Capítulo XIII
Lembra-se o leitor de eu lhe ter dito, no primeiro capítulo, que, por uma tarde de Agosto, estava Corinna da Soledade, nas margens do Lima, reclinada em um dos bancos circumpostos à fonte do topo da sombria avenida?
Agora é que o romance prende com aquela tarde! Vejam que desconcerto este! Chega uma novela ao meio, e torna a começar. Parece que é isto um abuso da indulgencia com que o leitor costuma indultar-me os desarranjos do meu engenho. Ora queira perdoar mais este, atendendo a que as coisas, na vida como ela é, também assim vão desordenadas, e começam não só pelo meio, mas até pelo fim.
A carta, que Corinna lia e regava de lágrimas, era de Antônio de Azevedo. A página que mais a enternecia a prantos dizia assim:
« Eu não sei que deva esperar de Fernando de Athaide. Pareceu-me bom quando lhe vi lágrimas, e mau quando se despediu. Será tudo, ou não será nada do que me pareceu: os indivíduos vulgares são os menos inteligíveis. O melhor, Corinna, é nada esperar que bom seja.
«Entretanto, eu posso mandar à tua família o bom coração que tu fizeste, e não pode ser teu sem ser dos teus. Prezo teu pai e tua mãe, quero às tuas irmãs como às minhas. Tenho-vos a todos no mais sagrado dos meus afetos e ardentes desejos de ser útil.
«Os meus haveres, por enquanto, não merecem tal nome; porém a minha palavra vale muito com os amigos que me deram os Taveiras. É-me fácil possuir alguns contos de reis, e mandá-los a teu pai para ter uma casa e segura subsistência de sua família, até que a minha posição seja mais solida. Mas como hei de eu, e com que pretexto, remeter-lhe este dinheiro? Como há de ele aceitá-lo? Pensei nisto muitos dias; e, a final de desanimados arbítrios, tomei um expediente que tu, minha Corinna, aplaudirás, porque, sobre tudo, és a minha irmã. Remeti seis contos de reis ao nosso Felisberto Taveira, pedindo-lhe que fosse ele oferecê-los a teu pai como coisa sua. Contrariou-me logo a conjetura de que teu pai os não aceitaria, por não poder dar abona «Os meus haveres, por enquanto, não merecem tal nome; porém a minha palavra vale muito com os amigos que me deram os Taveiras. É-me fácil possuir alguns contos de reis, e mandá-los a teu pai para ter uma casa e segura subsistência de sua família, até que a minha posição seja mais solida. Mas como hei de eu, e com que pretexto, remeter-lhe este dinheiro? Como há de ele aceitá-lo? Pensei nisto muitos dias; e, a final de desanimados arbítrios, tomei um expediente que tu, minha Corinna, aplaudirás, porque, sobre tudo, és a minha irmã. Remeti seis contos de reis ao nosso Felisberto Taveira, pedindo-lhe que fosse ele oferecê-los a teu pai como coisa sua. Contrariou-me logo a conjetura de que teu pai os não aceitaria, por não poder dar abonação; mas tão cansado estava eu já de ser contrariado,
que fechei os olhos, e deixei ao meu bom amigo o desapressar-se das dificuldades. Aqui tens o que fiz: Deus fará o resto.
«Pedi ao Taveira que aconselhasse a saída de teu pai para o Porto ou Lisboa. A especial situação em que ele se colocou é muito violenta. Digam-lhe todos que abandone as terras que já não são suas. Em toda a parte há sol e árvores e paz. Todas as flores te hão de festejar, minha filha, e o meu coração te será companhia onde quer que vás.
... » Era bem para lágrimas este singelo dizer e extremo amar do pobre ausente!
Expiravam nas cristas das serras fronteiras os últimos raios de sol, que Corinna contemplava, coroando de escarlate os pinhais, quando um barquinho abicou à margem relvada, mesmo no ancoradoiro pertencente à quinta de Gastão de Noronha.
Corinna viu saltar e subir por entre as áleas das ramosas árvores um homem, seguido de um criado com uma mala. Como a fuga, sem ser vista, seria extemporânea, a menina, escondendo a carta, esperou que o adventício chegasse.
A certa distância descobriu-se o sujeito, e perguntou se estava em casa o senhor Gastão de Noronha.
—Meu pai está para Viana—disse Corinna—mas deve chegar ao escurecer: não tardará.
—Poderei esperar que ele chegue para lhe apresentar uma carta do senhor visconde da Cruz?
—Sim, senhor: queira subir, que eu dou parte a minha mãe, posto que ela está recolhida no seu quarto por doença.
Chamou Corinna um criado que encaminhou o hóspede à sala.
Pouco depois entrou a menina na sala, desculpando sua mãe em não poder ir receber um amigo do senhor visconde, e pedindo ao cavalheiro o favor de esperar seu marido, que voltaria breve.
Corinna retirou-se, ouvidos os termos cortesãos com que o hóspede agradecia a delicadeza da senhora D. Mafalda.
Não se demorou Gastão. Foi logo à sala, e recebeu a seguinte carta:
«Ilustríssimo e excelentíssimo senhor, e meu respeitável amigo de minha maior consideração e respeito. Amigos de meu pai, e muito da nossa estima, nos recomendam o cavalheiro portador desta carta, brasileiro nato, que anda visitando a Europa, e quer ver o nosso Minho, e mais ainda o Minho de vossa excelência, simbolizado na sua formosa quinta. Confiados na amizade de vossa excelência, ousamos pedir-lhe o favor de recebê-lo, e indicar-lhe as principais belezas que enfeitam as margens do Minho e Lima. Digne-se vossa excelência acolhê-lo com a sua costumada delicadeza, e dar-nos a honra de lhe devermos esta nova consideração. De vossa excelência etc.==Visconde da Cruz.
«P. S. Passados dias terei o prazer de visitar vossa
excelência e sua amável família, para quem peço respeitos e saudades.»
—Ofereço-lhe esta casa como a ofereceria ao senhor visconde—disse o fidalgo com palaciana graça—Queira sentar-se. Temos alguns locais bonitos na nossa província; mas se vossa senhoria viu a Suíça, a Itália e alguns departamentos de França, de certo achará encarecida a pintura que lhe fizeram do Minho. Eu viajei muito com a minha família antes de estabelecer casa em Paris, no tempo das nossas guerras intestinas! Sinceramente lhe digo que lá fora vi a natureza mais adornada, e por isso mesmo mais bela: tudo assim é. O artista quer achar a nudez para enfeitá-la com a poesia do pincel ou do buril; mas o mero curioso sente melhor o belo onde ele realmente é.
Prosseguiram em conversação sobre viagens, até horas do chá. Já o hóspede, a esse tempo, sabia que o seu quarto de dormir era contíguo à sala, e que o seu criado dormia na alcova inferior correspondente ao pavimento do quarto.
Antes de servir-se o chá, mandou Gastão chamar as cinco meninas, e apresentou-as a Carlos Zuzarte, que assim disse chamar-se o hóspede. Felismina tocou piano para acompanhar Emma; seguiu-se Elisa a cantar, acompanhada por Leonor: Corinna estava no quarto de sua mãe. Carlos sentia-se como encantado entre aquelas meninas, que falavam um português feiticeiro em suas incorreções, como falariam anjos, se descessem a tratar com portugueses, circunstância
de idioma que os poetas nunca observaram, que me lembre. Quanto a elas, o dizer do hóspede, puro brasileiro, era coisa de muita graça, com o que elas francamente riam, e de modo o faziam, que o viajante folgava de lhes dar motivo a rirem. É onde pode chegar a condescendência com meninas galantes!
A noite correu ligeira para todos. Ao dia seguinte madrugou Zuzarte, e desceu ao jardim. Argentava o sol a serra de Arga, e lá em cima os montados daquela mística selva dos franciscanos, onde ainda rumorejam os salmos das singelas almas que dali, tão vizinhas do céu, se alaram para Deus. Com que pena, leitor, eu acho o meu frei Luís de Sousa estranhamente trivial e despoético na descrição daquele ermo e dos seus moradores! Ele, o dulcíssimo panegirista das solidões de Benfica, passou por entre os cenobitas de mais ignorada vida, nas crônicas monásticas, e apenas disse: «É convento de religiosos entregues mais à vida contemplativa, que aos cuidados e trabalhos da ativa.» E mais nada daquelas brenhas, e grutas e lajes sem nome que...
Se eu me deixava ir agora à vontade da pena, lá me ficava o romance enredado nos silveirais da mata de S. Francisco de Viana, por onde já passei um dia, lá muito no alto, donde eu avistava a casa acastelada de Gastão de Noronha, enquanto outro anacoreta me ia contando o romance daquela família.
O hóspede estacou surpreso à entrada de um pavilhão de olaias. Estava lá dentro uma como estátua de alabastro, que poderia chamar-se o anjo da meditação. A estátua, porém, se o era, dos jardins do céu devia de ser, porque tinha luz nos olhos e celestial graça no sorriso, quando Zuzarte a viu. Era Corinna da Soledade.
Cortejou-a o sujeito com certa turvação, e retirou-se. A menina correspondeu ao cumprimento, e saiu do jardim logo que o hóspede se distanciou da gruta.
Por ali se deteve contemplativo o brasileiro até horas de almoço. Lá veio procurá-lo Gastão de Noronha, e se andaram ambos conversando ainda sobre coisas que tendiam todas, por parte do fidalgo, a averiguar se o hóspede era rico.
—Tenho trinta e oito anos—disse o brasileiro—e princípio agora ainda a pensar nas delícias que tem o mundo. Até agora cuidei em fazer-me rico, pensando que bastava sê-lo para ser feliz. Como me enganei, cuido de hoje avante em dar nova aplicação à fortuna.
—Na sua idade—atalhou Gastão—quando se é rico, acham-se abertas as portas do mundo para todos os gozos.
—Não é tanto assim—replicou o hóspede—A riqueza é muitas vezes um estorvo à felicidade do coração; e o coração, aos trinta e oito anos, é quase sempre enganado pela juventude que o reflexo do ouro lhe dá. Quando me proponho um programa de vida nova, o meu primeiro pensamento é casar. A felicidade do celibatário, se ele não for monge ou santo, ou
temperamento excepcional, é uma concatenação de deleites viciosos com muito desconto de amarguras. Para além deste difícil passo do casamento rasgam-se-me novos horizontes, encantam-me as alegrias da vida doméstica, vejo os bens que Deus concede na velhice aos que dignamente consumiram suas forças nos anos em que as forças carecem de ser subordinadas ao dever...
—Pensa muito acertadamente, senhor Zuzarte—interrompeu o fidalgo.
—O quadro delicioso que vim achar em sua casa, senhor Gastão de Noronha, redobrou-me o encanto, porque é ele a mais sublime realidade das minhas imaginações. Que ditosa velhice a do pai que vê em volta de si cinco filhas, cinco amores de filha a florescerem-lhe a alma com as suas primaveras! Assim não se deve sentir o peso dos anos, nem o temor da morte. O caminho final, a última jornada deve ser suave entre os anjos. Não é muito feliz, senhor Gastão de Noronha?
—Sou infeliz—disse, em boa consciência, o fidalgo.
—Infeliz?! Com família tão querida e extremosa, neste paraíso, é infeliz!? Então lá se vão as minhas quimeras!...
—Fui ditoso até ao momento em que uma inesperada desventura me bateu à porta para me dizer que esta casa não era minha, e que as minhas filhas teriam um futuro de dependência, obscuridade, e... Deus sabe que futuro!...
—Pois não é de vossa excelência esta casa?—perguntou
o hóspede com um ar de espanto, que denotava artifício por demasia de naturalidade.
—A herança de minha mulher foi-me disputada por um parente; são vínculos que as leis concederam a um filho natural do antecessor de minha mulher. Passados alguns meses terei de sair com minha família. Um descendente dos marqueses de Vila Real não terá choupana onde se abrigue com suas filhas e mulher. Aqui tem o senhor Zuzarte a razão da minha amargura. As filhas, que eram minhas delícias, estão sendo um constante incentivo de sofrimento. Eduquei-as em França, dei-lhes uma infância de rainhas, premeditava casá-las nas primeiras famílias desta província: muito fidalgas, muito prendadas e muito pobres, quem as quer, a não serem maridos de quem eu de certo as não fiava assim mesmo pobres?...
Carlos ouvia Gastão com semblante mais assombrado que compungido: dir-se-ia que aquele homem, cônscio da índole soberba do fidalgo, pasmava de ouvi-lo abrir-se em palavras tão brandas, francas e humildes. De si para si dizia Gastão, vendo o aspeto indefinível do seu hóspede, que, depois da revelação da pobreza, o rico o estava olhando com menos prestígio, e talvez refletindo no modo de esquivar-se a alguma petição de dinheiro. Esta hipótese, beliscando o orgulho do fidalgo, fê-lo proromper nestas palavras destoantes das últimas que proferira:
—Ainda assim, as pessoas que se hospedam em casa de Gastão de Noronha, por enquanto, são recebidas
como em todo o tempo. A revelação que lhe fiz, senhor Zuzarte, não é lástimas de quem acaba pedindo um favor. Tenha vossa senhoria muita confiança na minha independência, que eu hei de morrer Gastão de Noronha. Há meses que o nosso amigo visconde da Cruz depositou um capital de dois contos de reis para evitar um embargo nos frutos pendentes destes bens: quando eu tal soube, vendi as joias de minhas filhas para embolsar o senhor visconde do seu depósito.
—Vossa excelência está-me fazendo revelações que me confundem—atalhou o hóspede—e ao mesmo tempo fere-me com suspeitas que eu não mereço! Por ventura crê-me capaz de o julgar abatido e desmerecido em seu infortúnio? Que disse eu para vossa excelência passar de uma tão nobre confissão dos seus desgostos a prevenir-me de que os hospedes em sua casa são recebidos como nos tempos prósperos?!
—Desculpe-me—acudiu Gastão—é que eu não nasci para estas queixas, e cuido sempre que a pobreza me abate aos olhos dos estranhos, desde que me vi desconsiderado dos parentes.
Entraram na casa do almoço, e encontraram D. Mafalda, que os esperava com as cinco meninas. Carlos foi apresentado à fidalga, e deteve-se conversando especialmente com ela durante o almoço. A polidez assim o mandava ao hóspede: mas o familiar afeto com que ele a tratava era por demais. Notaram as meninas que ele não desfitava os olhos de sua mãe senão
quando encontrava os dela, já também admirada da fixidez atenta do brasileiro.
Da casa do almoço passaram à sala do piano. Felismina foi cantar modinhas brasileiras com o requebro e mimo das ardentes e languidas filhas do Brasil. Felismina era uma formosa morena, com olhos negros, cabelos curtos e anelados como espirais de ébano, esbelta de corpo, alta mais que todas, muito ágil e inquieta, relanceando sempre a vista a todos e a tudo, a mais diserta e chistosa de todas, e a menos dada às flores, à poesia, e às belezas campesinas que suas irmãs encareciam umas mais que outras, e Emma, a pachorrenta Emma, esta mais que nenhuma.
Felismina estava gracejando com Zuzarte a respeito das damas brasileiras, cujas graças o hóspede, sem favor, elogiava, quando um criado entrou à sala onde estavam todos, e entregou uma carta ida de Lisboa para Gastão de Noronha. Era a carta do procurador.
—Teremos golpe?—disse o fidalgo a D. Mafalda.
—Não sei qual possa ser!—respondeu a senhora—As dores mais de temer estão todas passadas.
Leu Gastão a carta, e disse com alvoroço:
—O Fernando manda suspender a execução, e retirar o processo de julgamento com desistência! Que significa isto?
—O quê, papá?—exclamou Felismina, que mal ouvira, de entretida que estava com o brasileiro.
—É o primo Fernando que desiste da demanda—disse Mafalda.
—Foi ele!—exclamou Corinna.
Voltaram-se todos para a menina que soltara o brado, e viram-na muito escarlate.
—Ele! quem?—perguntou o pai.
Corinna balbuciou confusas palavras, e não soube como explicar aquele disparate, que parecia o despertar súbito de um arroubamento semelhante a sonambulismo!
Se não existissem os pronomes este e ele, Corinna teria exclamado:
—Foi Antônio de Azevedo!
E, se ela tal dissesse, ninguém a entenderia, exceto o leitor.