Capítulo XIX Estrelas Propícias · Capítulo 19 de 22
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Capítulo XIX

Três meses depois dos grandes sucessos frouxamente descritos no anterior capítulo, Fernando de Athaide e sua mulher vinham caminho de Portugal; e Corinna da Soledade e seu marido Antônio de Azevedo habitavam, nos arrabaldes do Rio de Janeiro, uma chácara de modestas regalias.

O bacharel era ainda o mesmo laborioso jurisconsulto, associado no escritório de Valentim da Costa. Corinna, simplesmente ajudada de uma negra, cuidava do lavor domestico, singelo lavor, que isso mesmo tem de bom a mediania.

Quisera Fernando que seus cunhados ficassem habitando a casa onde se hospedaram, e Azevedo, já receoso de desagradar com suas isenções, mal se atrevia a rejeitar os oferecimentos; porém Corinna, avaliadora dos secretos desejos de seu marido, simulou vontade de viver no campo, e assim o desembaraçou

do desgosto de aceitar a magnífica vivenda na melhor praça da capital. Valentim, aconselhando Athaide no melhor modo de haver-se com seu cunhado, repetia o que no livro divino de frei Luís de Sousa se lê, que o cardeal de Lorena dizia, ao embaixador de Portugal, com referência ao santo arcebispo bracarense: «.....se o quereis ter contente, não lhe deis a comer mais que dois ovos duros.»

Corinna recebera de Felismina a prenda dos trinta contos depositados ainda em poder do comerciante. Foi-lhe, porém, mister guardá-los como cofre de joias, sem lhe dar destino conducente a aliviar os encargos do marido. Era um dinheiro que não existia para o bacharel, nem Corinna buscava ocasião de falar dele.

No tocante a felicidade, alguns períodos de uma carta de Azevedo ao visconde da Cruz dizem o que basta a convencer-nos de que a possuíam, quanto ela, neste desterro, se deixa gozar.

« «Às seis horas da tarde, quando vou do escritório, encontro sempre a minha Corinna sentada em um pequenino ressaio, como se lá diz no meu Barcelos, que tenho à porta da chácara. Ali é a minha primeira paragem, em que o espírito se desfadiga do pesadelo das leis: o coração toma absoluto império sobre as minhas outras faculdades, e todo me deixo adormecer na quietação de um bem-estar, que só podem conhecer os operários de um dia inteiro, quando ao cair da noite, se repousam ao lado da companheira,

por amor da qual se cansam e recobram. Os nossos frugais jantares são rápidos, e assazoados dos infantis gracejos da minha Corinna, que os tem sempre novos para encarecer a profusão das iguarias. Depois vamos por esses caminhos fora, admirando tudo que nos vem ao encontro a sorrir: são as árvores e flores de todas as ricas vivendas deste luxoso torrão: tudo é nosso, porque, meu amigo, nada ambicionamos do que vamos vendo.

«Corinna está-me sempre repetindo a história dos nossos amores, que eu acho sempre nova. Os dois bailes do Porto em que a vi; as primeiras palavras que eu lhe disse, com destemperada lamuria; os seus pensamentos lá no Lima, dia por dia, e hora por hora. Sinto-me duplicadamente viver na sua vida passada; parece-me que estou tomando posse de uma existência que devia ser minha desde então.

«Deito-me cedo para me levantar com a aurora. Corinna lê até tarde: lê alto enquanto vê que eu a escuto; depois, vai diminuindo gradualmente a voz até me ver adormecido. Rirás tu desta miudeza de traços no quadro da felicidade doméstica? Se ris, visconde, mal de ti, que os não hás de saber gozar. Uma coisa magnífica, estrondosa, e aparatosa, que vai pelo mundo, chamada Felicidade, feitas as contas, sabes o que é? É isto, são os singelos prazeres, que não valem nada descritos, e são a bem-aventurança sentidos. E não valem nada, porque a gente que os lê, pensa que pouco vai de desejá-los a tê-los.

Que engano! A mais fácil felicidade é a que requer mais grande coração e pura consciência. Se estes bens fossem comuns, todos eramos felizes. Nós antes queremos ser todos ricos.

» Valentim da Costa foi, um domingo, jantar com os seus filhos, termo de muita amizade com que ele os acarinhava. Nesse dia se completavam os setenta e nove anos do ancião. Depois do jantar, desceram a sentarem-se debaixo das quatro palmeiras, que davam o usurpado título de chácara à casinha dos venturosos. Aí falou sempre o velho, com a perdoável vaidade de quem sabe tudo do passado, e possui a chave dos futuros. Ora! por onde ele andou! Foi cavar na raiz da revolução francesa, contou a vida de Napoleão, a fuga de D. João VI, as anedotas da corte, a infância e juventude do senhor D. Pedro IV, a mocidade estudiosa e as virtudes cívicas do atual imperador do Brasil, e tudo isto para concluir que o presente era melhor que o passado, e que o futuro será melhor que o presente. E a tal propósito ajuntou:

—Vocês não façam caso do que eu disser, quando elogiar as coisas e pessoas do meu tempo. O seu tempo é a balda dos velhos, que, ao verem-se carregados de tempo, não só querem que seja seu—o que ninguém lhes contesta—; mas até querem que o tempo deles fosse a melhor quadra dos dezenove séculos que já lá vão. Ora eu, que sou velho e ao mesmo passo razoável, se duvidasse das virtudes deste tempo, duvidaria das vossas, meus filhos. Dizem que a velhice é egoísta,

e morre devorada de odientos ciúmes da geração nova, não só porque é boa de índole, que também por ser inventora das regalias que vieram tarde para ela. Deus me livre de ir à eternidade com este trambolho agarrado às pernas: bem me basta a gota! Eu cá de mim até folgo de acabar, quando começa uma transfiguração na face da terra, coisa nem sequer sonhada há quarenta anos, quando eu e os meus contemporâneos motejávamos o desconfortável viver de nossos pais. Não me dirão o que nós tínhamos mais do que eles, há quarenta anos?! Vocês é que podem rir-se de mim e dos meus; mas nem por isso lhes quero mal de inveja. O meu amor à gente nova chega a ponto de eu me desejar morrer no meio dela. Querem-me os meus filhos trazer para sua casa? Eu estou por ali sozinho naquela rua do Ouvidor, muito rica, e muito bulhenta. Tenho lá três pretos e três pretas a quem quero dar a liberdade, e os diachos não a querem! Olhem que é forte mania a dos que dizem que a escravidão é o antagonismo permanente com a ideia de Jesus! Se os meus pretos fossem novos, e eu lhes desse liberdade, os pobrezinhos, em vez de irem aos seus sertões respirar ar livre, assoldadavam-se a senhor que os carregava de trabalho; ora, como os meus escravos são velhos, os coitados não querem a liberdade, que para os de sua espécie é uma palavra van. Pois se eu me não posso, nem devo desfazer deles, peço-vos que mos deixeis trazer comigo para a vossa companhia. Verdade é que esta casa é mui estreita para tanta negraria,

e comodidades de um hóspede octogenário. Aqui é que o meu Azevedo há de mostrar-se amigo do seu velho. Está ali abaixo uma boa casa, com muito arvoredo em roda. Vai o meu filho arrendar aquela casa, e recolher-se a ela com o seu mestre de leis. Faça de conta que eu sou um pulvéreo praxista que você tem na sua livraria... O ingrato não me responde. Vou voltar-me para a minha filha Corinna. Faz-se o que eu peço?

—Faz—disse Corinna, sorrindo ao esposo.

—Pois então—tornou o velho—já daqui não saio. Onde me dais agasalho esta noite? Quero já saber onde está o meu quarto.

No dia seguinte, Azevedo arrendou a chácara magnífica, mudou para ela com o ancião, e com os seis velhos escravos e amigos de Valentim. Logo ao segundo dia, o hóspede chamou Azevedo, e disse-lhe:

—Eu também tenho a minha dignidade, a minha vaidade e o meu orgulho. Quero entrar com a minha quota parte para as despesas da casa, minhas e da minha pretaria. Arrendamento da chácara, a meias; o importante da cozinha, isso é cá com o anjo dos lares, com a nossa Corinna.

Antônio de Azevedo ia contrariar o velho, e reteve-se ante um gesto de desagrado, e logo esta risonha exclamação:

—Você cuida que tem mais pundonor que eu!

Este viver continuou assim seis meses. Corinna tinha ouvinte certo às suas leituras enquanto o marido

dormia. Valentim repousava três horas em cada noite, e velava as outras, folheando papéis, e dando expediente a negócios atinentes aos seus haveres. Algumas vezes ia à cidade em carruagem que comprara neste último prazo da vida, não tanto para ele, como para os passeios de Corinna. Valera-lhe a gota para colorir o presente aos seus queridos comensais.

Neste tempo as cartas vindas de Portugal davam a notícia confirmada dos casamentos de Emma e Leonor. As duas noivas tinham ido para o Porto com seus maridos, e Felismina com seu marido e o primogênito estavam nas margens do Lima, ou no palácio reconstruído de Fernão de Athaide, onde o filho natural mandara acastelar os telhados. Fernando era já visconde do Ameixial, e estava pasmado da barateza da coisa, em comparação do muito que dera por uma comenda cinco anos antes. Tinha sido logrado pelo procurador.

Gastão de Noronha, D. Mafalda e a menina mais nova tinham ido a Paris comprar mobília para renovar a decoração do palácio de Lisboa. Esta era a razão ostensiva que o público deve aceitar por ser melhor, se não a mais ajuizada; mas os indiscretos portugueses que então estavam em França, disseram que o ainda robusto Gastão de Noronha fora espairecer saudades de uma duquesa, ou duas duquesas, ou mais seriam, que, pelos modos, em Paris, isto de amar quatro duquesas é coisa mais que frequente a quantos portugueses lá vão, como eu tenho visto nos apontamentos de pessoas

que lá estiveram quinze dias. D. Mafalda é que há de saber a verdade de tudo.

Com estas notícias chegou outra concernente a Francisco de Azevedo. O caixeiro chegou a Lisboa, pagou a sua dívida, mandou o recibo ao irmão, foi a Barcelos, vendeu a pequena legítima, abraçou suas irmãs, e tornou a Lisboa, donde partiu para a Africa.

As quatro meninas das margens do Cávado viviam abundantemente. Seu irmão Joaquim, já estabelecido e coadjuvado pelos Taveiras, ocorria-lhes a todas as necessidades, dava-lhes tudo, menos o prazer de levá-las ao Porto, porque o irmão do Brasil, em todas as cartas recomendava instantemente, que as deixasse estar em Barcelos com as árvores e flores da casa paterna. Outros dois irmãos de Azevedo, sem importância nesta crônica de família, exerciam probamente a profissão do comércio.

—Todos felizes!—exclamou o velho, que ouvira atentamente ler as cartas, como se fossem de família sua—Todos felizes! Só o meu pobre Azevedo ainda a trafegar para o pão de cada dia! Os dois contos de reis, ganhados nos primeiros meses, lá se foram na restituição do Francisco. Desde então para cá as economias são impossíveis! Esta Corinna é uma grande avará! Tem ali na gaveta trinta contos, que ela chama os seus alfinetes de noiva, e não os quer arriscar nas despesas da cozinha! Ora deixa-te estar, minha sovina, que te não hei de deixar em testamento as minhas três pretas velhas!

—O Antoninho não quer o dinheiro...—disse ela, afagando o cabelo do marido, que ria muito do sainete cômico do velho—Há que tempos—continuou ela—eu não vi o meu tesouro! Vou-lhe desafiar a inveja, doutor, a mostrar-lhe as minhas notas! ora espere...

Foi Corinna a uma gaveta de sua cômoda, e voltou pálida, exclamando:

—Ó Antoninho! mudaste o dinheiro da gavetinha do meio?

—Eu nunca soube onde tinhas o teu dinheiro—respondeu placidamente o marido.

—Não está lá... roubaram-mo—bradou ela.

Dias antes tinha fugido uma negra, alugada para a cozinha.

—Seria a preta?—perguntou tranquilamente o bacharel—Pode proclamar-se rainha nas suas senzalas a negrinha!

Corinna mostrava-se aflita. O marido chamou-a a si, encostou-a ao seio, e disse-lhe com muita meiguice:

—A tua grande alma, minha filha? Então! há aí dinheiro que valha uma lágrima tua, Corinna? Imagina que Deus te experimentava, privando teu marido da saúde de três dias! Que farias então, minha amada?... Quantas vezes darias os teus trinta contos por uma tisana que me restaurasse?! Quero só ver-te lágrimas, quando eu as chorar.

—Tens razão!—exclamou ela—Estou alegre!

perdoa à minha fraqueza de mulher, sim? Quem me visse chorar, julgaria que eu amava aquele dinheiro inútil!

—Pois sim; tudo isso é muito admirável—exclamou o velho—mas é necessário anunciar a fuga da ladra, agarrá-la e despedaçá-la com o azorrague!

Antônio de Azevedo ergueu os ombros e sorriu. Corinna fitou os seus úmidos e negros olhos em Valentim, e murmurou:

—Despedaçá-la! Coitada da infeliz!

—Essa agora é que não é piedade irrepreensível, menina!—redarguiu o velho—Chama coitada infeliz à negra que lhe rouba uma quantia que em Portugal se chama uma fortuna!... Eu tomo a negra à minha conta! Há de ser cortada pelo azorrague!

—Não deixes, Antoninho!—clamou Corinna, tomando-lhe o rosto entre as mãos.

—Não deixo, não, filha. O doutor está feroz; mas aquilo passa-lhe.

—Ora, senhores—tornou o velho trejeitando espanto—O nome, que isso tem em boa hermenêutica, é fomentar o crime! A sociedade não se serve assim! É preciso que cada qual contribua com o cauterio para lhe extirpar os cancros que a corroem.

—Parece que está no tribunal, doutor!—disse Azevedo—A velha eloquência é ainda brilhante; mas a lei nova, a lei do justo que os fariseus azorragaram, manda cair o azorrague das mãos do ofendido, e castigar moralmente o culpado.

—Moralmente!—retorquiu o doutor—Com que então você crê no moral dos negros?!

—Creio na alma dos negros.

—Isso é uma impiedade!

Azevedo riu-se, e, por momentos, duvidou do concerto intelectual do velho.

Mas, a esta injuriosa dúvida, ergueu-se o velho, e caminhando para eles, com os braços abertos, exclamou:

—Não calumniemos a negra, meus filhos! Abraçai-me, anjos! Eu quis experimentar a vossa caridade! Abraçai-me, —Não calumniemos a negra, meus filhos! Abraçai-me, anjos! Eu quis experimentar a vossa caridade! Abraçai-me, santos da honra e da misericórdia, que os vossos trinta contos quem os furtou fui eu!

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