Capítulo 12
Fechei o livro devagar.
— Um palpite? — Kael assentiu com toda a tranquilidade do mundo.
— Sim — cruzei os braços.
— Não acredito. — tive coragem de dizer, e o canto da boca dele ergueu-se discretamente.
— Não? — balancei a cabeça.
— Ontem eu disse que gostava de ler uma única vez. E esta biblioteca fica escondida em uma parte enorme do castelo.
— Fica — inclinei a cabeça.
— Então não foi um palpite. — ele permaneceu em silêncio por alguns segundos, depois deu de ombros, quase imperceptivelmente.
— Talvez tenha sido um palpite... bem informado — não consegui conter a risada.
— Isso existe?
— Acabei de inventar. — Sorri, balançando a cabeça.
— Então o senhor dos dragões também inventa desculpas. — assim que terminei a frase, congelei.
"Senhor dos dragões."
Kael arqueou uma sobrancelha, e eu levei a mão à boca.
— Desculpe! Eu não… — ele me interrompeu quando começou a rir. Não era uma gargalhada mas era, sem dúvida, a risada mais espontânea que eu ouvira dele. E a biblioteca pareceu mais leve naquele instante.
Quando finalmente conseguiu se recompor, enxugou discretamente o canto de um dos olhos.
— Acho… — respirou fundo — que nunca ninguém me chamou assim. — meu constrangimento diminuiu ligeiramente
— Foi sem querer.
— Eu sei. — ainda sorrindo, ele caminhou até a estante ao meu lado e percorreu os livros com a ponta dos dedos.
— Encontrou algo interessante? — levantei o volume que eu estava lendo.
— Plantas medicinais. — os olhos dele pareceram brilhar.
— Ah. — olhei para ele curiosa.
— Você conhece?
— Um pouco — sorri.
— "Um pouco" quanto?
Ele retirou um livro da prateleira, folheou algumas páginas e depois o abriu diante de mim.
— Esta planta — apontou para uma ilustração de folhas azul-escuras — Chama-se nerys. — inclinei-me para observar melhor. Era linda. As folhas tinham pequenas nervuras prateadas — Ela cresce apenas na parte norte das montanhas — olhei para ele — As flores se abrem apenas durante a madrugada. — voltei ao livro — Se forem colhidas antes do nascer do sol, ajudam a baixar a febre. — fiquei alguns segundos em silêncio.
— Você decorou isso? — ele pareceu pensar.
— Acho que sim.
— Eu demorei três páginas para aprender uma única planta. — ele deu um pequeno sorriso.
— Eu tive cento e setenta e três anos para estudar. — abri a boca, depois comecei a rir.
— Não vale! — ele inclinou levemente a cabeça.
— Não?
— Claro que não — levantei o livro — Você teve mais de um século de vantagem.
— Nunca pensei por esse lado. — ri outra vez.
A conversa fluía tão naturalmente que eu mal percebia o tempo passar. Era curioso.
Com outras pessoas, eu sempre precisava pensar antes de falar, escolher as palavras, tomar cuidado para não incomodar.
Mas com Kael… as frases simplesmente apareciam, como se conversar com ele fosse fácil.
Ele caminhou até outra estante e retirou mais um livro.
— Este é melhor. — olhei a capa. "Flora das Cinco Montanhas."
— Melhor?
— Tem ilustrações mais bonitas. — folheei algumas páginas e meus olhos brilharam imediatamente. As pinturas eram tão detalhadas que pareciam vivas.
— Nossa… — sentei-me novamente. Esqueci completamente que Kael ainda estava em pé.
Comecei a observar cada página com atenção. Depois de alguns minutos, senti uma sombra se aproximando.
Levantei a cabeça, e Kael havia se sentado na cadeira ao meu lado, sem fazer barulho, sem interromper minha leitura. Apenas sentou, pegou outro livro, o abriu e começou a ler também.
Olhei para ele, depois para o próprio livro, depois para ele novamente.
— O que foi? — perguntou sem levantar os olhos da página.
— Nada — sorri levemente — Só achei engraçado. — ele finalmente me olhou.
— O quê?
— Estamos... lendo juntos. — ele piscou algumas vezes. Depois olhou ao redor da biblioteca, como se só naquele instante tivesse percebido a situação.
— Acho que estamos.
— Nunca fiz isso antes. — ele fechou o livro por um instante.
— Ler? — balancei a cabeça.
— Ler em silêncio... com outra pessoa. — Kael pareceu refletir.
— Eu também não. — fiquei surpresa.
— Nunca?
— Não. — Sorri mais.
— Então estamos estreando isso juntos. — ele sustentou meu olhar por um breve momento, depois um sorriso pequeno apareceu em seus lábios.
— Parece que sim. — voltamos aos livros.
Dessa vez, o silêncio era diferente. Não era o silêncio desconfortável de duas pessoas sem assunto, era o silêncio tranquilo de quem não precisava falar o tempo todo.
Em determinado momento, senti algo tocar levemente a saia do meu vestido.
Olhei para baixo e vi a ponta da cauda de Kael.
Ela havia escorregado discretamente pelo chão até encostar no pé da cadeira.
Assim que ele percebeu, ele a puxou imediatamente.
— Desculpe — olhei para a cauda e para ele.
— Não tem problema. — ele pareceu aliviado.
E, curiosa, perguntei:
— Você consegue controlar a cauda o tempo todo? — Kael suspirou.
— Na maior parte do tempo.
— E no resto? — ele olhou para a própria cauda, como quem encara um velho conhecido.
— Ela costuma me denunciar quando estou distraído. — sorri.
— Igual um cachorro? — assim que falei, arregalei os olhos.
Meu Deus. Eu tinha acabado de comparar o líder dos dragões a um cachorro.
Fechei o livro devagar.
— Esquece que eu falei isso. — Kael estava completamente em silêncio, e por um segundo achei que realmente tivesse passado dos limites.
E então…
Ele riu. Riu tanto que precisou apoiar uma das mãos na mesa.
Levei as mãos ao rosto, quase sujando as lentes do meu óculos
— Eu vou embora deste castelo. — ele tentou responder, mas a risada o interrompeu.
— Acho... — respirou fundo — Que você é a primeira pessoa que tem coragem de dizer essas coisas para mim. — olhei para ele entre os dedos.
— Você não ficou bravo?
— Não. — ainda sorrindo, respondeu — Achei engraçado. — meu constrangimento foi dando lugar a outro sentimento.
Conforto.
Sem perceber, eu já não escolhia cada palavra com tanto cuidado.
Porque, pela primeira vez em muito tempo...
Eu não tinha tanto medo de ser julgada.
E isso dizia muito mais sobre Kael do que qualquer elogio que alguém pudesse fazer a seu respeito.