Jornada Segunda - O despertar de Segismundo
Jornada Segunda - O despertar de Segismundo
ASTOLFO.
Se a mim o responder me toca,
Como aquele que em efeito há sido
Aqui o mais interessado,
Em nome de todos digo
Que Segismundo apareça,
Pois lhe basta ser teu filho.
TODOS.
Dá-nos o nosso príncipe,
Que já por rei o pedimos.
BASILIO.
Vassalos, essa fineza
Vos agradeço e estimo.
Acompanhai a seus quartos
Os dois atlantes meus,
Que amanhã o vereis.
TODOS.
Viva o grande rei Basilio!
(Entram todos, acompanhando Estrella e Astolfo: fica o Rei.)
CENA VII.
CLOTALDO, ROSAURA, CLARIN. — BASILIO.
CLOTAL.
Poderei falar-te? (Ao Rei.)
BASILIO.
Oh, Clotaldo!
Sejas mui bem-vindo.
CLOTAL.
Embora, vindo a teus pés,
Força era havê-lo sido,
Desta vez rompe, senhor,
O fado triste e esquivo
O privilégio à lei
E à costume o estilo.
BASILIO.
Que tens?
CLOTAL.
Uma desdita,
Senhor, que me sucedeu,
Quando pudesse tê-la
Pelo maior regozijo.
BASILIO.
Prossegue.
CLOTAL.
Este belo jovem,
Ousado ou inadvertido,
Entrou na torre, senhor,
Onde ao Príncipe há visto,
E é...
BASILIO.
Não vos aflijais, Clotaldo:
Se outro dia houvera sido,
Confesso que o sentiria;
Mas já o segredo hei dito,
E não importa que ele o saiba,
Posto que eu o digo.
Vede-me depois, que tenho
Muitas coisas que advertir-vos
E muitas que façais por mim;
Que haveis de ser, vos aviso,
Instrumento do maior
Sucesso que o mundo há visto:
E a esses presos, porque enfim
Não presumais que castigo
Descuidos vossos, perdoo. (Vai-se.)
CLOTAL.
Vivas, grande senhor, mil séculos!
CENA VIII.
CLOTALDO, ROSAURA, CLARIN.
CLOTAL.
(À parte.) Melhorou o céu a sorte:
Já não direi que é meu filho,
Pois que o posso escusar.
Estrangeiros peregrinos,
Livres estais.
ROSAURA.
Teus pés beijo
Mil vezes.
CLARIN.
E eu os vejo,
Que uma letra mais ou menos
Não reparam dois amigos.
ROSAURA.
A vida, senhor, me deste;
E pois à tua conta vivo,
Eternamente serei
Escravo teu.
CLOTAL.
Não há sido
Vida a que eu te dei,
Porque um homem bem-nascido,
Se está agravado, não vive;
E posto que vieste
A vingar-te de um agravo,
Segundo tu próprio me hás dito,
Não te dei vida eu,
Porque tu não a trouxeste,
Que vida infame não é vida.
(À parte.) Bem com isto o animo.
ROSAURA.
Confesso que não a tenho,
Embora de ti a receba;
Mas eu com a vingança
Deixarei meu honor tão limpo,
Que possa minha vida logo,
Atropelando perigos,
Parecer dádiva tua.
CLOTAL.
Toma o aço brunido
Que trouxeste; que eu sei
Que ele basta, em sangue tingido
De teu inimigo, a vingar-te;
Porque aço que foi meu
— Digo este instante, este breve
Tempo que em meu poder o tive —
Saberá vingar-te.
ROSAURA.
Em teu nome
Segunda vez o cingo,
E nele juro minha vingança,
Ainda que fosse meu inimigo
Mais poderoso.
CLOTAL.
É-o muito?
ROSAURA.
Tanto, que não to digo,
Não porque de tua prudência
Maiores coisas não fio,
Mas porque não se volte
Contra mim o favor que admiro
Em tua piedade.
CLOTAL.
Antes fora
Ganhar-me a mim dizê-lo;
Pois fora fechar-me o passo
De ajudar a teu inimigo.
(À parte.) Oh, se soubesse quem é!
ROSAURA.
Porque não penses que estimo
Tão pouco essa confiança,
Sabe que o contrário há sido
Nada menos que Astolfo, duque
Da Moscóvia.
CLOTAL.
(À parte.) Mal resisto
À dor, porque é mais grave,
Que imaginada, vista.
Apuremos mais o caso.
Se moscovita nasceste,
Quem é teu natural senhor
Mal pôde agravar-te:
Volta-te à tua pátria, pois,
E deixa o ardente brio
Que te despenha.
ROSAURA.
Eu sei
Que, embora meu príncipe haja sido,
Pôde agravar-me.
CLOTAL.
Não pôde,
Ainda que houvesse atrevido
Posto a mão em teu rosto. (À parte.) Ai, céus!
ROSAURA.
Maior foi o agravo meu.
CLOTAL.
Dize-o já, pois que não podes
Dizer mais do que imagino.
ROSAURA.
Sim, diria; mas não sei
Com que respeito te miro,
Com que afeto te venero,
Com que estima te assisto,
Que não me atrevo a dizer-te
Que este exterior vestido
É enigma, pois não é de quem
Parece: julga advertido,
Se não sou o que pareço,
E Astolfo veio casar-se
Com Estrella, se poderá
Agravar-me. Muito te hei dito.
(Vão-se Rosaura e Clarin.)
CLOTAL.
Escuta, aguarda, detém-te!
Que confuso labirinto
É este, onde não pode
Achar a razão o fio?
Minha honra é a agravada,
Poderoso o inimigo,
Eu vassalo, ela mulher:
Descubra o céu caminho;
Embora eu não saiba se poderá,
Quando em tão confuso abismo
É todo o céu um presságio,
E é todo o mundo um prodígio.
JORNADA SEGUNDA.
CENA PRIMEIRA.
BASILIO, CLOTALDO.
CLOTAL.
Tudo, como ordenaste,
Fica efetuado.
BASILIO.
Conta,
Clotaldo, como passou.
CLOTAL.