Capítulo 7
Eu devia ter ouvido errado.
Ou talvez o nervosismo estivesse confundindo meus pensamentos, porque não fazia sentido.
Ele havia me convidado… para jantar. Com ele.
Não havia ordem em sua voz.
Nem expectativa.
E muito menos obrigação.
Era apenas um convite.
Ainda assim, demorei alguns segundos para responder.
— Eu… — Kael continuava esperando, sem pressa.
— Se você não quiser… — ele falou antes que eu terminasse — Podemos jantar em outro momento.
Pisquei algumas vezes, outra vez.
Ele estava me dando uma escolha.
Comecei a perceber que aquilo era um hábito.
Sempre havia uma alternativa. Sempre havia uma saída. Como se ele quisesse que eu soubesse, a todo instante, que não estava presa.
Respirei fundo.
— Eu... gostaria. — minha voz saiu baixa mas firme. Foi a primeira vez que respondi alguma coisa sem gaguejar completamente.
Os olhos dourados dele pareceram se iluminar por um instante, tão rapidamente que pensei ter imaginado.
— Fico feliz. — sorri de leve.
— Só… — olhei para o vestido simples que ainda usava. As mangas estavam amarrotadas pela viagem e a barra tinha pequenas manchas de lama. — Acho que preciso me trocar. — Kael acompanhou meu olhar, depois voltou a me encarar.
— Não precisa, se não quiser. — franzi a testa e ele continuou — Está bonita exatamente como está. — meu rosto queimou. Completamente.
Bonita?
Eu?
Desviei o olhar tão depressa que quase deixei o livro cair.
Meu coração parecia um pássaro preso dentro do peito.
Ele... havia me elogiado?
Não, talvez eu estivesse interpretando errado.
Talvez ele apenas estivesse sendo educado.
Devia ser isso. Com toda certeza.
— M-mesmo assim… — forcei um pequeno sorriso — Acho que vou trocar. — Kael assentiu.
— Claro.
Mais silêncio.
Ele ainda permanecia perto da porta.
Por um segundo, pensei que fosse embora, mas parecia hesitante, como se quisesse perguntar alguma coisa. Ou dizer algo.
No fim, apenas respirou fundo.
— Não quero que se sinta obrigada a fazer nenhuma refeição comigo. — levantei a cabeça — O convite foi porque imaginei que talvez fosse estranho jantar sozinha no primeiro dia. — a sinceridade dele me pegou desprevenida — Mas, se em algum momento preferir comer sozinha, basta avisar.
Outra escolha. Sempre outra escolha.
Meu peito apertou.
Era uma sensação tão estranha que mal consegui identificar.
Acho que… gratidão.
Assenti.
— Obrigada. — ele sorriu de novo.
Aquele sorriso pequeno e discreto mas que, por algum motivo, parecia iluminar completamente seu rosto.
— Então voltarei em uma hora. — curvou levemente a cabeça — Lady Eleanor.
Antes que eu pudesse responder, ele abriu a porta. Mas, no instante seguinte parou, virou apenas o rosto na minha direção.
— Ah — pisquei — Espero que goste dos livros. — sorri, dessa vez, sem perceber.
— Acho que vou gostar muito. — ele sustentou meu sorriso por apenas um segundo. Depois saiu.
A porta fechou-se suavemente e o quarto mergulhou em silêncio outra vez.
Soltei o ar que nem percebia estar prendendo e levei as duas mãos ao rosto.
Meu coração ainda batia rápido demais.
O que estava acontecendo comigo?
Conhecia aquele homem havia menos de uma hora, mas mesmo assim… cada conversa com ele parecia desmontar mais um pedaço da imagem terrível que construí durante toda a viagem. Durante toda a vida.
Caminhei até a cama e sentei na beirada. Passei as mãos pelo colchão macio, depois olhei para o armário.
Lyria havia dito que as roupas eram para mim.
Ainda me parecia estranho abrir um armário sabendo que tudo ali me pertencia.
Levantei-me devagar, passei os dedos pelos vestidos.
Azul, verde, creme, vinho.
Um chamou minha atenção imediatamente.
Era de um tom verde-musgo suave, com pequenas folhas bordadas próximo às mangas.
Lembrava uma floresta.
Meu pai costumava dizer que aquela era minha cor, porque eu sempre voltava das caminhadas pela mata com alguma folha presa nos cabelos.
A lembrança fez meu peito aquecer.
Retirei o vestido cuidadosamente.
Era muito mais leve do que o que eu usava.
Enquanto me trocava, encontrei um grande espelho encostado próximo ao guarda-roupa. Parei diante dele e por alguns segundos apenas me observei.
Fazia tanto tempo que eu evitava espelhos.
Na casa do meu tio, eles serviam apenas para lembrar tudo o que eu tinha de errado. Os cachos que nunca ficavam completamente arrumados. Os óculos.
As sardas discretas sobre o nariz.
Os vestidos sempre simples.
As olheiras deixadas pelas noites mal dormidas.
Meu tio dizia que eu precisava aprender a parecer mais bonita, porque homens não gostavam de mulheres "desleixadas".
Olhei para meu reflexo.
Depois lembrei das palavras de Kael.
"Está bonita exatamente como está."
Fechei os olhos.
Não, ele só estava sendo educado.
Não havia motivo para pensar naquilo.
Mesmo assim… um pequeno sorriso insistia em aparecer.
Balancei a cabeça.
Eu realmente precisava parar de pensar nele.
Terminei de prender parte dos cabelos para trás e ajeitei os óculos.
Quando voltei à janela, o céu já começava a ganhar tons alaranjados.
O pôr do sol coloria as montanhas de dourado. Era uma vista tão bonita que permaneci alguns minutos apenas admirando.
Até ouvir novas batidas na porta.
Dessa vez meu coração não disparou de medo, disparou de expectativa.
Sorri ao perceber isso, respirei fundo e caminhei até a porta.