Capítulo 14
Continuei ajoelhada diante das margaridas por mais alguns instantes.
Era curioso. Aquele canteiro devia parecer simples para qualquer outra pessoa.
Mas, para mim… era como encontrar um pedacinho de casa no alto de uma montanha onde dragões voavam.
Levantei-me devagar, ainda observando as flores.
— Elas sobrevivem ao clima daqui? — Kael acompanhou meu olhar.
— Tivemos receio de que não. — olhei para ele.
— Tivemos? — ele assentiu.
— Os jardineiros passaram algumas semanas tentando descobrir quais partes do jardim recebiam uma temperatura mais parecida com a do território humano. — sem perceber, eu sorri. Conseguia imaginar um grupo inteiro de dragões discutindo onde plantar margaridas, e a imagem era quase engraçada.
— Então elas deram trabalho.
— Um pouco. — a resposta saiu tão séria que comecei a rir. Kael inclinou levemente a cabeça, parecendo confuso.
— O que foi?
— Nada — balancei a cabeça, ainda sorrindo — Só achei curioso imaginar um castelo cheio de dragões preocupados com onde plantar flores humanas. — pela primeira vez desde que o conheci, ele desviou os olhos por um instante. Pareceu... pensativo.
— Nem todos entenderam o motivo. — Olhei para ele novamente — Mas eu achei importante. — meu sorriso desapareceu aos poucos. Ele dizia aquilo com tanta simplicidade. Como se plantar flores fosse uma decisão comum para um líder.
Respirei fundo.
— Meu pai… — as palavras escaparam antes que eu pudesse impedir. Fazia muito tempo que eu não falava dele em voz alta. Kael permaneceu em silêncio, esperando.
— Ele gostava de margaridas. — olhei novamente para o canteiro — Dizia que eram flores teimosas. — franzi a testa ao lembrar — Porque conseguiam crescer mesmo nos lugares mais improváveis. — uma pequena risada escapou — Quando eu era criança, costumava encher os bolsos de margaridas para levar para casa. — passei a ponta do dedo por uma pétala — Minha mãe fingia ficar brava porque eu espalhava terra por toda a cozinha. — o silêncio que veio depois não foi pesado.
Pelo contrário.
Era como se aquele jardim tivesse aberto espaço para uma lembrança que eu guardava há muito tempo só para mim.
— Eles parecem ter sido pessoas muito gentis. — olhei para Kael. Não havia curiosidade invasiva em seu rosto, apenas um interesse sincero. Assenti.
— Eram. — minha voz falhou um pouco — Sinto muita falta deles. — ele abaixou a cabeça em um gesto respeitoso.
— Imagino que sim. — nenhuma frase pronta, nenhum "vai passar". Nenhuma tentativa de diminuir minha dor.
Só…"Imagino que sim."
Estranhamente, aquilo confortou mais do que qualquer outra coisa.
Ficamos alguns segundos observando o jardim, até que um movimento chamou minha atenção. Uma pequena criatura pousou sobre uma das margaridas. Era parecida com uma borboleta mas suas asas pareciam feitas de vidro. Refletiam tons azulados conforme a luz mudava.
Prendi a respiração.
— Que linda… — a criatura permaneceu imóvel por alguns segundos, depois levantou voo. Voou em círculos ao nosso redor antes de desaparecer entre as árvores. Olhei para Kael.
— O que era aquilo?
— Uma syl — franzi a testa — Elas ajudam na polinização das flores.
— Nunca tinha visto uma.
— Só existem nestas montanhas. — continuei olhando na direção em que ela desapareceu.
— Ela parecia mágica.
— Acho que ela ficaria feliz em ouvir isso. — ri baixinho.
— Ela entende?
Kael respondeu com uma expressão completamente séria:
— Não faço ideia. — olhei para ele, depois comecei a rir outra vez.
Ele esperou pacientemente até que eu recuperasse o fôlego.
— Você fez isso de propósito.
— Fiz o quê?
— Essa resposta. — ele ergueu discretamente uma sobrancelha.
— Foi uma resposta honesta. — balancei a cabeça.
— Você tem um senso de humor estranho. — pela primeira vez ele sorriu de um jeito quase tímido.
— Já ouvi isso antes.
— Sério?
— Não. — a resposta veio tão rapidamente que gargalhei antes de conseguir levar a mão à boca.
— Você acabou de mentir.
— Tecnicamente… — ele parecia pensar na melhor forma de responder — Foi uma brincadeira.
— Ah, então existe diferença? — eu quem arqueei uma sobrancelha dessa vez.
— Existe. — cruzei os braços.
— Estou começando a perceber que você gosta de implicar comigo. — Kael pareceu genuinamente surpreso.
— Eu? — assenti.
— Primeiro as respostas misteriosas, depois as "brincadeiras técnicas". O que vem agora? — ele permaneceu em silêncio por alguns segundos, e então respondeu com a maior naturalidade do mundo:
— Ainda não decidi. — olhei para ele, ele olhou para mim e não aguentei, comecei a rir de novo. Dessa vez tão alto que precisei me apoiar em um dos bancos de pedra.
Enquanto tentava recuperar o fôlego, percebi algo curioso, Kael não estava rindo da piada.
Ele estava… me olhando.
Com aquele mesmo sorriso tranquilo que aparecia sempre que eu ria.
Meu coração aqueceu. Sem pensar muito, caminhei até o banco, me sentei, depois dei um pequeno tapinha no espaço vazio ao meu lado.
— Você pode sentar, sabia? — Kael pareceu surpreso, olhou para o banco depois para mim, como se estivesse confirmando se eu realmente queria aquilo. Assenti discretamente e ele se aproximou e se sentou ao meu lado ainda deixando um espaço respeitoso entre nós.
Mas… era menor do que antes. Muito menor.
Observei o jardim à nossa frente. As flores balançavam com o vento, as montanhas pareciam infinitas.
Por um longo tempo nenhum dos dois disse absolutamente nada.