Capítulo 5 Asas de Obsidiana · Capítulo 5 de 18
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Capítulo 5

Continuei olhando pela janela por mais alguns instantes.

Vi algumas crianças correndo pela praça onde havíamos passado há pouco. Um grupo de soldados atravessava uma das pontes de pedra, e, mais distante, algumas figuras aladas cruzavam o céu entre as montanhas.

Meu olhar acompanhou uma delas.

Por um momento, achei que fosse um pássaro enorme, e então as asas se abriram completamente.

Meu coração disparou.

Não era um pássaro. Era um dragão. Um dragão de verdade.

Seu corpo era gigantesco, muito maior do que qualquer casa da minha antiga vila. As escamas escuras brilhavam quando a luz escapava entre as nuvens, e cada batida das asas parecia mover o próprio vento.

Ele sobrevoou o vale com uma elegância impossível para uma criatura daquele tamanho.

Prendi a respiração.

— Impressionante, não é? — A voz de Lyria me fez desviar os olhos da janela e assenti devagar.

— Eu nunca imaginei… — nem consegui terminar a frase.

Ela aproximou-se da janela.

— Ainda estranha? — dei uma pequena risada nasal.

— Acho que essa palavra não é suficiente. — ela também riu — Eu imaginava monstros — olhei novamente para o dragão, que agora desaparecia entre as montanhas — Mas eles parecem… — procurei a palavra certa — Vivos. — ela arqueou uma sobrancelha.

— Vivos? — senti meu rosto corar.

— Quero dizer… — balancei a cabeça, envergonhada — Na minha vila dizem que dragões são criaturas violentas. Que só destroem tudo por onde passam. — ela permaneceu alguns segundos em silêncio.

— Os humanos contam muitas histórias sobre nós. — sorriu de maneira compreensiva — Assim como nós também contamos histórias sobre humanos. — A sua fala me fez franzir a testa.

— Que tipo de histórias? — ela deu de ombros.

— Algumas crianças acreditam que todos os humanos caçam dragões.

— O quê? — arregalei levemente os olhos e ela riu.

— Outras pensam que vocês morrem se tocarem fogo.

Não consegui evitar.

Ri junto, uma risada baixa, mas verdadeira. A primeira desde que deixei a vila.

Quando percebi isso, a alegria desapareceu tão rápido quanto surgiu. Lyria pareceu notar, mas não comentou, apenas caminhou até um armário próximo à cama.

— Trouxemos algumas roupas.

Ela abriu as portas e meus olhos se arregalaram.

Vestidos, muitos vestidos. De tecidos claros, escuros, azuis, verdes e com bordados delicados. Passei os dedos sobre um deles, e era macio, muito mais macio do que qualquer coisa que eu já tenha usado.

— Eu… não precisava de tudo isso. — Lyria fechou uma das portas do armário com delicadeza.

— Foi um pedido do nosso senhor. — meu coração pareceu parar por um segundo.

— Kael? — ela assentiu.

— Ele pediu que preparássemos tudo, para que não lhe faltasse nada.

Olhei novamente para as roupas.

Por quê?

Ele nem me conhecia. Por que teria tanto cuidado?

Meu tio nunca havia comprado um vestido novo para mim.

Quando algum rasgava, minha tia apenas remendava.

Olhei discretamente para as mangas do vestido que usava.

Ainda havia pequenas marcas dos consertos.

Engoli em seco.

— Também há sapatos. — ela abriu outra porta — E alguns casacos. Aqui costuma fazer bastante frio durante a noite.

Senti um aperto estranho no peito. Não era tristeza, também não era felicidade.

Era...culpa.

Tudo aquilo parecia caro demais, bonito demais.

Eu não sabia se merecia.

— Lady Eleanor? — levantei os olhos e arrumei meu óculos no rosto por costume. Lyria observava meu rosto com gentileza.

— Está tudo bem? — demorei alguns segundos para responder.

— Eu só… — respirei fundo — Não estou acostumada. — ela concordou de forma compreensiva.

— Eu imaginei. — nenhuma pena, nenhum olhar de superioridade. Apenas compreensão. Isso tornava tudo ainda mais difícil, porque eu não sabia como reagir à gentileza.

Sempre que alguém era bom comigo, meu primeiro impulso era pensar que ela iria querer alguma coisa em troca.

Desde pequena aprendi que presentes costumavam vir acompanhados de cobranças.

Olhei novamente para o armário.

Será que aquilo era apenas porque eu seria sua esposa?

Ou Kael faria o mesmo por qualquer pessoa?

A pergunta ficou martelando na minha cabeça.

— Vou deixá-la descansar. — assenti. Antes que ela saísse, tomei coragem.

— Lyria? — ela virou-se imediatamente.

— Sim? — abaixei os olhos.

— Posso fazer mais uma pergunta?

— Claro.

— O... quarto do Kael…— meu rosto esquentou imediatamente — Fica longe daqui? — Lyria piscou, depois sorriu de um jeito que me fez querer desaparecer.

— Está preocupada?

— N-não! — respondi rápido demais fazendo ela rir baixinho. Cobri o rosto por um instante.

Que vergonha.

— Eu só queria saber… — minha voz ficou cada vez menor — Se ele… bem… se ele dorme aqui. — Ela me olhou com tanta ternura que tive a impressão de estar diante da minha mãe

— Não. Este quarto é apenas seu. — meu peito relaxou imediatamente. E percebi isso antes mesmo de conseguir esconder, fazendo ela sorriu de novo.

— Os aposentos do nosso senhor ficam na outra ala do castelo.

Outra ala.

Soltei o ar devagar.

Nem havia percebido que estava prendendo a respiração.

— Ah… — Lyria abriu a porta.

— Ele jamais entraria aqui sem sua permissão. — Fiquei imóvel e ela continuou, como se aquilo fosse a coisa mais óbvia do mundo — Nem permitiria que qualquer outra pessoa o fizesse.

A porta fechou-se suavemente e as suas palavras permaneceram ecoando na minha cabeça mesmo depois que ela saiu.

Silêncio.

Pela primeira vez desde que deixara minha antiga casa eu estava completamente sozinha.

Olhei ao redor do quarto.

A cama enorme, os livros, a lareira, as roupas novas.

Tudo parecia pertencer à vida de outra pessoa.

Caminhei lentamente até a estante, passei os dedos pelas lombadas dos livros e escolhi um ao acaso. Era um livro de botânica.

Meu coração acelerou.

Abri a primeira página e havia ilustrações de plantas nela que eu nunca tinha visto.

Algumas tinham folhas prateadas.

Outras flores negras.

Sorri.

Papai teria amado aquele livro.

Sentei-me na poltrona próxima à janela e sem perceber comecei a folhear as páginas.

Talvez aquele lugar pudesse guardar coisas bonitas também.

Foi então que ouvi três batidas suaves na porta.

Levantei a cabeça imediatamente e meu coração voltou a acelerar.

Quem poderia ser?

Olhei para a porta por alguns segundos. As batidas se repetiram, calmas, sem insistência.

Respirei fundo antes de criar coragem para responder.

— Pode entrar...

A maçaneta girou lentamente.

E, do outro lado da porta ouvi novamente aquela voz grave e tranquila que já começava a reconhecer.

— Espero não estar incomodando.

Era Kael.

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