Capítulo 6
Meu coração disparou.
Olhei rapidamente ao redor do quarto, como se houvesse algum lugar para me esconder.
Ridículo.
Eu estava em um quarto que, aparentemente, agora era meu, mas ainda assim, a simples ideia de ficar sozinha com ele fez meu estômago se encher de borboletas... ou de nervosismo. Talvez dos dois.
Respirei fundo.
— P-pode entrar. — a porta se abriu apenas o suficiente para que ele passasse.
Apesar de ser muito mais alto do que qualquer pessoa que eu conhecia, Kael entrou devagar, tomando cuidado para que as pontas das asas não encostassem no batente.
Sua cauda acompanhava cada movimento com uma elegância quase hipnotizante.
Assim que entrou, fechou a porta atrás de si, mas permaneceu perto dela, bem longe de mim.
Outra vez meu olhar caiu automaticamente na distância entre nós.
Era quase como se existisse uma linha invisível que ele se recusava a atravessar.
— Espero que não esteja interrompendo seu descanso. — balancei a cabeça rapidamente.
— Não. — minha resposta saiu alta demais e corei imediatamente. Ele pareceu fingir que não percebeu, seus olhos dourados percorrendo o quarto por um instante.
— Lyria mostrou tudo?
— Sim. — silêncio. Mais um daqueles silêncios que, estranhamente, não pareciam desconfortáveis, apenas… calmos.
Kael observava a estante.
Depois a janela.
E por fim, voltou a olhar para mim.
— Gostou do quarto? — olhei novamente ao redor.
— Muito. É lindo. — o canto de sua boca ergueu-se discretamente. Era um sorriso tão pequeno que, se eu piscasse, talvez não percebesse.
— Fico feliz. — abaixei os olhos para o livro que ainda segurava.
Meus dedos acariciavam distraidamente a capa de couro e ele percebeu.
— Gosta de ler? — levantei a cabeça, empurrei meus óculos levemente para cima no nariz e sorri antes mesmo de responder.
— Muito. — acho que foi o meu primeiro sorriso espontâneo que ele viu, porque sua expressão mudou de um jeito quase imperceptível.
Ele parecia… aliviado.
— Lyria comentou que encontrou você na estante. — olhei para os livros novamente.
— Eu não sabia que eram meus.
— São seus. — Passei os dedos pela lombada de outro volume.
— Nunca tive tantos livros. — assim que terminei de falar, me arrependi.
Aquilo soava como uma reclamação da minha antiga vida.
Ou pior, como um pedido de pena.
Mas Kael não demonstrou nenhuma das duas coisas.
— Espero que encontre alguns de que goste.
Era isso. Nada mais.
Sem perguntas inconvenientes.
Sem comentários.
Sem curiosidade sobre minha pobreza.
Apenas esperança de que eu gostasse dos livros.
Quanto mais ele falava, mais difícil ficava conciliar aquele homem com as histórias que ouvi durante toda a vida.
Respirei fundo.
Talvez fosse minha vez de fazer perguntas.
— Posso… — ele aguardou pacientemente. — Perguntar uma coisa?
— Claro. — olhei diretamente para ele pela primeira vez.
— Por que eu? — a pergunta escapou antes que eu pudesse pensar, e o silêncio que veio em seguida pareceu durar uma eternidade.
Kael não desviou o olhar.
Também não pareceu ofendido, pelo contrário, parecia ter esperado aquela pergunta desde o momento em que nos conhecemos.
Ele caminhou lentamente até uma das poltronas próximas à lareira mas não se sentou, apenas apoiou uma das mãos no encosto.
Continuava mantendo distância.
— Gostaria da resposta curta… — sua voz permaneceu calma — Ou da verdadeira? — pisquei algumas vezes.
Não esperava aquilo.
— Existe diferença? — pela primeira vez, ouvi uma risada.
Baixa.
Quase inaudível.
Mas era uma risada.
Ela transformou completamente sua expressão, e meu coração fez algo estranho dentro do peito.
— Sim. — respondeu — A resposta curta é que o tratado determina que a esposa do líder seja humana. — assenti. Essa parte eu já sabia.
— E a verdadeira? — Kael respirou profundamente. Os olhos dourados pareceram perder o foco por um instante como se buscassem lembranças muito antigas.
— Eu nunca escolhi uma esposa. — franzi a testa — O conselho escolhe. — olhei para ele sem entender.
— Então… — ele assentiu antes mesmo que eu terminasse a pergunta.
— Eu nunca a tinha visto antes de hoje. — meu cérebro demorou alguns segundos para processar aquilo.
— Como assim?
— Seu nome chegou até mim apenas quando tudo já havia sido decidido. — fiquei completamente imóvel.
Então… ele também não escolhera aquilo?
Passei dias imaginando que algum líder poderoso havia apontado para um retrato meu e dito:
"Quero essa."
Mas não.
Pelo jeito ele havia recebido a notícia quase da mesma forma que eu.
A diferença era que ninguém o vendera.
Mesmo assim, parecia não ter tido escolha.
— Eu sinto muito. — as palavras escaparam antes que eu pudesse impedi-las. E ele arqueou levemente as sobrancelhas.
— Pelo quê? — corei.
— Eu… — olhei para o chão — Achei que tivesse sido uma escolha sua. — quando voltei a encará-lo, havia um brilho curioso em seus olhos.
— Está dizendo que prefere saber que não foi? — minha boca abriu.
Depois fechou, e meu rosto inteiro queimou.
— N-não foi isso que eu… — meu cérebro simplesmente parou de funcionar.
Kael desviou o olhar. E... sorriu.
Um sorriso verdadeiro desta vez.
Pequeno, gentil, divertido.
Nunca zombando de mim.
Apenas achando graça da situação.
Foi a primeira vez que percebi como ele ficava bonito quando sorria. Muito bonito.
Bonito até demais.
Desviei os olhos imediatamente.
Meu coração parecia decidido a me humilhar.
— Peço desculpas. — sua voz voltou a ficar séria — Não quis deixá-la constrangida. — balancei a cabeça rapidamente.
— Tudo bem. — não estava tudo bem. Eu queria cavar um buraco no chão e morar nele para sempre.
O silêncio voltou mas agora parecia diferente.
Mais leve, muito mais leve.
Foi então que um som inesperado rompeu a tranquilidade.
Meu estômago.
Fechei os olhos.
Não.
Não.
Por favor, não.
O silêncio foi substituído por outro ruído ainda mais alto.
Meu estômago resolveu anunciar para todo o castelo que eu estava morrendo de fome e eu queria desaparecer.
Lentamente abri um dos olhos e Kael permanecia exatamente onde estava.
Sem rir, sem comentar, sem me olhar de forma estranha.
Apenas perguntou, com toda a naturalidade do mundo:
— Ainda não almoçou, não é? — levei as duas mãos ao rosto. Acho que nunca senti tanta vergonha em toda a minha vida.
Ele esperou alguns segundos antes de continuar.
— Gostaria de jantar comigo? — levantei a cabeça devagar.
Jantar. Com ele.
Meu coração acelerou de novo.
Talvez aquele fosse apenas um jantar. Mas, por algum motivo parecia o verdadeiro começo da nossa história.