Jornada Terceira - Fazer o bem, mesmo em sonho A Vida é Sonho · Capítulo 13 de 17
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Jornada Terceira - Fazer o bem, mesmo em sonho

Jornada Terceira - Fazer o bem, mesmo em sonho

Que estou sonhando, e que quero

Obrar bem, pois não se perde

O fazer bem, ainda em sonhos.

CLOTAL.

Pois, senhor, se o obrar bem

É já teu brasão, é certo

Que não te ofenda que eu

Hoje solicite o mesmo.

A teu pai hás de fazer guerra!

Eu aconselhar-te não posso

Contra meu rei, nem valer-te.

A teus pés estou posto;

Dá-me a morte.

SEGISM.

Vilão,

Traidor, ingrato! (À parte.) Mas, céus!

Convém-me refrear-me,

Que ainda não sei se estou desperto.

Clotaldo, vosso valor

Eu invejo e agradeço.

Ide servir ao Rei,

Que no campo nos veremos.

Vós outros, tocai às armas.

CLOTAL.

Mil vezes tuas plantas beijo. (Vai-se.)

SEGISM.

A reinar, fortuna, vamos;

Não me despertes, se durmo,

E, se é verdade, não me adormeças.

Mas seja verdade ou sonho,

Obrar bem é o que importa;

Se for verdade, por sê-lo;

Se não, por ganhar amigos

Para quando despertemos.

(Vão-se, tocando caixas.)

Salão do Palácio Real.

CENA V.

BASILIO e ASTOLFO.

BASILIO.

Quem, Astolfo, poderá deter prudente

A fúria de um cavalo desbocado?

Quem reter de um rio a corrente

Que corre ao mar soberbo e despenhado?

Quem suspender valente um penhasco

Do cimo de um monte desgajado?

Pois tudo fácil de parar se mira,

Mais que de um vulgo a soberba ira.

Diga-o em bandos o rumor partido,

Pois se ouve ressoar no profundo

Dos montes o eco repetido,

Uns Astolfo! e outros Segismundo!

O dossel do juramento, reduzido

A segunda intenção, a horror segundo,

Teatro funesto é, onde importuna

Representa tragédias a fortuna.

ASTOLFO.

Senhor, suspenda-se hoje tanta alegria;

Cessem o aplauso e o gosto lisonjeiro

Que tua mão feliz me prometia;

Que, se a Polônia — a quem mandar espero —

Hoje se resiste à obediência minha,

É porque a mereça eu primeiro.

Dai-me um cavalo, e de arrogância cheio,

Raio desça aquele que se ufana trovão. (Vai-se.)

BASILIO.

Pouco reparo tem o infalível,

E muito risco o previsto encerra:

Se há de ser, a defesa é impossível,

Que quem mais a evita, mais a prepara.

Dura lei! Forte caso! Horror terrível!

Quem pensa fugir ao risco, ao risco vem:

Com o que eu guardava me perdi;

Eu mesmo, eu minha pátria destruí.

CENA VI.

ESTRELLA. — BASILIO.

ESTREL.

Se tua presença, grande senhor, não trata

De enfrear o tumulto sucedido,

Que de um a outro bando se dilata

Pelas ruas e praças dividido,

Verás teu reino em ondas de escarlata

Nadar, entre a púrpura tingido

De seu sangue, que já com triste modo,

Tudo é desditas, e tragédias tudo.

Tanta é a ruína de teu império, tanta

A força do rigor duro, sangrento,

Que visto admira, e ouvido espanta.

O sol se turba e se embaraça o vento;

Cada pedra uma pirâmide levanta,

E cada flor constrói um monumento,

Cada edifício é um sepulcro altivo,

Cada soldado um esqueleto vivo.

CENA VII.

CLOTALDO. — BASILIO, ESTRELLA.

CLOTAL.

Graças a Deus que vivo a teus pés chego!

BASILIO.

Clotaldo, pois que há de Segismundo?

CLOTAL.

Que o vulgo, monstro despenhado e cego,

A torre penetrou, e do profundo

Dela tirou seu príncipe, que logo

Que viu segunda vez seu honor segundo,

Valente se mostrou, dizendo fero,

Que há de tornar o céu verdadeiro.

BASILIO.

Dai-me um cavalo, porque eu em pessoa

Vencer valente um filho ingrato quero;

E na defesa já de minha coroa

O que a ciência errou, vença o aço. (Vai-se.)

ESTREL.

Pois eu ao lado do Sol serei Belona:

Pôr meu nome junto ao seu espero;

Que hei de voar sobre tendidas asas

A competir com a deidade de Palas.

(Vai-se, e tocam às armas.)

CENA VIII.

ROSAURA, que detém CLOTALDO.

ROSAURA.

Embora o valor que se encerra

Em teu peito, desde ali,

Dê vozes, ouve-me a mim,

Que eu sei que tudo é guerra.

Bem sabes que eu cheguei

Pobre, humilde e desditada

À Polônia, e amparada

Por teu valor, em ti achei

Piedade; mandaste-me — ai, céus! —

Que disfarçada vivesse

No palácio, e pretendesse,

Dissimulando meus ciúmes,

Guardar-me de Astolfo. Enfim,

Ele me viu, e tanto atropela

Minha honra, que, vendo-me, a Estrella

De noite fala num jardim:

Deste a chave tomei,

E poderei dar-te ocasião

De que nele possas entrar

Para dar fim a meu cuidado.

Assim altivo, ousado e forte,

Voltar por minha honra poderás,

Pois que já resolvido estás

A vingar-me com sua morte.

CLOTAL.

Verdade é que me inclinei,

Desde o ponto em que te vi,

A fazer, Rosaura, por ti

— Testemunha teu pranto foi —

Quanto minha vida pudesse.

O primeiro que intentei,

Tirar-te aquele traje foi;

Porque, se acaso te visse

Astolfo em teu próprio traje,

Não julgasse leviandade

A louca temeridade

Que faz da honra ultraje.

Neste tempo eu traçava

Como cobrar se pudesse

Tua honra perdida, embora fosse

— Tanto tua honra me arrastava —

Dando morte a Astolfo. Mira

Que caduco desvario!

Se bem que, não sendo rei meu,

Nem me assombra, nem me admira.

Pensei dar-lhe morte; quando

Segismundo pretendeu

Dá-la a mim, e ele chegou,

Seu perigo atropelando,

A fazer em defesa minha

Mostras de sua vontade,

Que foram temeridade,

Passando de valentia.

Pois como eu agora — adverte —,

Tendo alma agradecida,

A quem me deu a vida

Tenho de dar a morte?

E assim, entre os dois partido

O efeito e o cuidado,

Vendo que a ti a dei,

E que dele a recebi,

Não sei a que parte acudir:

Não sei a que parte ajudar;

Se a ti me obriguei com dar,

Dele o estou com receber;

E assim, na ação que se oferece,

Nada a meu amor satisfaz,

Porque sou pessoa que faz,

E pessoa que padece.

ROSAURA.

Não tenho que prevenir

Que em um varão singular,

Quanto é nobre ação o dar,

É baixeza o receber.

E este princípio assentado,

Não hás de estar-lhe agradecido,

Posto que, se ele há sido

Quem a vida te há dado,

E tu a mim, evidente coisa

É que ele forçou tua nobreza

A que fizesse uma baixeza,

E eu uma ação generosa.

Logo estás dele ofendido,

Logo estás a mim obrigado,

Posto que a mim hás dado

O que dele recebeste;

E assim deves acudir

À minha honra em risco tanto,

Pois eu a prefiro quanto

Vai de dar a receber.

CLOTAL.

Embora a nobreza viva

Da parte daquele que dá,

O agradecê-la está

Da parte de quem recebe.

E pois já dar hei sabido,

Já tenho com nome honroso

O nome de generoso:

Deixa-me o de agradecido;

Pois o posso conseguir

Sendo agradecido, quanto

Liberal, pois honra tanto

O dar como o receber.

ROSAURA.

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