Jornada Segunda - O retrato e a intriga A Vida é Sonho · Capítulo 10 de 17
Obra Menu

Jornada Segunda - O retrato e a intriga

Jornada Segunda - O retrato e a intriga

Pois, para dizê-lo em breve,

Meu primo Astolfo — bastara

Que meu primo te dissesse,

Porque há coisas que se dizem

Só com pensá-las somente —,

Há de casar-se comigo,

Se é que a fortuna quer

Que com uma só ventura

Tantas desditas desconte.

Pesou-me que no primeiro dia

Trazesse lançado ao colo

O retrato de uma dama:

Falei-lhe dele[4] cortesmente;

É galã, e quer-me bem,

Foi por ele, e há de trazê-lo

Aqui; embaraça-me muito

Que ele a mim venha dá-lo:

Fica aqui, e quando venha,

Dir-lhe-ás que to entregue

A ti. Não te digo mais;

Discreta e formosa és:

Bem saberás o que é amor. (Vai-se.)

[4] Falar em equivalia antes a falar de.

CENA XIII.

ROSAURA.

Oxalá não o soubesse!

Valha-me o céu! Quem fora

Tão atenta e tão prudente,

Que soubesse aconselhar-se

Hoje em ocasião tão forte?

Haverá pessoa no mundo

A quem o céu inclemente

Com mais desditas combata

E com mais pesares cerque?

Que farei em tantas confusões,

Onde impossível parece

Que ache razão que me alivie,

Nem alívio que me console?

Desde a primeira desdita,

Não há sucesso nem acidente

Que outra desdita não seja;

Que umas às outras sucedem,

Herdeiras de si mesmas.

À imitação da Fênix,

Umas das outras nascem,

Vivendo do que morrem,

E sempre de suas cinzas

Está o sepulcro quente.

Que eram covardes, dizia

Um sábio, por parecer-lhe

Que nunca andava uma só;

Eu digo que são valentes,

Pois sempre vão adiante,

E nunca as costas volvem:

Quem as levar consigo,

A tudo poderá atrever-se,

Pois em nenhuma ocasião

Não há medo que o deixem.

Diga-o eu, pois em tantas

Como à minha vida sucedem,

Nunca me hei achado sem elas,

Nem se hão cansado até ver-me,

Ferida da fortuna,

Nos braços da morte.

Ai de mim! Que devo fazer

Hoje na ocasião presente?

Se digo quem sou, Clotaldo,

A quem minha vida deve

Este amparo e este honor,

Comigo ofender-se pode;

Pois me diz que, calando,

Honor e remédio espere.

Se não hei de dizer quem sou

A Astolfo, e ele chega a ver-me,

Como hei de dissimular?

Pois, embora fingir intentem

A voz, a língua e os olhos,

Dir-lhes-á a alma que mentem.

Que farei? Mas para que estudo

O que farei, se é evidente

Que, por mais que o previna,

Que o estude e que o pense,

Em chegando a ocasião

Há de fazer o que quiser

A dor? Porque ninguém

Império em suas penas tem.

E pois a determinar

O que há de fazer não se atreve

A alma, chegue a dor

Hoje a seu termo, chegue

A pena a seu extremo, e saia

De dúvidas e pareceres

De uma vez; mas até então,

Valei-me, céus, valei-me.

CENA XIV.

ASTOLFO, que traz o retrato. — ROSAURA.

ASTOLFO.

Este é, senhora, o retrato;

Mas ai, Deus!

ROSAURA.

Por que se suspende

Vossa Alteza? De que se admira?

ASTOLFO.

De ouvir-te, Rosaura, e ver-te.

ROSAURA.

Eu Rosaura? Enganou-se

Vossa Alteza, se me tem

Por outra dama; que eu

Sou Astrea, e não merece

Minha humildade tão grande dita

Que essa turbação lhe custe.

ASTOLFO.

Basta, Rosaura, o engano,

Porque a alma nunca mente,

E embora como a Astrea te mire,

Como a Rosaura te quer.

ROSAURA.

Não entendi a vossa Alteza,

E assim não sei responder-lhe:

Só o que eu direi

É que Estrella — que o pode

Ser de Vênus — me mandou

Que nesta parte o espere,

E da sua parte lhe diga

Que aquele retrato me entregue,

Que está muito posto em razão,

E eu mesma lho leve.

Estrella assim o quer,

Porque até as coisas mais leves,

Como sejam em meu dano,

É Estrella quem as quer.

ASTOLFO.

Ainda que mais esforços faças,

Oh, quão mal, Rosaura, podes

Dissimular! Dize aos olhos

Que sua música concertem

Com a voz; porque é forçoso

Que desdiga e que dissoe

Tão destemperado instrumento,

Que ajustar e medir quer

A falsidade de quem diz,

Com a verdade de quem sente.

ROSAURA.

Já digo que só espero

O retrato.

ASTOLFO.

Pois que queres

Levar ao fim o engano,

Com ele quero responder-te.

Dirás, Astrea, à Infanta,

Que eu a estimo de sorte

Que, pedindo-me um retrato,

Pouca fineza parece

Enviá-lo a ela, e assim,

Para que o estime e preze,

Envio-lhe o original;

E tu podes levá-lo,

Pois já o levas contigo,

Como a ti mesma te leves.

ROSAURA.

Quando um homem se dispõe,

Restado, altivo e valente,

A sair com uma empresa,

Ainda que por trato lhe entreguem

O que valha mais, sem ela

Néscio e desairado volta.

Eu venho por um retrato,

E embora um original leve

Que vale mais, voltarei

Desairada: e assim, dê-me

Vossa Alteza esse retrato,

Que sem ele não hei de voltar-me.

ASTOLFO.

Pois como, se não hei dá-lo,

Hás de levá-lo?

ROSAURA.

Desta sorte.

Solta-o, ingrato. (Tenta arrancá-lo.)

ASTOLFO.

É em vão.

ROSAURA.

Vive Deus, que não há de ver-se

Em mãos de outra mulher!

ASTOLFO.

Terrível estás.

ROSAURA.

E tu, aleive.

ASTOLFO.

Já basta, Rosaura minha.

ROSAURA.

Eu tua? Vilão, mentes.

(Estão ambos agarrados ao retrato.)

CENA XV.

ESTRELLA. — ROSAURA, ASTOLFO.

ESTREL.

Astrea, Astolfo, que é isto?

ASTOLFO.

(À parte.) Esta é Estrella.

ROSAURA.

(À parte.) Dê-me,

Para cobrar meu retrato,

Engenho o amor. Se queres (A Estrella.)

Saber o que é, eu, senhora,

To direi.

ASTOLFO.

(À parte a Rosaura.) Que pretendes?

ROSAURA.

Mandaste-me que esperasse

Aqui a Astolfo, e lhe pedisse

Um retrato de tua parte.

Fiquei só, e como vêm

De uns discursos a outros

As notícias facilmente,

Vendo-te falar de retratos,

Com sua memória lembrei-me

De que tinha um meu

Na manga. Quis vê-lo,

Porque uma pessoa só

Com loucuras se diverte;

Caiu-me da mão

Ao chão: Astolfo, que vem

Entregar-te o de outra dama,

Levantou-o, e tão rebelde

Está em dar o que lhe pedes,

Que, em vez de dar um, quer

Levar outro; pois o meu

Ainda não é possível tornar-me,

Com rogos e persuasões:

Colérica e impaciente

Eu quis tirar-lho.

Aquele que na mão tem

É meu; tu o verás

Ao ver se se me parece.

ESTREL.

Soltai, Astolfo, o retrato.

(Tira-lho da mão.)

ASTOLFO.

Senhora...

ESTREL.

Não são cruéis

À verdade os matizes.

ROSAURA.

Não é meu?

ESTREL.

Que dúvida tem?

ROSAURA.

Agora diz que te dê o outro.

ESTREL.

Toma teu retrato, e vai-te.

ROSAURA.

(À parte.) Eu cobrei meu retrato,

Venha agora o que vier. (Vai-se.)

CENA XVI.

ESTRELLA, ASTOLFO.

ESTREL.

Dai-me agora vós o retrato

Que vos pedi; que, embora não pense

Ver-vos nem falar-vos jamais,

Não quero, não, que se fique

Em vosso poder, sequer

Porque eu tão nesciamente

O pedi.

ASTOLFO.

1/1
Menu

Fazer anotação