Capítulo XII
—Valha-me Deus!—disse o doutor, esfregando as palmas das mãos tremulas—como há de a gente remediar isto? O que o meu Antônio queria é que todos vivessem contentes. Cristã utopia, que há de realizar-se no céu!
—Eu vinha animado de um pensamento quando aqui entrei—tornou Azevedo—porém desanimei logo que o senhor me disse que Fernando de Athaide queria os vínculos para mostrar a sua fidalga genealogia.
—É o que é; e se não fosse, que ideia era a sua? Vamos discuti-la.
—A minha ideia era contrair eu um empréstimo aqui: sei que o obtinha.
—Também eu sei que o meu amigo obtém o empréstimo. E depois?
—Avaliavam-se os bens vinculados e as despesas
feitas para os liquidar: eu dava o valor de tudo a Fernando de Athaide, e ele desistia do direito por conciliação.
—E o Antônio ficava pobre e a trabalhar toda a sua vida para remir a dívida?
—Necessariamente.
—Com efeito!—exclamou o doutor—e dizem lá que já não há santos! Sabe você, Azevedo, como é que o mundo, desde que perdeu a fé nos milagres, chama aos santos da sua virtude? Chama-lhes mentecaptos. Assim devia de ser, porque a filosofia inscreveu também como demência o amor divino dos crucificados por sua lealdade a Deus, e destes vejo que ainda os há devotados à sublime loucura da cruz. Queria então você adjudicar o trabalho de toda a vida ao pagamento do dinheiro com que pretende restabelecer o bem-estar da família da sua futura senhora?... Vamos meditar. Este Fernando de Athaide, como já lhe disse, o que quer é provar urbi et orbi que é fidalgo de raça por seu pai. A herança não lhe importa. Poderemos conseguir que ele convença o universo da sua fidalguia, sem se apossar dos vínculos de D. Mafalda? Aqui é que bate o ponto. E poderemos consegui-lo sem que o meu amigo hipoteque o seu trabalho à solvência da dívida? Invoquemos as musas das entalações, e vejamos o que elas nos decretam em coisa tão prosaica, já que os praxistas nos tapam todas as saídas. Poderemos pensar no modo de aproximar Fernando de Athaide de uma das primas, casando-os? Este expediente
bem se vê que é inspiração de musas, porque é de todo em todo poético. Que diz a isto, meu rapaz?
—Creio que por parte de Gastão de Noronha seria um negócio concluído, ainda mesmo que Fernando de Athaide fosse do mais baixo plebeísmo—disse Azevedo.
—Feliz gênio de homem para os nossos fins! Mas você sabe que a renuncia de um direito transmissível, como é o dos vínculos, é nula; e que os descendentes do renunciante estão sempre ao abrigo da lei. É preciso que Fernando de Athaide case com a menina sucessora dos vínculos, na hipótese de serem eles legitimamente de sua mãe...
—Essa é Corinna!—interrompeu Azevedo—Corinna é a que eu amo!
—Ah! sim? então muda de figura o negócio.... Deixe-me pensar... E se nós conseguíssemos que Fernando casasse com uma das outras senhoras? Levá-lo-íamos a deixar aos sogros a administração dos vínculos, melhorados e desembaraçados de dívidas com liberalizado capital pelo ricasso, e sobre tudo pelo fidalgo, orgulhoso de reedificar os pardieiros de seus avoengos. Que lhe parece?
—Gastão de Noronha não aceitaria a humilde posição de mordomo de seu genro—disse Azevedo—Por parte deste a reconciliação seria impossível. Só vejo um meio.
—Diga lá.
—Fernando obteria uma filha de Gastão, se, antes
de pedir-lha, rasgasse as provas com que se diz sucessor dos vínculos.
—Não se rasgam assim facilmente as provas. A perfilhação está arquivada, e as cartas e testamento que o legitimam filho de Fernão de Athaide estão em notas de tabeliães de Portugal e do Brasil.
—A desistência, portanto, é invalida?—tornou Azevedo.
—É, a menos que o senhor me não assevere que a descendência direta de Fernão de Athaide acaba em seu filho.
Prosseguiram largo tempo dialogando juridicamente, e ultimaram indecisos no que deviam fazer.
Antônio de Azevedo desvelou aquela noite em hipóteses que se combatiam e destruíam. Amanheceu-lhe o dia seguinte para incessante inquietação e dolorosa perplexidade. Voltou às onze horas ao escritório de Valentim da Costa, e encontrou-o encerrado com Fernando de Athaide.
—Já se demorava—disse-lhe o doutor—Sente-se aqui.
O velho, voltado a Fernando, prosseguiu:
—Dá-se o caso, amigo e senhor Athaide, que este Antônio de Azevedo veio ao Brasil ganhar alguns punhados de ouro para poder voltar a Portugal e casar com uma das cinco primas de vossa senhoria, filhas de Gastão de Noronha.
—Pois conhece minhas primas?!—atalhou Fernando.
—Especialmente a mais velha, a senhora D. Corinna—disse Azevedo.
—Alguém me disse que é muito galante essa—tornou o milionário.
—São todas galantes: são cinco anjos, que fariam o orgulho de um pai menos infeliz que o senhor Gastão, e teriam sido felizes se nascessem em menos elevada condição.
—Alguém as viu em Paris—tornou Fernando—e achou-as educadas muito à francesa.
—Por força devia achá-las assim educadas: as mais novas lá nasceram.
—Mas desenvoltas... é o que eu quero dizer.
—Não senhor: enganaram-no: vi-as em alguns bailes do Porto com quanta gravidade e compostura se pode desejar na mulher que se ama para nos felicitar e honrar a vida.
—Agora falo eu—atalhou o velho—O senhor Azevedo afligiu-se quando vossa senhoria nos contou a situação em que ficou seu tio; é natural; porque a senhora que ele ama, até ao sacrifício de vir angariar-lhe aqui o pão futuro, está lá nessa casa, donde vossa senhoria vai expulsar toda a família.
—Minhas primas devem odiar-me de morte!—interrompeu Fernando em tom de desagradável ironia.
—Fazem elas muito bem—disse o velho, sorrindo.
—Que lhe diz de mim a prima Corinna?—tornou Athaide com prazenteiro semblante.
—A carta que ela me escreveu neste último navio contém uma página com referência a vossa senhoria. Queira lê-la, que ela de certo me perdoa a confidência.
Fernando de Athaide leu a penúltima lauda da carta, dobrou-a vagarosamente, e restituiu-a sem fitar os olhos no bacharel.
—Aqui não há ódio de morte nestas palavras, senhor Fernando de Athaide—disse Azevedo.
—Então isso é segredo cá para o velho, heim?—disse o doutor.
—Há meia hora que recebi a carta—respondeu o moço, entregando-lha.
—Sempre quero ver o juízo que ela faz do priminho. Mostre lá o sítio onde vem a catilinária.
—Antônio indicou-lhe a página, e o velho leu alto:
«Ouvi dizer ao nosso amigo Felisberto que o primo de minha mãe é muito rico, e não precisa destes poucos bens. Que triste glória reduzir à última pobreza uma família tão numerosa! Há corações muito duros, meu querido Antônio! Às vezes penso com tristeza e ao mesmo tempo consolação, no diferente modo de pensar que Deus dá às suas criaturas tão semelhantes no exterior. Não se lembrar esse homem das aflições que nos dá sem proveito nenhum para si mesmo! Não saberá ele que a subsistência de sete pessoas, criadas na opulência, era só isto que nos tira!? Se um dia lhe disserem que meu
pai morre de desgosto e miséria, a voz do sangue não lhe gritará como um remorso ao coração? Ai! como os felizes gozam, ó meu pobre Antônio!
... » —Estas palavras, senhor Fernando—continuou o venerável doutor—podem mais que tudo quanto eu lhe dissesse, se as lágrimas que eu vejo nos seus olhos não são uma ilusão dos meus. Olhe fito cá para mim, Athaide! Não se envergonhe de ser bom: tenha só pesar de o não ter sido. Vamos! deixe lá falar esse coração! Sente-se disposto a salvar esta família?
—Responderei—disse Fernando de Athaide, erguendo-se de golpe.
—Uma resposta, neste caso, não é operação diplomática que demande vigílias e subtilezas de engenho. Sente-se!—disse com gracioso império o velho.
—Mas que quer de mim o doutor?
—Quero que se meça em bizarria de alma com este cavalheiro que aqui está. Antônio de Azevedo quis contrair um empréstimo de trinta contos, ou mais, caucionados com a sua honra e trabalho. Estes trinta excedem em doze, segundo vossa senhoria me tem dito, o valor dos vínculos. O restante será o que Fernando de Athaide tem gasto no costeio da demanda. Antônio de Azevedo queria oferecer a vossa senhoria esta quantia como gratificação pela desistência da demanda.
Sorriu Fernando, e atalhou:
—O doutor não disse a este senhor que eu dou trinta contos pelo menor dos meus caprichos, e que
ainda fico bastantemente rico para dar de esmola o valor dos vínculos ao soberbo Gastão de Noronha?
—Esmola que ele não aceitará—disse com altivez o amado de Corinna.
—Nem eu estou pedindo esmola para o marido de sua tia—acrescentou o doutor.
—Então que pede?!—tornou Fernando com filaucioso sobrecenho.
—Peço ao fidalgo que tenha uma alma fidalga; que, se a não tiver, que importam os seus brasões em confronto da caridade com que o escravo nu levanta da rua o seu irmão prostrado de fome?! Quer saber o que lhe fica bem? O cavalheiro manda suspender a execução, sem desistência dos seus direitos, que as leis e todos lhe reconhecem. O seu vencimento foi completo: agora é preciso coroá-lo com a generosidade, se quer o triunfo. Está vencida a questão: está reconhecido Fernando de Athaide o sucessor dos vínculos de seu pai. São seus os vínculos, e é sua a honra de os deixar administrar por sua prima. Isto é que é nobreza! De resto, as armas dos portões das suas quintas são pedaços de pedra lavrada, onde as aranhas fazem seus ninhos como entre a palhiça que colma a cabana do jornaleiro! Que diz?
—Responderei!—repetiu Fernando—tenho de dar satisfação à minha dignidade. Entre coração e pundonor vai larga distância: preciso de explicar o desprezo com que foram recebidas as minhas cartas por Gastão de Noronha. É preciso que o mundo não pense
que os meus direitos se atemorizaram diante do arcabuz do valentão.
—É preciso, primeiro que tudo, respeitar o infortúnio!—disse brandamente Antônio de Azevedo.
—Digno de respeito—acrescentou o neto dos Athaides saindo de má sombra.