Capítulo XIV
Pediu Zuzarte licença para compartir do contentamento da família. Em breves e alegres termos, D. Mafalda disse que seu primo Fernando de Athaide desistia da ação que tinha vencida, quando menos se esperava. Sem rebuço de vão orgulho, a fidalga enumerou quantas desventuras estavam eminentes à sua família, e a ela, pobre mãe e esposa, que, ao mesmo tempo, se havia de separar de marido e filhas para ir quinhoar o pão da caridade de parentes, que, muitas vezes, lho atirariam à cara com a cruel censura aos desperdícios da emigração.
O brasileiro mostrava-se jubiloso do sucesso; e, cada vez que as meninas bem-diziam seu primo Fernando, era muito de notar-se que o hóspede guardava um silêncio indelicado.
Instado por Felismina a dar explicação do seu silêncio, e mais ainda de um certo trejeito de fria admiração,
disse o brasileiro, como surpreendido em misterioso sentimento, qualquer que fosse:
—Eu não sei de que hei de louvar esse senhor Fernando de Athaide, posto que o respeito muito por ser tão próximo parente de vossas excelências.
—Não sabe?!—disse Mafalda com veemência.
—Não, minha senhora.
—Pois a desistência de uma fortuna, que era já sua...—tornou a fidalga.
—Minha senhora—replicou Zuzarte—eu conheço o primo de vossa excelência.
—Conhece!—exclamaram todos.
—Fernando de Athaide desistindo de algumas dezenas de contos, obedeceu talvez a um sentimento de vaidade, o mais barato de quantos lhe tenho conhecido. Seu primo, minhas senhoras, é hoje um milionário. A balança do seu ouro não ergueu duas linhas com o desfalque do valor destes vínculos. Não há virtude que deva espantar-nos na desistência de um objeto inútil.
—Não quero pensar assim, nem consinto que minhas filhas assim pensem—tornou Mafalda.
—Pois bem—retorquiu o brasileiro—convenho que em vossas excelências a superabundância de sensibilidade reverta em gratidão; aposto, porém, que o senhor Gastão de Noronha não pensa assim.
—Penso como minha mulher—disse o fidalgo—Penso que lhe devemos muito ao generoso Fernando, porque eu fui mau para com ele. Quando estávamos
em Paris, recebi duas cartas suas, muito atenciosas, às quais não respondi. Chamava-me primo, e eu tive a estúpida arrogância de rejeitar o parentesco de um homem que, por delicados termos, me convidava a entrar com ele em negociações acerca dos vínculos, que eu ilegalmente administrava. Depois disso, tenho rejeitado todas as conciliações propostas, e, no arrasoado de minha defesa, fiz que os letrados empregassem termos injuriosos contra a sua pretendida filiação de nosso tio Fernão de Athaide. Era de crer que fosse implacável o ódio do vencedor, depois que eu, à força de armas, lhe resisti ainda em último lance. Ora, senhor Zuzarte, seja embora milionário Fernando, força nos é confessar que há sangue muito fidalgo em aquelas veias! Se eu pudesse apertá-lo ao coração neste momento, exultaria do nobre orgulho com tal parente!
Carlos Zuzarte fez um sinal de assentimento às calorosas razões de Gastão, e derivou a prática a outro assunto. Felismina, porém, teimou em falar de seu primo Fernando, pedindo ao brasileiro que lhe contasse o que sabia dele.
—Que interesse, minha senhora!—disse Zuzarte com ar de maravilhado—O primo de vossa excelência é um homem de bigode grisalho, olhos pretos, alto, débil, muito trigueiro, alegre às vezes, outras muito triste, com muitos amigos e muitos inimigos...
—É solteiro?—atalhou Felismina.
—É solteiro, e já agora assim morrerá, porque, se me não engano, deve ter trinta e oito anos.
—Justamente—disse Mafalda—Meu tio Fernão morreu há vinte e dois, e lembra-me ele dizer-me que Fernando teria dezoito. Queria meu tio que eu casasse com o primo; mas como faleceu quase repentinamente, não chegou a mandá-lo chamar.
—Se vossa excelência tem casado com ele—disse Zuzarte—esta cena, em que todos figuramos, estava na massa dos impossíveis! Ora vejam vossas excelências que em bem pouco está o não virem à luz da vida magníficos espetáculos! Que quer vossa excelência saber mais de seu primo, senhora D. Felismina?
—Diga tudo o que souber—respondeu a menina.
—Eu não sei mais nada, minha senhora. A última vez que o vi no Rio de Janeiro foi no escritório de um velho jurisconsulto, onde tinha banca de advogado um moço português chamado Antônio de Azevedo Barbosa.
Corinna da Soledade estremeceu expansivamente, como se ninguém a visse, e como por influição magnética, a cadeira per si mesma se arrastou algumas polegadas para mais perto do brasileiro. A leitora de certo não acredita neste magnetismo da cadeira.
Gastão de Noronha relanceou os olhos a Corinna, e as irmãs também.
—Eu não sei que influência teve este nome no meu auditório!—disse o brasileiro, sorrindo.
—Em que consiste a fortuna de Fernando?—interrompeu Gastão com mal disfarçada zanga.
—Em terras, dinheiro, escravos, navios e prédios—respondeu Zuzarte—Esta grande labutação demanda um bom zelador, que o primo de vossas excelências, por natural preguiça, não pode ser. Ouvi-lhe então dizer, que tendo de sair para demorada viagem na Europa, deixava seu advogado no Brasil o honrado Antônio de Azevedo, com um ordenado bastante às suas despesas. Bem escolhido patrono! Em poucos meses, o doutor conquistou, no Brasil, um nome que vale muito grande fortuna, conservando-se lá seis anos. Alguém me disse que Antônio de Azevedo amara em Portugal uma menina nobre, e fora ao Brasil enriquecer-se para voltar a casar-se com ela. Se isto é verdade, devem dar-se os parabéns à noiva, que o laborioso moço tinha lá uma boa fada à sua espera.
Gastão de Noronha ergueu-se, e disse com impetuosa acrimonia:
—O senhor sabe que está em casa do pai de essa senhora, que Antônio de Azevedo cuida comprar com o dinheiro ganhado no Brasil?
—Como?!—exclamou Carlos com a mais magistral naturalidade—Vossa excelência assombra-me! Dar-se-á caso que seja alguma destas senhoras a menina que... Com efeito! Parece que estamos compondo um romance!
—Romances de uma minha filha...—tornou o fidalgo—Não falemos mais disso... que a ferida ainda sangra...
—Eu peço perdão se avivei dores e saudades, sem
a menor intenção, nem suspeita de....—disse Carlos.
—Pois está claro que vossa senhoria ignorava tudo...—replicou o fidalgo.
E voltando-se a Corinna, soltou um frouxo de mau riso, riso de represa cólera, porque lhe vira as lágrimas correrem nas faces a fio.
Carlos não pôde conter esta exclamação:
—Que grande e digno amor!
Gastão fitou-o com certo espanto e azedume, e disse, em ocasião oportuna, ao ouvido de sua mulher:
—Não sei o que hei de pensar deste homem! O acaso não faz destas coincidências senão nas novelas...
O incidente passara. O brasileiro encostara-se ao peitoril de uma janela com Felismina, e aí conversaram largo tempo acerca dos amores de Corinna e Antônio de Azevedo. Parece que o apologista do bacharel se saboreava muito em discorrer de amores alheios, e não perdia azo de invocar o coração da menina a decidir em teses amorosas, que ele muito de indústria estabelecia. A direção que levou o diálogo, não a sei eu cabalmente dizer; é certo, porém, que Felismina, conversando naquele dia com sua mãe muito à puridade, lhe disse que o brasileiro lhe perguntara se ela poderia amá-lo. Nessa mesma noite Mafalda revelou ao marido a pergunta. O marido pensou na resposta, e disse que tinha razões para supor que Carlos Zuzarte era homem muito rico. A senhora entendeu as clausulas
de tal resposta, e disse a Felismina que o pai ouvira a notícia com agrado.
—E tu, filha—acrescentou D. Mafalda—gostas do Carlos?
—Não desgosto, maman.
—E querias casar com ele?
—Se o papá quisesse... Mas olhe que ele não me disse que queria casar comigo, maman!
—Bem sei, filha, bem sei; mas assim é que se principiam os casamentos. Como o visconde da Cruz cá vem, ele nos dirá quem é o brasileiro, e depois, se o partido for de vantagem e tu quiseres, o que há de fazer-se ao tarde, faça-se ao cedo.
Enquanto esta cena, nem edificante, nem rara, se passava no quarto de Mafalda, Corinna fora sentar-se na varanda mais solitária do palacete, e o propósito levara ali Carlos Zuzarte, acompanhado de Emma e Leonor, que lhe andavam mostrando a porção antiga do edifício. O brasileiro Aproximou-se de Corinna enquanto as duas meninas desceram ao jardim a colher água em pequenas bilhas, e disse-lhe:
—Minha senhora! alegre-se que há de ser feliz! Antônio de Azevedo há de ser seu marido, porque Deus é justo com os corações corajosos sem desonra. Espere, e vencerá. Faça de conta que esta revelação lhe vem do céu!
—Bem haja!—disse Corinna apertando-lhe a mão.
No dia seguinte chegou o visconde da Cruz, o bem-vindo
para todos, e particularmente para Corinna. Carlos Zuzarte, ao apertar-lhe a mão, murmurou estas palavras:
—Seja discreto, quanto lhe pedi!
—Pois dúvida?!—respondeu o visconde.
Gastão, logo que pôde, apartou-se com o visconde, e teve com ele o seguinte diálogo:
—Será censurável pedir eu a vossa excelência algumas informações acerca deste meu hóspede?
—Não é, senhor Gastão—disse o visconde—Direi o que souber.
—Este sujeito parece-me excelente criatura.
—Não sei: recomendaram-mo como pessoa muito rica. Em matéria de costumes nada me disseram.
—Mas muito rico, sim?
—Já tive a honra de dizer a vossa excelência que é muito. Viaja em navio próprio, e podia viajar com estado de quatro navios...
—Oh! é muito!—interrompeu Gastão abrindo os olhos ao tamanho da boca.
—Estou quase a adivinhar que vossa excelência observou que ele amava alguma de suas filhas!...
—Quem lho disse?—acudiu alegremente o fidalgo.
—Ninguém mo disse, meu nobre amigo, nem eu me orgulho de adivinhá-lo: quem quer o faria. Qual é a menina predileta? Naturalmente a senhora D. Corinna.
—Ora... Corinna! não sei que distinção é a de
minha filha Corinna! Não são tão formosas como ela as outras?
—São formosíssimas todas—respondeu o visconde—mas aquela tem mais que as outras um cunho de melancolia...
—De tolice, meu amigo, o cunho é de tolice... Não é ela; ainda bem que não é... Corinna tem de dar má saída com os tais amores... Deus perdoe a quem contribuiu para aquela demência...
—Fui eu?...
—Bem sabe que foi, senhor visconde...
—Pois Deus há de não só perdoar-me, mas glorificar-me com a satisfação de ter aproximado dois anjos...
—Não sei para quê...
—Para se amarem e darem um exemplo de sacrifício raro, sublime e invejável... Não vim a enfadá-lo, senhor Gastão... Começa vossa excelência a enrugar a testa, e tão bom hospedeiro merece melhor recompensa. Como estão os seus negócios?
—Acabou a questão com meu primo.
—Sim?! e como acabou?
—Desistiu.
—Bello! mil parabéns! Não tem, pois, vossa excelência nada que o penalize?
—Estou contentíssimo. A minha casa volta a ser, se não invejável pela ostentação, ao menos pacifica e bastante às minhas despesas em agradável mediania.
—Precisa vossa excelência de dinheiro para remir-se de algumas dívidas?
—Mil graças; ainda tenho algum do produto das joias.
—Mas quer vossa excelência resgatar as joias de suas filhas? Abro-lhe com franqueza o coração e a bolsa.
—Dispenso o seu obséquio. Minhas filhas enfeitam-se com flores: cá nestas montanhas o melhor joalheiro é a natureza. Cada primavera é um milhar de cofres de pedrarias preciosas abertos por esses montes e veigas.
—Santa e bela poesia!—disse o visconde—Queria vê-lo coerente consigo mesmo, meu amigo! Se a natureza lhe dá tantas riquezas em flores, porque não há de querer aceitar das mãos dela um genro dotado com quantas virtudes podem adornar o rei da criação?
—Um genro! de quem me fala?—acudiu enleado o fidalgo.
—Falo-lhe de um Antônio de Azevedo Barbosa, que sabedor dos infortúnios de vossa excelência...
O visconde reteve a exuberância do coração, talvez indignado, e doeu-se de levar tão longe seu zelo.
Gastão ia pedir-lhe explicações, quando o visconde, turbado de sua irreflexão, recorreu, ao avizinharem-se duas meninas, a ir ter com elas, pedindo-lhes flores dos seus canteiros.
Emma e Leonor desceram ao jardim, e o visconde seguiu-as. Carlos Zuzarte passeava em uma rua abobadada
de arvoredo, com Felismina; no topo desta rua estava Corinna da Soledade corrigindo umas trepadeiras que descaíam da direção que a sua cultora lhes dera.
O visconde estugou o passo; quando a viu, Aproximou-se, e disse-lhe:
—A sua felicidade está a chegar. Exulte, minha amiga. São mais alguns meses: doire-os com a esperança, que é um bem quase igual à mais querida realidade, quando se tem a certeza.
—A certeza!—exclamou ela.
—Sim, a certeza.
—Ó senhor visconde, meu bom amigo, diz-me uma coisa? Como sabe este brasileiro que eu vou ser feliz?...
—Sabe-o: tem a quase certeza, e eu tenho a certeza completa. Deus não há de querer desmentir-nos.
Apareceu Gastão ao fundo da rua, e logo o visconde dirigiu em voz alta perguntas às meninas que cortavam perto as flores.
Gastão, ao vê-lo perto de Corinna, disse a Mafalda:
—Estes populares são uns pelos outros! Parece que andam conjurados a darem cabo dos títulos e das raças distintas!
—Porque dizes isso, Gastão?—perguntou Mafalda.
—Porque o digo?! Pois não vês o interesse que este visconde tem em que a nossa Corinna case com o
homem de Barcelos! É teima que me há de fazer chegar a mostarda ao nariz!
Chegaram à curva da rua onde estavam Felismina e Carlos.
Gastão sorriu-se e passou avante, dizendo a Mafalda:
—Tenho a certeza de que é riquíssimo o brasileiro.
—Mas plebeu, não é?
—Não averiguei: há de ser naturalmente. Mas que pensas tu? Do modo como por cá está isto, o homem, se quiser, é conde amanhã. Tem cinco navios! cinco navios, Mafalda!... Que te parece? as intenções dele serão boas?
—Creio que sim. A pequena simpatiza verdadeiramente com ele. Pareciam dois tolos a brincar à roda do tanque, e assim que o Carlos lhe pede que cante modinhas brasileiras, ela aí vai logo ao piano, e ele morre por ouvi-la. Quando isto é de quatro dias, que fará se ele se demorar?
—Era uma felicidade, Mafalda! Fortuna de milhões! Então é que dizíamos um adeus à aldeia e a estes parvos cá do Minho, que fazem consistir a sua grandeza nobiliárquica em terem dois ciprestes à porta, quatro patos reais em um tanque, e um lacaio com grandes botas... Ainda tenho esperanças de voltarmos a Paris! Aquilo é que é viver!
—Ai! Paris!—suspirou Mafalda, reclinando a cabeça sobre o ombro do marido—ai! Paris!