Jornada Segunda - O retrato e a intriga
Jornada Segunda - O retrato e a intriga
Pois, para dizê-lo em breve,
Meu primo Astolfo — bastara
Que meu primo te dissesse,
Porque há coisas que se dizem
Só com pensá-las somente —,
Há de casar-se comigo,
Se é que a fortuna quer
Que com uma só ventura
Tantas desditas desconte.
Pesou-me que no primeiro dia
Trazesse lançado ao colo
O retrato de uma dama:
Falei-lhe dele[4] cortesmente;
É galã, e quer-me bem,
Foi por ele, e há de trazê-lo
Aqui; embaraça-me muito
Que ele a mim venha dá-lo:
Fica aqui, e quando venha,
Dir-lhe-ás que to entregue
A ti. Não te digo mais;
Discreta e formosa és:
Bem saberás o que é amor. (Vai-se.)
[4] Falar em equivalia antes a falar de.
CENA XIII.
ROSAURA.
Oxalá não o soubesse!
Valha-me o céu! Quem fora
Tão atenta e tão prudente,
Que soubesse aconselhar-se
Hoje em ocasião tão forte?
Haverá pessoa no mundo
A quem o céu inclemente
Com mais desditas combata
E com mais pesares cerque?
Que farei em tantas confusões,
Onde impossível parece
Que ache razão que me alivie,
Nem alívio que me console?
Desde a primeira desdita,
Não há sucesso nem acidente
Que outra desdita não seja;
Que umas às outras sucedem,
Herdeiras de si mesmas.
À imitação da Fênix,
Umas das outras nascem,
Vivendo do que morrem,
E sempre de suas cinzas
Está o sepulcro quente.
Que eram covardes, dizia
Um sábio, por parecer-lhe
Que nunca andava uma só;
Eu digo que são valentes,
Pois sempre vão adiante,
E nunca as costas volvem:
Quem as levar consigo,
A tudo poderá atrever-se,
Pois em nenhuma ocasião
Não há medo que o deixem.
Diga-o eu, pois em tantas
Como à minha vida sucedem,
Nunca me hei achado sem elas,
Nem se hão cansado até ver-me,
Ferida da fortuna,
Nos braços da morte.
Ai de mim! Que devo fazer
Hoje na ocasião presente?
Se digo quem sou, Clotaldo,
A quem minha vida deve
Este amparo e este honor,
Comigo ofender-se pode;
Pois me diz que, calando,
Honor e remédio espere.
Se não hei de dizer quem sou
A Astolfo, e ele chega a ver-me,
Como hei de dissimular?
Pois, embora fingir intentem
A voz, a língua e os olhos,
Dir-lhes-á a alma que mentem.
Que farei? Mas para que estudo
O que farei, se é evidente
Que, por mais que o previna,
Que o estude e que o pense,
Em chegando a ocasião
Há de fazer o que quiser
A dor? Porque ninguém
Império em suas penas tem.
E pois a determinar
O que há de fazer não se atreve
A alma, chegue a dor
Hoje a seu termo, chegue
A pena a seu extremo, e saia
De dúvidas e pareceres
De uma vez; mas até então,
Valei-me, céus, valei-me.
CENA XIV.
ASTOLFO, que traz o retrato. — ROSAURA.
ASTOLFO.
Este é, senhora, o retrato;
Mas ai, Deus!
ROSAURA.
Por que se suspende
Vossa Alteza? De que se admira?
ASTOLFO.
De ouvir-te, Rosaura, e ver-te.
ROSAURA.
Eu Rosaura? Enganou-se
Vossa Alteza, se me tem
Por outra dama; que eu
Sou Astrea, e não merece
Minha humildade tão grande dita
Que essa turbação lhe custe.
ASTOLFO.
Basta, Rosaura, o engano,
Porque a alma nunca mente,
E embora como a Astrea te mire,
Como a Rosaura te quer.
ROSAURA.
Não entendi a vossa Alteza,
E assim não sei responder-lhe:
Só o que eu direi
É que Estrella — que o pode
Ser de Vênus — me mandou
Que nesta parte o espere,
E da sua parte lhe diga
Que aquele retrato me entregue,
Que está muito posto em razão,
E eu mesma lho leve.
Estrella assim o quer,
Porque até as coisas mais leves,
Como sejam em meu dano,
É Estrella quem as quer.
ASTOLFO.
Ainda que mais esforços faças,
Oh, quão mal, Rosaura, podes
Dissimular! Dize aos olhos
Que sua música concertem
Com a voz; porque é forçoso
Que desdiga e que dissoe
Tão destemperado instrumento,
Que ajustar e medir quer
A falsidade de quem diz,
Com a verdade de quem sente.
ROSAURA.
Já digo que só espero
O retrato.
ASTOLFO.
Pois que queres
Levar ao fim o engano,
Com ele quero responder-te.
Dirás, Astrea, à Infanta,
Que eu a estimo de sorte
Que, pedindo-me um retrato,
Pouca fineza parece
Enviá-lo a ela, e assim,
Para que o estime e preze,
Envio-lhe o original;
E tu podes levá-lo,
Pois já o levas contigo,
Como a ti mesma te leves.
ROSAURA.
Quando um homem se dispõe,
Restado, altivo e valente,
A sair com uma empresa,
Ainda que por trato lhe entreguem
O que valha mais, sem ela
Néscio e desairado volta.
Eu venho por um retrato,
E embora um original leve
Que vale mais, voltarei
Desairada: e assim, dê-me
Vossa Alteza esse retrato,
Que sem ele não hei de voltar-me.
ASTOLFO.
Pois como, se não hei dá-lo,
Hás de levá-lo?
ROSAURA.
Desta sorte.
Solta-o, ingrato. (Tenta arrancá-lo.)
ASTOLFO.
É em vão.
ROSAURA.
Vive Deus, que não há de ver-se
Em mãos de outra mulher!
ASTOLFO.
Terrível estás.
ROSAURA.
E tu, aleive.
ASTOLFO.
Já basta, Rosaura minha.
ROSAURA.
Eu tua? Vilão, mentes.
(Estão ambos agarrados ao retrato.)
CENA XV.
ESTRELLA. — ROSAURA, ASTOLFO.
ESTREL.
Astrea, Astolfo, que é isto?
ASTOLFO.
(À parte.) Esta é Estrella.
ROSAURA.
(À parte.) Dê-me,
Para cobrar meu retrato,
Engenho o amor. Se queres (A Estrella.)
Saber o que é, eu, senhora,
To direi.
ASTOLFO.
(À parte a Rosaura.) Que pretendes?
ROSAURA.
Mandaste-me que esperasse
Aqui a Astolfo, e lhe pedisse
Um retrato de tua parte.
Fiquei só, e como vêm
De uns discursos a outros
As notícias facilmente,
Vendo-te falar de retratos,
Com sua memória lembrei-me
De que tinha um meu
Na manga. Quis vê-lo,
Porque uma pessoa só
Com loucuras se diverte;
Caiu-me da mão
Ao chão: Astolfo, que vem
Entregar-te o de outra dama,
Levantou-o, e tão rebelde
Está em dar o que lhe pedes,
Que, em vez de dar um, quer
Levar outro; pois o meu
Ainda não é possível tornar-me,
Com rogos e persuasões:
Colérica e impaciente
Eu quis tirar-lho.
Aquele que na mão tem
É meu; tu o verás
Ao ver se se me parece.
ESTREL.
Soltai, Astolfo, o retrato.
(Tira-lho da mão.)
ASTOLFO.
Senhora...
ESTREL.
Não são cruéis
À verdade os matizes.
ROSAURA.
Não é meu?
ESTREL.
Que dúvida tem?
ROSAURA.
Agora diz que te dê o outro.
ESTREL.
Toma teu retrato, e vai-te.
ROSAURA.
(À parte.) Eu cobrei meu retrato,
Venha agora o que vier. (Vai-se.)
CENA XVI.
ESTRELLA, ASTOLFO.
ESTREL.
Dai-me agora vós o retrato
Que vos pedi; que, embora não pense
Ver-vos nem falar-vos jamais,
Não quero, não, que se fique
Em vosso poder, sequer
Porque eu tão nesciamente
O pedi.
ASTOLFO.