Jornada Segunda - O despertar de Segismundo A Vida é Sonho · Capítulo 5 de 17
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Jornada Segunda - O despertar de Segismundo

Jornada Segunda - O despertar de Segismundo

ASTOLFO.

Se a mim o responder me toca,

Como aquele que em efeito há sido

Aqui o mais interessado,

Em nome de todos digo

Que Segismundo apareça,

Pois lhe basta ser teu filho.

TODOS.

Dá-nos o nosso príncipe,

Que já por rei o pedimos.

BASILIO.

Vassalos, essa fineza

Vos agradeço e estimo.

Acompanhai a seus quartos

Os dois atlantes meus,

Que amanhã o vereis.

TODOS.

Viva o grande rei Basilio!

(Entram todos, acompanhando Estrella e Astolfo: fica o Rei.)

CENA VII.

CLOTALDO, ROSAURA, CLARIN. — BASILIO.

CLOTAL.

Poderei falar-te? (Ao Rei.)

BASILIO.

Oh, Clotaldo!

Sejas mui bem-vindo.

CLOTAL.

Embora, vindo a teus pés,

Força era havê-lo sido,

Desta vez rompe, senhor,

O fado triste e esquivo

O privilégio à lei

E à costume o estilo.

BASILIO.

Que tens?

CLOTAL.

Uma desdita,

Senhor, que me sucedeu,

Quando pudesse tê-la

Pelo maior regozijo.

BASILIO.

Prossegue.

CLOTAL.

Este belo jovem,

Ousado ou inadvertido,

Entrou na torre, senhor,

Onde ao Príncipe há visto,

E é...

BASILIO.

Não vos aflijais, Clotaldo:

Se outro dia houvera sido,

Confesso que o sentiria;

Mas já o segredo hei dito,

E não importa que ele o saiba,

Posto que eu o digo.

Vede-me depois, que tenho

Muitas coisas que advertir-vos

E muitas que façais por mim;

Que haveis de ser, vos aviso,

Instrumento do maior

Sucesso que o mundo há visto:

E a esses presos, porque enfim

Não presumais que castigo

Descuidos vossos, perdoo. (Vai-se.)

CLOTAL.

Vivas, grande senhor, mil séculos!

CENA VIII.

CLOTALDO, ROSAURA, CLARIN.

CLOTAL.

(À parte.) Melhorou o céu a sorte:

Já não direi que é meu filho,

Pois que o posso escusar.

Estrangeiros peregrinos,

Livres estais.

ROSAURA.

Teus pés beijo

Mil vezes.

CLARIN.

E eu os vejo,

Que uma letra mais ou menos

Não reparam dois amigos.

ROSAURA.

A vida, senhor, me deste;

E pois à tua conta vivo,

Eternamente serei

Escravo teu.

CLOTAL.

Não há sido

Vida a que eu te dei,

Porque um homem bem-nascido,

Se está agravado, não vive;

E posto que vieste

A vingar-te de um agravo,

Segundo tu próprio me hás dito,

Não te dei vida eu,

Porque tu não a trouxeste,

Que vida infame não é vida.

(À parte.) Bem com isto o animo.

ROSAURA.

Confesso que não a tenho,

Embora de ti a receba;

Mas eu com a vingança

Deixarei meu honor tão limpo,

Que possa minha vida logo,

Atropelando perigos,

Parecer dádiva tua.

CLOTAL.

Toma o aço brunido

Que trouxeste; que eu sei

Que ele basta, em sangue tingido

De teu inimigo, a vingar-te;

Porque aço que foi meu

— Digo este instante, este breve

Tempo que em meu poder o tive —

Saberá vingar-te.

ROSAURA.

Em teu nome

Segunda vez o cingo,

E nele juro minha vingança,

Ainda que fosse meu inimigo

Mais poderoso.

CLOTAL.

É-o muito?

ROSAURA.

Tanto, que não to digo,

Não porque de tua prudência

Maiores coisas não fio,

Mas porque não se volte

Contra mim o favor que admiro

Em tua piedade.

CLOTAL.

Antes fora

Ganhar-me a mim dizê-lo;

Pois fora fechar-me o passo

De ajudar a teu inimigo.

(À parte.) Oh, se soubesse quem é!

ROSAURA.

Porque não penses que estimo

Tão pouco essa confiança,

Sabe que o contrário há sido

Nada menos que Astolfo, duque

Da Moscóvia.

CLOTAL.

(À parte.) Mal resisto

À dor, porque é mais grave,

Que imaginada, vista.

Apuremos mais o caso.

Se moscovita nasceste,

Quem é teu natural senhor

Mal pôde agravar-te:

Volta-te à tua pátria, pois,

E deixa o ardente brio

Que te despenha.

ROSAURA.

Eu sei

Que, embora meu príncipe haja sido,

Pôde agravar-me.

CLOTAL.

Não pôde,

Ainda que houvesse atrevido

Posto a mão em teu rosto. (À parte.) Ai, céus!

ROSAURA.

Maior foi o agravo meu.

CLOTAL.

Dize-o já, pois que não podes

Dizer mais do que imagino.

ROSAURA.

Sim, diria; mas não sei

Com que respeito te miro,

Com que afeto te venero,

Com que estima te assisto,

Que não me atrevo a dizer-te

Que este exterior vestido

É enigma, pois não é de quem

Parece: julga advertido,

Se não sou o que pareço,

E Astolfo veio casar-se

Com Estrella, se poderá

Agravar-me. Muito te hei dito.

(Vão-se Rosaura e Clarin.)

CLOTAL.

Escuta, aguarda, detém-te!

Que confuso labirinto

É este, onde não pode

Achar a razão o fio?

Minha honra é a agravada,

Poderoso o inimigo,

Eu vassalo, ela mulher:

Descubra o céu caminho;

Embora eu não saiba se poderá,

Quando em tão confuso abismo

É todo o céu um presságio,

E é todo o mundo um prodígio.

JORNADA SEGUNDA.

CENA PRIMEIRA.

BASILIO, CLOTALDO.

CLOTAL.

Tudo, como ordenaste,

Fica efetuado.

BASILIO.

Conta,

Clotaldo, como passou.

CLOTAL.

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