Capítulo IX
UMA CARTA DE CORINNA DA SOLEDADE A ANTÔNIO de AZEVEDO BARBOSA.
«Na minha segunda carta lhe contei o que se passou até à morte do tio D. João. Agora é que eu bem compreendo o desespero em que vive meu pobre pai. Quando ele me disse que íamos empobrecer, cuidei que se inventava um engano para eu consentir em ser a vítima voluntaria da pobreza da nossa família. Soube que a Emma fora instada com as mesmas razões da pobreza: não a dissuadi; mas, em minha consciência, julguei que era sacrificada às ambições de continuar-se em Lisboa o fausto que tivéramos em Paris.
«É verdade o que meu pai me dizia. Os bens do vínculo, únicos que possuímos, estão em risco de se perderem. Imagine o meu querido amigo como será a nossa vida, ouvindo a cada hora o pai lastimar-se, enfurecer-se e lançar-nos injustamente em rosto que
fomos nós a causa da sua ruína, porque dissipara os bens livres para nos dar em Paris uma vida brilhante com esmerada educação! Minha mãe, que não tem culpa de ter sido herdeira do dote que lhe tiram, faz-me muita compaixão, quando o pai lhe diz que foi atrozmente enganado para casar com ela.
«Que será de nós, passados alguns meses? Para onde iremos quando nos expulsarem desta casa? Minha mãe já pediu a parentas, que tem em diferentes conventos, que nos recebam. Eu creio que irei para Viana e mais a mana Felismina; outra irá para Vairão; e as outras duas para S. Bento do Porto. O pai diz que vai a Lisboa requerer um emprego, com que possa sustentar-se a si e à mãe. De maneira que estamos em vésperas de nos dispersarmos para nunca mais nos reunirmos! E eu, entre todas as minhas irmãs, sou a menos infeliz, porque há muito suspiro pela solidão do claustro, e sei que lá terei comigo a imagem compassiva do meu querido irmão; porém, eu queria ir para o convento, deixando a minha família contente e feliz, e não assim a braços com a dependência, e Deus sabe com quantas desventuras piores que a dependência!
«Aqui me tem, pois, bem digna do seu amor por minha pobreza. Já me lembrou se Deus me deu esta virtude para merecer aos seus olhos, meu amigo. Tenho momentos em que o futuro se me alumia; sou eu a única pessoa da minha família que vê a felicidade através desta escuridade. Todos se lastimam,
e eu só me lastimo de os ver tão desanimados. Falta-lhes o amparo do amor, e talvez da fé na providência divina. Eu rezo muito, e desafogo em consoladoras lágrimas; minhas irmãs e meus pais abafam sem linitivo. Às vezes quero consolar meu pai: o infeliz repele-me, como se eu desse causa a seus desgostos, e não fosse capaz, para o salvar da queda, de me deixar esmagar no coração e na vida!
«Não estranhe que eu lhe diga tudo o que o coração me for ditando. Agora que eu estou assim pobre, e daqui a pouco obscura e esquecida em um convento, haveria alguém que me quisesse para esposa? Poderia alguém invejar a sorte do homem que me aceitasse? Pois, é nesta situação que eu mais confio do seu amor; é assim que eu me afoito a pedir-lhe que venha, que renuncie ao desejo de ser rico, e que... A riqueza para que a procurava? não era para poder ostentar o seu valimento aos olhos de meu pai? Era de certo; que, se fosse para valer em meu conceito, grande injustiça me fazia, meu caro amigo. Pois então faça de conta que estão caídas as barreiras que só o ouro poderia arrasar. Ninguém me impedirá que eu seja sua mulher. Sejamos ambos pobres: não teremos que medir a desigualdade das nossas posições. A nossa fortuna principiará com a primeira moeda de cobre que empregarmos no primeiro pão. Depois eu lhe darei horas de alegria com a minha ditosa conformidade a tudo que os descontentes chamam infortúnio.
«Não cuide que a vida de convento me assusta, e que eu procuro aligeirar o tempo do suplício. Não, meu amigo. O convento é o único estado que me quadra, e a mais próxima ventura que se oferece à minha sede de solidão. Se voltar cedo, lá me encontrará; se, passados muitos anos tornar para Portugal, no convento me encontrará ou desfigurada pela velhice, ou confundida nas cinzas das bem-aventuradas, que ali acabaram contentes e amantes de mais seguras esperanças que as minhas.
«Pode ser que o meu irmão, nessa outra sociedade, com outras relações, e com a mudança que fazem os anos, contra vontade mesmo de quem se transfigura, sinta diminuir-se a boa impressão que de mim levou. Não creio que me esqueça; mas pode ser que a distância me vá descolorindo aos olhos da sua alma. Se tal acontecer, nem assim deixarei de esperar que em algum momento, entre as fugazes venturas deste mundo, o seu espírito vá ver-me, no meu asilo, esperando-o ainda, e esperando sempre.
«Mas o meu coração lhe pede que não me esqueça, e que aceite as alegrias que ele lhe promete. Adeus, meu amigo, meu consolador. Sua C. da Soledade.»
A PRIMEIRA CARTA DE ANTÔNIO de AZEVEDO A CORINNA, ESCRITA NO BRASIL.
«21 de junho de 1843, onze horas da manhã. «Aqui estou, minha querida Corinna. Cheguei há meia hora. A minha tristeza tem uma negrura inexplicável. Abafa-me mortalmente este ar. Estou como o desterrado que atiraram a uma praia onde não houvessem olhos humanos que me vissem chorar. Ó meu Deus, que atroz suplício é a saudade! Que desolação em roda de mim, que terror me incute tudo isto que me vê com uma indiferença dolorosa como o escárnio! Sairei eu desta febre que me está arrancando pedaços de vida a cada momento! Ó Corinna, eu não a vejo mais! Aqui é que sossobram as mais robustas almas... Eu não previra isto... É impossível que haja piedade nesta gente! A quem escrevo eu, meu Deus! Está a milhares de léguas distante, ó minha amiga! E esta carta só, passados quinze dias, sairá daqui!
... ... «Quatro horas da tarde. «Saí no afogo de uma aflição sem nome. Levei
a minha carteira, e entreguei uma carta do Taveira a um negociante, que, apenas leu a carta, me disse que eu seria hóspede na sua chácara, para onde vou amanhã. Acolheu-me com muito bom rosto, e, apertando-me a mão, disse: «O senhor vem muito recomendado: há de ter muitos amigos, e eu o mais dedicado de todos.»
«Fizeram-me grande bem estas palavras. A maior opressão vai desaparecendo. Já a vejo a outra luz, minha Corinna. Já a torno a ver ao meu lado com a missão de anjo do alento e da paciência. Os desamparados são unicamente aqueles que não tem nenhum amor puro na terra, nem confiança na graça divina. Há de tudo em minha alma, bendito seja Deus! Eis-me outra vez forte para a luta, e envergonhado da minha fraqueza. Não rasgo a primeira página desta carta porque a minha alma há de mostrar-se-lhe sempre nas suas intercadências de força e desanimação. Assim lho prometi, e tenho necessidade de cumprir. Toda a gente há de ignorar os meus desfalecimentos, menos a minha Corinna para me dizer: «Levanta-te, fraco, se queres ser digno de mim!» Vou sair para entregar outras cartas, antes da minha ida para o campo.
«Nove horas da noite. «Todos os portugueses me recebem nos braços. Supunha eu que os negociantes me acolheriam com
a frieza da sua distância de um homem de tão diversa profissão. O que aí se diz desta boa gente é uma calúnia. Os opulentos comerciantes a quem me apresentei parece que me estavam vendo nos olhos espelhadas as saudades da pátria; e eles, também saudosos, simpatizavam mais com a minha dor, e queriam ouvir-me falar das menores coisas de Portugal. Aqui é que se sabe o que é esse torrão de flores e alegrias. Em parte nenhuma a palavra «pátria» tem tão doce, tão querida e esperançosa significação. Muitos aí dizem que tem vergonha de serem portugueses; aqui sente-se orgulho de ter lá nascido, e encontrar tão longe irmãos assim saudosos da mãe comum. Abençoados sejam estes homens que tem olhado compadecidos para mim! Devo-lhes esta serenidade com que lhe vou escrevendo... Mas o cansaço prostra-me, minha amiga. Até amanhã.
«22 de junho, oito horas da manhã. «O meu despertar foi aflitivo. Com os sonhos renasceram as saudades, e o descorçoamento. Assaltou-me a pusilânime ideia de voltar já para Portugal. Seduzia-me o receio de adoecer neste clima, o terror das febres, a dificuldade de ser rico, onde nem todos são ricos, ainda os mais laboriosos. Adormecera pensando no caminho que devia encetar: todos se me afiguravam difíceis e escabrosos. Que fraqueza!
que inconstância miserável a do homem mais fervoroso no trabalho! Eu tinha perguntado ao dono do hotel se os advogados enriqueciam depressa; e ele, enumerando todas as profissões que enriqueciam, não mencionou a minha. Instei encarecendo as vantagens que se oferecem a um bom e honrado advogado: ouviu-mas encolhendo os ombros, e disse que os caminhos direitos eram os mais tortos para quem procurava enriquecer-se. Isto desconsolou-me, amargurou-me os sonhos, e deu-me a hora má que precedeu estas linhas. Deixar falar o descrente da honra. Se é forçoso, renunciarei à riqueza; contento-me que as muitas fadigas e vigílias me deem honesta independência, e o respeito de mim próprio.
«Cinco horas da tarde. «Espera-me o amigo de quem vou ser hóspede. Brevemente voltarei a dar começo à minha tarefa. Já me estão pesando as horas que vou passar de ócio sem prazer: parece-me que são horas que roubo à sua felicidade e à minha. A vontade enérgica é uma esperança meio realizada. Há aqui neste ar, neste céu, nesta incessante labutação, um rumor misterioso que eu escuto como o cântico vitorioso dos que lutaram e venceram. Porque não hei de eu, a final, vencer também com esta ânsia e força de alma, com este amor e saudade, com esta voz profética prometedora de honrosos triunfos?...
«23 de junho, nove horas da manhã. «A casa em que vivo, minha amiga, faz-me lembrar uma finíssima e polida concha entre fofos de verdura e caules de gentis florinhas! As palmas, as tamarindeiras, os coqueiros, e muita espécie de árvores do paraíso com sua esplêndida e agigantada folhagem, absorvem os raios abrasadores deste sol, e elaboram-no em si, expedindo-o em frescura, que faz lembrar a da nossa terra, as auras das margens dos nossos rios, os salgueirais do seu Lima, e os choupais do meu Cávado! Mas que falta aqui da alegria dos nossos arvoredos, minha Corinna? Não sei: parecem-me tristes estas árvores; não me viram na infância; não me conhecem; não me falam. Que belo deve ser este diamante do mundo para os que nasceram aqui! Que abrasadas fantasias serão as dos poetas aquecidos a este vapor aromatizado por tantas urnas de florescência peregrina! Que ar de primitiva magnificência da criação tem isto tudo? Afigura-se-me que, à saída do éden, este pedaço de mundo se desdobrou, com as entranhas arquejantes de riqueza, concitando o homem condenado a trabalhar, a tressuar e a limpar mil vezes o rosto, calcinado sob os ardores do sol, à sombra destas árvores, que significam a misericórdia divina ao lado da justiça inexorável. É um como fantástico esplendor que me está arrobando os sentidos; mas a minha alma está triste
porque esta verdura macilenta não é a da minha pátria; estas folhas hirtas, apontadas ao céu como flechas, ou largas, imoveis e enormes, não me dão o murmúrio tremente das nossas selvas. Não oiço o rumorejo dos regatos, nem o gemer dos carros, nem a cadencia melancólica dos pegureiros das nossas serras. Ai! a pátria, Corinna! como é linda a nossa tão rica e tão pobre terra! Que copiosas bênçãos verte Deus sobre a cabana do pobre jornaleiro que achou a felicidade sem a procurar, formando de um rochedo e da sebe de alguns arbustos o seu palacinho às abas da serra da Tranqueira, onde eu, em criança, tantas vezes subi para contemplar as boleadas serras do seu paraíso, minha filha. Tudo agora me lembra quanto é pequeno e pueril ao pé destes gigantes de verdura, que me assoberbam com a sua majestade! Ainda vos verei, ó opulentas pobrezas da minha mocidade! Ainda lá recordarei, a sós com o anjo da minha alegria, estas melancólicas horas, este deslumbrante espetáculo, que parece estar-me dizendo que para gozá-lo é preciso ter aqui gozado os brinquedos de irmãos, os carinhos de mãe; e, sobre tudo, ter aqui sentido o coração a formar-se, e a desentranhar-se em amor e esperanças
... ... «25 de junho. «Brevemente, amanhã talvez, volto para o Rio.
Vou praticar com um advogado português de grandes créditos e fortuna, homem de muita idade, que reparte comigo os interesses, e me trespassa as obrigações muito lucrativas de defensor, em que está contratado com corporações comerciais. Devo esta prometedora estreia às cartas do pai de Felisberto Taveira, que daqui foi há muitos anos, e deixou respeitado nome, e ainda grosso cabedal. Estou contente quanto, em minha situação, é possível estar. Esta família que me hospedou já me parece minha. A intimidade aqui é uma religião, como se um punhado de portugueses, e não cinquenta mil almas, se encontrassem em torrão estrangeiro. Aqui é onde nós aprendemos o amor de conterrâneos: lá, no seio da mãe, somos-lhe ingratos a ela, e maus uns com os outros; aqui suspiramos todos por ela, abençoamo-la, e religamos os corações de todos com vínculos da reciproca saudade.
«Espere, espere, minha querida Corinna, que havemos de ser felizes!
... «27 de junho. «O letrado a quem vou associar-me é um ancião de semblante apostólico, viúvo, sem filhos, rico, muito esmoler e doente. Falamos muito de Portugal, donde ele veio com D. João VI há muitos anos. É filho de Lisboa, e está há vinte anos com o
projeto feito de ir morrer à pátria; porém os médicos aconselham-no a gozar-se do clima a que está afeito. É que toda esta gente o venera, e carece além disso da sua muita ciência, e probidade na ciência. Já aqui teve consigo dois sobrinhos, que ele amava como seus únicos herdeiros. Morreram ambos por causa da irregularidade da sua vida, e o ancião chorava falando-me deles. Amanhã começo a praticar e a estudar o direito brasileiro: ser-me-á preciso naturalizar-me; que importa? Eu serei voluntariamente natural de toda a parte onde encontro irmãos que falam a minha língua, com tanto que me deixem o coração, lá, onde tenho tudo que é dele.
» A carta é extensa de mais, e o leitor contenta-se com as páginas transcritas.