Capítulo 4 Asas de Obsidiana · Capítulo 4 de 18
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Capítulo 4

Nunca fui boa com mudanças.

Mesmo quando era criança, bastava minha mãe trocar um móvel de lugar para que eu passasse dias estranhando a casa. Gostava de saber onde cada livro ficava na estante, qual tábua do assoalho rangia e em que horário o sol atravessava a janela do meu quarto.

Talvez fosse por isso que tudo ali parecesse tão grande. Tão desconhecido.

Enquanto caminhava atrás de Lyria pelos corredores do castelo, meus olhos não conseguiam permanecer muito tempo no mesmo lugar.

Havia tapeçarias negras bordadas com fios dourados e grandes janelas arqueadas que deixavam entrar a luz suave daquela tarde nublada.

As paredes eram feitas da mesma pedra escura que eu vira do lado de fora, mas o ambiente não era sombrio como imaginei. Muito pelo contrário, lareiras espalhadas pelo corredor aqueciam o ar, e pequenos vasos com flores de tons azulados estavam apoiados sobre móveis de madeira escura.

Tudo era bonito e silencioso.

O único som constante era o eco de nossos passos.

Lyria caminhava devagar, como se soubesse que eu precisava de tempo para observar tudo.

Ela aparentava ter pouco mais de cinquenta anos humanos. Os cabelos grisalhos estavam presos em um coque impecável, e pequenas escamas negras próximas às têmporas brilhavam discretamente quando passávamos diante das janelas.

Apesar disso, seu sorriso era tão acolhedor quanto o de qualquer avó da minha vila.

— Imagino que esteja cansada, querida. — olhei rapidamente para ela e demorei um instante para responder.

— Um pouco. — ela riu baixinho.

— Só um pouco? — sorri sem querer.

— Está tão na cara assim?

— Um pouquinho. — a maneira como falou fez meu nervosismo diminuir.

Era estranho.

Desde que chegara ali, todos pareciam determinados a agir com delicadeza. E eu ainda não entendia por quê.

Depois de alguns segundos de silêncio, reuni coragem.

— Posso... fazer uma pergunta?

— Quantas quiser. — respirei fundo.

— Vocês… — minha voz saiu hesitante. — Já receberam outras humanas antes?

Ela não respondeu imediatamente. Parecia escolher cuidadosamente as palavras.

— Sim. — meu coração apertou.

— Muitas? — ela balançou a cabeça.

— Não. — continuei esperando e ela percebeu — O tratado acontece apenas quando um novo líder assume o Clã Obsidiano.

Olhei para o chão enquanto caminhávamos.

— Então… — minha garganta secou. — A esposa anterior… — ela sorriu de maneira triste.

— Faleceu há muitos anos. — parei de andar. Ela também parou.

— Kael... já foi casado? — a pergunta escapou antes que eu pudesse pensar e meu rosto esquentou imediatamente.

Não era da minha conta.

Lyria pareceu compreender meu constrangimento.

— Não.

— Nunca? — ela sorriu.

— Nunca. — por algum motivo que eu não soube explicar, senti um pequeno alívio.

Mas por quê?

Eu mal o conhecia.

Talvez fosse apenas porque a ideia de substituir outra mulher me deixava desconfortável.

Devia ser isso.

Continuamos andando.

Depois de mais alguns metros, Lyria falou novamente.

— Nosso senhor assumiu o clã muito jovem.

— Quantos anos ele tem? — ela pareceu pensar.

— Para nós… — sorriu — Ainda é considerado jovem. — Isso não respondeu absolutamente nada, e acho que minha expressão entregou minha confusão, porque ela riu. — Dragões vivem muito mais do que humanos.

— Quanto?

— Alguns chegam perto dos quatrocentos anos. — quase engasguei por um segundo.

Quatrocentos anos.

— Quantos anos ele tem?

— Cento e setenta e três. — abri a boca, depois fechei.

Meu cérebro simplesmente desistiu de tentar imaginar alguém vivendo tanto tempo.

Ela observou minha reação divertindo-se discretamente.

— Em idade humana… — ela fez um pequeno gesto com a mão. — Algo próximo de trinta anos.

— Ah… — aquilo fazia muito mais sentido.

Seguimos por mais alguns corredores e percebi que algumas portas eram enormes, muito maiores do que qualquer porta comum e ela notou meu interesse.

— Algumas partes do castelo foram construídas para nossa forma completa.

— Forma completa? — ela assentiu.

— Você ainda não viu um dragão completamente transformado, não é? — balancei a cabeça rapidamente, engolindo seco.

Apenas a ideia já parecia assustadora.

— Eles… são muito grandes? — ela sorriu de novo.

— Bastante. — meu estômago embrulhou.

Não consegui evitar imaginar Kael, se naquela forma híbrida já parecia gigantesco… Como seria completamente transformado?

Antes que pudesse perguntar, Lyria parou diante de uma grande porta de madeira escura.

Os detalhes entalhados nela representavam folhas, flores e pequenos dragões enrolados entre galhos.

Era linda.

Ela girou a maçaneta.

— Este será seu quarto. —meu quarto.

Respirei fundo antes de entrar, e, no instante seguinte, esqueci completamente como respirar.

O cômodo era maior do que a casa inteira onde cresci.

Havia uma enorme cama com dossel que ocupava o centro do quarto, cortinas que eram de um tecido claro, delicadamente bordado com fios dourados.

E próximo à janela havia uma estante repleta de livros.

Livros.

Meu coração deu um pequeno salto.

Ao lado dela, uma escrivaninha.

Mais adiante, uma poltrona posicionada exatamente diante da lareira onde o fogo queimava suavemente, deixando o ambiente agradavelmente aquecido.

Caminhei devagar, quase com medo de tocar em qualquer coisa.

Tudo parecia caro demais, bonito demais.

Na parede oposta havia uma grande janela que dava vista para todo o vale.

Me aproximei e lá embaixo consegui enxergar parte da cidade.

As pequenas casas, as pontes, as cachoeiras e as montanhas ao longe.

Era uma das paisagens mais bonitas que eu já tinha tido a oportunidade de ver.

— Gostou? — a voz de Lyria me fez virar. E eu sorri. Um sorriso verdadeiro.

— É lindo. — ela pareceu satisfeita.

— Fico feliz.

Passei os dedos sobre a lombada de um dos livros da estante.

Todos estavam em perfeito estado, alguns possuindo títulos que eu nunca tinha ouvido falar.

Outros eram escritos em um idioma completamente desconhecido.

Inclinei a cabeça.

— Eu... posso ler esses?

— Claro. — franzi a testa.

— São meus agora? — ela sorriu.

— Sim.

Olhei novamente para a estante e

Meu peito apertou.

Ninguém jamais tinha me dado livros.

Eu costumava pegar emprestados os da igreja e devolvê-los dias depois.

Ter uma estante inteira parecia um sonho.

Senti meus olhos marejarem mas disfarcei rapidamente e Lyria fingiu não perceber.

Aquela mulher tinha um talento admirável para preservar a dignidade alheia.

Enquanto eu continuava explorando o quarto, uma pergunta voltou a ocupar meus pensamentos.

Uma pergunta que eu tentava evitar desde que chegara.

Onde ficava o quarto de Kael?

E...

Quão perto ele era do meu?

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