Capítulo 9
Meu sorriso desapareceu aos poucos. Não porque eu estivesse triste, mas porque percebi que Kael ainda me observava.
Não de um jeito desconfortável, muito menos insistente. Era um olhar tranquilo, como se ele estivesse feliz apenas por eu ter rido.
Foi a primeira vez, desde que cheguei ali, que não senti vontade de desviar os olhos imediatamente. Apenas os sustentei por alguns segundos, até que fui salva pelo cheiro. Algo delicioso.
Meu estômago resolveu se manifestar outra vez. Levei a mão ao rosto.
— Acho que ele está tentando me envergonhar. — Kael olhou discretamente para minha barriga, depois voltou a me encarar.
— Ele só está sendo sincero.
— Traidor. — sorri.
— Seu estômago? — assenti.
— Achei que tivesse aprendido boas maneiras — ele inclinou levemente a cabeça.
— Infelizmente, acredito que os estômagos não costumam aprender. — soltei uma risada baixa. Outra.
Menor, mas ainda assim uma risada. E Kael pareceu satisfeito mas não comentou, apenas voltou a caminhar.
Seguimos por um corredor mais estreito até chegarmos a duas grandes portas de madeira. Desta vez, elas estavam abertas.
O salão do jantar era menor do que o salão principal, ainda era enorme, claro, mas parecia... acolhedor.
Havia uma lareira acesa em uma das paredes e uma mesa comprida, feita de madeira escura.
Meu primeiro pensamento foi:
"Vamos jantar só nós dois nessa mesa inteira?"
Devia haver espaço para umas trinta pessoas. No mínimo.
Antes que eu pudesse imaginar como atravessaríamos toda aquela distância para conversar, Kael virou à direita, e só então percebi uma segunda mesa.
Redonda e muito menor, com apenas dois lugares.
Meu peito relaxou imediatamente, e ele percebeu.
— Preferi algo mais confortável. — olhei para ele.
— Obrigada. — ele puxou uma das cadeiras para mim e fiquei surpresa. Só tinha visto esse gesto nos livros.
Aproximei-me devagar.
— Obrigada. — me sentei e ele esperou até que eu estivesse confortável antes de ocupar o lugar à minha frente.
Por um instante, ficamos em silêncio.
A lareira crepitava baixinho. As chamas refletiam nas escamas negras espalhadas pelos braços dele que, curiosamente naquela iluminação, pareciam menos intimidadoras, e ainda mais bonitas. Eram quase como pequenas pedras de ônix.
Olhei discretamente para as mãos de Kael, grandes, muito maiores que as minhas. As unhas lembravam pequenas garras negras.
Mesmo assim, ele segurava o copo com tanta delicadeza que parecia ter medo de quebrá-lo.
Mais uma vez me peguei pensando como alguém tão grande conseguia ser tão cuidadoso.
Poucos minutos depois, alguns empregados entraram trazendo o jantar. O aroma fez minha barriga reclamar mais uma vez naquela noite.
Os pratos foram colocados diante de nós e reconheci algumas coisas: pães, batatas, carne assada.
Já outras, nem tanto. Haviam pequenos legumes azulados, cogumelos enormes, um molho dourado cujo cheiro lembrava mel e ervas.
Esperei, talvez por educação, talvez porque não soubesse se existia alguma regra. E Kael percebeu imediatamente.
— Pode começar. — olhei para ele — Não seguimos muitas formalidades durante as refeições. — peguei o garfo, ainda um pouco hesitante.
— Preciso confessar que… — olhei para os legumes azulados — Não faço ideia do que seja isso. — Kael acompanhou meu olhar — Raízes de althar. — a palavra não significava absolutamente nada para mim.
Minha expressão provavelmente denunciou isso, e ele sorriu.
— Imaginei. — apontou discretamente para o próprio prato — São parecidas com batatas, só que mais doces. — olhei desconfiada.
— Promete? — me senti uma criança
— Prometo. — peguei um pedacinho, levei à boca e mastiguei devagar. E então meus olhos se arregalaram.
— Nossa… — Kael arqueou discretamente uma sobrancelha.
— Gostou? — assenti várias vezes.
— Muito — ele sorri.
— Fico feliz.
Comemos por alguns minutos em silêncio.
E então percebi um detalhe curioso: Kael praticamente não tocava na própria comida. Ele levava um ou outro pedaço à boca, mas, na maior parte do tempo, parecia mais interessado em conversar.
Ou… em ter certeza de que eu estava gostando da refeição.
Franzi discretamente a testa.
Será que os dragões comiam tão pouco? Ou...
Balancei a cabeça. Provavelmente eu estava imaginando coisas.
— Posso fazer outra pergunta? — ele pousou os talheres.
— Claro. — respirei fundo.
— Você sempre fica nessa forma? — olhei rapidamente para as asas, depois para a cauda, e para os chifres.
Kael também olhou para o próprio corpo, como se só naquele momento tivesse percebido.
— Quase sempre.
— É mais confortável? — ele pensou por alguns segundos.
— Sim. — sorri de leve.
— Achei que fosse para assustar as pessoas. — assim que terminei de falar, quis morder a própria língua.
Que comentário infeliz.
Mas, em vez de parecer ofendido, Kael riu, de verdade.
Foi uma risada baixa, quente, capaz de fazer seus olhos dourados quase desaparecerem.
Meu coração simplesmente esqueceu como funcionava.
— Confesso… — diz ainda sorrindo — Que nunca tinha pensado nessa possibilidade. — Ri junto. E naquele momento eu percebi algo que me fez parar por um segundo.
Durante toda a refeição eu havia esquecido de sentir medo. Não completamente, ainda existia um pouco. Mas, pela primeira vez, ele deixou de ser a emoção mais forte dentro de mim.
Sem perceber, eu começava a enxergar Kael não como o dragão que me assustava, mas como o homem gentil que insistia, pacientemente, em me mostrar que eu estava segura.