Capítulo 2 Asas de Obsidiana · Capítulo 2 de 18
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Capítulo 2

Curiosidade.

Era estranho perceber aquele sentimento surgindo em meio ao medo.

Eu ainda estava assustada. Muito.

Meu coração continuava acelerado, minhas mãos permaneciam frias e a ideia de estar cercada por dragões ainda me parecia absurda. Mas, enquanto observava as pessoas caminhando por aquele enorme vale de pedra, percebi que nenhuma delas parecia se importar com a minha presença.

Ninguém apontava, ninguém cochichava.

Alguns olhavam por um instante, talvez porque eu fosse a única humana ali, mas logo voltavam às próprias atividades. Aquilo me deixou… confusa.

Nas histórias da minha vila, os dragões eram descritos como criaturas arrogantes, que desprezavam os humanos e que nos enxergavam como seres inferiores. Eu imaginava que seria recebida como um prêmio, um objeto raro ou uma curiosidade. Mas ninguém parecia interessado em mim.

Era quase... reconfortante.

— O castelo fica logo acima — explicou Orion, interrompendo meus pensamentos, e eu segui seu olhar.

A construção era ainda maior do que eu imaginava quando a observei de longe.

Esculpido diretamente na montanha, o castelo parecia fazer parte da própria rocha. Não havia diferença entre a muralha e o penhasco. Era como se alguém tivesse revelado o edifício escondido dentro da pedra.

As torres alcançavam alturas impressionantes e algumas possuíam plataformas abertas. Outras terminavam em pontas elegantes, decoradas com bandeiras negras que dançavam ao vento.

— É... enorme. — as palavras escaparam antes que eu pudesse impedi-las, e Orion sorriu.

— O Clã Obsidiano vive aqui há muitos séculos.

Clã. Outra palavra nova.

Na minha vila, todos simplesmente chamavam aqueles seres de dragões. Nunca pensei que existissem diferentes povos entre eles.

Começamos a subir uma longa escadaria. Os degraus eram largos, feitos de uma pedra escura e lisa que parecia polida pelo tempo. No começo tentei acompanhar o ritmo de Orion, mas logo percebi que ele diminuía o passo sempre que eu ficava para trás.

Era uma gentileza simples, mas ainda assim… eu não esperava por ela.

Durante toda a viagem imaginei que seria tratada como um fardo mas, até aquele momento, ninguém havia sido rude comigo.

Meu vestido enroscou levemente na ponta do sapato enquanto subíamos. Segurei a barra antes de tropeçar. Orion fingiu não perceber, e eu agradeci mentalmente.

Minha timidez provavelmente me faria lembrar daquele quase tombo pelos próximos dez anos.

Enquanto caminhávamos, aproveitei para observar melhor os moradores.

Uma mulher de cabelos avermelhados conversava com uma criança enquanto organizava frutas em uma banca. Ela possuía pequenas escamas douradas espalhadas pelas maçãs do rosto.

Ao perceber que eu a observava, sorriu.

Sorriu. Para mim.

Instintivamente sorri de volta, ainda que de forma tímida. Ela acenou discretamente antes de continuar trabalhando.

Meu peito pareceu aliviar um pouco.

Mais acima, alguns homens transportavam enormes vigas de madeira.

Parei por um instante. As vigas eram gigantescas. Quatro humanos mal conseguiriam carregar uma daquelas, e dois dragões faziam aquilo como se o peso quase não existisse.

— Eles são muito fortes... — murmurei. — Orion olhou para trás.

— Sim

— Todos? — quase mordi a língua tentando segurar a curiosidade.

— Quase todos.

Continuei olhando.

Aquilo explicava muita coisa.

As construções enormes. As portas largas. As muralhas. Tudo parecia ter sido feito pensando em pessoas muito maiores do que nós.

Pouco depois chegamos a uma praça. Ela era circular e no centro havia uma árvore gigantesca. Seu tronco era tão largo que cinco pessoas provavelmente não conseguiriam abraçá-lo ao mesmo tempo. As folhas tinham um tom prateado, e quando o vento soprava, pareciam cintilar.

Fiquei completamente encantada.

— Que árvore é essa? — Orion acompanhou meu olhar.

— É uma árvore-luar. — franzi a testa. Nunca tinha ouvido falar e ele percebeu.

— Imagino que não existam muitas em território humano. — balancei a cabeça.

— Nunca vi uma igual.

— Dizem que ela já estava aqui antes mesmo da fundação do castelo. — Aproximei-me alguns passos.

As raízes atravessavam toda a praça.

Toquei discretamente a casca do tronco. Era fria, muito lisa, quase como mármore.

Meu pai teria passado dias estudando aquela árvore.

Sorri sem perceber.

Talvez… se ele ainda estivesse vivo… gostaria daquele lugar.

A lembrança fez o sorriso desaparecer tão rápido quanto surgiu, e continuei caminhando.

Depois da praça, a quantidade de moradores diminuiu. As ruas tornaram-se mais silenciosas e as casas deram lugar a jardins, fontes, esculturas.

Tudo extremamente bem cuidado.

A sensação de estar entrando em um lugar importante era inevitável.

Até que finalmente avistei os portões.

Eles eram imensos e negros, esculpidos com o desenho de um dragão envolvendo uma árvore de raízes profundas.

Passei alguns segundos admirando os detalhes. Cada escama parecia ter sido entalhada individualmente. Era uma verdadeira obra de arte.

Dois guardas permaneciam diante da entrada.

Eram maiores do que Orion. Suas armaduras negras refletiam discretamente a luz do céu nublado.

Quando nos aproximamos, ambos bateram o punho contra o peito em sinal de respeito.

Os enormes portões começaram a se abrir lentamente. O som grave da pedra deslizando ecoou pelo pátio e meu coração voltou a acelerar.

Era aqui.

Era atrás daqueles portões que eu conheceria o homem que havia me comprado, e com quem eu iria me casar.

Meus dedos ficaram gelados, e sem perceber, comecei a torcer as pontas da manga do vestido. Sempre fazia aquilo quando estava nervosa.

Respirei fundo uma vez, depois outra. Não adiantou. Minha ansiedade parecia só aumentar a cada passo.

Orion diminuiu novamente a velocidade.

— Lady Eleanor — levantei os olhos. — Não precisa se preocupar. — não consegui esconder um sorriso nervoso.

— Acho que isso é um pouco impossível. — ele soltou uma pequena risada, discreta.

— Justo. — foi a primeira vez, desde que o conheci, que ele pareceu menos um capitão draconiano e mais... uma pessoa.

Aquilo me tranquilizou um pouco. Só um pouco.

Entramos.

O salão principal era tão grande que minha primeira reação foi parar de andar.

O teto parecia distante demais. Grandes colunas sustentavam toda a estrutura, as paredes eram decoradas com tapeçarias negras e douradas.

Lareiras aqueciam o ambiente.

E, apesar da imponência, o lugar era acolhedor. Não tinha o aspecto sombrio que eu imaginava.

Havia estantes com livros, plantas em vasos enormes, janelas que deixavam a luz natural entrar.

Meu olhar percorreu o salão inteiro.

E então… ouvi um som. Um leve arrastar, como algo pesado deslizando lentamente pelo chão de pedra.

Olhei na direção do ruído. Primeiro, apareceu uma ponta negra. Demorei um segundo para perceber.

Era uma cauda. Longa e coberta por escamas que brilhavam discretamente conforme atravessavam a luz da lareira.

Logo depois surgiu uma enorme asa. Ela permaneceu parcialmente fechada junto ao corpo de alguém que ainda estava escondido atrás de uma das colunas.

Meu corpo inteiro ficou imóvel. Meu coração parecia bater dentro da garganta. Então ele apareceu.

Era ainda maior do que eu imaginava. Talvez mais de dois metros de altura.

Os cabelos negros caíam até os ombros. Tinha dois chifres elegantes curvavam-se para trás da cabeça, escamas negras cobriam parte do rosto, do pescoço e dos braços e grandes asas repousavam dobradas junto às costas.

A longa cauda movia-se lentamente atrás dele, mas foram seus olhos que prenderam minha atenção. Dourados. Intensos. E estranhamente... calmos.

Ele me observava em silêncio, sem qualquer expressão de superioridade. Apenas… me observava.

Senti minhas pernas perderem parte da força. Era impossível não ficar intimidada.

Ele era lindo. Assustador. E, ao mesmo tempo… havia algo surpreendentemente sereno em sua presença.

Foi então que percebi um detalhe. Assim que nossos olhares se encontraram, ele deu um passo para trás, como se, deliberadamente, aumentasse a distância entre nós. Suas asas permaneceram completamente recolhidas, a cauda também, quase como se estivesse tentando parecer… Menos assustador.

E aquela foi a primeira coisa que quebrou completamente a imagem do monstro que eu havia construído em minha mente.

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