Capítulo XVIII
Antônio de Azevedo foi abrir a represa de lágrimas no seio do ancião que o esperava com as suas, único bálsamo das supremas aflições.
—Veja a minha vida!—disse entre soluços o bacharel—Pensar eu que o muito trabalhar me daria um quieto contentamento, e que, além dos dissabores do coração, nunca teria outros!... E agora estes! os da última desonra! uma vergonha irremediável que me priva de olhar de frente para os homens que estimaram meu irmão por amor de mim!
O velho, combatendo os escrúpulos do moço, teve a admirável e inspirada eloquência da verdade. Declinou a desonra sobre quem a praticara, e provou ser aquela desgraça mais uma prova para aquilatar as virtudes do bacharel. Verdadeiros, mas, ainda assim, inconsolativos argumentos!
Falaram longo tempo. Valentim não deixara sair
o amigo naquela manhã, receoso de que a solidão lhe amargurasse a mais as apreensões.
Quando o moço se impunha a si mesmo o preceito da força para o trabalho, e o velho insistia nos seus ditames insinuativos de coragem, entrou no escritório Fernando de Athaide.
Antônio de Azevedo, como a desentorpecer-se de um glacial espasmo, estendeu-lhe maquinalmente a mão e deixou-se abraçar. Valentim fazia um alarido de exclamações de espanto, que não deixavam ouvir o adventício.
—Vejo-o triste e demudado, senhor Azevedo!—disse o primo de Corinna.
—É ouro que está ainda ardendo da última prova!—respondeu o velho—A desgraça cuidou que o fulminava; mas a honra venceu.
Antônio de Azevedo fez um gesto suplicante de silêncio ao doutor, e disse a Fernando:
—Ninguém o esperava no Rio, senhor Athaide.
—Foi uma partida repentina. Assim é que se fazem as coisas!
—Como ficou Corinna?—perguntou Azevedo; e logo as lágrimas lhe saltaram a quatro, e uma ânsia lhe ressumou à face em suor frio.
Sentou-se quebrantado, e murmurou:
—Desculpem-me: estou-me fazendo mulher... Estas lágrimas, se as não chorasse, matavam-me.
—São de saudade?—disse Fernando.
—São de desesperança, cuido eu—respondeu Azevedo, escondendo os olhos com as mãos.
—Anime-se!—exclamou Athaide—Que descorçoamento é esse, improprio de uma alma de bronze! Azevedo, saia de essa letargia! Olhe que Corinna ama-o como sempre, e espera-o com a ansiedade de um anjo consolador de todas as suas mágoas.
—Tardia virá a consolação!—balbuciou o moço—Deus me livre de a condenar a sofrer debaixo da minha estrela... Escreveu-me ela?
—Que pergunta! Tenho em casa uma carta sem fim, que o meu amigo há de ler como se ela mesma a estivesse falando! Venha comigo, e cuidará que tem entre mãos, não uma carta, mas o próprio coração da sua Corinna!
—Agora consinto que vá!—disse o velho.
—E o doutor vem também—acudiu Fernando.
—Vamos lá!—voltou o velho—Vocês os rapazes andam comigo daqui p'r'ali, como se esta gota não merecesse respeito nenhum à geração nova! Ora esperem aí, que eu vou vestir a dalmácia, a casaca circunspecta! Sua senhora veio?
—Veio, sim.
—Ah!—disse Azevedo—está cá a senhora D. Felismina?!
—Pois eu havia de deixar lá a alma! Então você não sabe que marido eu sou! Minha mulher sou eu—disse com festivo semblante o milionário.
Saíram.
—Isto veio do céu!—disse Valentim—Quem distrairia o meu pobre Antônio, se lhe não chegassem os bons amigos da pátria! Vai ter um dia cheio, meu amigo! Quem lhe falaria com mais ternura da sua Corinna que a irmã querida! Felismina se chama ela: hoje é que é feliz mina de consolações para o meu desterrado!
Assim, com estes dizeres afetuosos do alegre ancião, chegaram ao grandioso prédio, que Fernando habitava.
Na primeira sala esperava-os Felismina. O doutor, que subia na dianteira, ao vê-la, exclamou:
—Sim, senhores! É muito linda! Há muito que não vi destes frutos da minha terra! Quero e gosto que as senhoras brasileiras vejam o que lá há por Portugal!
Felismina sorriu-se ao galanteio do velho, e abraçou Antônio de Azevedo.
—Como está abatido!—disse ela.
—Abatido no rosto, mas Sansão na alma!—acudiu Valentim.
—Acha-me velho?—disse Azevedo—Neste país acaba-se depressa o homem que se não exercita muito, e endurece ao fogo do sol. A sua família, minha senhora, ficou boa? A senhora D. Corinna?
—Como faz essa pergunta, senhor Azevedo!...—disse Felismina—Que frialdade! Dar-se-á caso que vossa senhoria não ame já minha irmã?
—Por Deus, minha senhora!—respondeu o moço—Todos
os infortúnios podem menos sobre mim que uma injustiça, que deixa de ser injúria por ser dita por vossa excelência.
—Se ele ama sua irmã!—atalhou o velho—Ó minha senhora, se os meus cabelos brancos inspiram confiança, creia vossa excelência que o meu Azevedo ama tanto sua irmã que, por amor dela, excede-se a si próprio na prática das virtudes. Grande e distinto deve ser o amor que faz o virtuoso! Vícios e crimes é o que eu tenho visto resultar dos amores vulgares...
—Está o senhor Azevedo ansioso por que lhe entreguem a carta de Corinna—disse Fernando—Vai tu buscá-la, Felismina.
Abriu-se uma porta, e apareceu Corinna, exclamando:
—Não preciso que me tragam!
E cuidam que ela empalideceu, desmaiou, ou, pelo menos, expediu um ai de procedência dramática?
Não, senhores. Corinna entrou de corrida, leve como um gnomo, a rir e a chorar, purpureada, com os olhos a saltar-lhe fora da face, os braços abertos e convulsos, a respiração como tomada, e os lábios crispando nervosamente, sem poderem proferir o quer que era de que só os dramaturgos acham sempre uma expressão insipida, incolor e inverossímil.
Antônio de Azevedo é que (sem desaire seja dito) deu uns ares de idiotismo, que, na cena, seriam lastimáveis! Abraçou Corinna, como a medo: era a primeira vez que a sentia nos braços. Fitou-a como quem dúvida;
remirou-a, como quem teme um engano dos sentidos; estava-se acordando do sonho; invocava a sua razão; e, quando a razão lhe mostrou em volta dele todas as faces orvalhadas de lágrimas, é que Azevedo pôde exclamar:
—Bem hajas, anjo de Deus!...
Imagine agora a minha leitora os sucessos indescritíveis deste lance. Por pouco imaginativa que seja, vossa excelência há de avultá-lo melhor em sua fantasia do que eu poderia dar-lho nesta página. Uma só poesia criou a natureza para tais quadros: é a poesia da pintura.
Foram cinco minutos de febre, de delírio, de silêncio, de ouvir-se o bater forte e descompassado de cinco corações. Ora pintem lá isto, a não ser em expressão de olhos, de lábios, de feições que só, em casos destes, se vos deparam em pinturas cristãs, onde os enlevos são céu, bem-aventurança e alegria de santos. E haveis de notar que o próprio pincel profano antes se quer a pintar expressões angustiosas, porque as visagens da aflição mais se prestam ao relevo, como em Niobe, em Laocoonte, em Ugolino. Quer tudo isto dizer que tenho diante dos olhos aquele espetáculo de júbilos, e desisto de descrevê-lo para de todo em todo me não capacitar de minha inhabilidade.
Porque hei de eu dizer tão afoitamente «espetáculo de júbilos», se Antônio de Azevedo, momentos depois, se deixava senhorear da lembrança do irmão, banido do número dos honrados! A Cândida Corinna encarava
nele com olhos aguados, e no lacerante silêncio de sua alma perguntava a si mesma, que fizera ela para ser menos amada! De que outro modo se explicaria a tristeza do moço naquela primeira hora!
Não pôde ter-se que o não chamasse a um ponto mais afastado da sala onde se tinham ficado Valentim e Fernando, enquanto Felismina saíra a dar ordens.
—Tu estás melancólico, Antônio!—disse ela, tomando-lhe a mão com estremecida ternura—Viria eu contrariar a tua vontade? Estaria eu enganada contigo?...
—Vejo-me indigno de ti...—respondeu Azevedo.
—Indigno de mim!—tornou ela crescendo no afago da expressão convulsa de lágrimas—Pois tu não tens sido mais que nobre para seres digno da mais nobre e pura mulher! Quererás que eu te recorde as tuas virtudes, meu querido amigo!?
—As minhas virtudes—replicou o moço—tão frágeis eram, que talvez a esta hora tenham sido reputadas hipocrisia.
—Ó filho!—exclamou ela—desconfio da tua razão! Muito deves ter padecido para te considerares assim, quando em volta de mim os teus merecimentos são louvados com admiração de todos!...
—Escuta-me para me consolares, Corinna. Deus quis que tu viesses à hora em que toda a esperança me ia fugindo...
Antônio de Azevedo contou a Corinna a ignomínia de seu irmão, e levantou a voz de modo que Valentim,
no angulo oposto da sala, ouviu tudo. Ergueu-se o velho, caminhou para eles, e interrompeu a exposição do bacharel.
—Senhor Antônio de Azevedo, antes do infortúnio de seu irmão, você, no Rio de Janeiro, gozava nome de inteligente, laborioso e honesto; depois do infortúnio de seu irmão, o nome de Antônio de Azevedo é proferido com o acatamento de que homem nenhum de sua idade se tem gozado. Os velhos honrados da sociedade brasileira querem conhecê-lo: os portugueses citam o seu glorioso procedimento com orgulho. O fato é de há três dias, e tem corrido de boca em boca como raras vezes acontece a uma boa ação. Ora pois! Eu sei bem o que é dignidade; achei que a sua se manteve sempre na altura dos mais dignos homens de outros tempos; admirei-o e louvei-o pelo que outros chamariam demasias de orgulho sob capa de independência; agora, porém, é chegada a hora de eu lhe dizer que, assim como a suave religião se descaminha até ao fanatismo execrável, assim a briosa dignidade, se perde o rumo do bom juízo, vai dar consigo em uns excessos rudes, insociáveis e repelentes. A sociedade aplaude os virtuosos, mas desadora os que fazem de sua virtude uma tribuna para lhe censurar as fraquezas. O excesso do bem é um mal que não me aproveita a mim, nem a outrem. Eu quero que Antônio de Azevedo se mostre alegre para que o mundo não diga que a honra tem uns pavores interiores refractários ao contentamento. A
boa consciência é alegre, senhor. E o melhor benefício que você pode fazer aos homens é convencê-los de que vai indo seu caminho, arrancando os espinhos dos pés, e sorrindo às novas desventuras que o empecem. Falou o velho. Diga agora o anjo, a nossa Corinna, o que será preciso fazer-se a esta criança decrepita para a levantarmos do seu abatimento?
—Se eu pudesse...—balbuciou Corinna.
Antônio de Azevedo levou aos lábios a mão de Corinna, e murmurou:
—Emenda tu os defeitos da minha desgraçada índole... Dá-me paz, Corinna; dá-me a unção do teu amor, e eu me salvarei de mim próprio...
—Primeiro passo a dar!—exclamou Valentim da Costa—O primeiro passo a dar é casarem-se, meus filhos!
Neste momento entrou Felismina, e disse:
—Está o almoço na mesa.
Valentim continuou:
—Visto que está o almoço na mesa, o primeiro passo a dar, meus filhos, é... almoçar!
No decurso da conversação durante o almoço, disse Fernando de Athaide:
—Aí vão novidades, meu caro Azevedo. O visconde da Cruz casa brevemente com Emma, e Luís Taveira com Leonor. Eliza tem doze anos, e já é pretendida. Quem de certo nos fica solteira é a nossa Corinna! que pena!
Riram todos, e Valentim exclamou:
—Solteira! essa é boa! Não consentirei eu que a beleza assim seja ultrajada! Aqui está a minha mão, senhora D. Corinna! É um sacrifício que faço da minha isenção; mas faço-o para que suas manas se não riam de vossa excelência.