Jornada Terceira - Honra e batalha A Vida é Sonho · Capítulo 15 de 17
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Jornada Terceira - Honra e batalha

Jornada Terceira - Honra e batalha

Generoso Segismundo,

Cuja majestade heroica

Sai ao dia de seus feitos

Da noite de suas sombras;

E como o maior planeta,

Que nos braços da aurora

Se restitui luzente

Às plantas e às rosas,

E sobre montes e mares,

Quando coroado assoma,

Luz esparge, raios brilha,

Cumes banha, espumas borda;

Assim amanheças ao mundo,

Luzente sol da Polônia,

Que a uma mulher infeliz,

Que hoje a teus pés se arroja,

Ampares por ser mulher

E desditada: duas coisas

Que, para obrigar um homem

Que de valente blasona,

Qualquer das duas basta,

Qualquer das duas sobra.

Três vezes são as que já

Me admiras; três as que ignoras

Quem sou, pois as três me viste

Em diverso traje e forma.

Na primeira me creste

Varão, na rigorosa

Prisão onde foi tua vida

De minhas desditas lisonja.

Na segunda me admiraste

Mulher, quando foi a pompa

De tua majestade um sonho,

Um fantasma, uma sombra.

A terceira é hoje, que sendo

Monstro de uma espécie e outra,

Entre galas de mulher

Armas de varão me adornam.

E para que, compadecido,

Melhor meu amparo disponhas,

É bem que de meus sucessos

Trágicas fortunas ouças.

De nobre mãe nasci

Na corte da Moscóvia,

Que, segundo foi desditada,

Deve ter sido mui formosa.

Nela pôs os olhos

Um traidor, que não nomeia

Minha voz por não conhecê-lo,

De cujo valor me informa

O meu; pois sendo objeto

De sua ideia, sinto agora

Não haver nascido gentia,

Para persuadir-me louca

De que foi algum deus daqueles

Que em metamorfoses chora

Chuva de ouro, cisne e touro

Em Dânae, Leda e Europa.

Quando pensei que alongava,

Citando aleivosas histórias,

O discurso, acho que nele

Te disse em razões poucas

Que minha mãe, persuadida

A finezas amorosas,

Foi, como nenhuma, bela,

E foi infeliz como todas.

Aquela néscia desculpa

De fé e palavra de esposa

A alcançou tanto, que ainda hoje

O pensamento a chora;

Havendo sido um tirano

Tão Eneias de sua Troia,

Que a deixou até a espada.

Embainhe-se aqui sua folha,

Que eu a desnudo

Antes que acabe a história.

Deste, pois, mal dado nó,

Que nem ata nem aprisiona,

Ou matrimônio ou delito,

Se bem tudo é uma coisa,

Nasci eu tão parecida,

Que fui retrato, cópia,

Já que na formosura não,

Na dita e nas obras;

E assim não terei mister

Dizer que, pouco ditosa

Herdeira de fortunas,

Corri com ela uma própria.

O mais que poderei dizer-te

De mim é o dono que rouba

Os troféus de meu honor,

Os despojos de minha honra.

Astolfo... Ai de mim! ao nomeá-lo

Encoleriza-se e se enoja

O coração, próprio efeito

De quem a inimigo nomeia.

Astolfo foi o dono ingrato,

Que, esquecido das glórias

— Porque em passado amor

Esquece-se até a memória —,

Veio à Polônia, chamado

De sua conquista famosa,

A casar-se com Estrella,

Que foi de meu ocaso tocha.

Quem crerá que, havendo sido

Uma estrela quem conforma

Dois amantes, seja uma Estrella

A que os divida agora?

Eu, ofendida; eu, burlada,

Fiquei triste, fiquei louca,

Fiquei morta, fiquei eu,

Que é dizer que ficou toda

A confusão do inferno

Cifrada em minha Babilônia;

E declarando-me muda

— Porque há penas e angústias

Que os afetos dizem

Muito melhor que a boca —,

Disse minhas penas calando,

Até que, uma vez a sós,

Violante, minha mãe — ai, céus! —,

Rompeu a prisão, e em tropa

Do peito saíram juntas,

Tropeçando umas nas outras.

Não me embaraçou dizê-las;

Que, sabendo uma pessoa

Que aquela a quem suas fraquezas conta

Foi cúmplice em outras,

Parece que já lhe faz

A salva e lhe desabafa;

Que às vezes o mau exemplo

Serve de algo. Enfim, piedosa

Ouviu minhas queixas, e quis

Consolar-me com as próprias:

Juiz que há sido delinquente,

Quão facilmente perdoa!

Escarmentando em si mesma,

E por negar à ociosa

Liberdade, ao tempo fácil,

O remédio de sua honra,

Não o teve em minhas desditas;

Por melhor conselho toma

Que eu o siga, e que o obrigue,

Com finezas prodigiosas,

À dívida de meu honor;

E para que a menor custo

Fosse, quis minha fortuna

Que em traje de homem me ponha.

Desce uma antiga espada,

Que é esta que cingo: agora

É tempo que se desnude,

Como prometi, a folha,

Pois confiada em seus sinais,

Me disse: “Parte à Polônia,

E procura que te vejam

Este aço que te adorna

Os mais nobres; que em algum

Poderá ser que encontrem piedosa

Acolhida tuas fortunas,

E consolo tuas angústias.”

Cheguei à Polônia, em efeito:

Passemos, pois que não importa

Dizê-lo, e já se sabe,

Que um bruto que se desboca

Me levou a tua cova, onde

Tu de mirar-me te assombras.

Passemos que ali Clotaldo

De minha parte se apaixona,

Que pede minha vida ao Rei,

Que o Rei minha vida lhe outorga,

Que, informado de quem sou,

Me persuade a que me ponha

Meu próprio traje, e que sirva

A Estrella, onde engenhosa

Estorvei o amor de Astolfo

E o ser Estrella sua esposa.

Passemos que aqui me viste

Outra vez confuso, e outra

Com o traje de mulher

Confundiste ambas as formas;

E vamos a que Clotaldo,

Persuadido a que lhe importa

Que se casem e que reinem

Astolfo e Estrella formosa,

Contra meu honor me aconselha

Que a pretensão deponha.

Eu, vendo que tu, ó valente

Segismundo, a quem hoje toca

A vingança, pois o céu

Quer que o cárcere rompas

Dessa rústica prisão,

Onde há sido tua pessoa

Ao sentimento uma fera,

Ao sofrimento uma rocha,

As armas contra tua pátria

E contra teu pai tomas,

Venho ajudar-te, mesclando

Entre as galas custosas

De Diana, os arneses

De Palas, vestindo agora

Já a tela e já o aço,

Que ambos juntos me adornam.

Eia, pois, forte caudilho,

A nós dois juntos importa

Impedir e desfazer

Estas concertadas bodas:

A mim, para que não se case

Aquele que meu esposo se nomeia,

E a ti, porque, estando juntos

Seus dois Estados, não ponham

Com mais poder e mais força

Em dúvida nossa vitória.

Mulher venho persuadir-te

Ao remédio de minha honra,

E varão venho alentar-te

A que cobres tua coroa.

Mulher venho enternecer-te

Quando a teus pés me ponha,

E varão venho servir-te

Com meu aço e minha pessoa.

E assim pensa que, se hoje

Como mulher me enamoras,

Como varão te darei

A morte em defesa honrosa

De meu honor; porque hei de ser,

Em sua conquista amorosa,

Mulher para dar-te queixas,

Varão para ganhar honras.

SEGISM.

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