Capítulo VI Estrelas Propícias · Capítulo 6 de 22
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Capítulo VI

Quis o fidalgo do Minho apalpar o coração do filho do milionário, pessoalmente. A sua prosápia sofria-lhe que, ajeitando-se o ensejo, ele mesmo se oferecesse para sogro, e poupasse o tímido moço aos embaraços de pedir-lhe a filha, e aos receios de ser mal acolhido.

Ouviu Felisberto Taveira uma longa e não falsa descrição das virtudes e prendas de Corinna da Soledade. Aqui se dá um fragmento da paternal exposição:

—Minha filha, posto que vivesse na melhor roda de Paris, e a rodeassem os mais graduados moços daquele viveiro da elegância, nunca se cativou dalgum. Não lhe direi que ela se isentasse por soberba do seu nascimento, bem que pudesse tê-la, porque meu quinto avô saiu da casa dos marqueses de Vila-Real, por onde somos Noronhas; todavia, não era vaidade a frieza de Corinna. Bem pode saber vossa senhoria que

o coração é de essência democrata, e ao coração se deve o triunfo da democracia, em virtude de se irem a pouco e pouco amolecendo as durezas de que as antigas educações calejavam o coração da mulher de linhagem. O que minha filha tinha e tem, era um juízo prudencial à prova de todas as Veleidades e pompas, que seduzem o vulgar das meninas. Os seus gostos foram sempre moderadíssimos; riquezas nunca a deslumbraram; os bailes e os banquetes era preciso obrigá-la a gozá-los; tudo lhe era pesado, menos a solidão, a meditação e a obscuridade. Cuidei sempre que minha filha seria insensível ao prazer de se ver amada, e mais ainda ao de receber satisfeita a corte de algum moço. Em Portugal, principalmente, é que não devia esperar vê-la possuída de sentimentos amorosos; porque, sem desaire da nossa pátria, devemos confessar que nós, os portugueses, temos em amor uma certa gravidade, que toca a extrema do aborrecimento. Falta-nos um certo espírito pétillant, um não sei quê de que as mulheres se deixam seduzir. Não acha?

—Sim, senhor... nós temos isso...—respondeu Felisberto Taveira, descobrindo um grande fundo de ridiculez através do aspeito encanecido do fidalgo.

—Sem dúvida nenhuma... Pois, meu caro senhor Taveira, penso poder afirmar-lhe que a minha filha está pagando o universal tributo. Descobri que ama! Só o Porto podia fazer tal milagre!

—É muita honra para o Porto, senhor Noronha! e muita mais ainda para o homem escolhido.

—Que vossa senhoria conhece perfeitamente...

—Eu?...—balbuciou Taveira, quase convencido de que o fidalgo aludia a Antônio de Azevedo.

—Sim, senhor: conhece-o como às suas mãos, porque vossa senhoria e ele formam dois seres em um só ser: são inseparáveis.

Isto acabou de persuadir Taveira, que, na mais Cândida boa fé, acrescentou:

—E creia vossa excelência que a pessoa preferida pela senhora D. Corinna tem virtudes e coração dignos dela.

—Creio, creio, e o meu maior prazer era vê-los unidos, em quanto eu tenho vida e alegria para poder felicitar-me de tão boa união.

—Agora me convenci—acudiu Felisberto—de que vossa excelência ama sinceramente sua filha, e viu com benignos olhos a inclinação desigual que ela manifestou.

—Inclinação desigual! Eu não sou parvo de fidalgas desigualdades, senhor Taveira! Soberania há uma só, que é a da virtude: o resto são convenções humanas sem critério nem fundamento real. O que eu quero é ver minha filha feliz. Se os meus apelidos valem alguma coisa, meus netos hão de chamar-se Noronhas, e a todo tempo que eles queiram humilhar arrogâncias de outros nobres, poderão sempre abrir a história, na certeza de que encontram o nome de um avô em cada página. Os tempos são outros, senhor Taveira, porque são outros os corações. Violentar a vontade

de minha filha!... Deus me feche os olhos antes que eu tal faça! Respeito-lhe a inclinação, que ela manifestou, porque sei que a sua dignidade foi a primeira voz que lhe deu conselho.

—Admiro a grandeza de sua alma!—tornou Taveira com mui sisuda e admirativa satisfação—E mais me espanta que vossa excelência, antes de aceder à vontade de sua filha, não curasse de saber se o homem escolhido é bastante rico a mantê-la na decência com que foi criada.

—Não, senhor, não quis saber se era rico: o que perguntei foi se era bem comportado, se tinha granjeado a estima pública, se seria um bom marido e um bom pai. Unanimemente me disseram que sim.

—E disseram-lhe a verdade, senhor Gastão de Noronha—confirmou Taveira—A riqueza de Antônio de Azevedo só bem lha podem avaliar os que mais perto vivem de sua nobre alma.

—A riqueza de quem?—atalhou Gastão de Noronha com um gesto de irrisório espanto.

—De Antônio de Azevedo Barbosa—tartamudeou Taveira, corrido do engano em que tinha estado.

—Não nos temos entendido!... Pois vossa senhoria cuida que eu estou falando desse tal sujeito?

—Cuidava... Pois não é ele a pessoa distinguida por sua filha?!... Perdão! eu entendi mal.

—Vejo que sim; e eu peço também perdão de entender mal, cuidando que era outra a pessoa... Ora esta!... Pois não é o senhor Felisberto Taveira?

—Eu!

—Sim, o senhor!

—Não pensei tal... e creio que vossa excelência entendeu mal a propensão da senhora D. Corinna, posto que a escolha me daria muita glória.

—Muito bem: façamos de conta que estivemos a fantasiar—tornou Gastão simulando um desenfado risonho, que lá por dentro era acesso de zanga e vergonha.—Pelo que diz respeito ao senhor Antônio de... como é?

—Antônio de Azevedo.

—Ah! sim, de Azevedo... filhote de Barcelos?

—Justamente.

—Não sei quem são os Azevedos de Barcelos... Sejam lá quem forem, meu caro senhor Taveira... tenho a dizer-lhe...

—Os Azevedos de Barcelos—interrompeu com louvável desabrimento Felisberto—são tão nobres como os Taveiras do Porto. Meu pai veio da lavoira de Fafe para aqui; o pai do bacharel Antônio de Azevedo morreu na lavoira de Barcelos.

—Sim, senhor: convenho em que tão nobres são uns como outros; mas a minha filha não há de, creio eu, iludir-me mais uma hora. Queira desculpar um engano, em que vossa senhoria nada perdeu, e rogo-lhe que diga ao senhor Antônio de Azevedo que se preocupe com aspirações mais razoáveis, se não interessa em dar graves desgostos a uma família que vive tranquila.

Quando as últimas linhas deste diálogo se trocavam

entre os dois, qual deles mais corrido do seu equivoco, outro diálogo terminava entre Corinna e Antônio de Azevedo por estas palavras dela:

—Eu receio que meu pai se não demore no Porto, e Deus sabe se nos veremos mais! Olhe: se tiver precisão de queixar-se da sua má estrela, faça-o a mim, que sou, desde ontem, desde sempre, desde que nasci sua amiga, e talvez sua irmã por simpatia de dores. Escreva-me: eu lhe direi de Viana em que nome me há de escrever. Vá visitar-me em espírito à minha soledade: lá me verá sozinha por entre as árvores, enquanto minhas irmãs, quase tão infelizes como eu, procuram ao menos entreter-se umas com as outras em volta das suas saudades de Paris... Eu nem isso trouxe de lá... Não se demore, que vejo meu pai...

Felisberto chegou diante de Antônio de Azevedo, e disse com forçado riso:

—Estás outra vez sonâmbulo, Antônio? Eu estou pior, porque venho estúpido de espasmo!

—Que é?

—Querem casar-me com a tua Corinna!

Azevedo ergueu a fronte avincada, e disse:

—Pois é costume oferecerem-se assim as filhas em um baile ao homem a quem se é apresentado?!

—Não é costume: é moda agora... O Gastão vai sair com a família—ajuntou Felisberto—Podemos ir, e lá fora conversaremos.

Ouviu o bacharel o diálogo em resumo; contou ao seu amigo as últimas palavras de Corinna; e adorou a

imagem da primeira mulher amada nos alvores da aurora que repontava. O que ele então disse, em arrobos de poesia, era o sublime represado naquele coração em sua primeira primavera.

Perguntou-lhe Taveira se pensava ainda em ir ao Brasil.

—Hoje mais que nunca—respondeu ele.

—Como assim?! Aquela mulher não te prende à pátria?

—Prende-me sobre tudo a um sacratíssimo dever. Até agora pensava em ir ao Brasil para segurar o futuro de quatro irmãs pobremente criadas e boas de contentar com pouco; de hora em diante hei de ver no horizonte das minhas ambições, além de minhas irmãs, Corinna da Soledade, educada com as regalias da sua condição, e só digna do homem que a não obrigar a descer de posição aos olhos da sua sociedade.

—E quem te assevera—redarguiu Felisberto—que voltas rico a Portugal? De que gênero de trabalho fias tu a tua prosperidade?

—De todos os gêneros honestos. Se não valer como advogado, valerei como caixeiro; se não tiver aptidão para o negócio, ensinarei o que sei; se tiver de descer, descerei sem vergonha; se descer tão baixo que nunca possa erguer-me dentre os últimos operários, aí ficarei, e lá morrerei: ninguém dirá, depois, que transigi com a minha inutilidade.

—Quer-me parecer—retorquiu Taveira—que a linda Corinna está sendo ainda pouquíssima coisa na tua alma! Dar-se-á caso que, em verdade, tu sejas refractário ao amor, ou que a tua sensibilidade, como disseste, se consumisse em galantear os ministros da justiça!? Qualquer homem, que não fosse tu, forte do amor inspirado por um anjo como Corinna, e com as tuas habilitações, cuidava desde já em agenciar na pátria uma mediania, que a doçura da vida intima convertesse em opulência invejável aos mais opulentos. Supondo que tu não pudesses, em um ou dois anos, alcançar emprego, ou clientela como advogado, é de crer que tivesses um amigo a quem pedisses um, dois, ou mais contos de reis para te estabeleceres aqui, em Lisboa, na tua terra, ou onde quisesses viver. Supondo mais que tu me tivesses na conta do teu primeiro amigo, era a mim que tu pedias esse empréstimo, e eu com mil vontades te servia agora, e depois, e sempre.

Antônio de Azevedo, após algum espaço de reflexão, respondeu:

—Meu caro amigo, se o verdadeiro amor é uma desordem da razão, esse não é o amor que eu sinto. Que a minha vida está passando por nova fase, é certo: esta excitação de alma, que eu não sei se deva chamar alegria da juventude feliz, nunca a experimentei. Porém nenhuma das minhas faculdades, que pensam, julgam, e anteveem os sucessos, se escureceu: ouso até afirmar-te que o juízo se revigora, e a previdência se aclara mais. Depois disto, imaginemos que tu me emprestas o cabedal necessário para eu ter uma casa,

uma esposa, e a subsistência certa de algum tempo. A esposa devia ser necessariamente a filha de um homem que caiu da sua dignidade oferecendo-ta porque és rico, e que se dignou recomendar-me que não perturbasse o sossego de uma família, que vive tranquila. Não foi isto?

—Pouco mais ou menos.

—Bem: e não entendes tu que seria uma indignidade ir eu perturbar o sossego do pai de Corinna, casando-lhe com a filha, por meio de um rapto ou da intervenção da justiça?

—Não entendo assim a dignidade. Se Corinna consentir em ser raptada para o mais santo dos intentos a que o coração a pode impelir; e, se ela razoavelmente se não quiser sacrificar à ambição do pai, nem a tua honra, nem a sua, nem a da família ilustre ou não ilustre, sofrem desaire.

—Discordamos—replicou Azevedo—Gastão de Noronha quer que sua filha case rica: entende ele que sua filha só pode ser feliz sendo rica. Será absurdidade uma tal opinião? Vai tu perguntar a qualquer pessoa estranha a Corinna, se a julga feliz na pobreza: há de responder-te que a julga mais feliz sendo rica. Pois se os estranhos pensam assim, que fará um pai?

—Convenho; mas sobejam exemplos de mulheres sacrificadas por esse erro dos pais.

—Deixá-los sobejar: ainda mesmo que todos os exemplos fossem contra os pais, nem por isso a vontade bem intencionada deles deixava de ser respeitável;

mas crê tu, meu amigo, que o maior número de casos justifica o arbítrio dos pais. Eu tenho vivido muito arredado destes estudos da sociedade em que tu deves saber muito; assim mesmo, se tu quiseres posso recordar-te de os ter ouvido a ti e aos outros, alguns casamentos mal agourados por terem sido contra vontade das filhas, arrancadas por força a afeições de moços pobres para serem adjudicadas a homens odiados com toda a sua riqueza. Pois, com o rápido andar de alguns meses, se não dias, as esposas violentadas aparecem radiosas de alegria nas suas carruagens, nos seus camarotes e nos seus salões; enquanto os mocinhos pobres e amantíssimos, ou porque emagrecem, ou porque engordam muito, chegam a passar por as noivas, que os poetas denominam mártires, sem elas os conhecerem.

Felisberto riu-se do semblante grave com que o seu amigo proferiu as últimas palavras.

Após breve pausa, Antônio de Azevedo continuou:

—Estamos aqui a falar de casamento, como se Corinna me tivesse dito que quer casar comigo!... O que há entre nós é uma ligação das que se desligam no intervalo de dois bailes, meu amigo. Lembra-te que eu não sou de todo hóspede nestas matérias: traduzi vinte ou mais volumes de romances, e acredito nos romances, cujas passagens a minha razão explica. Dado, porém, que a magia é duradoura, e que este amor encerra em si um drama, que há de fechar pelo casamento, eu só poderei ser marido de Corinna quando o pai me acolher, sem equivoco, como te acolheu a ti há poucas horas. É preciso que a justiça não interceda a favor do meu coração. Quando eu puder dizer a Corinna que sou bom, e ao pai de Corinna que sou rico, então verei se este pressentimento da felicidade era mais que um sonho dos que os grandes desgraçados convertem logo em excruciante realidade da vida. Por ora, nem bom nem rico. Para a bondade falta-me ter esgotado as forças que ainda sinto em adquirir meios com que sustente uma grande porção do bem-estar, impossível de alcançar-se sem eles. Eu não sei que merecimentos pode ter, no conceito de uma mulher, o homem pobre que, em nome da sua desvairada paixão, a convida a ser pobre com ele, e a receber da sociedade as, talvez involuntárias, desatenções que necessariamente avexam o pobre, se ele não está santificado pela paciência. Ora, a santificação nestes nossos dias, meu amigo, nem o muito amor a pode dar aos casados pobres.

—Do teu arrazoado—disse Felisberto—concluo, e toda a gente há de concluir, que amas Corinna como um inglês, estabelecido nas Antilhas, amaria a sua noiva, que ele nunca viu, estabelecida em Londres. Dentro de quinze dias estás mudado, ou então há aí grande aleijão na tua alma! Hei de dar-te um conselho, se não mudares.

—Então dá-mo já, que eu fico pela minha constância.

—Ordena-te, faz-te cônego, bispo, patriarca, cardeal, e não vás ao Brasil.

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