Capítulo VII
Gastão de Noronha, poucos dias depois do baile da Torre da Marca, saiu do Porto apressadamente com a família, por saber que chegara a Viana um seu parente de Lisboa, com o intento de passar a estação da primavera na quinta das margens do Lima.
Momentos antes da partida, Corinna da Soledade escreveu esta carta:
«Vamos partir. Lembre-se desta sua outra irmã para lhe contar os seus dissabores. Pode parecer-lhe que este desejo das suas cartas é desejo de quem vai viver na solidão da aldeia, e precisa distrair-se seja com o que for. Talvez a sua bondade me não recusasse tal distração, ainda mesmo tendo o meu amigo a certeza de ser tamanho e tão de gelo o meu egoísmo. Não, não é assim. Eu, sem pejo, lhe confessei que o estimava quanto podia, e nenhum acidente da minha vida me fará mudar. Se vir o caminho da felicidade,
siga-o, meu irmão, e não volva a face lá para a minha soledade, para aqueles arvoredos onde eu hei de esconder-me com as suas cartas. Adeus.==«C. da S.»
Na carta ia incluído um bilhete com um nome de homem, a quem deviam ser subscritas as cartas de Antônio de Azevedo.
Agora sabe a sensível leitora se Corinna da Soledade tinha razão de estar triste mais que suas irmãs, quando, idas do tumultuoso Porto, se viram outra vez no ermo, quando as árvores mal sacudido tinham os gelos do inverno, e começavam a abrolhar os gomos da sua nova folhagem.
O parente, que esperava em Viana, Gastão, era um fidalgo sexagenário, filho de Lisboa, grande morgado no Alentejo, e muito amigo de divertir-se, do que dera cabal prova no decurso de sua vida celibatária. Chamava-se D. João de Mattos e Noronha, e vinha a ser segundo primo de Gastão, ou coisa assim parecida. O ir ele ao Minho, na primavera daquele ano, posso asseverar-lhes que não era movido por desejo de ver florido o jardim de Portugal, nem se lhe a ele dava que as claras águas do Lima corressem para baixo ou para cima. O caso era todo medicinal. Como sentisse as pernas fracas, e o estômago preguiçoso, consultou vários médicos, e todos lhe disseram que fizesse exercício, e bebesse bons ares, especialmente os do Minho. Ocorreu logo a D. João de Mattos que tinha um parente nos subúrbios de Viana; e, posto que nunca se vissem nem correspondessem, entendeu ele que, a toda a hora, um Noronha seria bem recebido no solar do fidalgo minhoto. Outra razão vem condizendo para explicar a escolha da província, e era que o velho fidalgo de Lisboa, na última década da vida, se fizera tão econômico e avaro, quanto fora prodigo e dissipado até aos cinquenta anos: donde resultava que o seu grande prazer seria achar bom gasalhado gratuito em casa de parentes, que se dariam por bem pagos com a honra de o terem hóspede.
Cresceu de ponto a satisfação do velho, quando se viu alegremente acolhido nos braços de seu primo, dando a beijar a mão às cinco formosas meninas, que lhe chamavam tio D. João.
A medicina teve um triunfo. O estômago de D. João ativou admiravelmente suas digestões; as pernas pareciam recaldeadas de aço; movia-se o remoçado velho com a flexibilidade dos seus quarenta anos. A natureza brindou-o com as suas urnas aromáticas: eram tudo tapetes e doceis de flores a festejá-lo; as calhandras e os rouxinóis desgarravam-se em cantilenas quando o velho passava com as sobrinhas pelos braços; até o Lima, recobrando a primitiva magia de dar o esquecimento a quem o transpunha, parecia ter matado no sexagenário saudades, e renascido esperanças em novo começar de vida.
Esperanças! ora, esperanças aos sessenta anos, (diz o leitor) em que, a não ser na salvação de sua alma?
Verão o que dali sai. Hão de maravilhar-se do influxo daqueles ares e águas do Minho, nas fibras revelhas de um peito ido de Lisboa, onde as caquexias do coração vem muito mais temporãs—o que, a meu ver, se deve ao mau ar e à péssima água, elementos importantíssimos do sangue.
D. João de Mattos, conversando, uma vez, a sós com seu primo Gastão, disse ao correr do diálogo:
—Olha, primo, o celibato dá aos moços vantagens, que, no velho, são amargamente descontadas. Mil vezes, nos últimos vinte anos, me tenho arrependido de não haver casado. Desprezei grandes fortunas, porque era rico, e formosas mulheres, porque era um estroina de péssimos costumes: parecia-me que a beleza é uma flor boa para se aspirar e deixá-la ainda viçosa para que no-la invejem e furtem; enquanto que a obrigação de conservar em casa a flor murcha é um pesadelo. Isto é que eu pensava com a minha libertina filosofia dos vinte, dos trinta e dos quarenta anos. Quando orcei pelos cinquenta, lembrou-me que, aos sessenta, precisaria de uma família, de uma esposa, de filhos, de carinhos e das doces ilusões da velhice. Pensei em casar-me. Procurei as mulheres que amara aos trinta, e achei-as mães e avós; algumas que se conservavam solteiras estavam feias e velhas. Veja o primo o poder dos maus hábitos!—quando assim as vi, ainda cá disse de mim para mim: «olha se eu tenho casado, que bonitas criaturas estas para me ajudarem a bem-morrer!» Muito custa a purgar a peçonha dos maus princípios, primo Gastão! Aqui tem, pois, vossa excelência que por um triz não cedi à tentação de casar com uma menina de vinte e cinco anos, filha segunda da casa da Trofa em Évora, a qual os pais me davam com a melhor vontade, e ela também não mostrava sombra de constrangimento; mas um dia, não sei como, vou a casa de um tenente de cavalaria, ainda nosso parente, e vejo-lhe sobre uma mesa um ramo de flores velhas atadas com uma fita de cetim verde que eu mandara à minha futura, atando outro ramilhete, em dia dos seus anos. Pensei no que vi sem dizer nada. Faz lá ideia do castigo dos meus erros começados naquela hora de ciúme! Ninguém imagina a dor de um velho ludibriado, se ele ainda conserva coração com bastante memória para lembrar relances repreensíveis de sua mocidade!... Fui para Lisboa sem me despedir da noiva, e de lá escrevi ao pai, dizendo-lhe que seria grande acerto casar sua filha com o tenente de cavalaria. Como de fato acertaram casando, e lá estão felizes com muitos filhos. O que eu nunca pude acabar de entender é como podia aquela menina aceitar-me, e com que vistas o faria? Dispunha-se a ser feliz comigo, e vai depois ser feliz com o outro! Entendam lá as mulheres de agora tão diferentes das do meu tempo! De maneira, meu caro primo, que a minha decrepitude será triste a mais não poder. À hora da morte hei de ver-me rodeado dos sucessores do morgadio, sobrinhos que aborreço, porque os vejo sempre a contarem-me as rugas novas da cara, e sei que tem o lisonjeiro cuidado
de perguntarem por mim, todos os dias, aos médicos. Tenho acumulado os rendimentos por não saber em que dispendê-los; e tudo isto há de ir dar àquelas mãos ávidas de meus sobrinhos, e depois eles é que hão de saber gozar o que eu já não posso.... Triste, tristíssima coisa, primo Gastão!
—Isso é assim, primo D. João....—murmurou com doloroso trejeito de beiços e olhos o pai das cinco meninas solteiras; e prosseguiu—O primo, ainda assim, por causa de uma é injusto com as outras mulheres. As de hoje são como as de todos os tempos: há bom e mau. Ora assim como D. João deu com uma das más, podia ter encontrado uma das muitas que há boas, e estar a esta hora muito satisfeito, e ter já um herdeiro dos seus vínculos.
—Palavra de cavalheiro!—exclamou com alvoroço D. João—quando penso que podia ter um herdeiro dos meus vínculos, e arrancar a minha casa das garras famintas de meus sobrinhos, morro de desesperação por me não ter casado! Que contentamento seria o meu, ó primo! um filho! um herdeiro!
—Pois ainda está em tempo—atalhou Gastão—case-se; não hão de faltar-lhe noivas, sem sair da sua qualidade. Há de achá-las mesmo na sua parentela, dignas, formosas, capazes de lhe honrarem a velhice, e encherem de alegria e mocidade os seus últimos anos.
D. João fitou os olhos descorados e franzidos no rosto do primo, estendeu-lhe a mão cortada de cordoveias, e tartamudeou:
—Se eu tivesse vinte anos menos, pedia-lhe uma de minhas sobrinhas, primo Gastão.
—Escolha, primo—disse o pai de Corinna apertando-lhe afetuosamente a mão.
—Não escolho nem peço nenhuma—tornou o velho—Veja se me tira vinte anos das costas, e depois pedirei a nossa Corinna, que é um anjinho, mas não para mim, que posso ser avô dela. Nada, primo, nada: para desgraçado basto eu.
—Façamos um contrato. Eu trato de sondar a vontade de minhas filhas, e especialmente de Corinna. Se esta, ou alguma das outras se mostrar bem disposta a ser sua esposa, o primo D. João não se nega.
—Palavra de D. João de Mattos e Noronha, que não me nego; pelo contrário, morrerei de felicidade, porque, além da esposa e da sobrinha, levo comigo a mulher, cujos costumes tenho apreciado em mês e meio de convivência a todas as horas.
Fechou-se o diálogo com poucas mais palavras de reciproca satisfação dos dois fidalgos. Enquanto eles praticavam, lia Corinna da Soledade a décima carta de Antônio de Azevedo, que dizia assim:
«Esta é a última carta que lhe escrevo em Portugal, minha amiga. O navio parte depois de amanhã de tarde. Agora vou a Barcelos abraçar minhas irmãs, e despedir-me das memorias da minha infância. Sinto um prazer amargo em me ir aproximando do seu ermo. Cinco léguas apenas nos hão de separar quando ler esta carta. Dê-me uma lágrima
como retribuição da angústia com que eu hei de lançar a derradeira vista ao céu que cobre os seus arvoredos. Quando eu era criança, ia tantas vezes de um alto, onde há ruínas de um Castelo, olhar para esses sítios! Que visão seria aquela da minha alma, então magoada como se pressentisse a saudade de hoje!
«Mande-me ter coragem, minha querida amiga: diga-me antes, como tantas vezes me tem dito, que a dignidade excessiva me tem dado ao coração liga de bronze. Ai! quanto se engana, Corinna! quanto se enganam os mesmos amigos de quem não escondo um pensamento!
«Levo alegres esperanças. Os bons Taveiras tem-me dado cartas de sumô valor de pessoas muito importantes daqui para outras do Rio de Janeiro. A mim não me há de custar a merecer a bem-querença de todos: levo comigo a segurança no firme propósito que fiz de não sair do caminho dos meus deveres. O que fui consigo, minha amiga, hei de sê-lo em todas as situações da minha vida. Se esta estrada me não guiar à felicidade sem remorsos, é que não há nenhuma.
«Vou no intento de advogar. Em poucos anos, com o auxílio de amigos e fervor de trabalho, posso ganhar a mediania que basta aos nossos moderados desejos. Poucos anos, Corinna, que rápidos hão de ir como vão os anos dos felizes. Verá que a esperança lhe aligeira o tempo, e as minhas cartas lhe hão de acudir nas más horas da desanimação. Temos Deus por nós. Deus, minha Corinna! Escrevo-lhe estas quatro letras com quanta unção pode dar a fé ardente de um homem sem culpa. O prêmio que Deus me dá é a consciência de poder assim falar de mim; e chego a crer que este dom me basta para valer muito em seu conceito. Se me não sentisse puro de vergonhas e remorsos, Corinna, julgar-me-ia indigno de si.
«Eu quisera poder dizer a todo o mundo, e a todos os desventurosos escravos de suas paixões, que nenhum amor, por mais desmedido que seja, carece de provar que o é com destinos e excessos censuráveis. É a primeira vez que amo, Corinna, e amo-a muito: pois, por sua vida lhe juro, que ainda leve sombra de intenção culposa me não nubelou a límpida esperança de a ver minha esposa. Estou chorando e estas lágrimas não sei se qualquer amante as verte. Sei que muitos as fariam chorar de sangue a outrem, para se esquivarem ao transe que me está fundamente doendo no coração. E eu, por mim, antes quero padecer agora, porque sei que hei de ser consolado. Os dias prósperos não vem do acaso: são granjeados, como as searas, a muita fadiga e com muitos intervalos de desalento: a final a colheita de frutos e de bênçãos; o coração ainda novo para saborear os frutos, e o espírito cheio de santa vaidade por ter merecido as bênçãos.
«Espere-me, minha doce amiga; seja o meu anjo
animador; mostre-me de cá sempre a pátria à luz da sua alma alumiada de graça divina.
«Escreva-me, e mande as suas cartas ao nosso bom amigo Taveira; as minhas, por mediação dele, todas receberá, e muito longas, para lhe encurtar as horas, e dar alguma alegria às minhas noites.
«Corinna, minha querida esposa, não posso continuar. Sejamos dignos um do outro. Ofereço a Deus as lágrimas que hei de chorar, pedindo-lhe que enxugue as suas com as consolações da esperança. Tenha muito ânimo. A religião há de dar-lhe o que o meu amor não puder. Estarei sempre com a sua alma, e Deus será sempre entre nós, porque muito do íntimo creio que entre dois infelizes sem culpa está sempre um bom anjo. Adeus.»