Capítulo 3
Meu coração batia tão alto que tive a impressão de que todos naquele salão conseguiam ouvi-lo.
Eu não conseguia desviar os olhos dele, e não era apenas por causa das asas, ou dos chifres, ou da cauda que se movia lentamente atrás de si.
Era porque havia alguma coisa em sua presença que ocupava o ambiente inteiro.
Não era arrogância, também não era agressividade.
Era calma. Uma calma quase absurda para alguém cuja apenas a aparência seria suficiente para fazer qualquer pessoa atravessar a rua para o lado oposto.
Respirei fundo, permanecendo imóvel. E ele também, como se estivesse me dando tempo.
Abaixei os olhos por um instante, tentando organizar os próprios pensamentos.
"Diga alguma coisa, Eleanor."
Minha garganta resolveu ignorar completamente a ordem.
— Meu senhor — a voz de Orion rompeu o silêncio. Ele levou o punho ao peito em um gesto que já havia visto os guardas fazerem do lado de fora — Lady Eleanor chegou em segurança. — o homem diante de mim desviou o olhar para Orion apenas por um segundo, assentindo discretamente
— Obrigado, Orion. — Sua voz não era nada parecida com a que eu imaginava.
Sempre imaginei que dragões falassem de forma áspera, quase como um rugido constante.
Mas sua voz era grave, profunda e suave. Cada palavra parecia cuidadosamente escolhida antes de ser pronunciada.
Ele voltou a olhar para mim. Dessa vez, seus olhos dourados permaneceram nos meus apenas o suficiente para não parecer invasivo. Logo desviaram para o chão, como se quisesse diminuir o peso daquele momento.
Aquilo me surpreendeu. Era como se ele também estivesse tomando cuidado.
— Lady Eleanor — Meu nome saiu de seus lábios com uma delicadeza inesperada. Fiz uma pequena reverência quase por instinto.
— M-meu senhor… — minha voz saiu tão baixa que tive vergonha de mim mesma. Ele permaneceu em silêncio por alguns segundos.
Então… sorriu. Era um sorriso pequeno, discreto, quase imperceptível mas suficiente para transformar completamente seu rosto.
As escamas continuavam ali, os chifres também. Mesmo assim… aquele sorriso o fazia parecer muito menos assustador.
— Não precisa me chamar de assim, se isso a deixa desconfortável. — me ergui rapidamente e tive certeza de que havia entendido errado.
— Eu… — ele continuou antes que eu conseguisse formular qualquer resposta.
— Meu nome é Kael.
Kael.
O nome combinava com ele. Forte, simples e memorável.
— Pode me chamar assim — meu cérebro simplesmente parou. Chamá-lo pelo nome?
Isso seria considerado falta de respeito em qualquer lugar que eu conhecia.
Talvez ele tenha percebido minha expressão, porque soltou um leve suspiro.
— Ou pode continuar me chamando como preferir. — olhei discretamente para Orion, e ele parecia completamente tranquilo.
Então aquilo era normal?
Meu nervosismo devia estar estampado no rosto, porque Kael deu mais um pequeno passo para trás. Outra vez.
A distância entre nós aumentou.
Só naquele instante percebi que ele não havia se aproximado em nenhum momento.
Desde que entrou no salão, quem diminuía ou aumentava a distância era sempre ele.
Meu peito apertou por um motivo que eu ainda não compreendia.
Será que… ele fazia aquilo por minha causa?
— Imagino que esta viagem tenha sido cansativa. — assenti e finalmente consegui produzir algum som.
— Sim — minha voz quase desapareceu no enorme salão. Ainda assim, ele ouviu.
— Deve estar com frio. — olhei para minhas próprias mãos. Estavam mesmo tremendo.
Não sabia dizer se por causa do clima ou do medo. Provavelmente pelos dois.
Kael olhou discretamente para uma das empregadas que aguardava próximo à porta.
— Poderia trazer um chá?
— Claro, meu senhor. — ela saiu imediatamente e ele voltou a me encarar.
— Prefere chá de frutas ou ervas? — pisquei algumas vezes.
Passei toda a viagem imaginando como seria nosso primeiro diálogo. Nenhuma das possibilidades envolvia escolher chá.
— Frutas… — minha resposta saiu automática.
— Certo. — silêncio novamente, mas dessa vez não parecia constrangedor. Apenas novo.
Eu não fazia ideia de como conversar com ele.
Talvez ele também não soubesse como conversar comigo.
Aquela possibilidade fez surgir um pensamento inesperado.
"Será que ele também está nervoso?"
Afastei a ideia imediatamente.
Era impossível.
Ele era o líder daquele lugar e eu era apenas a humana comprada para cumprir um tratado.
Não fazia sentido que estivesse nervoso.
Kael cruzou as mãos atrás do corpo. As asas permaneceram completamente recolhidas.
Percebi que suas garras eram compridas. Mesmo assim, ele mantinha os dedos cuidadosamente dobrados, talvez para não parecer ameaçador.
Quanto mais eu observava, mais pequenos detalhes chamavam minha atenção: sua postura era extremamente controlada, a cauda quase não se movia, as asas permaneciam imóveis.
Ele parecia estar tomando cuidado com cada gesto como alguém que não queria quebrar alguma coisa muito frágil.
Ou assustar alguém.
Meu coração começou a desacelerar e a empregada voltou carregando uma bandeja de prata. O aroma doce de frutas vermelhas espalhou-se pelo salão.
Ela entregou a xícara primeiro para mim. Depois outra para Kael.
Ele apenas segurou a dele, não bebeu, esperou.
Demorei alguns segundos para entender que ele estava aguardando que eu me sentisse confortável.
Abaixei os olhos para o chá fumegante e segurei a xícara com as duas mãos. O calor foi imediatamente bem-vindo.
Respirei fundo. O cheiro lembrava framboesas.
Sorri discretamente e Kael percebeu. Seu próprio semblante pareceu relaxar.
Foi um detalhe tão pequeno que talvez outra pessoa nem notasse.
Mas eu notei, e aquilo me deixou curiosa.
Por quê? Por que ele parecia... aliviado por eu ter gostado do chá?
— Lady Eleanor, hoje não conversaremos sobre o tratado — meu coração acelerou outra vez — Nem sobre casamento — franzi a testa e ele continuou calmamente — Você passou dias viajando até aqui. Imagino que esteja cansada, confusa e assustada — as palavras foram ditas sem qualquer julgamento, como se ele simplesmente aceitasse que eu me sentia daquela forma — Não seria justo exigir qualquer conversa importante hoje.
Fiquei sem reação. Aquilo não fazia sentido. Era exatamente o contrário do que imaginei durante toda a viagem.
— Quero apenas que descanse — olhei para ele em silêncio — Amanhã, se desejar… — ele fez uma pequena pausa — Responderei qualquer pergunta que tenha.
Se desejar.
Aquelas duas palavras ecoaram dentro de mim. Ninguém dizia isso para mim. Ninguém perguntava o que eu queria.
Meu tio nunca perguntou.
Os vizinhos nunca perguntaram.
Nem mesmo quando decidiram meu futuro.
Mas aquele homem, o ser com a aparência mais intimidadora que eu já tinha visto… ele era a primeira pessoa, em muito tempo, que parecia considerar que eu podia escolher alguma coisa.
Ainda que fosse apenas o momento de fazer perguntas.
Eu não sabia o que responder, então apenas assenti como sempre fazia quando as palavras me abandonavam.
Kael pareceu compreender. Chamou uma das criadas com um simples olhar.
— Lyria. — uma mulher de cabelos grisalhos aproximou-se.
Também possuía pequenas escamas negras próximas às têmporas.
— Sim, meu senhor?
— Poderia mostrar os aposentos da Lady Eleanor?
— Será um prazer. — Kael voltou-se para mim.
— Espero que se sinta confortável aqui. — por um instante, nossos olhares voltaram a se encontrar e, pela primeira vez desde que cheguei ao território dos dragões, o medo deixou de ser a única coisa que eu sentia.
Ainda estava assustada. Muito.
Mas agora havia mais espaço para a curiosidade.
Porque o homem que todos diziam ser um monstro, até aquele momento, havia sido o mais gentil que conheci em muitos anos.