Capítulo IV
Corinna e Felisberto Taveira conversaram largo espaço. Gastão de Noronha, reparando no interesse e aparente intimidade com que sua filha, estranha às danças e a tudo, se entretinha, cuidou em averiguar quem fosse o cavalheiro. As informações deram em resultado que o fidalgo ficou contente. Houve ali um sujeito que respondeu assim aritmeticamente à pergunta do nobilíssimo Gastão:
—João Bernardo Taveira, quando casou, dotou-se com cento e cinquenta contos; a mulher trouxe-lhe de dote cento e dez contos: soma duzentos e sessenta contos. Depois, o Taveira herdou de sua cunhada cento e dez contos: soma trezentos e setenta contos. O negócio desta casa tem ido sempre em crescente prosperidade. Dou-lhe que, feitas as despesas domésticas, o capital de trezentos e setenta contos, em trinta anos, tenha rendido nove por cento. Aí tem vossa excelência
que a casa de João Bernardo Taveira deve hoje valer perto de setecentos contos, que repartidos por dois filhos...
—Trezentos e cinquenta contos—atalhou o fidalgo—é uma fortunasita sofrível em Portugal...
—Eu não se me dava de a sofrer em Londres—disse o outro.
Em vista do que, o condescendente pai estimou que sua filha gastasse o tempo com gente daquela bitola.
Ao abrir da manhã entrou Felisberto no quarto de Antônio de Azevedo, e encontrou-o emalando a sua roupa.
—Isso que é?—disse Taveira—onde vais tu?
—Vou para Barcelos—respondeu serenamente o hóspede—Basta de vida regalada: vamos ao trabalho, que é o único regalo dos infelizes. Estou aqui deslocado, meu amigo. Esta vida do teu galhardo Porto não se fez para mim. Há de ser-me mais consoladora a soledade e a tristeza de minhas irmãs. Desgraçados com desgraçados.
—Mas—interrompeu Felisberto—que vais fazer em Barcelos?
—Abrir um escritório de requerimentos, e nos dias em que merecer um tostão com o meu trabalho, dar a minhas irmãs um banquete que valha um tostão; e nos dias em que a minha ciência das leis não tiver que fazer com a paz em que vivem os homens, farei discursos a minhas irmãs para persuadi-las à resignação.
De qualquer das maneiras carecem elas de mim, e eu delas.
—E porque não hás de tu—atalhou o leal amigo—dizer ao teu Felisberto que tuas irmãs estão precisadas, e que os prazeres da vida te amarguram enquanto elas estão penando? Abre as minhas gavetas, e manda dinheiro a tuas irmãs.
—Obrigado, meu bom irmão. Se a amizade te impõe o dever de ser generoso, a estima de mim próprio obriga-me a ser homem. Aquele que vive de empréstimos, sem ter exaurido as suas faculdades de aptidão para o trabalho, pode hipotecar a sua palavra, mas a dignidade, não, que a não tem.
—Faz a tua vontade, Azevedo; mas vê lá que o teu catonismo de dignidade te não leve até à ingratidão!...—disse com branda severidade o filho do milionário.
—Ingratidão!—acudiu o mancebo com sincera mágoa.
—É ingratidão esconderes tua vida de quem está com a alma aberta convidando-te a dar-lhe o prazer de te ser útil. É ingratidão privares-me da alegria de te fazer bem a ti e aos teus.
—Perdoa-me, pois...—interrompeu Azevedo, apertando-lhe estremecidamente a mão.
—Estás perdoado—tornou Felisberto abraçando-o; mas hás de cumprir uma pena. Ficarás mais algum tempo conosco. Tuas irmãs não são felizes; mas necessidades creio que as não sofrem. Teu irmão
Joaquim reparte com elas o seu ordenado, e bem sabes que quatrocentos mil reis abundam à subsistência de uma família em Barcelos... Vou ajudar-te a desfazer a mala.
Felisberto ia desdobrando o pouco fato do seu hóspede, e falando ao mesmo tempo:
—Porque saíste tão cedo do baile, Azevedo? Às onze horas já te não vi...
—Estava triste...
—E que fizestes até às seis horas e meia fora de casa?
—Andei a fazer a digestão da felicidade com que saí de lá—respondeu sorrindo amargamente Azevedo.
—Que te pareceu aquela mulher com quem falaste? a Corinna?
—Chama-se Corinna?
—Da Soledade! Vê tu que nome, que poesia, e que romance! Quanto daria o Eugênio Sue por um nome destes? Quando aquela menina for conhecida dos poetas menores do Porto, todas as poesias se chamam «Corinnas da Soledade.» Que te pareceu ela a ti, alma de gelo?
Antônio de Azevedo corou, lembrando-se de que o seu amigo ouvira dela ou de outra a singular saída da sua apresentação, adornada comicamente de motejos femininos, os mais pungentes de quantos há.
—Riram-se de mim?—perguntou ele—Tu de certo não ririas, meu Taveira!
—Se riram! que desproposito! Que há em ti provocador de riso?
—Entre-lembro-me de ter dito não sei quê a essa senhora... O que foi está-me fazendo a impressão de um mau sonho.
—Disseste-lhe que eras infeliz. Tu crês que a infelicidade faça rir alguém? Corinna ouviu-te, estranhou o infortúnio que se confessa em bailes; mas não sorriu, condoeu-se, lastimou-te, e pediu-me que te levasse amanhã ao baile da Torre da Marca.
—É curiosidade de mulher ociosa?
—Não: é simpatia...
—Com a desgraça?—atalhou Azevedo.
—E com o homem, creio eu; muito mais com o homem. Uma menina de vinte anos, bela, nobre, e não sei se rica, só por milagre simpatiza com o homem desgraçado.
—Então...—disse Antônio de Azevedo, e susteve-se.
—Então, ias tu perguntar-me se seria amor?
—Não: o infortúnio estraga as faculdades da razão, mas não as cega, meu amigo.
—O que me espanta é o sangue frio com que tu ouves esta revelação, que faria endoidecer muitos felizes!—tornou Felisberto—Dar-se-á caso que tu sejas aleijado de coração! Ó Azevedo, tu já amaste?
—Não tive ainda tempo. Quando a alma trabalha sempre, o coração nunca está ocioso. Bem sabes que fiz a minha formatura à custa de muitas vigílias. Acabei
de formar-me, e fui para Lisboa requerer. Estive lá nove meses; e, neste longo prazo de desgostos, o menor foi a fome, e o maior foi a convicção da minha nulidade. Uma vida assim, nem por descuido se acha ilaqueada nas armadilhas do amor.
—Mas deves ter sentido uma aspiração que é comum: deves ter sonhado uma mulher.
—Não, porque adormecia sempre com a barra de ferro da desgraça sobre o peito. As mulheres que via nos meus sonhos eram minhas quatro irmãs lindas, desamparadas e pobres. Tinha o coração cheio delas. A Providência divina tem-me feito a mercê de não ajuntar uma quinta imagem às quatro infelizes que sobejam à minha sensibilidade.
—Ora vamos—tornou Felisberto Taveira—Corinna da Soledade não é mulher que algum homem veja isentamente. Não te havia ser penoso amá-la, pois não?
—Tem graça a pergunta!—respondeu Azevedo com afável sorriso—Creio que me seria muito fácil amá-la se eu fosse Felisberto Taveira, ou um desses mil que recebem um raio deste sol universal da esperança ou da alegria. Como queres tu que a minha alma saia do seu abismo escuro, e vá como doida banhar-se na luz imensa, neste mar de paixões deliciosas que eu mal conheço dos romances que traduzi, como quem cópia caracteres hebraicos, sem os entender? Meu amigo, eu creio que o amor só resiste às lágrimas, que são suas: há um chorar que vem de outras angústias mais severas e profundas; e, a meu ver, estas lágrimas vão ao
coração, e devoram o sentimento melindroso do amor.
—É uma teoria, que estás compendiando para um futuro livro, meu Azevedo; estimo que desbanques o Balzac, o Ovídio, o Stendhal, o Castilho, e quantos escreveram do amor e da arte de amar; entretanto, convém-te recolher experiencias. Começas amanhã a experimentar no baile da Torre da Marca.
—Tu és tão bom que me deixas ficar em casa!—disse Azevedo.
—Não posso: dei a minha palavra a Corinna, contando com a tua condescendência.
—Iremos—acudiu Antônio de Azevedo.
Neste mesmo dia, Joaquim, guarda-livros dos Taveiras, foi ao quarto de seu irmão, e disse-lhe:
—Trago-te uma boa nova, Antônio. O senhor Taveira chamou-me ao seu escritório, e aumentou o meu ordenado a um conto e duzentos, para que eu continuasse a dispender na minha decência e pequenas negociações que faço a quantia que dava a nossas irmãs. Beijei-lhe as mãos, e agradeci-lhe em nome delas, e em teu nome. Agora vê tu se precisas de alguma quantia para os teus arranjos, que eu tenho de sobra. Se queres tornar para Lisboa, vai, Antônio, que te não hão de faltar meios. Daqui a meia dúzia de anos as nossas irmãs podem estar casadas com lavradores remediados, se eu tiver vida e saúde. Dois mil cruzados é um bom dote para cada uma, e eu sinto-me com bastante aptidão e fortuna para os angariar de dois em dois anos, sem lhes diminuir a elas a mesada.
Quero ver se tu agora com esta boa notícia te não alegras, Antônio! Andas aí tão acabrunhado que pareces um velho! Quem te vir assim abatido e descuidado do teu asseio, há de pensar que algum remorso te atormenta! Vive como toda a gente mais infeliz do que nós somos. Se foste contrariado, se trabalhaste muito para te formar, agradece a Deus a inteligência com que venceste todos os obstáculos. Se não tens agora emprego, tu serás empregado. Os senhores Taveiras morrem por ti, e tem muitos amigos na capital. Já o pai me disse que, em caindo este ministério hás de ser delegado ou administrador de um bairro aqui do Porto. Depois, as nossas irmãs se estiverem solteiras, veem para a nossa companhia, e vão conosco aos bailes e aos teatros...
—Cala-te, criança!—interrompeu Antônio—Se as nossas irmãs hão de ir conosco aos bailes e aos teatros, como queres tu que elas casem com lavradores, dotadas a dois mil cruzados! Vê se as dotas, Joaquim; e dá-lhes os seus maridos lavradores, e não as chames à cidade. Não te lembras daqueles choupos onde cantavam de madrugada e ao anoitecer os pintassilgos, debaixo da janela do nosso quarto?
—Lembra.
—Pois olha que não há música mais suave a corações felizes! Deixa que nossas irmãs a gozem por muito tempo; que, se a esquecerem por outra, em vão te cansarás em dar-lhes novas alegrias. Faz por que elas não tenham de vender o seu patrimônio, que está na pequena propriedade onde os passarinhos cantam nos choupos, e onde o anjo da paz mora com elas. Quanto ao oferecimento que me fazes do teu dinheiro, meu bom irmão, pode ser que eu to aceite para uma longa viagem, visto que já não sou aqui preciso para meditar no futuro esteio da nossa família.
—Pois onde queres tu ir?—atalhou Joaquim.
—Penso em ir ao Brasil. Dizem-me que há ali trabalho para os braços de todas as nações, e particular amor e bem-querença para o português que trabalha. O cansaço do espírito enfraqueceu-me os braços, é verdade; mas, ainda assim, quando eu puder acabar de todo com este incômodo hóspede chamado a ciência—a minha estúpida e inútil ciência!—então pode ser que os braços se revigorem, e eu restitua à minha própria dignidade, em trabalho, o que perdi na inatividade de doze estereis anos de lidas de pensamento e de vans ambições. Outras ambições me hão de levar ao Brasil: é ajudar-te, Joaquim; é ser, como tu, digno da estima dos nossos e da estima de estranhos. O homem inerte, aqui no Porto, é desconsiderado: devia sê-lo assim em toda a parte onde fosse um e único o padrão da honra. Não sei em que conta sou tido pelas raras pessoas que me conhecem aqui; mas escuto o que se diz dos pouquíssimos que por aí vagueiam de rua em rua, afetando com jactanciosa necedade que o Porto pode imitar Lisboa no seu peculiar característico da vadiagem. Vexa-me a atividade desta boa gente, que parece trabalhar incessantemente para dar
nome de laborioso a este país! Ando como humilhado ao par do comerciante, do artista, do escritor e do último operário. Esta ânsia de lavor e de fadiga chega a mortificar-me. É ver que benéfica influência tem a labutação dos mais materiais mesteres sobre os espíritos exclusivamente dados às funções da inteligência! Parece que todo o homem anda em competência com o outro na sua esfera de trabalho. O comerciante agencia grandes operações em poucas horas; as forjas convertem em formas maravilhosas milhares de arrobas de ferro em rápido tempo; o poeta, se outro fito o não descaminha, realça na facundia e seleção de seus poemas; o romancista, com este mesmo mundo de boas paixões e febril atividade, comporá livros sobre livros sem lhe ser mister explorar as sinuosidades do vício para ser bem-quisto e lido. E que sou eu aqui, meu irmão? Que fiz eu do meu cabedal de inteligência? Deixei-o congelar-se sob a mão do infortúnio, quando devia rasgar umas cartas de bacharel afrontosas, e vestir a jaqueta do operário, em cujas lapelas o respeito público apresilha muitas vezes a condecoração, invisível sim, mas venerada na consciência dos que nobilitam o trabalho.
... Eu tenho a sisudez de poupar o leitor ao muito mais estirado discurso do bacharel. Falou muito, como falam os misantropos quando uma luzinha de esperança lhes lampeja na sua escuridade. A sua esperança sorria-lhe de além-mar, do céu hospedeiro do novo-mundo.