Jornada Terceira - O encontro dos exércitos A Vida é Sonho · Capítulo 16 de 17
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Jornada Terceira - O encontro dos exércitos

Jornada Terceira - O encontro dos exércitos

(À parte.) Céus, se é verdade que sonho,

Suspendei-me a memória,

Que não é possível que caibam

Num sonho tantas coisas.

Valha-me Deus, quem soubera,

Ou saber sair de todas,

Ou não pensar em nenhuma!

Quem viu penas tão duvidosas?

Se sonhei aquela grandeza

Em que me vi, como agora

Esta mulher me refere

Sinais tão notórios?

Logo foi verdade, não sonho;

E se foi verdade — que é outra

Confusão, e não menor —,

Como minha vida a nomeia

Sonho? Pois tão parecidas

Aos sonhos são as glórias,

Que as verdadeiras são

Tidas por mentirosas,

E as fingidas por certas?

Tão pouco há de umas a outras,

Que há questão sobre saber

Se o que se vê e se goza

É mentira ou é verdade!

Tão semelhante é a cópia

Ao original, que há dúvida

Em saber se é ela própria?

Pois se é assim, e há de ver-se

Desvanecida entre sombras

A grandeza e o poder,

A majestade e a pompa,

Saibamos aproveitar

Este instante que nos toca,

Pois só se goza nela

O que entre sonhos se goza.

Rosaura está em meu poder,

Sua formosura a alma adora;

Gozemos, pois, a ocasião;

O amor rompa as leis

Do valor e da confiança

Com que a meus pés se prostra.

Isto é sonho; e pois o é,

Sonhemos ditas agora,

Que depois serão pesares.

Mas com minhas próprias razões

Torno a convencer-me a mim!

Se é sonho, se é vanglória,

Quem por vanglória humana

Perde uma glória divina?

Que bem passado não é sonho?

Quem teve ditas heroicas

Que entre si não diga, quando

As revolve na memória:

Sem dúvida foi sonhado

Quanto vi? Pois se isto toca

Meu desengano, se sei

Que é o gosto chama formosa,

Que em cinzas converte

Qualquer vento que sopra,

Acudamos ao eterno,

Que é a fama vividoura,

Onde nem dormem as ditas,

Nem as grandezas repousam.

Rosaura está sem honra;

Mais a um príncipe toca

Dar honra, que tirá-la.

Vive Deus! que de sua honra

Hei de ser conquistador,

Antes que de minha coroa.

Fujamos da ocasião,

Que é muito forte. — Alarma, (A um soldado.)

Que hoje hei de dar a batalha,

Antes que a escura sombra

Sepulte os raios de ouro

Entre verdinegras ondas.

ROSAURA.

Senhor! Pois assim te ausentas?

Pois nem uma palavra só

Não deve meu cuidado,

Nem merece minha angústia?

Como é possível, senhor,

Que nem me mires nem ouças?

Ainda não me volves o rosto?

SEGISM.

Rosaura, à honra importa,

Por ser piedoso contigo,

Ser cruel contigo agora.

Não te responde minha voz,

Porque minha honra te responda;

Não te falo, porque quero

Que te falem por mim minhas obras,

Nem te miro, porque é força,

Em pena tão rigorosa,

Que não mire tua formosura

Quem há de mirar tua honra.

(Vai-se, e os soldados com ele.)

ROSAURA.

Que enigmas, céus, são estes?

Depois de tanto pesar,

Ainda me resta duvidar

Com respostas equívocas!

CENA XI.

CLARIN. — ROSAURA.

CLARIN.

Senhora, é hora de ver-te?

ROSAURA.

Ai, Clarin! Onde estiveste?

CLARIN.

Numa torre encerrado,

Brujulando minha morte,

Se me dá, ou se não me dá;

E à figura que me dera,

Passante quínola fora

Minha vida: que estive já

Para dar um estouro.

ROSAURA.

Por quê?

CLARIN.

Porque sei o segredo

De quem és, e em efeito,

Clotaldo... Mas que ruído

É este? (Soam caixas.)

ROSAURA.

Que pode ser?

CLARIN.

Que do palácio sitiado

Sai um esquadrão armado

A resistir e vencer

O do fero Segismundo.

ROSAURA.

Pois como covarde estou,

E já a seu lado não sou

Um escândalo do mundo,

Quando já tanta crueldade

Cerra sem ordem nem lei? (Vai-se.)

CENA XII.

CLARIN. — SOLDADOS, dentro.

Vozes.

(De uns.) Viva nosso invicto Rei!

Vozes.

(De outros.) Viva nossa liberdade!

CLARIN.

A liberdade e o Rei vivam!

Vivam mui em boa hora,

Que a mim nada me dá pena,

Contanto que me recebam

Em conta que eu, apartado este dia

Em tão grande confusão,

Faça o papel de Nero,

Que de nada se doía,

Se bem quero condoer-me

De algo, e há de ser de mim:

Escondido, daqui

Toda a festa hei de ver.

O sítio é oculto e forte,

Entre estas penhas. Pois já

A morte não me achará,

Duas figas para a morte.

(Esconde-se: tocam caixas, e soa ruído de armas.)

CENA XIII.

BASILIO, CLOTALDO E ASTOLFO, fugindo. — CLARIN, oculto.

BASILIO.

Há mais infeliz rei!

Há pai mais perseguido!

CLOTAL.

Já teu exército vencido

Baixa sem tino nem lei.

ASTOLFO.

Os traidores vencedores

Ficam.

BASILIO.

Em batalhas tais,

Os que vencem são leais,

Os vencidos, os traidores.

Fujamos, Clotaldo, pois,

Do cruel, do inumano

Rigor de um filho tirano.

(Disparam dentro e cai Clarin ferido de onde está.)

CLARIN.

Valha-me o céu!

ASTOLFO.

Quem é

Este infeliz soldado,

Que a nossos pés há caído

Em sangue todo tingido?

CLARIN.

Sou um homem desditado,

Que por querer-me guardar

Da morte, a busquei.

Fugindo dela, encontrei

Com ela, pois não há lugar,

Para a morte, secreto:

De onde claro se argui,

Que quem mais seu efeito foge,

É quem se chega a seu efeito.

Por isso tornai, tornai

À lide sangrenta logo;

Que entre as armas e o fogo

Há maior segurança

Que no monte mais guardado,

Pois não há seguro caminho

À força do destino

E à inclemência do fado;

E assim, embora vos livreis

Da morte com fugir,

Olhai que ides morrer,

Se está de Deus que morrais. (Cai dentro.)

BASILIO.

Olhai que ides morrer,

Se está de Deus que morrais!

Quão bem — ai, céus! — persuade

Nosso erro, nossa ignorância,

A maior conhecimento

Este cadáver que fala

Pela boca de uma ferida,

Sendo o humor que desata

Sangrenta língua que ensina

Que são diligências vãs

Do homem quantas dispõe

Contra maior força e causa!

Pois eu, por livrar de mortes

E sedições minha pátria,

Vim entregá-la aos mesmos

De quem pretendi livrá-la.

CLOTAL.

Embora o fado, senhor, saiba

Todos os caminhos, e ache

A quem busca entre o espesso

Das penhas, não é cristã

Determinação dizer

Que não há reparo à sua sanha.

Sim há, que o prudente varão

Vitória do fado alcança;

E se não estás reservado

Da pena e da desgraça,

Faz por onde te reserves.

ASTOLFO.

Clotaldo, senhor, te fala

Como prudente varão

Que madura idade alcança,

Eu como jovem valente.

Entre as espessas matas

Desse monte está um cavalo,

Veloz aborto da aura;

Foge nele, que eu enquanto

Te guardarei as espaldas.

BASILIO.

Se está de Deus que eu morra,

Ou se a morte me aguarda

Aqui, hoje a quero buscar,

Esperando cara a cara.

(Tocam às armas.)

CENA XIV.

SEGISMUNDO, ESTRELLA, ROSAURA, SOLDADOS, ACOMPANHAMENTO. — BASILIO,

ASTOLFO, CLOTALDO.

SOLDADO.

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