Capítulo 15 Asas de Obsidiana · Capítulo 15 de 18
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Capítulo 15

Naquela noite, demorei um pouco mais para dormir.

Não por estar preocupada, muito pelo contrário. Passei vários minutos olhando para o teto do quarto, lembrando da conversa no jardim, da maneira como Kael conseguia me fazer rir sem sequer tentar. Das margaridas. Da pequena criatura de asas transparentes. E do silêncio confortável que compartilhamos naquele banco. Sorri sozinha.

Era estranho pensar que, apenas alguns dias antes, eu acreditava que viveria trancada em um quarto.

Agora… eu começava a sentir curiosidade pelos dias seguintes.

★★★

Na manhã seguinte, fui até a biblioteca logo após o café. Passei algum tempo folheando um livro sobre constelações, mas logo percebi que meus olhos percorriam as páginas sem realmente ler.

Olhei para a porta. Nada.

Voltei ao livro.

Dois minutos depois… olhei para a porta novamente, mas balancei a cabeça.

"O que você está fazendo, Eleanor?"

Continuei lendo. Ou tentando.

Mais alguns minutos se passaram. Suspirei e fechei o livro.

Talvez Kael estivesse ocupado, afinal ele era o líder daquele lugar. Não fazia sentido esperar encontrá-lo todos os dias.

Levantei e guardei o livro na estante.

Quando me virei para sair, a porta da biblioteca se abriu e meu coração deu um pequeno salto.

Kael entrou carregando dois livros apoiados em um dos braços.

Assim que me viu, sorriu.

— Bom dia. — sorri antes mesmo de perceber.

— Bom dia. — ele caminhou até mim.

— Encontrei estes enquanto organizavam uma das salas antigas. — colocou os livros sobre a mesa. Eu olhei para as capas e arregalei os olhos. Eram escritos no idioma humano. Passei a mão sobre um deles quase sem acreditar.

— Estes livros...

— Pertenciam a um antigo estudioso que visitou o reino há muitas décadas. — olhei para Kael.

— Pensei que talvez gostasse. — meu peito aqueceu. De novo. Ele sempre parecia lembrar das coisas que eu gostava, mesmo que pequenas.

Abri um dos volumes e era uma coletânea de poemas. As páginas já estavam amareladas pelo tempo.

Sorri.

— São lindos. — levantei os olhos — Obrigada. — ele apenas fez um pequeno movimento com a cabeça, como se aquilo não fosse nada demais. Mas era, pelo menos para mim.

Enquanto folheava o livro, percebi que Kael parecia um pouco... distraído. Olhava pela janela de tempos em tempos, como se observasse alguma coisa do lado de fora.

Fechei o livro.

— Está tudo bem? — ele voltou a olhar para mim.

— Está. — fez uma pequena pausa — Na verdade… — parecia escolher cuidadosamente as palavras. — Gostaria de lhe fazer um convite — inclinei a cabeça.

— Que convite? — os olhos dourados dele encontraram os meus.

— O dia está bonito. — olhei pela janela, e o céu realmente estava bonito, completamente limpo, nem uma única nuvem.

— Pensei… — ele continuou — Que talvez quisesse conhecer um pouco das montanhas.

— Eu adoraria. — sorri. E foi só depois de responder que percebi.

Montanhas? Como?

Kael parecia ter esperado exatamente esse momento.

— Existe um lugar de onde é possível ver quase todo o reino.

— Parece incrível. — ele assentiu.

— É sim. — pegou um dos livros e o colocou de volta na estante, depois caminhou até a porta.

— Podemos ir quando desejar. — fui atrás dele. Enquanto caminhávamos pelo corredor, perguntei:

— É muito longe? — ele olhou para mim por um instante.

— A pé… — fez uma pausa — Algumas horas. — parei de andar.

— Algumas horas? — ele também parou. Então um sorriso quase imperceptível surgiu em seus lábios.

— Mas eu não pretendia ir a pé. — franzi a testa.

— Não? — ele balançou a cabeça e respirou fundo, depois perguntou, com toda a calma do mundo:

— Eleanor… você confiaria em mim? — meu coração acelerou. A pergunta era simples, mas havia algo nela que a tornava importante.

Olhei para Kael, para seus olhos dourados, para as asas negras dobradas atrás dele, para a expressão tranquila que nunca tentava me pressionar.

Respirei fundo, e então… sorri.

— Sim. — foi uma resposta espontânea, vinda do coração. Assim que a palavra saiu da minha boca, notei um brilho diferente no olhar dele.

Muito discreto, mas estava lá.

Kael estendeu a mão na minha direção.

— Então venha comigo. — olhei para a mão dele, grande, coberta por pequenas escamas negras próximas ao pulso.

Nunca tínhamos nos tocado antes.

Meu coração batia tão forte que achei que ele pudesse ouvir.

Engoli em seco. E devagar… coloquei minha mão sobre a dele.

A pele dele era surpreendentemente quente, não quente de febre, quente como uma pedra aquecida pelo sol. Seus dedos fecharam-se ao redor da minha mão com uma delicadeza que parecia impossível para alguém tão grande.

Nem por um segundo apertou ele demais, nem por um segundo ele me puxou, apenas esperou, como se ainda me desse tempo para desistir.

Eu não desisti.

E, de mãos dadas pela primeira vez, seguimos em direção ao terraço mais alto do castelo. E meu coração dizia que aquele seria um dia que eu jamais esqueceria.

★★★

O caminho até o terraço foi silencioso. Não porque não houvesse assunto, mas porque minha atenção estava completamente voltada para a mão de Kael envolvendo a minha.

Era… confortável.

Sua pele era muito mais quente do que a minha.

E, apesar das pequenas escamas espalhadas entre seus dedos, o toque não era áspero, pelo contrário, era suave, firme e seguro.

Subimos uma última escadaria de pedra.

Quando atravessamos a porta no topo da torre, o vento nos envolveu imediatamente.

Meus cachos voaram para trás, e levei uma das mãos ao rosto para afastá-los dos meus óculos.

À nossa frente, o terraço terminava em um enorme precipício.

As montanhas se estendiam até onde meus olhos conseguiam alcançar, e provavelmente além disso também.

O céu estava de um azul tão intenso que parecia pintado.

Kael soltou minha mão apenas quando chegamos ao centro do terraço, e senti uma estranha falta daquele calor imediatamente.

Afastei o pensamento antes que ele criasse raízes.

Ele caminhou alguns passos à frente, as asas negras se abrindo lentamente.

Prendi a respiração. Eu já as tinha visto antes mas nunca completamente abertas.

Eram…gigantescas.

As membranas negras brilhavam sob o sol, e a sombra que elas criavam cobriu parte do terraço.

Era impossível não ficar impressionada.

Kael virou-se para mim. Sua expressão permanecia calma, como sempre.

— Ainda quer ir? — olhei para o precipício, depois para aquelas asas enormes. Meu estômago pareceu dar um pequeno salto.

A resposta lógica seria "não", mas...

— Quero. — falei e ele assentiu, sem demonstrar surpresa. E então caminhou até mim, devagar, como sempre fazia e parou diante de mim, deixando espaço suficiente para que eu não me sentisse encurralada.

— Posso explicar como será? — assenti.

— Primeiro… — ele falou com a mesma voz tranquila de sempre — eu vou segurá-la. — meu rosto aqueceu um pouco.

— Certo.

— Se em qualquer momento quiser voltar, é só me dizer. — assenti novamente — Eu voltarei imediatamente.

Outra escolha. Sempre havia uma escolha. E isso tornava tudo mais fácil.

Respirei fundo.

— Tudo bem. — Kael ergueu lentamente uma das mãos e esperou, como se pedisse permissão em silêncio. Sorri discretamente, e foi o suficiente.

Sua mão pousou com extrema delicadeza em minha cintura e, mesmo através do tecido do vestido, senti o calor de sua pele.

Meu coração acelerou. Muito.

Ele percebeu? Esperava que não.

A outra mão apoiou-se cuidadosamente atrás das minhas costas, sem me apertar, sem me puxar de repente. Apenas garantindo que eu estivesse segura.

— Está confortável? — sua voz estava mais baixa agora. Assenti.

— Sim. — mentira. Eu estava nervosa demais para saber o que era conforto. E Kael pareceu notar porque sorriu de leve.

— Não precisa ter vergonha de sentir medo. — olhei para ele.

— Eu sei — respirei fundo — Acho que estou mais ansiosa do que assustada. — o sorriso dele aumentou um pouquinho.

— Isso é bom. — olhei para baixo, ainda estávamos muito altos. Meu coração disparou outra vez e Kael acompanhou meu olhar.

— Eleanor. — levantei a cabeça — Olhe para mim. — arrepiei, e obedeci, seus olhos dourados encontrando os meus. Calmos, firmes e estranhamente tranquilos — Não vou deixar você cair. — a maneira como ele disse aquilo… sem hesitar fez qualquer medo restante naquele momento diminuir.

— Eu confio em você. — foi a primeira vez que vi Kael ficar completamente imóvel, como se aquelas quatro palavras tivessem significado mais do que eu imaginava.

Ele respirou fundo, depois inclinou levemente a cabeça.

— Obrigado. — antes que eu pudesse responder, senti seus braços me envolverem com mais firmeza e, em um único movimento suave, meus pés deixaram o chão.

Soltei um pequeno suspiro de surpresa. Instintivamente, minhas mãos agarraram a frente de sua túnica.

— Tudo bem? — perguntou imediatamente. Olhei para cima e estávamos muito próximos, perto o suficiente para que eu conseguisse contar as pequenas escamas negras espalhadas ao longo de seu pescoço. Perto o suficiente para perceber que seus olhos tinham pequenos pontos dourados ainda mais claros quando a luz do sol os atingia.

Meu coração esqueceu completamente como bater, e assenti rapidamente.

— Sim — acho que ele percebeu que eu estava mais concentrada em observá-lo do que no que viria a seguir, porque esperou mais alguns segundos antes de abrir completamente as asas.

O vento aumentou. As enormes membranas negras esticaram-se atrás dele, e ouvi o som forte da primeira batida.

Depois outra.

E outra.

E num impulso surpreendentemente suave… o chão começou a se afastar.

Meus olhos se arregalaram. Instintivamente escondi o rosto contra o peito de Kael. E ele não fez nenhum comentário, apenas ajustou um pouco os braços ao meu redor, me mantendo firme.

— Estamos subindo. — sua voz chegou até mim quase como um sussurro, vencendo o som do vento.

E eu continuei de olhos fechados tentando respirando fundo, até sentir que o movimento havia se tornado incrivelmente estável.

— Eleanor — ele me chamou — Pode olhar. — demorei alguns segundos, mas então abri os olhos devagar. Primeiro vi apenas o tecido escuro de sua roupa. Depois, levantei o rosto e então perdi completamente o ar.

As montanhas estavam abaixo de nós, as cachoeiras pareciam fios prateados descendo pelas rochas.

O castelo… era ainda mais bonito visto do alto.

Um pequeno som de admiração escapou dos meus lábios.

— Kael… — minha voz saiu quase inaudível — Isso é… — não consegui terminar a frase.

Era impossível encontrar palavras.

Ele apenas me observava, esperando minha reação.

Então fiz algo que nem eu esperava.

Sem pensar.

Sem planejar.

Afrouxei uma das mãos de sua roupa e a estendi para o céu. O vento passou entre meus dedos.

Meu cabelo dançava livremente.

Uma risada de repente escapou da minha boca. Depois outra, mais alta, mais livre.

Fechei os olhos por um segundo, deixando o vento tocar meu rosto.

Nunca...

Em toda a minha vida...

Eu havia me sentido tão livre.

E, naquele instante, sem perceber, abracei Kael um pouquinho mais forte.

Não por medo, mas porque queria compartilhar aquele momento exatamente com ele.

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