Capítulo XVII Estrelas Propícias · Capítulo 17 de 22
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Capítulo XVII

As cartas de Antônio de Azevedo a Corinna e Fernando produziram o que ele até certo ponto vaticinara, falando com Valentim.

Corinna duvidou do amor, que se desafogava em dissertações místicas, e bucólicas saudades de árvores e de rios.

As irmãs de Corinna, com o louvável intento de a consolarem, abundavam no parecer dela.

Fernando de Athaide dizia a sua mulher que não podia caber amor em coração tão cheio de orgulho.

D. Mafalda dizia ao marido que era moda a gente baixa fingir filáucia de fidalgos.

Gastão, acidulado pelo dito da esposa, deu para baixo na peonagem, e declarou que sempre esperava que sua filha levasse uma boa lição.

Acontecera estar neste ensejo em Lisboa, e hóspede

de Fernando, o visconde da Cruz e seu irmão Luís. A declamação do fidalgo ferira acremente a dedicada alma do visconde. Também este havia de ter uma carta explicativa do proceder de Antônio de Azevedo: esperava-a do Porto, e, sem a ter lido, não queria arvorar-se defensor do ausente. Tanto, porém, subiu Gastão em sarcasmos contra o homem de Barcelos, que o visconde ergueu-se irado, e exclamou:

—Senhor Gastão de Noronha! o homem de Barcelos, quando vossa excelência estava em risco de extrema pobreza...

Corinna correu contra o visconde, e pôs-lhe a mão na boca, suplicando silêncio. A prevista menina sabia que duro vexame o pai ia sofrer com tal revelação. Calou-se o visconde, e o fidalgo insistiu na continuação da frase, com trejeitos iracundos. O visconde ia pegar do chapéu, quando Emma lhe disse:

—Não saia assim irritado, visconde. Sou eu que lho rogo.

Parece que Emma podia muito no ânimo do visconde.

Fernando travou do braço do cavalheiro, e passou à sala imediata.

—Você—disse ele—há de dizer-me o resto da frase. Que fez Antônio de Azevedo, quando meu primo estava em risco de extrema pobreza?

—Mandou-me seis contos de reis para eu lhe valer, sem declarar a seu primo que os mandava ele. No mesmo paquete em que recebi tal ordem, veio você.

Logo que me revelou quem era e o intento com que vinha, entendi que a posição de seu primo estava mudada. Ainda assim, fui a Viana, e ofereci dinheiro a Gastão. Como não precisava, devolvi a ordem a Antônio de Azevedo.

—Bem—disse Fernando—é forçoso o segredo?

—É. Corinna valeu-me em um ímpeto de cólera; agora confio de você que a minha palavra, dada ao Azevedo, se não quebrante.

—Confia bem, visconde. Que admiráveis virtudes as deste moço! Sabe você que um homem, conhecedor de tais exemplos de honra, nunca está bem com a sua consciência!? Eu não sei o que já hei de fazer a favor de Antônio de Azevedo!... Aqui me diz o meu correspondente que ele deixou ficar o dinheiro em depósito até nova ordem. Está claro que o não aceita...

—Claríssimo. Se ele não vem, como iria levantar a prenda da noiva?!—disse o visconde.

—Que se há de fazer, meu amigo?

—Não sei: é esperar que ele tenha o que julga necessário à sua independência.

—Vou dar um passo decisivo!—tornou Fernando, depois de breve meditação.

—Qual?

—Você verá. Vamos à sala. Receio que meu primo diga alguma grosseria a Corinna.

Quando entraram, a pobre menina estava chorando, e Felismina, lançando-lhe os braços sobre os ombros, segredava-lhe consolações.

Fernando aproximou-se de ambos, e disse a Corinna:

—Está tudo remediado. É questão de alguns dias.

E, voltado a Gastão, disse jovialmente:

—Olé, primo! o incidente passou: torna tudo ao seu curso regular. Aqui não se fala bem nem mal de Antônio de Azevedo. Defendê-lo seria ultrajá-lo. Acusá-lo seria um vilipêndio. Ninguém ficou mais nem menos do que era.

Na noite desse dia estava Corinna no seu quarto com Felismina, quando entrou Gastão de afável semblante. Sentou-se entre ambas, e disse com mélica entoação:

—Tu és minha filha, és o meu sangue, tens pundonor de raça, e deves estar curada, Corinna. Há muito quem te pretenda; e teu cunhado deixa-te a administração dos vínculos para tu poderes escolher marido. Tens três bons partidos a escolher. O morgado de Villar da Rocha está aqui em Lisboa, viu-te, e perguntou-me se não estavas prometida. Um filho segundo do marquês de Travassos, família mais antiga que a Lusitânia, fez-me igual pergunta. O barão da Teixeira, vindo há pouco da Baía, com mais de quinhentos contos, falou em ti ao Fernando. Escolhe.

—Não escolho ninguém—disse resolutamente Corinna—O que eu escolhia era a morte.

—Antes isso que a vergonha da família!—replicou o pai.

—Que vergonhas dá ela à família?—perguntou

Felismina com os jeitos especiais de quem tem dois milhões.

Gastão involuntariamente respeitou a interpelação da filha milionária. A bem dizer, a pergunta era irrespondível.

Daí a pouco estava febril Corinna, e as ânsias e soluços tão frequentes a oprimiram, que a família houve medo dalgum acesso de loucura.

Fernando de Athaide, cônscio da brevidade do insulto nervoso, disse ao primo:

—Não volte a injuriar a pobre menina, que a mata a ela, e perde a minha estima. Eu hei de necessariamente fazê-la feliz. Se o não conseguir, maldigo a hora em que a conheci.

Dias depois, Corinna saíra do seu quarto, pálida, desolhada e triste. O sangue mal lhe acudia ao pulso. As palavras saiam à força de carícias. Era preciso fazê-la chorar para que as lástimas subissem do coração aos lábios. Falavam-lhe em Antônio de Azevedo, e as faces retingiam-se-lhe; mostravam-lhe o anjo da esperança a voejar para ela, e o sorriso volitava-lhe em toda a face até se confundir com as lágrimas de júbilo. Mas este mesmo júbilo era um acesso de febre. Os médicos tinham-se enganado: aquele quebranto de forças e feições eram prenúncios de morte. A gente experimentada facilmente diagnóstica estas insanáveis doenças: os médicos é que, do cocuruto da ciência, o que ordinariamente palpam nestes sintomas é uma doença que entende com o estômago ou com o fígado.

De coração só conhecem lesões, turgescências, hipertrofias, aneurismas, &c. Tem assim, e por conta da ciência, morrido muita gente, que se curava com um raio de alegria e um pouco de compaixão do mundo.

Fernando encerrou-se com Gastão, e disse-lhe:

—Vou liquidar a minha casa ao Rio de Janeiro. Mandei crenar a galera. Parto na próxima semana. Minha mulher vai comigo; e Corinna irá também, se o primo a ama e me estima a mim. Se ficar, morre; e se morrer, Felismina não quer voltar a Portugal.

—Vai procurar o noivo minha filha?—disse Gastão ironicamente.

—Vai procurar a vida; e se Antônio de Azevedo lha der, bem haja o salvador da nossa Corinna!

—Pois que vá: nós partiremos para o Minho.

—Pedia-lhes que ficassem em Lisboa, e não alterassem os costumes de minha casa. Tenho relações que desejo conservar. Meu primo honrará os nossos amigos, recebendo-os. Em seu poder fica a porção da fortuna que tenho em Portugal. A sua estima por mim há de chegar ao sacrifício de esperar em Lisboa a nossa volta do Brasil.

Não se fez rogar o fidalgo. Sujeitou-se plenamente à vontade do genro.

Recebeu Corinna da Soledade a nova da viagem. Alvoroçou-se até recair na febre; mas a crise foi leve, e rápida a convalescença.

A galera de Fernando, construída em Inglaterra, era garbosa, linda e leveira como um cisne. A tolda

era um camaranchel de sedas, como o das antigas gôndolas de Veneza. O crisma para «Felismina» fadou-lhe mais ricos destinos. O amor lhe inventara os adornos, os perfumes, as graças e garridices que só o amor desentranha de suas fantasias. A sala de ré era uma antecâmara de sultana. Ia por esses mares fora aquela concha de pérolas, namorada das auras que ciciavam no velame, imitando as branduras de suas irmãs derramadas pelas moitas dos gestais. Que vontade fazia aquela gentil galera de ir ter um mundo na vastidão do oceano, e não ver mais que ela e céu, e um ente amado, debaixo das estrelas a espelharem-se nos paramos azuis das águas! Como ali o coração, golpeado na terra, se iria contente, se cá destes abismos levasse ainda a salvo o condão da poesia que faz sair mundos sobre mundos dos abismos do mar!

A galharda galera, como ovante da gentil alma que levava, saiu barra fora com todo o pano e prospera monção. A festival menina, por esses mares fora, sobre a tolda, a cismar, com os olhos lá no infinito horizonte, donde a chamava o esposo, e os favônios a enfunarem-lhe as roupas alvíssimas... que linda ia! julgareis ver a pomba sobre a arca flutuante nas águas já serenas do dilúvio!

Ao vigésimo nono dia de viagem avistaram faróis das terras de Santa Cruz.

Corinna, ao repontar da alva, subiu ao tombadilho, e viu a cidade de ouro, a rainha do novo mundo, espreguiçando-se do último sono entre os cerúleos

coxins do seu imenso leito com pavilhão de mil flâmulas e bandeiras. Parecia-lhe ver caminhar a terra, mar dentro, a recebê-la; mas tardio era o avançar da galera a encontrá-la.

—Daqui a meia hora?—disse ela a Fernando.

—Sim, daqui a meia hora, minha egoísta!—respondeu o primo, e continuou sorrindo—Daqui a meia hora já não tens pátria, nem irmã, nem cunhado! O Antoninho, que, a estas horas está escrevendo uns provarás, com o supremo tédio de que é suscetível a criatura humana, vai receber um golpe de alegria mortal!... Haverá no gênero humano um segundo homem a ponto de experimentar prazer igual?! É impossível que ele te não adivinhe, mana Corinna! salvo se o coração de um jurisconsulto é tapado a toda a casta de inspiração divina!

... ... A este tempo, chegava Antônio de Azevedo Barbosa, ao cais.

Adivinhou, com efeito?—pergunta o leitor.

Nem sombra de pressentimento, meu amigo! O que trazia ao cais, e a bordo de um navio, Antônio de Azevedo, é sucesso infausto que tem uma história concisa, mas necessária.

Um dos irmãos do bacharel, Francisco de Azevedo, era caixeiro, em Lisboa, em uma casa de câmbio da rua dos Capelistas. Merecera um bom nome, e caíra em tentação depois de o ter merecido. As desordens da vida, as demasias de luxo, a ânsia de mostrar-se rico

aos olhos de uma mulher que distinguia os moços ricos, induziram-no a subtrair, com intenção de os repor, capitais, que excediam os seus ordenados de dois anos. Francisco jogou na esperança de resgatar-se, e cavou mais no abismo de sua perdição. Quase a ponto de ser descoberto, quando o patrão dava o balanço, o caixeiro desapareceu, e fugiu caminho do Brasil, confiado na reforma de seus costumes, e na possibilidade de ganhar depressa com que restituir o furto.

Chegou ao Rio, e procurou o irmão. Deu explicações inventadas da sua ida, e conseguiu logo, mediante Antônio de Azevedo, boa casa, bom ordenado e muita estimação dos patrões.

O bacharel estava contente do expediente de seu irmão. Lembrava-se que assim mais cedo as irmãs teriam bom amparo.

Lia, passados trinta dias, Antônio de Azevedo o Comércio do Rio de Janeiro, e casualmente parou os olhos sobre esta correspondência, intitulada: Cautela com os ladrões.

E seguia deste teor:

«Fugiu de Lisboa, com direção ao Brasil, um caixeiro do cambista F***. Chama-se Francisco de Azevedo, natural de Barcelos. Desfalcou o patrão em dois contos de reis. Para que o ladrão não logre o bom resultado das suas manhas, avisa-se o comércio do Brasil.»

Antônio de Azevedo viu entre si e o jornal um redemoinho de cintilas de lume, e, ao levar as mãos aos olhos, tinha perdido os sentidos. Este lance passara-se no escritório de Valentim da Costa.

Entrara o velho, e ouvira o soluçar cortante do seu amigo. Interrogou-o com paternal carinho. Azevedo ergueu-se como atordoado, e, ao sair, murmurou estas palavras:

—A infâmia está aí escrita nesse jornal.

Foi ao armazém onde Francisco era guarda-livros; entrou no gabinete particular do negociante, e encontrou-o lendo o jornal.

O negociante estava correndo a primeira página, e a notícia vinha na segunda.

—Por cá, doutor!—disse alegremente o patrão de Francisco—Vem saber como vai o nosso homem? Otimamente. Estou contentíssimo. É seu irmão, e basta!

Eram frechas que varavam o peito de Antônio de Azevedo! A dor rompeu-lhe em lágrimas. O negociante viu-as, e exclamou:

—Que tem o doutor?! Alguma desgraça de família lá na terra? Morreu-lhe algum de seus irmãos?

—Morreu Francisco—balbuciou o bacharel.

—O quê? morreu Francisco! O doutor está a sonhar! Pois não o viu quando entrou?!

—Morreu para a honra—tornou já serenamente Antônio—Aí está na segunda página desse jornal o ignominioso epitáfio do desgraçado.

—O quê? que diz o doutor de epitáfio?

Azevedo colocou o dedo indicador sobre a correspondência.

O comerciante leu, e fez-se amarelo. Depôs o jornal, levou as mãos aos raros cabelos brancos, e disse:

—Tem razão, doutor! seu desgraçado irmão está morto!

—Vim para o levar comigo. Queira o senhor dar-lhe ordem de sair. Rogo-lhe a generosidade de não lhe dizer a causa por que o despede.

Deteve-se a cismar o negociante, e disse com energia de boa alma:

—Vamos ver se o salvamos.

—Salvá-lo como?

—Vai com outro nome para o Pará.

—O nome não é o infamado; é ele. Creia o meu amigo que eu não vim pedir-lhe a sua proteção para salvar o homem indigno dela. Vim buscar meu irmão.

Foi chamado Francisco.

—Dá contas ao senhor Silva, que vais sair de sua casa.

O guarda-livros fez-se roxo.

—Não há explicações prévias—tornou Antônio—Apresenta os livros a teu cargo ao senhor Silva.

—Os livros estão vistos—disse o negociante—Não tenho a menor suspeita da probidade do senhor Francisco.

—Suspeita?—atalhou este.

—Silêncio!—disse imperiosamente Antônio—Vamos.

O comerciante apertou a mão do bacharel, e lançou ao irmão um olhar compassivo.

Francisco hospedou-se com Antônio. Dois dias depois, recebeu de repente a notícia da sua volta a Portugal, acrescentada destas palavras:

—Entrega esta carta em Lisboa. A pessoa a quem a entregas irá contigo a casa do cambista F***, teu patrão que foi. Darás ao cambista o dinheiro em que ele se disser roubado por ti. Cobrarás recibo, que me enviarás. Feito isto, recolhe-te a Barcelos, e pede a tuas irmãs que te deem um quinhão da sua subsistência.

Francisco, lavado em lágrimas, quis ajoelhar aos pés de seu irmão, e contar a história dos seus desatinos.

—Não há história que absolva um roubo—disse o bacharel.

E no dia seguinte, quando ele acompanhava ao navio o irmão, é que a vistosa galera Felismina se baloiçava, como odalisca, sobre a camilha azul das águas que reverberavam o sol nascente, e se cobriam de scintillante lhama de ouro.

Olhem a felicidade de Corinna e a felicidade de Antônio de Azevedo!

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