Capítulo 1
Nunca gostei da ideia de que o destino pudesse ser comprado.
Quando era criança, acreditava que cada pessoa encontrava seu próprio caminho, o caminho que desejava. Pensava que, em algum momento, eu escolheria onde morar, o que faria da vida, quem amaria. Eram pensamentos simples, alimentados pelos livros que passava horas escondida lendo na pequena biblioteca da igreja da vila.
Nos livros, as protagonistas sempre tinham escolhas.
Podiam errar.
Podiam fugir.
Podiam dizer não.
Mas na vida real ninguém jamais me perguntou o que eu queria.
O balanço da carroça fez minha cabeça bater levemente mais uma vez na madeira atrás de mim.
A chuva já caía desde a madrugada, martelando o teto da carruagem como se o céu inteiro estivesse tentando impedir aquela viagem. Era o que eu queria que ela conseguisse fazer.
Fechei os olhos por alguns segundos, sentindo o cheiro úmido dali: madeira velha, couro molhado, feno. O perfume da terra encharcada entrava pelas pequenas frestas, misturado ao frio que parecia atravessar meu vestido lilás simples.
Apertei a barra da saia com os dedos quase sem perceber.
Ainda doía. Não o meu corpo, mas a sensação no peito. Era uma dor silenciosa, pesada, que parecia ocupar cada espaço dentro de mim.
Na manhã anterior, eu ainda estava na casa do meu tio, e agora eu estava sendo levada para me casar com um dragão.
Só de pensar nisso meu estômago se revirava. Engoli em seco, tentando controlar a náusea mas não adiantava.
Sempre que fechava os olhos, a lembrança daquele momento voltava à minha mente.
— É uma oportunidade única, Eleanor. — a voz do meu tio nunca tinha estado tão estridente e contente.
Ele estava sentado à mesa da cozinha, segurando uma bolsa de couro gorda, e tão cheia de moedas que eu conseguia ouvir o metal se chocando sempre que ele a movia. Nunca o tinha visto sorrir daquele jeito.
Nem quando a colheita da pequena fazendo que ele tinha era boa.
Aquele sorriso existia por um único motivo. Dinheiro.
— Eles pagaram muito bem. — abre o saquinho gordo, exibindo uma moeda grande e dourada, com um brasão estampado.
Como se isso resolvesse tudo.
Minha tia evitava olhar para mim, continuando a dobrar os panos sobre a bancada, silenciosa. Sempre silenciosa.
— Eu... — minha voz falhou — Eu não quero me casar. — meu tio riu, uma risada curta e impaciente.
— Não é uma questão de querer. — olhei para minha tia, procurando qualquer apoio, e ela continuou dobrando os panos. Nem levantou a cabeça.
— Existem contratos antigos entre humanos e dragões.
— Eu sei. — senti um nó na garganta.
— Então sabe que alguém precisa ir.
— Mas por que eu? — ele finalmente me encarou, como se estivesse esperando que eu perguntasse exatamente aquilo.
— Porque você não tem dote. — cada palavra parecia um golpe — Não temos dinheiro para encontrar um marido humano — faz uma pausa — E eles escolheram você.
Não. Não tinham me escolhido. Tinham me comprado.
Havia uma diferença enorme entre as duas coisas.
Olhei para o pergaminho aberto sobre a mesa. Meu nome já estava escrito ao lado de uma linha vaga para uma assinatura.
Nem sequer esperaram minha resposta.
— Eu não vou assinar — meu tio suspirou como se eu fosse uma criança fazendo birra.
— Não precisa. — ele molhou a pena no tinteiro, e assinou por mim.
Abri os olhos bruscamente, a lembrança ainda fazendo meu peito apertar. Passei a manga do vestido pelos olhos antes que alguma lágrima pudesse escapar.
Já tinha chorado demais. Chorar não mudaria nada.
A carruagem balançou outra vez. Levei a mão até os óculos, ajeitando-os sobre o nariz.
Pelo menos eles ainda estavam inteiros.
Minha pai dizia que eu ficava bonita usando óculos. Meu tio dizia que eles diminuíam minhas chances de encontrar marido.
Sorri sem humor. No fim das contas nem isso importou.
Um solavanco mais forte interrompeu meus pensamentos. Ouvi vozes do lado de fora, graves, diferentes.
Não consegui entender o que diziam, mas percebi que não eram totalmente humanas e meu coração disparou.
Será que… já tínhamos chegado?
Olhei pela pequena janela ao meu lado e só consegui enxergar parte das montanhas. Gigantescas e escuras, picos escondidos entre nuvens baixas.
Nunca tinha visto montanhas tão altas, pareciam tocar o céu.
A estrada começou a subir.
As rodas rangiam sobre as pedras molhadas, e conforme avançávamos, a vegetação mudava. As árvores ficavam maiores, os troncos mais grossos pareciam tão antigos quanto as próprias montanhas.
E flores azuladas cresciam entre as rochas, algumas brilhando levemente mesmo durante o dia nublado.
Fiquei observando-as por alguns instantes. Eram lindas.
Tão diferentes de tudo que conhecia.
Meu pai teria gostado de estudá-las.
Ele era botânico.
Ainda me lembrava de caminhar ao lado dele pelas florestas quando eu era pequena. Ele anotava tudo em um caderno e eu desenhava as plantas.
Sorri involuntariamente, um sorriso pequeno, quase dolorido.
Sentia falta dele todos os dias. Sentia falta da mamãe também. Ela sempre dizia que o mundo era muito maior do que a nossa vila, mas nunca imaginei que descobriria isso dessa maneira.
De repente a carroça diminuiu a velocidade, e então parou completamente. Meu coração parecia querer escapar pela garganta.
Escutei passos pesados se aproximando, e então uma sombra surgiu diante da pequena janela.
Prendi a respiração, e quando a porta foi aberta o ar frio do ambiente entrou primeiro. Depois, a luz cinzenta da manhã, me fazendo levar a mão aos óculos instintivamente.
E por um segundo achei que estivesse sonhando.
O homem parado diante da carroça era alto. Muito alto, talvez quase dois metros. Sua pele possuía pequenas escamas azul-escuras espalhadas pelo pescoço. Haviam dois chifres curtos escondidos entre os cabelos negros e, atrás dele… uma cauda balançava lentamente.
Meu corpo inteiro congelou.
Era real. Os dragões existiam. E eu estava cercada por eles.
Meu primeiro impulso foi recuar, mas não havia para onde ir.
O homem inclinou levemente a cabeça..
— Lady Eleanor? — sua voz era surpreendentemente educada.
Demorei alguns segundos para perceber que esperava uma resposta, e então assenti devagar.
Ele sorriu. Não um sorriso largo, apenas cordial.
— Seja bem-vinda ao território Obsidiano.
Território. A palavra fez tudo parecer ainda mais distante da minha antiga vida.
— Meu nome é Orion. Sou o capitão da guarda do castelo.
Capitão...
Guarda...
Castelo.
Cada palavra parecia confirmar que eu realmente havia atravessado para outro mundo.
Orion estendeu a mão.
— Posso ajudá-la a descer? — olhei para sua mão, depois para ele, notando que as escamas cobriam parte dos dedos, que as unhas eram ligeiramente maiores do que as humanas.
Ele esperava, sem pressa, sem insistir.
Respirei fundo e coloquei minha mão na dele. Estava quente. Muito quente. Como se sua temperatura fosse naturalmente mais alta que a minha.
Desci com cuidado, minhas pernas demorando um instante para se acostumar ao chão firme.
Então levantei os olhos e perdi completamente o fôlego.
À nossa frente, a montanha parecia ter sido esculpida por gigantes. Pontes de pedra ligavam enormes plataformas suspensas. Torres negras erguiam-se entre as rochas como se sempre tivessem pertencido àquele lugar. Grandes janelas refletiam a luz acinzentada do dia. Cachoeiras desciam pelos penhascos, formando rios cristalinos que serpenteavam pelo vale.
E, espalhadas por toda parte… Pessoas. Ou quase isso.
Havia dragões de diferentes tamanhos e cores. Alguns pareciam praticamente humanos, exceto pelos chifres discretos, outros possuíam asas abertas, caudas, escamas.
Vi uma criança correr atrás de outra, tropeçando nas próprias asinhas ainda pequenas. Uma mulher pendurava roupas em uma varanda de pedra enquanto conversava com o vizinho. Um senhor carregava um enorme cesto de frutas sobre um dos ombros.
Pisquei algumas vezes.
Aquilo não parecia o reino de monstros descrito nas histórias.
Parecia...uma cidade.
Viva, organizada. Quase comum.
Meu olhar encontrou Orion outra vez.
— Está tudo bem? — sua pergunta me tirou do transe e demorei alguns segundos para responder.
— Eu... só… — minha voz saiu baixa — É diferente do que imaginei. — ele sorriu de canto como se já tivesse ouvido aquilo muitas vezes.
— Sim.
E, pela primeira vez desde que a viagem começara, senti algo diferente do medo.
Curiosidade.