Capítulo 13 Asas de Obsidiana · Capítulo 13 de 18
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Capítulo 13

Quando acordei na manhã seguinte, a primeira coisa em que pensei foi na biblioteca, e sorri antes mesmo de abrir os olhos completamente.

Era estranho. Passei todo o tempo desde quando meu tio assinou o contrato até chegar ao castelo imaginando como seria viver entre dragões. Nunca imaginei que, no terceiro dia, estaria ansiosa para voltar a uma biblioteca.

Depois de me arrumar, tomei café da manhã olhando pela janela. O mesmo chá de maçã me esperava sobre a mesa.

Sorri discretamente. Ainda não sabia se aquilo era coincidência ou não.

Quando terminei de comer, decidi caminhar pelo castelo outra vez. Talvez encontrasse algum lugar novo.

Ou… talvez acabasse voltando para a biblioteca. Nem eu sabia.

Os corredores já estavam movimentados. Cumprimentei algumas pessoas que cruzaram meu caminho e recebi sorrisos de volta. A sensação de ser uma completa estranha começava, aos poucos, a desaparecer.

Enquanto caminhava, ouvi vozes vindo de uma varanda aberta. Me aproximei e, lá embaixo, no pátio principal, Kael conversava com alguns homens usando armaduras escuras.

Seu rosto estava sério, os ombros eretos. As asas estavam recolhidas e mesmo parado ele transmitia uma autoridade impossível de ignorar.

Parei por alguns instantes para observá-lo. Era curioso. Quando estava comigo, ele parecia apenas… Kael.

Ali, diante dos soldados… parecia realmente um líder.

Um dos homens abriu um enorme mapa sobre uma mesa de pedra e Kael inclinou-se para analisá-lo. Disse alguma coisa que não consegui ouvir e os outros assentiram imediatamente.

Eu não entendia nada sobre liderança, mas era fácil perceber que todos confiavam nele.

Continuei observando por mais alguns segundos. Até que, sem qualquer motivo aparente… Kael levantou a cabeça e olhou diretamente para a varanda.

Na minha direção.

Prendi a respiração.

Como… como ele sabia que eu estava ali?

Fiquei completamente imóvel e, por um instante, pensei em sair correndo mas isso seria ainda mais estranho.

Então apenas sorri levemente. Ele retribuiu com um discreto movimento de cabeça, nada exagerado. Apenas o suficiente para que eu percebesse, depois voltou imediatamente para a reunião.

Meu coração batia um pouquinho mais rápido. Estranho.

Continuei andando. Depois de alguns corredores, encontrei uma porta aberta que dava acesso ao lado de fora, e uma brisa fresca bagunçou meus cachos quando avistei um jardim enorme, muito maior do que eu imaginava existir no alto de uma montanha.

Pequenos caminhos de pedra serpenteavam entre canteiros floridos. Algumas árvores faziam sombra sobre bancos de madeira e o som de água correndo vinha de uma fonte mais adiante.

Respirei profundamente. O ar tinha cheiro de terra molhada. E de flores.

Comecei a caminhar sem pressa.

Passei os dedos sobre algumas folhas. Reconheci poucas plantas. A maioria era completamente diferente de tudo o que existia na vila onde cresci.

Foi então que algo chamou minha atenção. Em um dos canteiros havia pequenas margaridas. Margaridas comuns.

As mesmas que nasciam perto da antiga casa do meu pai.

Me aproximei imediatamente e abaixei diante delas. Toquei delicadamente uma das pétalas brancas e meu peito apertou.

— Não acredito… — murmurei. Como aquelas flores tinham ido parar ali?

Enquanto eu as observava, ouvi passos atrás de mim.

— Pensei que talvez as reconhecesse. — levantei a cabeça. Kael.

Ele havia trocado as roupas formais da reunião por uma túnica escura mais simples.

As asas permaneciam dobradas junto às costas e seu olhar alternava entre mim e as flores. Sorri sem conseguir esconder a surpresa.

— Elas existem aqui? — ele caminhou lentamente até o canteiro e parou a uma distância respeitosa.

— Não. — franzi a testa, olhei novamente para as margaridas depois para ele.

— Não? — Kael balançou a cabeça.

— Não existiam. — meu coração pareceu esquecer uma batida. Fiquei olhando para ele, tentando entender e ele continuou com a mesma calma de sempre.

— Pedi que alguns jardineiros viajassem ao território humano para trazer espécies que talvez fizessem você se sentir um pouco mais em casa.

Por alguns segundos esqueci completamente como falar.

Olhei para as flores outra vez, depois para ele. De novo para as flores.

Ele…tinha feito aquilo? Por minha causa?

Eu não havia comentado que sentia falta delas.

Na verdade… nunca tinha falado sobre margaridas.

Minha garganta apertou. Abaixei novamente diante do canteiro, passei a ponta dos dedos por uma das flores e as lágrimas ameaçaram aparecer porque, pela primeira vez desde que chegara ao castelo, algo dali me lembrava da minha infância, da época em que meu pai ainda estava vivo.

Respirei fundo, e quando consegui olhar para Kael novamente, minha voz saiu quase como um sussurro.

— Obrigada… — ele sorriu, daquele jeito pequeno e discreto como sempre.

— Fico feliz que tenha gostado. — naquele instante, tive a estranha sensação de que nenhuma riqueza do mundo seria capaz de significar tanto quanto um simples canteiro de margaridas.

E, pela primeira vez, senti vontade de diminuir a distância entre nós.

Ainda não tinha coragem. Mas a vontade estava ali. E isso, para mim, já era uma novidade.

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