Capítulo XX Estrelas Propícias · Capítulo 20 de 22
Obra Menu

Capítulo XX

Em uma tarde de maio de 1849, ao oitavo mês de céu sem nuvens naquela chácara, onde à competência os três ditosos moradores se davam alegrias, chegou o anjo pálido da morte, e sentou-se no limiar daquele éden, como para vedar o acesso ao anjo do contentamento.

A um lado do leito de Valentim da Costa estava Corinna da Soledade, com o cotovelo apoiado no travesseiro e a face na palma da mão esquerda, orvalhada de lágrimas.

Do outro lado Antônio de Azevedo, com as mãos entrelaçadas debaixo do rosto que encostava à borda do leito, erguia a espaços os olhos lagrimosos, e cravava-os nas faces emaciadas e lividas do ancião.

Aos pés do leito estavam sentadas duas velhas negras soluçantes, com os rostos escondidos entre os joelhos.

Na antecâmara moviam-se pé ante pé os restantes dos antigos servos de Valentim, e cada um por sua vez, de instante em instante, vinha, por entre os cortinados de cassa, espreitar o enfermo, e retirava com as mãos postas e o coração em ânsias e suspiros.

Valentim da Costa tinha sido confessado e ungido naquela tarde. A ciência retirara ante a irremediável decomposição dos oitenta anos.

Mas Corinna e Azevedo não podiam convencer-se de que o seu amigo havia de morrer assim, quando, a intervalos, o ouviam discorrer com o sossego e energia moral dos mais saudáveis dias. Era a alma imperecedoira alumiada já pela claridade do empíreo: era a prova suprema que ela estava dando de sua imortalidade. A crisálida desfazia-se, e a borboleta do céu, em aqueles assomos de inteligência, ensaiava seu voejar para o alto.

O moribundo descerrara as pálpebras, e dissera:

—Não devia eu esperar tão suave morrer. Homem que viveu sozinho os anos da juventude e força, morrera sozinho. Não quis o Altíssimo que eu pagasse amargosamente a minha incúria. Eis-me com filhos e amigos em volta do meu leito. Bendito seja o Senhor!

Faleceram-lhe forças, e descaíram as pálpebras transparentes, flácidas e azulejadas.

Daí a pouco reabriu os olhos, fez sinal a Antônio de Azevedo, e indicou-lhe o travesseiro, que forcejou por levantar.

Azevedo correu a mão por debaixo do travesseiro

e tirou papéis, que ofereceu ao ancião. Este não pôde erguer os braços quebrantados, e disse:

—Um é o meu testamento; o outro papel é a minha despedida de vós. Está escrito há quinze dias: escrevi-o quando conheci o fim. Lede-o vós, filhos; quero ouvi-lo; o coração quer ainda o gozo de se escutar.

Antônio de Azevedo abriu vagarosamente a folha dobrada em oitavo, e leu com tremor de suspiros:

«Um secreto aviso me manda preparar. Não posso dizer como o santo:—O meu coração está pronto—; mas vejo o termo da viagem sem susto. A face do Juiz transluz misericórdia. O meu Criador foi para si que me criou.

«É dor deixar-vos, filhos; porém saudades haverá mais pungentes entre os vivos que se apartam. A providência divina permite que o aspeito da morte seja menos aflitivo, quando em verdade ela está conosco. Ai de nós, se este desapego da terra, onde se é feliz ou se espera sê-lo, não existisse! O morrer custa ruins quebrantos da matéria; mas a alma como que se está despenando e alegrando para ir ao seu destino.

«Vou deixar-vos, meus amigos. Chorai-me, porque vos quis muito, e vos fui grato às doces horas que me destes. Chorai-me, porque ao moribundo é consolador o pranto dos que lhe deram os risos da ventura.

«Ficais novos e ricos. Pela vida além haveis de encontrar muita gente afligida: sede valedores de todos, e associai sempre o meu nome à vossa beneficência. Assim viverá convosco uma faísca desta chama, que não pode ser toda vossa, por ser de Deus.

«Dai-me sepultura, e ide depois para a pátria e para os vossos. Empregai lá a vossa atividade menos em acumular, que em repartir a sobejidão de vossa riqueza. Quando houverdes filhos não lhes ensineis a honra do rico, que essa é fácil: ensinai-lhes a honra do pobre, a honra de Antônio de Azevedo e a abnegação de Corinna. Vivei de modo que a vossa descendência se glorifique do exemplo, quando vossos nomes estiverem já esquecidos.

«Estou a dar-vos conselhos, como se carecêsseis deles: desculpai ao velho este fraco da muita idade. É uma missão paternal que cumpro. Se eu tivesse dois filhos, exemplares em virtudes, havia de falar-lhes assim. Deixai-me acabar nesta abençoada ilusão. Admoesto-vos, meu Antônio de Azevedo, a que deis de mão ao grande peso do trabalho. O que ontem era precisão, será amanhã sede sobre sede de riquezas inúteis. O bastante é muito pouco. Da riqueza de vossa alma é que deveis ser grande dissipador: derramai-a em preceitos, conselhos, alívios e censuras. O solitário virtuoso é um egoísta do céu. Ide ao meio do povo e falai. O homem sozinho pode ter muito de que alegrar-se; mas não alegra os milhares

de infelizes que gemem, e a gemer se vão despedaçando.

«Sabei que eu, à custa de sessenta anos de trabalho, cheguei a esta hora podendo dizer que não tenho um ceitil. Tudo dei a uns, e perdoei a outros. Os bens de fortuna, que vos lego, deu-mos uma herança, no último quartel da vida. Aí vo-la transmito. Foi sempre meu intento deixá-la a pobres: sei que fica sendo vossa e deles.

«Agora abraçai-me, e dai-me o vosso adeus.»

Antônio de Azevedo fora algumas vezes embargado pelas lágrimas, e Corinna, com os lábios postos na mão do moribundo, soluçava mui ansiada. No final da leitura, Valentim fez um vão esforço de levantar os braços para receber os dois filhos que se achegaram ao seio dele. Os escravos tinham entrado todos de roldão, e beijavam-lhe os pés por cima da coberta. O agonizante relanceou os olhos de sobre eles para a face de Azevedo, e murmurou:

—Serão vossos amigos também... Levai-os... Os pobrezinhos morreriam de saudade... e miséria.

Os negros ajoelharam de mãos postas, e oraram. Corinna insensivelmente ajoelhou também, conservando entre as su Os negros ajoelharam de mãos postas, e oraram. Corinna insensivelmente ajoelhou também, conservando entre as suas a mão do moribundo.

1/1
Menu

Fazer anotação