Capítulo X
Gastão de Noronha valia ainda muito com homens de alta graduação, seus companheiros de exílio.
O litigio, perdido em primeira instância, foi apelado para o Porto; e conquanto uma espantosa atividade, esporeada pelo ouro do brasileiro, instasse com os juízes de segunda instância, os padrinhos do fidalgo valeram mais para que o processo paralisasse na mão do relator. Este, porém, com maravilhosa consciência fez saber ao réu que a sua perda era inevitável, cedo ou tarde, e que parte da imprensa estava a favor da pronta decisão do pleito.
Decorridos quatro meses, os três jornais portuenses daquele tempo, e alguns de Lisboa, depois de um prefacio de dez e mais artigos acerca da corrupção da magistratura, fulminaram o juiz relator, já alcunhando-o de vendido, já de subornado pelas fidalgas influencias
que ladeavam Gastão de Noronha. Não houve remédio senão confirmar a sentença.
Recorreu de revista para o supremo tribunal o réu, acompanhando o processo, e cumulando embargos sobre embargos. Em Lisboa a presença de Gastão e a solicitude dos amigos prometiam um ano ou mais de esquecimento dos autos; mas as gazetas, ainda antes de tempo, já se mostravam espantadas da demora, e, por conta de seu espanto, lavraram logo alvará de corruptos a todos os juízes, pedindo às leis, ao governo e ao universo que os esfolassem, como o tirano de Siracusa fizera a um juiz venal.
Aproveitou Gastão o ensejo de requerer emprego em Lisboa, já mais que certo do resultado do pleito. Os seus amigos, que o julgavam rico, pasmavam de o verem com aquele aspeito típico, imutável, e único de pretendente. Pedia ele a diretoria de uma alfandega de primeira ordem, posto que nenhuma estivesse vaga. O ministro achou absurdo o requerimento, e os amigos acharam importuno o requerente. Desceu Gastão de suas pretensões, e pedia um governo civil em Viana, Braga ou Porto. Os funcionários que exerciam tais comissões na província eram sujeitos afetos ao governo, e bons fabricantes de Fabrícios e Codros sertanejos. O fidalgo foi esclarecido a este respeito, e azoou. Pediu ainda um lugar de escrivão da mesa grande da alfandega de Lisboa; mas o ministro mostrou-se muito sentido de que o serventuário existente não tivesse dado causa a ser demitido.
Ora Gastão de Noronha algumas vezes, em Paris, dera a um dos ministros pares de botas, e muitos jantares a outro. Assim lho lançou em rosto, e eles, pelos modos, ouviram a injúria com muito receio de que o fidalgo minhoto fizesse uso dos pulsos não menos rijos que as frases. Era homem para isso o atribulado pai de cinco meninas, em vésperas de não ter sombra de árvore sua que o cobrisse!
Desanimado, e com o pensamento do suicídio a empeçonhar-lhe a alma, desamparou o processo, e foi para os seus.
Que ia ele fazer ali? que destino ia dar às filhas? que remédio esperava ele haurir das lágrimas da pobre Mafalda, que em seis meses envelhecera vinte anos?
A sua entrada em casa denunciou, sem palavras, a desesperança e suprema desgraça que o trazia. As meninas cuidaram logo nos preparos para se recolherem ao claustro, e D. Mafalda, sem consultar o marido, resolvera entrar com Corinna no mosteiro de Viana. No tocante a si, dizia Gastão de Noronha que as suas tenções estavam deliberadas.
As tenções do fidalgo eram incendiar o palacete no dia em que chegasse de Lisboa a notícia do último arranco da sua fortuna. O que ele faria de si depois era segredo que não deixou transpirar dos seus furores recalcados no peito.
A notícia que o seu procurador lhe deu passados dias foi consolativa. O supremo tribunal anulara o processo desde a apelação por falta de intimação ao réu. Queria isto dizer que a demanda ia recomeçar desde a sentença de primeira instância.
Recobrou-se Gastão; as meninas descontinuaram os preparativos de convento; aquietou-se o ânimo de todos, e volveram à casa das margens do Lima alguns parentes, que fugiam para não presenciarem as angústias daquela nobilíssima família. Boas almas, não tem dúvida nenhuma!
De pouco tempo foi este repousar para maiores angústias. Os zelosos procuradores de Fernando de Athaide obtiveram despacho para embargo dos frutos pendentes, fundamentando sua justiça em artigos que o leitor curioso pode ver de seu vagar no código.
Foi, para este efeito, citado Gastão de Noronha. Era de mais: foi uma faísca que atiraram àquela alma cheia de rancor, que ameaçava explosão! O fidalgo chamou os criados, armou-os, postou-os ao portão da quinta, e sentou-se no muro para capitanear a defesa.
Os oficiais de justiça, idos de Viana, quando avistaram os homens armados, retrocederam. Os criados, vencedores sem consumo de pólvora, deram-lhes uma bateria de apupos e assovios, que nunca a justiça destes reinos foi tão ridiculamente escorraçada.
Gastão preparou-se para mais pugnaz arremetida. Chamou os caseiros em grande número, armados de foices, enxadas e escopetas vezadas a matar uma andorinha no ar.
Saíram de Viana os mesmos esbirros e outros
mais afoitos, com doze soldados e um sargento. As inculcas do fidalgo anteciparam-se com a notícia. Gastão fechou toda a sua família em uma sala interior da casa nova, e postou-se com trinta homens nas janelas do edifício solarengo.
A diligência viu aberto o portão, e receou cilada. Os aguazis incitaram o exército a ir na dianteira. O bravo sargento, direito como um Giraldo-sem-pavor, entrou com o dedo no gatilho, bradando: «preparar!» com voz tão marcial, que fazia lembrar os bons tempos de Nuno Álvares e João de Castro. Os soldados compassaram-se em atiradores ao longo das alas de cilindras e acácias.
As avezinhas, que se aninhavam calorosas por entre a folhagem, crepitavam em bandos, e fugiam para o lado da casa, como a pedirem abrigo às cinco meninas, suas únicas visitas àqueles pacíficos caramanchéis.
Parou a tropa no terraço fronteiro à casa. O sargento viu uma cabeça entre as duas colunatas moçárabes de uma janela, e disse:
—Cuidado! que lá está um!
—É o fidalgo!—disse o escrivão, aventurando uma espreitadela por entre as franças de uma olaia—Está sozinho?
—Está, pelo menos não vejo mais ninguém—disse o sargento.
Animou-se o executor a sair em claro, e cortejou de baixo Gastão.
—Que quer você?—perguntou o fidalgo.
O escrivão tartamudeou palavras inaudíveis. Saiu à frente um oficial de chibança, e disse stentorosamente:
—Vimos a fazer embargos nos frutos a requerimento de Fernando de Athaide, e com mandado do senhor doutor juiz de direito. Está vossa excelência citado na presença de todas estas testemunhas. Agora vamos cumprir a diligência: somos mandados. Vossa excelência, se quiser, ponha embargos ao embargo.
—Eu não lhe tolero conselhos, su miserável!—bradou Gastão—Já, e sem perda de tempo, meia volta à direita, e fora da minha quinta, quando não vão debaixo de fogo!
—Auto de resistência!—exclamou o escrivão, desentarrachando um tinteiro de osso negro, e examinando na unha do polegar esquerdo os bicos da pena.
Mal o escriba proferira a bombástica exclamação, o fidalgo deixou ver o cano de um bacamarte, e vinte se não mais bocas de fogo romperam das diferentes janelas. O escrivão escoou-se ao longo de um mássico de murtas e acocorou-se. Os esbirros tomaram a retaguarda do exército, e o sargento, em vez de arengar à tropa enfiada de pavor, saiu do seu posto de honra e foi perguntar ao agachado escrivão se devia dar voz de fogo.
O escrivão ouviu a síbila do medo, e disse que o melhor seria não haver sangue, e retirarem-se a lavrar o auto de resistência.
—Meia volta à direita, rodar!—bradou o sargento.
Os soldados voltaram costas ao inimigo, e obedeceram às vozes «braço-arma!» e «marcha!»
A Vitória, posto que incruenta, seria uma ridícula derrota para as armas e para as letras jurídicas, se alguns dos caseiros de mais rópia e chulice, como lá dizem, não saíssem por portas travessas contra vontade do amo, e não cortassem por atalhos a retirada à corrida justiça. Mal precatada ia esta, quando o tiroteio lhe rompeu à frente e pelo flanco direito, com grande algazarra de gritos, e de balas, cujo assovio encrespava de horríveis titilações as orelhas do escrivão. Os soldados viam, a intervalos, surgirem umas cabeças por detrás das moitas, ou deslizarem rápidos os vultos sobre uma clareira de dois troncos seculares do escuro arvoredo. Um soldado mais afoito rompeu ao bosque, e voltou de lá a manquejar com um raspão de bala em um artelho. O esbirro chibante, que queria dar o exemplo da bravura, viu-se de repente na boca de uma clavina, e meteu a coragem debaixo dos joelhos, que pôs em terra, pedindo misericórdia.
Gastão, logo que ouvira o tiroteio, mandou chamar os seus bravos, mas não a tempo de agravar a resistência com o ferimento do soldado. Cessou o fogo. Os escaramuceiros recolheram à cidadela com um chapéu de aguazil arvorado no gancho de uma foice, e o escrivão com os seus chegaram a Viana com aspeto livido como aquele soldado único dos trezentos de Leônidas que foi anunciar a Sparta a morte de todos os seus camaradas nas Termópilas.
O regimento de infantaria aquartelado em Viana, quando viu o soldado ferido, quis sair em peso a vingar a afronta. Conteve o comandante a soldadesca, prometendo em nome da justiça mais legal e solene vingança.
Pode dizer-se, sem injúria ao fidalgo, que a pobre cabeça dele estava perdida. Era aquilo tudo um cavar abismos em abismos. De hora a hora mandava atalaiar a estrada, em quanto recolhia gente armada das aldeias próximas, munições de guerra e vitualhas. Aquela casa, tão quieta dias antes, a remirar-se no cristal do Lima, estava sendo um Castelo de antigo barão em guerra com rei, ou senhor feudal inimigo de velhos ódios de raça. As pálidas meninas e sua mãe aconchegavam-se umas das outras, e tremiam a cada estrondo de cronha de armas no sobrado ou tinir de varetas no cano das espingardas.
Mafalda ia suplicar ao marido que fugisse e as deixasse a elas recolher aos conventos para se pouparem à desgraça de o verem a ele morto ou preso.
Gastão enfurecia-se contra as lágrimas; e, no auge de sua demência, chegava a bradar que ele e sua família morreriam no incêndio da casa para não sobreviverem ao opróbrio da indigência.
Os espias, ao terceiro dia de providencias para formal assedio, foram avisar o fidalgo de que vinham na estrada três cavalheiros com um lacaio.
Momentos depois apearam no pátio os pacíficos invasores
da fortaleza, passando por entre fileiras de homens armados.
Gastão da sua janela-guarita reconheceu um parente de Viana e Felisberto Taveira, já então visconde da Cruz, cujo era o lacaio.
Felisberto abraçou efusivamente o pai de Corinna, maravilhando-se do aspeito belicoso do Castelo, e pedindo licença para cumprimentar as damas castelãs.
Apareceram as meninas com sua mãe. Corinna não se teve que não abraçasse expansiva e lagrimosa o amigo de Antônio de Azevedo.
Ditos os lugares comuns, que eram para pouco em lances tão extraordinários, o visconde da Cruz disse que lera no Periódico dos Pobres do Porto uma correspondência contando com negras cores a primeira resistência que o fidalgo fizera à ação judiciaria, e os motivos que promoviam o embargo. Ajuntou que resolvera desde logo sair caminho de Viana para, como bom amigo de tão simpática família, oferecer o seu valimento. Acrescentou que chegara a Viana quando se tomavam violentas medidas para vingar o agravo feito à justiça e à força armada; e então, de acordo com o cavalheiro parente da casa, e advogado de um tal Fernando de Athaide, conseguira, mediante um depósito equivalente ao rendimento dos bens litigados, cancelar os processos crimes instaurados e mandados de prisão.
Não ficou assim mesmo Gastão de Noronha extremamente satisfeito de tal serviço; mas agradeceu-o com um sorriso, e as meninas com lágrimas.
A parecer do visconde, os caseiros depuseram as armas e os criados voltaram ao seu trabalho. O chapéu do aguazil, em testemunho de alegria, foi arcabuzado e sacudido em farrapos aos quatro ventos do céu.
O restante do dia e noite correu tranquilo e alegre. Corinna recebeu furtivamente a segunda carta de Antônio de Azevedo, e sentiu ânsias de oscular a mão do visconde, que lha entregou com estas palavras:
—O nosso Antônio está em um largo caminho de venturas. Há de vê-lo em Portugal dentro em pouco, e rico. Tenha orgulho de ser amada por tal homem.
—Tenho! Deus sabe que tenho!—murmurou ela.