Capítulo XV
Decorreram alguns dias de excursões pelo Minho e Lima. O visconde acompanhou o festivo rancho. As meninas iam felizes: a própria Corinna, com as suas esperanças, igualava as irmãs em contentamento. A espaços, Zuzarte ou o visconde lhe diziam uma palavra confortadora, de modo que o desconfiado Gastão não desse fé. No que ele muito reparava era nas repetidas conversações dos dois hospedes, que se apartavam da caravana para falarem com certos visos de mistério.
—Quanto a mim—dizia o fidalgo a D.Mafalda—o brasileiro consulta o visconde a respeito de Felismina. Seria bom preveni-lo.
Chegaram a Ponte do Lima. D. Mafalda quis visitar o carneiro de seu tio Fernão de Athaide. Ajoelharam todos a orar por alma do fidalgo. Carlos Zuzarte com tal devoção o fez, que deu nos olhos de todos.
—Parece que é bom cristão!—disse Mafalda a Felismina—Vê tu que o homem tinha lágrimas nos olhos, e veio perguntar-me se eu ajoelhara por formalidade, se por sincero sentimento de respeito às cinzas de meu tio! Que pergunta!...
Alojaram-se em um velho palácio das margens do Minho, onde tinham nascido os avoengos de Mafalda: era a casa onde expirara Fernão. As meninas riram muito, e andavam a reboque umas das outras nos vastos salões esburacados. No quarto onde morreu o camarista de D. João VI estava um retrato dele, roído de traça e pó, com as feições quase apagadas. O brasileiro disse a Gastão de Noronha que Fernando de Athaide havia de apreciar grandemente o mimo daquela carunchosa lona. Prometeu Noronha mandar retocar o retrato, e presentear-lho.
Nem Mafalda, nem alguma das meninas quis pernoitar no quarto, onde morrera o tio, e estivera inabitado desde então. Dormiram nele o visconde e o brasileiro.
Dois dias depois prosseguiram o passeio desandando para o palacete das margens do Lima. O visconde recolheu-se ao Porto, e Carlos Zuzarte ficou ainda sem designar destino.
Abriu-se o teatro lírico no Porto. O brasileiro convidou a hospedeira família a visitarem a galera que ele tinha fundeada no Douro, e a gozarem-se de algumas noites de teatro. As quatro meninas iam endoidecendo de alegria com o convite, e mais ainda com a
condescendência do pai. Corinna entristeceu-se. A felicidade adoçava-lhe a solidão agora mais que nunca. Os sítios onde nos afizemos a cismar e sofrer com a nossa saudade dão-nos a sombra do ausente que choramos sempre que a mágoa lá se vai carpir. Se depois nos afastamos daqueles sítios, a saudade já é dupla: parece que os novos lugares, onde vamos, nos não conhecem, nem sabem porque choramos. A nossa dor dera-nos além um clima nosso; aqui tudo estranhamos, tudo nos parece em dobro apartado. Esta sensação amarga adivinhava Corinna da Soledade, quando pediu a sua mãe licença para ficar com o governo da casa. Gastão deu a licença sem constrangimento; mas Carlos Zuzarte não prescindiu da companhia de Corinna, e de modo lho disse a ela, que a menina não hesitou.
Esperava-os no Porto uma casa nobre mobilada com riqueza. Pasmou Gastão das rápidas providencias do seu hóspede: este disse que, tencionando residir alguns meses no Porto, incumbira o seu amigo visconde da decoração da casa.
Pediu o brasileiro a D. Mafalda se convidava as suas relações no Porto para lhe honrarem as salas por ocasião de um baile, que ele queria dar ao visconde da Cruz. Deu-se um baile esplêndido, como o fidalgo português os dava em Paris.
Concorreram as senhoras de primeira sociedade e formosura.
Carlos Zuzarte afigurou-se a muitas meninas um
bom marido; todas, porém, exceto uma, se abstiveram de revelar o seu parecer em um sorriso ao brasileiro, por verem que eram cinco, e todas belas, as filhas do fidalgo comensal do ricasso; ora a excetuada não deu peso a isso, e distinguiu-se em branduras e cortesias que deram na vista.
Felismina foi quem primeiro as viu. Pudera não! O seu amor era verdadeiro, porque disparatou em ciúmes. Saiu das salas, recolheu-se ao seu quarto, e, nem com ordem do pai, saiu de lá. O brasileiro soube isto, e sorriu-se como a vaidade do coração sorri. Foi ele, em pessoa, pedir a Felismina que voltasse à sala: estava fechada por dentro, e disse pela fechadura da porta que não ia servir de escárnio à sua rival. Carlos sustentou o diálogo à fechadura, foi eloquente quanto se pode ser por um tal sistema de embocadura de suspiros, e conseguiu que Felismina prometesse voltar à sala.
O brasileiro levou à evidência de todos que amava a filha de Gastão, desde que o seu perdoável orgulho se inflou com os ciúmes, acintemente provocados.
No dia imediato jantaram a bordo da galera, que se chamara Aurora, e naquele dia apareceu crismada em Felismina. Este sucesso para Gastão de Noronha teve o valor do terceiro proclame lido à missa conventual.
À noite não saíram de casa, nem receberam visitas, exceto o visconde da Cruz, e seu irmão Luís Taveira, que, desde o baile, cismava muito com Leonor,
filha de Gastão, a mais mimosa de todas em estrutura, coisa assim como sonho, silfo, ou quer que era de imponderável, que parecia nas valsas uma borboleta de azas iriadas.
Que esperto era aquele Gastão de Noronha! Deu logo pela ternura dos olhares de Luís, e de si para si disse: «Mudam os ventos, mudam os tempos!»
Estava, pois, reunida a família, o dono do palacete, e os dois Taveiras convidados ao desembarque.
Ao retirarem os tabuleiros do chá, o brasileiro convidou Felismina a jogar o xadrez, sob condição de ficar sujeita à vontade do vencedor a liberdade do vencido. Felismina Anuiu. Todos cercaram os jogadores com ansiosa curiosidade.
—Gosto de ver a atenção que nos prestam—disse Zuzarte—porque não é brincadeira isto. Esquecia-me, porém, ouvir o senhor Gastão de Noronha, antes de aceitar a anuência de sua filha. Vossa excelência não vem com embargos, se a sorte for funesta à senhora D. Felismina?
—Quais embargos!—exclamou Gastão rindo estrondosamente—E se ela vencer? haverá embargos por parte do cavalheiro Zuzarte?
—Ninguém se importa com o meu destino.
—Quem sabe!...—disse Felismina—Tenho medo....
—Que teme, minha senhora?—perguntou Zuzarte com meiguice.
Felismina sorriu e corou.
Jogaram. Os peões, os delfins, o Castelo, o rei e rainha do brasileiro, foram todos derrotados e assoprados miseravelmente. Felismina venceu.
—Estou à sua disposição, minha senhora!—disse Zuzarte.
—Está?—acudiu ela com as morenas faces retintas de escarlate.
—Estou: que determina?
—Que fique sendo o nosso amigo sempre; que não torne para o Brasil.
—Ficarei. Quer-me então como um parente, sim? Irmão, tio, primo... veja lá: qual parentesco lhe quadra mais?
—Seja primo—disse Felismina.
—Pois, sim, seja primo—disseram todas as meninas.
—Pois então venham dar todas um abraço em seu primo—tornou o brasileiro erguendo-se—O primeiro abraço há de ser o de minha prima Mafalda, sobrinha de meu pai Fernão de Athaide.
Houve um espasmo em todas as senhoras, que pareciam, ao encarar-se mutuamente, perguntarem umas às outras se tinham entendido o dizer do brasileiro.
—Então, prima Mafalda!—tornou Fernando de Athaide—se não aceita o parentesco que sua filha nos dá, aceite o que nos deu a natureza. Aqui tem o mau, o perseguidor, o implacável Fernando de Athaide! Vingue-se agora, dando-lhe um abraço de abafar-lhe o ruim coração que trasborda de felicidade!
Mafalda correu aos braços de Fernando; Corinna, Emma, Felismina, Elisa, Leonor, todas a um tempo, pareciam contentar-se com apertar-lhe os braços. O próprio Gastão abrindo os seus queria abraçar o grupo de um amplexo.
Fernando de Athaide, beijado e abraçado por todas, sentou-se extenuado, e murmurou:
—Devo esta felicidade a Corinna. Dê-me um outro abraço, minha prima Corinna: a si devo o que sou agora; a si é que toda esta família deve a felicidade que eu posso dar-lhe.
—A mim?!—disse Corinna.
—Como assim, primo Fernando?—acudiu Mafalda—a gente não sabe como é que Corinna deu causa a isto!...
—Eu lhe digo, prima: se Antônio de Azevedo não tivesse amado Corinna, nunca o eu conheceria no Rio de Janeiro; e, se eu não viesse a encontrar o amigo, o anjo, o honrado amante de Corinna, creia vossa excelência que seria hoje o perseguidor destas pobres meninas. Foi ele quem me ensinou, com duas palavras, como o Cristo as dizia aos maus, a ser bom, compassivo e misericordioso. Vi-lhe lágrimas mal abafadas no coração; e quis Deus que elas me caíssem no meu. Delas se gerou a felicidade de todos nós, de todos, menos a dele... Adiante... Ele está debaixo da mão de Deus... A sua hora de prêmio há de também chegar... Meu primo Gastão, eu perdi o jogo com minha prima: perdi o direito de me revoltar contra as
suas decisões; mas, ainda assim, o coração põe embargos, e vossa excelência será o juiz, e minha prima Mafalda também. Eu peço-lhe para minha esposa sua filha Felismina: antes quero ser irmão que primo destas meninas; hei de sentir alguma vez o prazer de chamar a vossa excelência pai. Dá-me sua filha?
—Com orgulho, com soberba, como a não daria ao primeiro sangue de Portugal!—exclamou Gastão, conduzindo Felismina aos braços de Fernando.
O visconde da Cruz felicitou Gastão, e discorreu com entusiasmo sobre o patético lance, a respeito do qual também eu faria aqui de vontade um discurso, se o leitor quisesse medir sua paciência com o meu fôlego oratório. A chave de ouro com que o visconde fechou a parlanda foi apresentar todas as licenças necessárias para os noivos se receberem na igreja paroquial de Cedofeita, com dispensa de proclames e atestados canônicos do império do Brasil. Isto deu realces de alegria à sobre-excitação em que todos estavam. Mafalda queria manter-se em sua gravidade dos quarenta anos; mas parecia irmã de suas filhas. Gastão andava a querer levantar toda a gente nos braços, e, a falar a verdade, não só levantava, mas apertava as costelas franzinas do noivo com todo o amor dos seus músculos de aço, músculos que desmentiam a fidalga placidez, que é condição das finas raças. Nestas idas e voltas, Luís Taveira não perdia Leonor de olho, e a espiritual menina, conquanto mui angelica, desta vez dava semelhanças daqueles anjos despenhados por crime
de inveja. O delíquio com que ela o fitava parecia dizer: «A mim não se me dava de me parecer com os mortais nestas alegrias da mana Felismina!» A pachorrenta Emma é que se movia menos naquela geral vertigem. Sentou-se a conversar com o visconde, e teve o descoco de dizer que já se não podia ter em pé, e que estava saudosa das suas almofadas de relva nas margens do Lima.
Seguiu-se, dias depois, o casamento. Não foi falado, nem estrondoso. Até os jornais o ignoraram, ou, se o souberam, vingaram-se da sovinice dos noivos, deferindo para mais galhardas bodas as quatro frases ramalhudas do costume.
Ao jantar concorreram unicamente o visconde, seu irmão, e o velho pai dos Taveiras, ancião de muita gravidade e respeito, um dos velhos modelos do comerciante portuense, coberto de honradas cãs, com muita consciência em lugar de ciência, e poucas palavras, mas pesadas a ouro, e autorizadas como se fossem máximas que encerrassem a experiência de uma longa vida.
Terminado o jantar, apagado o afogo dos brindes, e travada serena prática acerca dos verdadeiros bens da vida, Bernardo Taveira falou assim:
—Eu, se tivesse uma filha, havia de procurar-lhe marido dotado com os verdadeiros bens da vida: que vem a ser saúde, honra, trabalho e religião; religião bastaria dizer, porque ela encerra tudo. No meu tempo achavam-se moços bons, que não tinham outro dote;
e o homem que acertava com um, dava-se por feliz, se tinha filha a casar, ou grandes cabedais a administrar. Eu não sei se há muitos destes moços nestes ruins tempos; o que de veras sei é que os poucos que há, batem às portas dos ricos, e estes não lhas abrem, sem que eles mandem adiante a certeza de que o seu honrado trabalho está já em bom fruto de ações bancarias; e, se eles mostram o fruto, sem dar ideia da árvore boa ou má que os deu, isso também não importa... Senhor Gastão de Noronha, eu hospedei em minha casa um moço chamado Antônio de Azevedo Barbosa. Era pobre, e sem ocupação. Tinha a sua formatura, a sua habilidade; mas, apesar de amigos protetores, não tinha que fazer. Muitas vezes eu disse em mim: «Se eu tivesse uma filha, dava-a a este moço pobre.» O meu hóspede teve razões para sair de Portugal e ir ao Brasil: dei-lhe lá as relações dos meus amigos, e a alguns disse eu que o recebessem como receberiam meu filho. Ia recomendado por sua honra: foi o que mais lhe valeu lá. Azevedo principiou a trabalhar e logo a ser conhecido como letrado. Advoga, e há de ser rico; e, se não for rico, há de ser sempre mais do que isso: há de ser um tesouro de virtudes. Pesa-me realmente não ter uma filha; mas quando vejo que vossa excelência tem quatro solteiras, não resisto à vontade de lhe pedir uma em nome de Antônio de Azevedo.
Gastão de Noronha ficou estupefacto. Fernando de Athaide avizinhou-se dele, e disse-lhe:
—O homem venerável que lhe fala, tem inspiração do céu, meu primo. Aceite a felicidade da nossa Corinna.
—Demora-se a responder, senhor Gastão!—disse o velho com ar triste—Eu não queria que os rogos dos moços valessem mais com vossa excelência, que as minhas singelas palavras. Se alguém aqui pedir mais do que eu, há de ser a noiva. Senhora D. Corinna, venha comigo: há de ajoelhar aos pés de seu pai.
Ergueu-se o tremulo ancião, e tomou a mão de Corinna, que era toda purpura e lágrimas.
Gastão, sem balbuciar um monossílabo, fez sinal afirmativo, recebeu a filha nos braços, e osculou-a na testa.
—Bravo!—exclamou o brasileiro, apertando convulsamente ao peito o velho Taveira. A esposada e as outras meninas, salvo Emma, foram beijar sofregamente a irmã; Emma, porém, lá da sua cadeira de espaldas, disse lentamente:
—Ó Corinna, vem cá abraçar-me, que eu não posso bolir comigo de cansada!
Este milagre de inércia fez rir a todos, e desfranziu o semblante de Gastão. Voltaram à mesa do toast a brindar Antônio de Azevedo. O fidalgo concordou sem repugnância nas saúdes propostas, e agradeceu a última do negociante, em nome de sua filha, futura esposa de Antônio de Azevedo.
Quando Gastão proferiu estas palavras com entusiasmo,
Corinna da Soledade descaiu sobre o ombro de sua mãe, e desmaiou. Era um delíquio de felicidade, um arroubamento de bem-aventurança como as santas os sentem em seus êxtase de amor divino.