Jornada Segunda - Clotaldo presta contas A Vida é Sonho · Capítulo 6 de 17
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Jornada Segunda - Clotaldo presta contas

Jornada Segunda - Clotaldo presta contas

Foi, senhor, desta maneira.

Com a aprazível bebida,

Que de confecções cheia

Mandaste fazer, mesclando

A virtude de algumas ervas,

Cujo tirano poder

E cuja secreta força

Assim ao discurso humano

Priva, rouba e alheia,

Que deixa vivo cadáver

Um homem, e cuja violência,

Adormecido, lhe tira

Os sentidos e potências...

— Não temos que arguir

Que isto possível seja,

Pois tantas vezes, senhor,

Nos há dito a experiência,

E é certo, que de segredos

Naturais está cheia

A medicina, e não há

Animal, planta nem pedra

Que não tenha qualidade

Determinada; e se chega

A examinar mil venenos

A humana malícia nossa,

Que deem a morte, que muito

Que, temperada sua violência,

Pois há venenos que matam,

Haja venenos que adormeçam?

Deixando à parte o duvidar

Se é possível que suceda,

Pois que já fica provado

Com razões e evidências... —

Com a bebida, em efeito,

Que o ópio, a dormideira

E o meimendro compuseram,

Desci à estreita prisão

De Segismundo; com ele

Falei um tempo das letras

Humanas, que lhe ensinou

A muda natureza

Dos montes e dos céus,

Em cuja divina escola

A retórica aprendeu

Das aves e das feras.

Para levantar-lhe mais

O espírito à empresa

Que solicitas, tomei

Por assunto a presteza

De uma águia caudalosa,

Que, desprezando a esfera

Do vento, passava a ser

Nas regiões supremas

Do fogo raio de pluma,

Ou desgarrado cometa.

Encareci o voo altivo,

Dizendo: “Enfim és rainha

Das aves, e assim, a todas

É justo que prefiras.”

Ele não precisou de mais;

Que, ao tocar nesta matéria

Da majestade, discorre

Com ambição e soberba;

Porque em efeito o sangue

O incita, move e alenta

A coisas grandes, e disse:

“Que na república inquieta

Das aves também haja

Quem lhes jure obediência!

Ao chegar a este discurso

Minhas desditas me consolam;

Pois, ao menos, se estou

Sujeito, estou por força;

Porque voluntariamente

A outro homem não me rendera.”

Vendo-o já enfurecido

Com isto, que há sido o tema

De sua dor, brindei-o

Com a poção, e apenas

Passou do vaso ao peito

O licor, quando as forças

Rendeu ao sono, discorrendo

Pelos membros e pelas veias

Um suor frio, de modo

Que, a não saber eu que era

Morte fingida, duvidara

De sua vida. Nisto chegam

As gentes de quem tu fias

O valor desta experiência,

E, pondo-o numa carruagem,

Até teu quarto o levam,

Onde prevenida estava

A majestade e grandeza

Que é digna de sua pessoa.

Ali em teu leito o deitam,

Onde, ao tempo que o letargo

Haja perdido a força,

Como a ti mesmo, senhor,

O sirvam, que assim o ordenas.

E se haver-te obedecido

Te obriga a que eu mereça

Galardão, só te peço

— Perdoa minha inadvertência —

Que me digas: que é teu intento,

Trazendo desta maneira

A Segismundo ao palácio?

BASILIO.

Clotaldo, muito justa é essa

Dúvida que tens, e quero

Só a ti satisfazê-la.

A Segismundo, meu filho,

O influxo de sua estrela

— Bem o sabes — ameaça

Mil desditas e tragédias:

Quero examinar se o céu,

Que não é possível que minta,

E mais havendo-nos dado

De seu rigor tantas mostras,

Em sua cruel condição,

Ou se mitiga, ou se tempera

Pelo menos, e vencido

Com valor e com prudência

Se desdiz; porque o homem

Predomina nas estrelas.

Isto quero examinar,

Trazendo-o onde saiba

Que é meu filho, e onde faça

De seu talento a prova.

Se magnânimo a vence,

Reinará; mas, se mostra

O ser cruel e tirano,

Torná-lo-ei à sua cadeia.

Agora perguntarás

Que, para esta experiência,

Que importou havê-lo trazido

Dormido desta maneira?

E quero satisfazer-te,

Dando-te a tudo resposta.

Se ele soubesse que é meu filho

Hoje, e amanhã se visse

Segunda vez reduzido

À sua prisão e miséria,

Certo é de sua condição

Que desesperaria nela;

Porque, sabendo quem é,

Que consolo haverá que tenha?

E assim quis deixar

Aberta ao dano a porta

De dizer que foi sonhado

Quanto viu. Com isto chegam

A examinar-se duas coisas:

Sua condição, a primeira;

Pois ele desperto procede

Em quanto imagina e pensa:

E o consolo, a segunda;

Pois, embora agora se veja

Obedecido, e depois

A suas prisões se torne,

Poderá entender que sonhou,

E fará bem quando o entenda,

Porque no mundo, Clotaldo,

Todos os que vivem sonham.

CLOTAL.

Razões não me faltariam

Para provar que não acertas;

Mas já não tem remédio;

E segundo dizem os sinais,

Parece que despertou,

E para nós se aproxima.

BASILIO.

Eu me quero retirar:

Tu, como aio seu, chega,

E de tantas confusões

Como seu discurso cercam,

Retira-o com a verdade.

CLOTAL.

Enfim, que me dás licença

Para que o diga?

BASILIO.

Sim;

Que poderá ser, ao sabê-la,

Que conhecido o perigo

Mais facilmente se vença. (Vai-se.)

CENA II.

CLARIN. — CLOTALDO.

CLARIN.

(À parte.) À custa de quatro paus,

Que o chegar aqui me custa,

De um alabardeiro ruivo

Que barbava de sua libré,

Tenho de ver quanto passa;

Que não há janela mais certa

Que aquela que, sem rogar

A um ministro de bilhetes,

Um homem traz consigo;

Pois para todas as festas,

Despojado e despejado,

Assoma-se à sua desvergonha.

CLOTAL.

(À parte.) Este é Clarin, o criado

Daquela — ai, céus! —, daquela

Que, negociante de desditas,

Passou à Polônia minha afronta.

Clarin, que há de novo?

CLARIN.

Há,

Senhor, que tua grande clemência,

Disposta a vingar agravos

De Rosaura, a aconselha

Que tome seu próprio traje.

CLOTAL.

E é bem, para que não pareça

Leviandade.

CLARIN.

Há que, mudando

Seu nome, e tomando corda

Nome de sobrinha tua,

Hoje tanto honor se acrescenta,

Que dama no palácio já

Da singular Estrella

Vive.

CLOTAL.

É bem que de uma vez

Tome sua honra por minha conta.

CLARIN.

Há que ela está esperando

Que ocasião e tempo venham

Em que voltes por sua honra.

CLOTAL.

Prevenção segura é essa;

Que enfim o tempo há de ser

Quem faça essas diligências.

CLARIN.

Há que ela está regalada,

Servida como uma rainha,

Em fé de sobrinha tua.

E há que, vindo com ela,

Estou eu morrendo de fome

E ninguém de mim se lembra,

Sem olhar que sou Clarin,

E que se o tal Clarin soa,

Poderá dizer quanto passa

Ao Rei, a Astolfo e a Estrella;

Porque Clarin e criado

São duas coisas que se levam

Com o segredo muito mal;

E poderá ser, se me deixa

O silêncio de sua mão,

Cante-se por mim esta letra:

Clarin que rompe o alvor,

Não soa melhor.

CLOTAL.

Tua queixa está bem fundada;

Eu satisfarei tua queixa,

E enquanto isso serve-me a mim.

CLARIN.

Pois já Segismundo chega.

CENA III.

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