Capítulo 10
A conversa continuou entre perguntas pequenas e respostas ainda menores.
Descobri que Kael preferia o frio ao calor. Que o castelo existia há tanto tempo que ninguém sabia dizer quem havia colocado a primeira pedra. Que os dragões comemoravam a chegada da primavera acendendo milhares de lanternas sobre o lago ao sul da montanha.
Também descobri que ele tinha um jeito curioso de ouvir. Quando eu falava, mesmo sobre assuntos completamente comuns, Kael prestava atenção como se cada palavra fosse importante.
Nunca interrompia, nunca olhava para outro lugar, nunca demonstrava pressa.
Era uma sensação nova. E estranhamente boa.
Não lembro exatamente em que momento terminamos o jantar. Só percebi quando um dos empregados retirou discretamente meu prato.
Olhei para a mesa, e eu havia comido tudo. Absolutamente tudo.
Senti meu rosto esquentar.
— Eu… — olhei para Kael — Acho que estava com mais fome do que imaginei. — ele lançou um rápido olhar para o prato vazio, depois voltou para mim e um sorriso discreto apareceu em seus lábios.
— Fico feliz. — sorri de volta.
— As raízes de... althar?
— Althar. — repetiu calmamente e eu assenti.
— São deliciosas.
— Vou pedir que preparem mais vezes. — a frase saiu com tanta naturalidade que levei alguns segundos para entendê-la.
Ele não disse "se desejar". Nem perguntou. Apenas comentou como quem faz um plano simples para o futuro.
Meu coração deu um pequeno salto.
Haveriam… mais jantares assim?
Afastei o pensamento antes que minhas bochechas voltassem a corar.
Kael levantou-se primeiro e caminhou até minha cadeira. Mais uma vez, puxou-a delicadamente para que eu pudesse me levantar.
— Obrigada. — seus olhos encontraram os meus por um breve instante, e então ele desviou o olhar.
— Vamos? — assenti e então saímos da sala de jantar.
Os corredores estavam muito mais silenciosos agora. A maioria das lareiras continuava acesa, espalhando um calor agradável pelo castelo.
Do lado de fora das janelas, a noite havia tomado conta das montanhas. O céu estava incrivelmente limpo, com milhares de estrelas brilhando acima dos picos escuros. Nunca tinha visto tantas.
Caminhamos devagar. O castelo parecia diferente à noite, mais calmo, mais acolhedor.
Em determinado momento, ouvi um leve farfalhar.
Olhei para Kael.
Suas asas haviam se movido discretamente. Talvez por causa do vento que entrava pelas janelas. E, pela primeira vez, não senti medo delas.
As apreciei.
Antes que pudesse perceber, já estávamos diante do meu quarto.
Parei e Kael fez o mesmo. E ficamos alguns segundos em silêncio. Acho que nenhum dos dois sabia muito bem como encerrar aquela noite.
— Espero que tenha gostado do jantar. — ele falou primeiro, e eu sorri.
— Gostei muito. — ele pareceu satisfeito — Obrigada... por tudo. — Não me referia apenas à refeição, acho que ele entendeu porque respondeu apenas com um pequeno movimento de cabeça.
— Boa noite, Kael. — foi a primeira vez que pronunciei seu nome.
Sem "senhor". Sem pensar.
Apenas Kael.
Por um instante, ele ficou completamente imóvel, os olhos dourados fixos nos meus. Havia algo diferente em sua expressão, algo tão breve que desapareceu antes que eu pudesse compreender. Então um sorriso suave surgiu em seu rosto.
Talvez o mais bonito que eu tivesse visto durante todo o dia.
— Boa noite… — sua voz saiu um pouco mais baixa — Eleanor.
Virei-me para abrir a porta mas, antes de entrar, ouvi sua voz outra vez.
— Ah… — olhei por cima do ombro e ele parecia... hesitante. Acho que era a primeira vez que o via assim.
— Espero que… — fez uma pequena pausa — Consiga descansar bem esta noite. — sorri. Um sorriso sincero.
— Acho que vou conseguir. — ele assentiu e esperou que eu entrasse no quarto antes de se afastar.
Fechei a porta com cuidado, encostei as costas nela e permaneci ali por alguns segundos em silêncio.
Levei uma das mãos ao peito e meu coração ainda estava acelerado, mas era diferente do medo que senti pela manhã. Era uma inquietação leve, quase boa.
Caminhei até a janela, e as montanhas estavam iluminadas apenas pela lua.
Ao longe, vi uma enorme silhueta cruzar o céu.
Um dragão. Suas asas cobriam as estrelas por alguns instantes antes de desaparecer entre as nuvens.
Em qualquer outro dia da minha vida, eu teria escondido o rosto ao ver uma criatura como aquela.
Agora… apenas observei.
Troquei de roupa, apaguei as velas e deitei na cama enorme, afundando entre os cobertores macios.
Pela primeira vez em muitos meses não chorei antes de dormir. Apenas fechei os olhos e, pouco antes de o sono me vencer, um pensamento inesperado surgiu.
Talvez… as histórias que me contaram sobre os dragões estivessem erradas.
E talvez eu ainda tivesse muito a descobrir sobre homem de olhos dourados que insistia em me tratar com uma gentileza que eu nunca havia conhecido.