Jornada Terceira - O encontro dos exércitos
Jornada Terceira - O encontro dos exércitos
(À parte.) Céus, se é verdade que sonho,
Suspendei-me a memória,
Que não é possível que caibam
Num sonho tantas coisas.
Valha-me Deus, quem soubera,
Ou saber sair de todas,
Ou não pensar em nenhuma!
Quem viu penas tão duvidosas?
Se sonhei aquela grandeza
Em que me vi, como agora
Esta mulher me refere
Sinais tão notórios?
Logo foi verdade, não sonho;
E se foi verdade — que é outra
Confusão, e não menor —,
Como minha vida a nomeia
Sonho? Pois tão parecidas
Aos sonhos são as glórias,
Que as verdadeiras são
Tidas por mentirosas,
E as fingidas por certas?
Tão pouco há de umas a outras,
Que há questão sobre saber
Se o que se vê e se goza
É mentira ou é verdade!
Tão semelhante é a cópia
Ao original, que há dúvida
Em saber se é ela própria?
Pois se é assim, e há de ver-se
Desvanecida entre sombras
A grandeza e o poder,
A majestade e a pompa,
Saibamos aproveitar
Este instante que nos toca,
Pois só se goza nela
O que entre sonhos se goza.
Rosaura está em meu poder,
Sua formosura a alma adora;
Gozemos, pois, a ocasião;
O amor rompa as leis
Do valor e da confiança
Com que a meus pés se prostra.
Isto é sonho; e pois o é,
Sonhemos ditas agora,
Que depois serão pesares.
Mas com minhas próprias razões
Torno a convencer-me a mim!
Se é sonho, se é vanglória,
Quem por vanglória humana
Perde uma glória divina?
Que bem passado não é sonho?
Quem teve ditas heroicas
Que entre si não diga, quando
As revolve na memória:
Sem dúvida foi sonhado
Quanto vi? Pois se isto toca
Meu desengano, se sei
Que é o gosto chama formosa,
Que em cinzas converte
Qualquer vento que sopra,
Acudamos ao eterno,
Que é a fama vividoura,
Onde nem dormem as ditas,
Nem as grandezas repousam.
Rosaura está sem honra;
Mais a um príncipe toca
Dar honra, que tirá-la.
Vive Deus! que de sua honra
Hei de ser conquistador,
Antes que de minha coroa.
Fujamos da ocasião,
Que é muito forte. — Alarma, (A um soldado.)
Que hoje hei de dar a batalha,
Antes que a escura sombra
Sepulte os raios de ouro
Entre verdinegras ondas.
ROSAURA.
Senhor! Pois assim te ausentas?
Pois nem uma palavra só
Não deve meu cuidado,
Nem merece minha angústia?
Como é possível, senhor,
Que nem me mires nem ouças?
Ainda não me volves o rosto?
SEGISM.
Rosaura, à honra importa,
Por ser piedoso contigo,
Ser cruel contigo agora.
Não te responde minha voz,
Porque minha honra te responda;
Não te falo, porque quero
Que te falem por mim minhas obras,
Nem te miro, porque é força,
Em pena tão rigorosa,
Que não mire tua formosura
Quem há de mirar tua honra.
(Vai-se, e os soldados com ele.)
ROSAURA.
Que enigmas, céus, são estes?
Depois de tanto pesar,
Ainda me resta duvidar
Com respostas equívocas!
CENA XI.
CLARIN. — ROSAURA.
CLARIN.
Senhora, é hora de ver-te?
ROSAURA.
Ai, Clarin! Onde estiveste?
CLARIN.
Numa torre encerrado,
Brujulando minha morte,
Se me dá, ou se não me dá;
E à figura que me dera,
Passante quínola fora
Minha vida: que estive já
Para dar um estouro.
ROSAURA.
Por quê?
CLARIN.
Porque sei o segredo
De quem és, e em efeito,
Clotaldo... Mas que ruído
É este? (Soam caixas.)
ROSAURA.
Que pode ser?
CLARIN.
Que do palácio sitiado
Sai um esquadrão armado
A resistir e vencer
O do fero Segismundo.
ROSAURA.
Pois como covarde estou,
E já a seu lado não sou
Um escândalo do mundo,
Quando já tanta crueldade
Cerra sem ordem nem lei? (Vai-se.)
CENA XII.
CLARIN. — SOLDADOS, dentro.
Vozes.
(De uns.) Viva nosso invicto Rei!
Vozes.
(De outros.) Viva nossa liberdade!
CLARIN.
A liberdade e o Rei vivam!
Vivam mui em boa hora,
Que a mim nada me dá pena,
Contanto que me recebam
Em conta que eu, apartado este dia
Em tão grande confusão,
Faça o papel de Nero,
Que de nada se doía,
Se bem quero condoer-me
De algo, e há de ser de mim:
Escondido, daqui
Toda a festa hei de ver.
O sítio é oculto e forte,
Entre estas penhas. Pois já
A morte não me achará,
Duas figas para a morte.
(Esconde-se: tocam caixas, e soa ruído de armas.)
CENA XIII.
BASILIO, CLOTALDO E ASTOLFO, fugindo. — CLARIN, oculto.
BASILIO.
Há mais infeliz rei!
Há pai mais perseguido!
CLOTAL.
Já teu exército vencido
Baixa sem tino nem lei.
ASTOLFO.
Os traidores vencedores
Ficam.
BASILIO.
Em batalhas tais,
Os que vencem são leais,
Os vencidos, os traidores.
Fujamos, Clotaldo, pois,
Do cruel, do inumano
Rigor de um filho tirano.
(Disparam dentro e cai Clarin ferido de onde está.)
CLARIN.
Valha-me o céu!
ASTOLFO.
Quem é
Este infeliz soldado,
Que a nossos pés há caído
Em sangue todo tingido?
CLARIN.
Sou um homem desditado,
Que por querer-me guardar
Da morte, a busquei.
Fugindo dela, encontrei
Com ela, pois não há lugar,
Para a morte, secreto:
De onde claro se argui,
Que quem mais seu efeito foge,
É quem se chega a seu efeito.
Por isso tornai, tornai
À lide sangrenta logo;
Que entre as armas e o fogo
Há maior segurança
Que no monte mais guardado,
Pois não há seguro caminho
À força do destino
E à inclemência do fado;
E assim, embora vos livreis
Da morte com fugir,
Olhai que ides morrer,
Se está de Deus que morrais. (Cai dentro.)
BASILIO.
Olhai que ides morrer,
Se está de Deus que morrais!
Quão bem — ai, céus! — persuade
Nosso erro, nossa ignorância,
A maior conhecimento
Este cadáver que fala
Pela boca de uma ferida,
Sendo o humor que desata
Sangrenta língua que ensina
Que são diligências vãs
Do homem quantas dispõe
Contra maior força e causa!
Pois eu, por livrar de mortes
E sedições minha pátria,
Vim entregá-la aos mesmos
De quem pretendi livrá-la.
CLOTAL.
Embora o fado, senhor, saiba
Todos os caminhos, e ache
A quem busca entre o espesso
Das penhas, não é cristã
Determinação dizer
Que não há reparo à sua sanha.
Sim há, que o prudente varão
Vitória do fado alcança;
E se não estás reservado
Da pena e da desgraça,
Faz por onde te reserves.
ASTOLFO.
Clotaldo, senhor, te fala
Como prudente varão
Que madura idade alcança,
Eu como jovem valente.
Entre as espessas matas
Desse monte está um cavalo,
Veloz aborto da aura;
Foge nele, que eu enquanto
Te guardarei as espaldas.
BASILIO.
Se está de Deus que eu morra,
Ou se a morte me aguarda
Aqui, hoje a quero buscar,
Esperando cara a cara.
(Tocam às armas.)
CENA XIV.
SEGISMUNDO, ESTRELLA, ROSAURA, SOLDADOS, ACOMPANHAMENTO. — BASILIO,
ASTOLFO, CLOTALDO.
SOLDADO.