Capítulo 11 Asas de Obsidiana · Capítulo 11 de 18
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Capítulo 11

Sempre tive o costume de acordar cedo.

Meu pai dizia que as manhãs eram o melhor momento para observar o mundo, porque tudo ainda parecia sincero antes que o restante do dia começasse. E, mesmo depois de tantos anos, aquele costume nunca me abandonou.

Quando abri os olhos, por alguns segundos não soube onde estava.

O teto alto, as cortinas claras envolvendo a cama, o calor da lareira.

Então me lembrei.

O castelo, os dragões.

Kael.

Meu coração acelerou só de pensar em seu nome.

Sentei-me devagar. A luz da manhã atravessava as enormes janelas, iluminando o quarto com um brilho dourado.

Me levantei, abri as cortinas e perdi o fôlego. As montanhas pareciam completamente diferentes durante o dia. Uma fina névoa cobria parte do vale, as cachoeiras refletiam o sol nascente e, ao longe, consegui enxergar algumas figuras aladas voando entre os picos.

Ainda era estranho lembrar que aquelas criaturas eram meio pessoas.

Sorri discretamente.

Talvez eu nunca me acostumasse.

Depois de me arrumar, sai para o café da manhã. Não precisei procurar muito. Uma criada me guiou até uma pequena sala iluminada por grandes janelas.

Havia apenas três mesas ocupadas. Algumas famílias conversavam enquanto comiam.

Assim que entrei, senti alguns olhares curiosos sobre mim. Não eram hostis, apenas curiosos.

Sorri timidamente.

Uma senhora de cabelos prateados retribuiu o sorriso antes de voltar a conversar com quem estava ao seu lado.

Escolhi uma mesa próxima da janela. Poucos minutos depois, uma jovem criada aproximou-se.

— Bom dia, Lady Eleanor. — sorri sem jeito. Ainda era estranho ser chamada de "Lady".

— Bom dia. — ela colocou uma bandeja diante de mim. Pães recém-assados, frutas, queijos, uma pequena tigela com mel e uma xícara fumegante.

Assim que senti o aroma, pisquei. Maçã.

Olhei para a criada.

— Eu... não pedi chá — ela sorriu.

— Eu sei — franzi a testa — Ontem, durante o jantar, o senhor Kael comentou que imaginava que a senhora preferisse sabores mais suaves. — meu coração falhou uma batida — Então ele pediu que preparássemos chá de maçã para o café da manhã. — fiquei olhando para a xícara por alguns segundos.

Ele… lembrou?

Mas eu nunca tinha dito que gostava de maçã. Ou tinha?

Tentei lembrar da conversa da noite anterior. Nada.

Talvez eu tenha comentado sem perceber. Agradeci à criada e permaneci olhando para o chá.

Era um gesto tão pequeno, e .esmo assim meu peito aqueceu.

Levei a xícara aos lábios. Estava delicioso.

Depois do café, resolvi caminhar um pouco, não queria passar o dia inteiro trancada no quarto.

Os corredores já estavam movimentados. Servos carregavam caixas, alguns guardas conversavam discretamente. Duas crianças passaram correndo por mim, rindo tanto que uma delas quase escorregou, logo atrás, uma mulher apareceu.

— Desculpem! — as duas diminuíram a velocidade imediatamente.

Sorri. Era exatamente igual às mães da minha vila.

Continuei andando sem destino, ou pelo menos era o que eu pensava, porque, poucos minutos depois, encontrei uma enorme porta entreaberta, e senti o cheiro antes mesmo de saber onde estava: livros.

Livros antigos têm um cheiro muito específico. Papel, madeira, couro.

Meu coração acelerou, empurrei a porta com cuidado e fiquei completamente imóvel.

A biblioteca era gigantesca, com estantes que alcançavam o segundo andar e escadas de madeira que deslizavam sobre trilhos para alcançar as prateleiras mais altas.

A luz atravessava enormes janelas arqueadas, iluminando milhares de livros. Milhares.

Acho que nunca tinha visto tantos reunidos em um único lugar.

Entrei devagar, como quem pisa em um lugar sagrado. Passei a mão sobre uma das estantes, os dedos encontrando títulos escritos em diferentes idiomas.

Livros de história, Botânica, geografia, medicina, mitologia.

Meus olhos brilhavam tanto que nem percebi quanto tempo passou. Peguei um volume sobre ervas medicinais, depois outro. E outro. Até que encontrei uma pequena mesa próxima à janela.

Me sentei, abri o primeiro livro e sorri. Era exatamente o tipo de lugar onde meu pai teria passado dias inteiros. Talvez… eu também.

— Achei que encontraria você aqui. — a voz grave veio atrás de mim, mas não me assustei. Kael estava parado perto da entrada da biblioteca, as mãos cruzadas atrás do corpo, as asas recolhidas, e os olhos dourados encontraram os meus.

— Como...? — parei de falar e ele inclinou levemente a cabeça.

— Sim? — ri baixinho.

— Como sabia que eu estaria aqui? — um pequeno sorriso apareceu em seus lábios.

— Foi um palpite. — não acreditei nem por um segundo. Mas, curiosamente, não me importei.

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