Capítulo 8
Parei diante da porta por um instante. Respirei fundo.
Era ridículo estar nervosa por causa de um jantar. Quer dizer…
Talvez não fosse apenas um jantar, e sim o fato de que seria a primeira vez que eu passaria algum tempo sozinha com Kael sem Lyria, Orion ou qualquer outra ser por perto.
Minhas mãos alisaram o vestido pela terceira vez, depois pela quarta.
— Entre, Eleanor... — murmurei para mim mesma — É só um jantar.
Mesmo assim, meu coração discordava completamente.
Segurei a maçaneta, abri a porta e Kael estava exatamente onde imaginei.
De pé, a alguns passos da entrada. As mãos unidas atrás do corpo, as grandes asas negras recolhidas, e a longa cauda se movendo lentamente, quase de forma preguiçosa, atrás dele.
Quando me viu, seus olhos dourados encontraram os meus, e por um instante, ele simplesmente me olhou.
Sem dizer nada.
Seu olhar desceu discretamente para o vestido verde, depois voltou ao meu rosto. Tão rápido que talvez outra pessoa nem percebesse, mas eu percebi.
E, por alguma razão, aquilo fez minhas bochechas esquentarem.
— Boa noite — sua voz soou tão tranquila quanto antes.
— Boa noite – ele sorriu de leve.
— Verde combina com você. — meu cérebro simplesmente desistiu de funcionar.
Mais um elogio? Será que ele fazia isso com todo mundo?
Abaixei os olhos.
— Obrigada. — minha voz saiu tão baixinha que mal consegui ouvi-la. Quando criei coragem para olhá-lo novamente, notei um detalhe curioso.
Kael parecia... satisfeito. Não por causa do vestido, mas porque eu havia aceitado o elogio.
Como se tivesse receado que eu ficasse desconfortável.
Ele estendeu um dos braços em direção ao corredor.
— Podemos? — apenas assenti e saí do quarto. Assim que passei pela porta, ele esperou que eu desse alguns passos antes de começar a caminhar, outra vez mantendo distância. Outra vez adaptando o próprio ritmo ao meu, e comecei a suspeitar que aquilo não era coincidência.
Descemos um longo corredor iluminado por luminárias presas às paredes. A luz dourada refletia nas escamas negras de Kael, criando pequenos brilhos que pareciam ouro líquido.
Sem perceber, fiquei observando. Nunca tinha visto escamas draconianas de perto. Eram bonitas, muito bonitas.
Pareciam perfeitamente encaixadas umas nas outras.
Talvez eu estivesse olhando tempo demais, porque, de repente, Kael virou discretamente o rosto.
— Aconteceu alguma coisa? — pisquei.
— O quê?
— Está me olhando há alguns minutos. — meu rosto pegou fogo. Desviei os olhos tão depressa que quase tropecei no próprio pé.
— D-desculpe! — ouvi uma pequena risada. Não zombeteira, apenas divertida.
— Não precisa pedir desculpas. — continuei olhando para o chão.
Meu Deus, que vergonha.
— Eu só… — respirei fundo — Nunca tinha visto escamas de perto. — Silêncio. Arrisquei levantar os olhos e Kael me observava com curiosidade.
— E qual foi sua conclusão? — pensei por um instante. Depois respondi exatamente o que vinha à cabeça.
— São bonitas. — assim que as palavras saíram da minha boca, percebi o que havia dito.
Bonitas?
Eu tinha acabado de elogiar as escamas de um dragão?
Meu rosto devia estar da cor de um tomate mas, antes que eu pudesse tentar consertar a situação, algo inesperado aconteceu.
Kael parou de andar. Completamente.
Olhei para ele e sua expressão permanecia calma, só que… As pontas das orelhas estavam levemente avermelhadas.
Avermelhadas.
Ele estava corado?
Ele limpou discretamente a garganta antes de voltar a caminhar.
— Obrigado. — sua voz parecia um pouco mais baixa do que antes, o que me fez sorrir, bem pequenininho.
Talvez realmente eu não fosse a única a ficar envergonhada naquela conversa.
Seguimos em silêncio por mais alguns minutos. Curiosamente, aquele silêncio não parecia pesado.
Eu comecei a gostar dele. Não do silêncio, mas de caminhar ao lado de Kael Mesmo sem conversar. Era confortável.
Foi então que chegamos a uma enorme varanda, e o vento frio bagunçou meus cachos imediatamente.
Parei sem perceber.
A vista era… deslumbrante.
O sol estava desaparecendo atrás das montanhas. O céu havia se tornado uma mistura de dourado, laranja e tons rosados.
As cachoeiras refletiam toda aquela luz, parecendo rios de ouro líquido.
Levei a mão à boca.
— É lindo… — Não percebi que tinha falado em voz alta.
Kael olhou para a paisagem, depois para mim.
— Também acho. — sorri.
— Você deve estar acostumado. — ele balançou a cabeça.
— Nunca. — franzi a testa
— Nunca?
— Todos os dias a paisagem muda um pouco — seu olhar voltou para o horizonte — Seria um desperdício deixar de admirá-la.
Aquela frase ficou presa na minha cabeça. Era bonita, e eu jamais imaginaria ouvir algo assim de alguém descrito como um monstro.
Talvez por isso, sem pensar, acabei perguntando:
— Você gosta de ler? — Assim que terminei a pergunta, quase ri de mim mesma. Mas Kael respondeu como se fosse a coisa mais natural do mundo.
— Bastante. — olhei para ele surpresa.
— Sério? — ele assentiu.
— Minha biblioteca costuma ser o maior motivo de reclamações do conselho do que minhas decisões — não consegui esconder a curiosidade.
— Por quê? — pela primeira vez desde que o conheci, Kael sorriu de verdade. Um sorriso aberto, capaz de transformar completamente seu rosto.
— Porque continuo comprando livros quando dizem que deveria comprar mais armas. — não consegui evitar.
Ri. Uma risada espontânea, alta, daquelas que escapam antes que possamos impedir.
Levei a mão à boca imediatamente, mas já era tarde. Kael ficou completamente imóvel, e olhei para ele sem entender.
— O que foi? — ele demorou alguns segundos para responder. Quando respondeu, sua voz saiu quase como um sussurro.
— Acho… — ele sorriu outra vez — Que essa foi a primeira vez que ouvi você rir.
Meu coração parou por um instante. Era verdade. E, pela maneira como ele me olhava naquele momento, parecia que ouvir aquela risada tinha sido o ponto alto do dia dele.
Não fazia ideia de que, naquele exato instante, eu acabava de me tornar a lembrança favorita de um homem que passara cento e setenta e três anos acreditando que jamais encontraria alguém capaz de iluminar até mesmo o mais antigo dos castelos.