Jornada Terceira - Fazer o bem, mesmo em sonho
Jornada Terceira - Fazer o bem, mesmo em sonho
Que estou sonhando, e que quero
Obrar bem, pois não se perde
O fazer bem, ainda em sonhos.
CLOTAL.
Pois, senhor, se o obrar bem
É já teu brasão, é certo
Que não te ofenda que eu
Hoje solicite o mesmo.
A teu pai hás de fazer guerra!
Eu aconselhar-te não posso
Contra meu rei, nem valer-te.
A teus pés estou posto;
Dá-me a morte.
SEGISM.
Vilão,
Traidor, ingrato! (À parte.) Mas, céus!
Convém-me refrear-me,
Que ainda não sei se estou desperto.
Clotaldo, vosso valor
Eu invejo e agradeço.
Ide servir ao Rei,
Que no campo nos veremos.
Vós outros, tocai às armas.
CLOTAL.
Mil vezes tuas plantas beijo. (Vai-se.)
SEGISM.
A reinar, fortuna, vamos;
Não me despertes, se durmo,
E, se é verdade, não me adormeças.
Mas seja verdade ou sonho,
Obrar bem é o que importa;
Se for verdade, por sê-lo;
Se não, por ganhar amigos
Para quando despertemos.
(Vão-se, tocando caixas.)
Salão do Palácio Real.
CENA V.
BASILIO e ASTOLFO.
BASILIO.
Quem, Astolfo, poderá deter prudente
A fúria de um cavalo desbocado?
Quem reter de um rio a corrente
Que corre ao mar soberbo e despenhado?
Quem suspender valente um penhasco
Do cimo de um monte desgajado?
Pois tudo fácil de parar se mira,
Mais que de um vulgo a soberba ira.
Diga-o em bandos o rumor partido,
Pois se ouve ressoar no profundo
Dos montes o eco repetido,
Uns Astolfo! e outros Segismundo!
O dossel do juramento, reduzido
A segunda intenção, a horror segundo,
Teatro funesto é, onde importuna
Representa tragédias a fortuna.
ASTOLFO.
Senhor, suspenda-se hoje tanta alegria;
Cessem o aplauso e o gosto lisonjeiro
Que tua mão feliz me prometia;
Que, se a Polônia — a quem mandar espero —
Hoje se resiste à obediência minha,
É porque a mereça eu primeiro.
Dai-me um cavalo, e de arrogância cheio,
Raio desça aquele que se ufana trovão. (Vai-se.)
BASILIO.
Pouco reparo tem o infalível,
E muito risco o previsto encerra:
Se há de ser, a defesa é impossível,
Que quem mais a evita, mais a prepara.
Dura lei! Forte caso! Horror terrível!
Quem pensa fugir ao risco, ao risco vem:
Com o que eu guardava me perdi;
Eu mesmo, eu minha pátria destruí.
CENA VI.
ESTRELLA. — BASILIO.
ESTREL.
Se tua presença, grande senhor, não trata
De enfrear o tumulto sucedido,
Que de um a outro bando se dilata
Pelas ruas e praças dividido,
Verás teu reino em ondas de escarlata
Nadar, entre a púrpura tingido
De seu sangue, que já com triste modo,
Tudo é desditas, e tragédias tudo.
Tanta é a ruína de teu império, tanta
A força do rigor duro, sangrento,
Que visto admira, e ouvido espanta.
O sol se turba e se embaraça o vento;
Cada pedra uma pirâmide levanta,
E cada flor constrói um monumento,
Cada edifício é um sepulcro altivo,
Cada soldado um esqueleto vivo.
CENA VII.
CLOTALDO. — BASILIO, ESTRELLA.
CLOTAL.
Graças a Deus que vivo a teus pés chego!
BASILIO.
Clotaldo, pois que há de Segismundo?
CLOTAL.
Que o vulgo, monstro despenhado e cego,
A torre penetrou, e do profundo
Dela tirou seu príncipe, que logo
Que viu segunda vez seu honor segundo,
Valente se mostrou, dizendo fero,
Que há de tornar o céu verdadeiro.
BASILIO.
Dai-me um cavalo, porque eu em pessoa
Vencer valente um filho ingrato quero;
E na defesa já de minha coroa
O que a ciência errou, vença o aço. (Vai-se.)
ESTREL.
Pois eu ao lado do Sol serei Belona:
Pôr meu nome junto ao seu espero;
Que hei de voar sobre tendidas asas
A competir com a deidade de Palas.
(Vai-se, e tocam às armas.)
CENA VIII.
ROSAURA, que detém CLOTALDO.
ROSAURA.
Embora o valor que se encerra
Em teu peito, desde ali,
Dê vozes, ouve-me a mim,
Que eu sei que tudo é guerra.
Bem sabes que eu cheguei
Pobre, humilde e desditada
À Polônia, e amparada
Por teu valor, em ti achei
Piedade; mandaste-me — ai, céus! —
Que disfarçada vivesse
No palácio, e pretendesse,
Dissimulando meus ciúmes,
Guardar-me de Astolfo. Enfim,
Ele me viu, e tanto atropela
Minha honra, que, vendo-me, a Estrella
De noite fala num jardim:
Deste a chave tomei,
E poderei dar-te ocasião
De que nele possas entrar
Para dar fim a meu cuidado.
Assim altivo, ousado e forte,
Voltar por minha honra poderás,
Pois que já resolvido estás
A vingar-me com sua morte.
CLOTAL.
Verdade é que me inclinei,
Desde o ponto em que te vi,
A fazer, Rosaura, por ti
— Testemunha teu pranto foi —
Quanto minha vida pudesse.
O primeiro que intentei,
Tirar-te aquele traje foi;
Porque, se acaso te visse
Astolfo em teu próprio traje,
Não julgasse leviandade
A louca temeridade
Que faz da honra ultraje.
Neste tempo eu traçava
Como cobrar se pudesse
Tua honra perdida, embora fosse
— Tanto tua honra me arrastava —
Dando morte a Astolfo. Mira
Que caduco desvario!
Se bem que, não sendo rei meu,
Nem me assombra, nem me admira.
Pensei dar-lhe morte; quando
Segismundo pretendeu
Dá-la a mim, e ele chegou,
Seu perigo atropelando,
A fazer em defesa minha
Mostras de sua vontade,
Que foram temeridade,
Passando de valentia.
Pois como eu agora — adverte —,
Tendo alma agradecida,
A quem me deu a vida
Tenho de dar a morte?
E assim, entre os dois partido
O efeito e o cuidado,
Vendo que a ti a dei,
E que dele a recebi,
Não sei a que parte acudir:
Não sei a que parte ajudar;
Se a ti me obriguei com dar,
Dele o estou com receber;
E assim, na ação que se oferece,
Nada a meu amor satisfaz,
Porque sou pessoa que faz,
E pessoa que padece.
ROSAURA.
Não tenho que prevenir
Que em um varão singular,
Quanto é nobre ação o dar,
É baixeza o receber.
E este princípio assentado,
Não hás de estar-lhe agradecido,
Posto que, se ele há sido
Quem a vida te há dado,
E tu a mim, evidente coisa
É que ele forçou tua nobreza
A que fizesse uma baixeza,
E eu uma ação generosa.
Logo estás dele ofendido,
Logo estás a mim obrigado,
Posto que a mim hás dado
O que dele recebeste;
E assim deves acudir
À minha honra em risco tanto,
Pois eu a prefiro quanto
Vai de dar a receber.
CLOTAL.
Embora a nobreza viva
Da parte daquele que dá,
O agradecê-la está
Da parte de quem recebe.
E pois já dar hei sabido,
Já tenho com nome honroso
O nome de generoso:
Deixa-me o de agradecido;
Pois o posso conseguir
Sendo agradecido, quanto
Liberal, pois honra tanto
O dar como o receber.
ROSAURA.