Conclusão Estrelas Propícias · Capítulo 21 de 22
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Conclusão

Passados seis meses, à porta do quinteiro de uma pequena granja, vizinha de Barcelos, parou uma liteira, donde apearam Antônio de Azevedo e Corinna da Soledade. Logo em seguida, chegaram algumas cargas, acompanhadas por negros, em volta dos quais o rapazio de Barcelinhos fizera grande alarido de apupos e espirros. Das três escravas, uma só resistira à saudade do senhor; os pretos viviam todos, amparados pelo bom trato dos novos amos.

As irmãs do bacharel vestiam as suas mais vistosas e secias galas. Eram quatro frescas moças, robustas, cor escarlate de quem vende saúde, alegria a desbordar do coração aos olhos, e um rir franco e aberto de inocência, e felicidade expansiva.

Corinna abraçou-se nelas, que a levaram em andor para o primeiro sobrado. Neste sobrado, algum

tanto escuro, rescendia um acre de rosmaninho e alecrim, como em festividade de presbitério. Por cima de mesas, cômodas, e banzos das janelas, tudo eram jarras de louça ordinária com grandes feixes de dálias, rosas e folhudos girassóis. O oratório estava aberto, e alumiado o crucifixo com a lampada usual, e mais duas velas de cera de meio arrátel, voto da mais nova das meninas. Os frisos do santuário eram grinaldas de flores, atadas pelas hastes umas em outras, enfeite de menos engenho que aparato.

Antônio de Azevedo entrou depois de sua mulher; sentou-se em um tamborete de coiro; descobriu-se, quando deu pela imagem do Cristo, e murmurou:

—Finalmente!

Corinna da Soledade sentou-se à sua beira, e disse-lhe:

—Que celestial graça tem isto tudo, ó filho!

—Aqui tens a pobre casa onde nasci. Corinna!...—disse Azevedo, relanceando em redor os olhos úmidos—Isto pode explicar a estreiteza das minhas ambições. Moldou-se-me a alma nas dimensões acanhadas desta casinha. Olha as flores de que eu tinha tantas saudades! Ali tens a minha banca de estudo... Lá estão ao lado do oratório os meus primeiros livros... Mas como isto é pequeno! Como caberemos aqui!

—Perfeitamente, Antoninho!—disse Corinna.

Entrou, neste ensejo, Joaquim de Azevedo, o negociante

do Porto, que ficara arrumando noutro sobrado os baús.

—Não sei, não sei como hão de caber aqui, meus irmãos—disse ele, rindo—Tu já sabes, Antônio, que, além desta saleta, e dois quartos, segue-se um casarão velho, e umas oito alcovas, de que os ratos estão de posse imemorial. Ora vem ver! Estou certo que a nossa Corinna vai ficar espavorida!

Abriu Joaquim de Azevedo a porta que abria para o casarão. Antônio fez pé atrás de maravilhado. Tinha diante de si uma sala luxuosamente trastejada, com janelas laterais rasgadas em arco, e envidraçadas a cores. A jardineira central estava cogulada de flores raras, e ricas encadernações de álbuns. A um lado o piano. A outro a otomana e as cadeiras de respaldo em cetim amarelo. No centro, o lustre pendente do estuque primorosamente lavrado da mais engenhosa filagrana. Ao fundo desta sala estava um quarto com recâmara, espaçoso, alegre, com alfaias de muito valor e gosto.

—É o vosso quarto, meus irmãos—disse Joaquim—Ao lado tendes outro: será o do vosso primeiro filho. Quando os filhos aumentarem, iremos rompendo com o edifício pelo campo, ou daremos à casa a largura que precisa para corresponder ao comprimento. O defeito não foi do mestre arquiteto: foi meu por tua causa. Era preciso, cá para o meu plano um pouco de peça magica, que tu visses a frontaria da velha casa, e não pudesses ver o fundo. O que era de nossos pais,

está em pé; tens que farte onde ver o teu passado; tudo se conservou por amor de ti, que tens lá essa poesia das casas velhas. Mas hás de perdoar que eu tenha destruído o casarão, antes que os ratos devorassem as nossas irmãs.

Antônio abraçou Joaquim de Azevedo com fervorosa alegria, e este, com o outro braço, apertou Corinna ao peito.

Seguiu-se um dia e muitos dias de contentamento incessante. A cada hora em que se encontravam juntos, à mesa, no jardim, nos campos, ou à margem do Cávado, era uma festa, uma alegria de crianças!

Gastão de Noronha estava já em Lisboa, de volta de França, onde se deteve um ano a comprar a mobília. Aquelas duquesas eram os seus pecados!

Fernando de Athaide desceu do alto-Minho a receber seus cunhados na quinta do Lima. Também Corinna queria ir reconhecer os arvoredos de sua infância, e mostrar ao marido os lugares onde chorara mais lágrimas de saudade. Nesta quinta se reuniram as quatro irmãs casadas.

Emma, viscondessa da Cruz, tinha nutrido muito; e, conquanto o júbilo lhe desse azas, não cessava de queixar-se dos incômodos de tamanha viagem, desde o Porto ali! Leonor, casada com Luís Taveira, ria muito da irmã gorda, chamava-lhe o ideal da preguiça, e saltava muito, pendurada no braço do marido, que era doido por ela. O velho Bernardo Taveira seguiu os filhos, e fazia discursos, que ninguém lhe ouvia,

exceto Antônio de Azevedo, que via nele um dos clássicos velhos talhados a molde das virtudes de Valentim da Costa. Dias depois, chegou Gastão de Noronha, Mafalda e Elisa, a mais nova, e ainda solteira das meninas. Gastão, com todo o aprumo de sua fidalga altivez, Aproximou-se do genro Azevedo, abraçou-o cordialmente, e disse-lhe:

—Meu caro comendador!

—Vossa excelência está enganado!—disse o atônito Azevedo—Eu sou, salvo a pequena diferença de alguns cabelos brancos, o Antônio de Azevedo de 1844.

Gastão tirou da algibeira uma chapa refulgente da ordem de Cristo, e disse:

—Aqui tem! É o meu presente de noivado.

—Muito agradecido a vossa excelência—disse Antônio de Azevedo—Qualquer dadiva de vossa excelência me alegra; e esta, que tanto luz, deve ser muito agradável entre os brinquedos de meu primeiro filho.

—Mas eu quero que a use—tornou o sogro.

—Na minha aldeia?—perguntou o genro.

—Em Lisboa, para onde eu quero que o senhor vá gozar a vida e a riqueza que tem. A minha Corinna não se fez para o mato de Barcelos. Não é assim menina?

—Respeito muito a vontade de meu pai—disse Corinna com submissão—mas a nossa casa é em Barcelos, e as minhas flores estão lá por aqueles matos. Tenho lá uma segunda família que me chama, e à

qual eu tenho escrúpulos de roubar por mais dias o seu irmão querido. Amanhã partiremos.

Antônio de Azevedo, sem temer reparos, cedeu à alma reconhecida, e deu um beijo na face de sua mulher.

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