bens,

Disse mal, e disse bem;

Pois só é justo que acerte

Quando ameaça com favores

E executa com desdéns.

ESTREL.

Não duvido que essas finezas

São verdades evidentes;

Mas serão por outra dama,

Cujo retrato pendente

Ao colo trouxestes quando

Chegastes, Astolfo, a ver-me;

E sendo assim, esses requebros

Ela só os merece.

Acudi a que ela vos pague,

Que não são bons papéis

No conselho de amor

As finezas nem as fés

Que se fizeram em serviço

De outras damas e outros reis.

CENA XII.

ROSAURA, que fica ao pano. — ESTRELLA, ASTOLFO.

ROSAURA.

(À parte.) Graças a Deus que chegaram

Já minhas desditas cruéis

A seu termo, pois

Quem isto vê nada teme!

ASTOLFO.

Eu farei que o retrato saia

Do peito, para que entre

A imagem de tua formosura.

Onde entra Estrella não tem

Lugar a sombra, nem estrela

Onde há sol; vou buscá-lo.

(À parte.) Perdoa, Rosaura formosa,

Este agravo, porque ausentes,

Não guardam mais fé que esta

Os homens e as mulheres. (Vai-se.)

(Adianta-se Rosaura.)

ROSAURA.

(À parte.) Nada pude escutar,

Temerosa de que me visse.

ESTREL.

Astrea!

ROSAURA.

Senhora minha.

ESTREL.

Folgou-me que tu fosses

A que chegaste até aqui;

Porque de ti somente

Fiaria um segredo.

ROSAURA.

Honras,

Senhora, a quem te obedece.

ESTREL.

No pouco tempo, Astrea,

Que há que te conheço, tens

De minha vontade as chaves;

Por isto, e por ser quem és,

Atrevo-me a fiar de ti

O que até de mim muitas vezes

Recatei.

ROSAURA.

Tua escrava sou.

ESTREL.

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