Capítulo XI Estrelas Propícias · Capítulo 11 de 22
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Capítulo XI

O incansável estudo, auxiliado pelo muito saber e prática do doutor Valentim da Costa, habilitou Antônio de Azevedo a angariar renome em poucos meses de exercício.

O velho presava o praticante com mais que a vulgar estima captada pela probidade. Quantos ganhos podia declinar em lavor do laborioso moço todos lhe dava, não excetuando mesmo os resultantes de seu próprio e exclusivo trabalho. Os clientes não distinguiam entre os dois, e alguns iam mais contentes da linguagem e escrita concisa e vigorosa do doutor novo.

—Já pode o senhor Azevedo, quando quiser, estabelecer-se sobre si—lhe disse o velho um dia—Há de sobejar-lhe clientela, e está na carreira que leva à consideração e à fortuna. De mim é que já não precisa, meu caro amigo.

—E vossa senhoria assim me dispensa da sua companhia?—atalhou Azevedo—Fiz sempre quanto pude por que esta sociedade lhe não fosse onerosa.

—Ora aí está! Eu a cuidar que o senhor desejava estar sozinho em seu escritório, como todos desejam, e vai agora sai-me o Azevedo o contrário de toda a gente! Pois, em sua boa verdade, o senhor quer ficar na minha companhia?

—Desejo-o; e nunca me lembrou que havia de sair.

—Pois fique, Azevedo, fique, se o não move o interesse de mais algum punhado de ouro no fim de cada ano. Bem vê como este meu trabalho é interrompido pela gota, pelo reumatismo e por outros achaques, contra os quais não tenho que alegar nos nossos reinícolas. Isto está acabado, e acabada estava há muito a minha tarefa, se não fossem velhos amigos que me tiram da cama para a cadeira, e às vezes conseguem arrastar-me, em holocausto à amizade, aos tribunais. Agora os novos que trabalhem, e cá se avenham com o século, com o qual eu já me não entendo. Tome o Azevedo conta das minhas procurações, dos meus livros, dos meus amigos, e, se quiser, do meu reumatismo e da minha gota.

O velho doutor era mui faceto, e metia sempre a riso a sua gota e o seu reumatismo.

Estavam eles em uma destas feriadas práticas, quando entrou um cliente de Valentim da Costa.

—Muito bem aparecido seja—disse este—o senhor

Fernando de Athaide, fidalgo em Portugal e fazendeiro no Brasil. Vem-me dizer que está de posse dos seus vínculos de S. Torquato, de Alvites e de Ameixoal? Parabéns!

—Quais parabéns, meu caro senhor doutor!—disse Fernando de Athaide—Aquilo tem dente de coelho! Tenho gasto o valor dos bens; tenho cinco sentenças a favor, e ainda pelo último barco recebi uma carta do advogado e outra do procurador. Veja lá vossa senhoria o que por lá vai!

Leu o doutor mentalmente, e interrompeu-se em meio com esta exclamação:

—Magnífico bruto é o seu advogado, e o seu procurador outro bruto magnífico! Pois não deixam de intimar ao réu a primeira sentença! Esta, esta é das que desbancam a própria estupidez!...

—Pois olhe que tenho pago a rios de ouro essas brutalidades—disse Fernando.

—Não que elas valem-no pela raridade!—disse o doutor limpando os óculos e prosseguindo na leitura mental.

—Isto agora é que tem graça!—exclamou o velho, arfando em risadas—Está-se lá em Portugal na idade media. Recebem a justiça a fogo e ferro! Ó Azevedo, oiça lá isto, que é perdido em pouca gente.

E leu:

«A diligência que saiu de Viana, retirou apupada e não fez o embargo; a outra que foi com a tropa, retirou debaixo de fogo, e recolheu com um soldado

ferido. À hora que lhe escrevo consta-me que mais de cem homens armados fazem sentinela ao palácio artilhado de Gastão de Noronha....»

—Como? de quem?—exclamou Azevedo.

—De Gastão de Noronha—disse o velho—Conhece-o?

—Conheço!—disse mui alvoroçado e pálido Antônio de Azevedo—Mas que tiros são esses?

—É muito simples—respondeu Fernando de Athaide, eu sou o direto sucessor dos vínculos que retem D. Mafalda de Athaide, mulher de Gastão de Noronha e minha prima. Há muitos anos que trato de senhorear-me do que é legitimamente meu. Tenho vencido em todas as instâncias; obtive despacho para embargo nos frutos até à final decisão do pleito, anulado por um estúpido descuido; e quando os oficiais de justiça vão cumprir a lei, o senhor Gastão dá-lhe fogo, e diz que a casa é sua. Ora vejam o que é Portugal! que civilização aquela! Com que então o senhor doutor conhece meu primo Gastão de Noronha?

Azevedo, de abstraído que ficou, não ouviu a pergunta. Fernando encarou em Valentim, como perguntando-lhe se era surdo o praticante.

—Diz o senhor Fernando se o meu amigo conhece Gastão de Noronha—tornou o velho.

—Conheço, creio que já disse.

Esta resposta foi dada com enfadado franzimento de sobrolho, estranho ao velho.

Azevedo, vencido insolitamente de sua nobre paixão,

fitou em cheio o rosto de Fernando, e perguntou:

—O senhor é pobre?

—Graças a Deus, não.

—É rico?

—Assim, assim.

—É muito rico—acrescentou o doutor Valentim.

—E não carece dos bens de sua prima D. Mafalda para ser feliz?—tornou Azevedo.

—Os bens são meus; não são de minha prima Mafalda—redarguiu Fernando com desabrimento.

—Convenho que são seus. Os bens que legitimamente possui sua prima são cinco filhas. Se o senhor tirar àquela família as terras de que viviam, sua prima e seu primo e cinco meninas terão fome; ao passo que o senhor Fernando de Athaide não saberá que fazer de essa parcela, que acrescenta à sua abundância.

—Pode ser que assim seja—disse Fernando descomovido—mas a pobreza não é orgulhosa. Eu escrevi duas cartas a Gastão de Noronha, quando ele estava em Paris, propondo-lhe uma conciliação, e ele nem sequer desceu do seu orgulho a responder ao filho natural de Fernão de Athaide. Ora o filho natural quer desforçar-se como seu pai se desforçaria lançando fora de sua casa os miseráveis que o não reconhecem como dono, nem sequer como parente. Coloque-se lá na minha posição, e diga-me o que faria?

—Tinha comiseração—respondeu Azevedo, e fingiu-se ocupado a folhear uns autos.

—Comiseração com o senhor castelão que manda despejar balas sobre os executores do meu direito!—volveu Fernando—Olha em que postas eu era talhado se vivesse lá em aquelas serras, em que os ladrões fidalgos se acastelam!

Antônio de Azevedo pegou do chapéu, e disse que ia jantar e voltaria depois. Ao sair cortejou urbanamente Fernando, como a pedir-lhe desculpa no sorriso.

—Este homem é esquisito!—disse Fernando ao doutor.

—É um modelo de honra e virtude—tornou o velho—Não imagina que puro ouro é o daquela alma! Foi a comiseração que o excitou a tal estranheza de frases. Desculpe-o, que o pobre moço, no fim de tudo, disse-lhe uma augusta verdade. Olhe que é triste coisa um homem que educou cinco filhas com todo o mimo e regalias de fidalgas, vê-las privadas de pão e de respeitos sociais.

—Então que quer o senhor doutor?—atalhou Fernando.

—Eu de mim não quero senão absolver a compaixão de Antônio de Azevedo, e lembrar ao senhor Fernando, que a caridade e o perdão são as virtudes fundamentais do doutrinamento de Jesus Cristo.

—E achava vossa senhoria acertado—acudiu Fernando—que eu perdesse contos de reis, que tenho gastado neste capricho, e deixasse os meus vínculos na posse e direitos de minha prima?

—Eu não aconselho, senhor Fernando. Isto de

bem fazer não se lê nem se ensina: está dentro do coração, é foro íntimo, é matéria de tratar com Deus. Faça o que bem quiser; mas de modo se haja que nunca venha a sentir-se mal consigo próprio.

—A minha consciência está tranquilíssima—retorquiu Fernando.

—Quantas vezes a consciência está quieta, e o coração inquieto? A consciência é a inspiradora dos deveres; e o coração da piedade, da humanidade, e de outras virtudes menos pautadas que os meros deveres e obrigações de uma recta razão. Faça o que quiser, senhor Fernando...

—Como eu me enganei!—atalhou Athaide.

—Enganou-se!? Com quê e com quem?

—Com o seu sócio de escritório.

—Ora essa! pois...

—Eu lhe digo, senhor doutor. Disseram-me que este Antônio de Azevedo era um advogado esperto.

—Não lhe mentiram.

—Será; não duvido. Ora, como eu queria acabar com isto à custa de mais alguns contos de reis, vinha com o fito posto em oferecer três ou quatro contos ao doutor Azevedo para ele ir a Portugal tomar posse dos vínculos em meu nome, removendo todos os embaraços com a sua esperteza. Vinha nesta ideia, e, quando menos o cuido, acho um pregador de caridade...

—Gratuito...—acrescentou, sorrindo, o velho.

—O que faltava era ter de lhe pagar o sermão que não lhe encomendei!

—Pois olhe que valeu dinheiro! Vossa senhoria, se for cismar no que ouviu, amanhã está melhor de coração que hoje. Acha que não vale dinheiro um melhoramento moral? Oh! se vale! Até eu lhe devo, a ele mui salutares conselhos para a caduquez, e quando o escuto estou como pesaroso de não ter sido o que ele é. Pois que lhe disse o meu Antônio de Azevedo? Cifra nisto: «O senhor é muito rico: deixe essas migalhas que está disputando à família, que não tem mais nada: faça de conta que pegou de sete pessoas pobres de sua família, e deu a cada uma sua subsistência.» Não lhe soa bem isto ao ânimo desassombrado, senhor Fernando de Athaide? O seu bom sangue de fidalgo não se azedaria nas veias, se lhe cá viessem dizer que uma porção tão chegada de seus parentes andava lá por Portugal arrastada sobre os espinhos da pobreza, da miséria, e talvez da desonra? Tem o senhor em Portugal cinco primas. Onde cuida vossa senhoria que as pode levar a indigência?...

Valentim, falando deste teor, tinha os olhos embaciados de lágrimas. Fernando olhava-o em certa estupefacção, que umas vezes é dureza de sentimento, e muitas encendimento de renascida sensibilidade. O velho calou-se, e o primo de D. Mafalda, tomando o chapéu, saiu sem proferir palavra, cortejando o doutor com um aceno.

—Adeus, meu amigo—disse o velho—Pense no fim da vida. Lembre-se que, no inverno dela, costumam

os velhos lembrar-se das flores de alma, que esmagaram na primavera.

Fernando ouviu, no patamar da escada, as últimas palavras, e saiu tanto ou quanto abalado.

Pouco depois entrou Antônio de Azevedo. Viam-se-lhe nos olhos os resíduos das lágrimas. É que ele acabava de escrever a seguinte lauda de uma carta a Corinna:

« «2 de Abril de 1844—quatro horas da tarde. «Acabo de saber as desventuras que vão em tua casa. Ouvi-as da boca do mesmo homem que vos quer privar de essas árvores e do berço onde te embalaste, minha querida Corinna. Eu alcanço a profundeza das vossas amarguras, pobres meninas e pobre mãe! Que tremenda aflição alucinou teu pai ao ponto de resistir à justiça impiedosa, que não entende de infortúnios, nem de lágrimas! Quantas vezes te voaria ao coração angustiado a imagem invalida do teu amigo! Tardias exclamações, filha! Deixa-me ver o que posso conseguir a bem de teu pai, cujas mãos eu espero beijar ainda. Talvez que à hora em que receberes esta carta, começada com tanta alegria, e tão atormentada agora, tudo esteja sanado, e teu pai olhe como suas para sempre essas relíquias de uma grande fortuna mal desbaratada. Tenho um pressentimento de que hei de merecer a intervenção da providência nas minhas intenções. Talvez que, a

estas horas, estejas orando, e o anjo do nosso amor me segrede os dons que Deus te concede. Vou sair, minha Corinna. Vou ouvir o santo varão a quem devo tudo. É tempo de eu lhe mostrar que anjo tu és para o fazer teu amigo, e benfeitor de ambos. Até logo.»

Valentim observou o ar magoado do seu estremecido amigo, e quis ver uma extraordinária causa àquele compungir-se pela família portuguesa.

—Olhe que eu cá fiquei pregando com o homem—disse o velho—As suas palavras foram o tema do sermão; mas, a falar-lhe a verdade, não vejo lura donde saia coelho. Este Fernando de Athaide, cujo pai e mãe conheci, se não fosse a balda da fidalguia, havia de ser um homem muito estimável. Está muito rico, e acha-se pobre quando veste a casaca sem o hábito de cavaleiro ou oficial da Rosa. Há pouco arranjou em Portugal não sei que fitinha, que elas por lá são tantas e tão bastas que não há saber estremar os fidalgos pelas fitas. Mas o pobre homem não se contenta com ser condecorado pelo que faz (que eu, a bem dizer, não sei o que ele faz ou fez) quer também que a sua fidalguia lhe proceda em linha direita dos godos. Para isso precisa justificar-se tomando posse das quintas vinculadas e dos pardieiros que, pelos modos, tem ameias, adarves, barbacãs e brasões com corôas e mitras. Isto é o que explica a crua insensibilidade de Fernando com os seus parentes. Ora diga lá, Azevedo, você conhece pessoalmente o tal Gastão de Noronha?

—Conheço-o de vista apenas; mas Gastão de Noronha está tão identificado à minha vida, que por causa dele estou hoje no Brasil. O senhor doutor Valentim já sabe que o meu coração tem lágrimas de saudade. Eu era na pátria o que ainda sou aqui: um rapaz sem bens e sem futuro; e Gastão de Noronha era o fidalgo não rico, mas de sobra ambicioso e soberbo para me não dar sua filha. A mulher que eu amo e choro é filha de Gastão de Noronha.

—É notável a coincidência!—disse Valentim—Agora é que a sua mágoa me parece racional, e digna me pareceria de todo o modo. Entretanto, meu Azevedo, na sua mão está salvar essa menina, e desde já, das contingencias da pobreza. O senhor já sabe que tem bastos recursos no Brasil. Vá a Portugal, que a soberba do fidalgo deve estar amolecida. Case com a sua dama, e volte, que os seus amigos cá o ficam esperando.

Riram os olhos de Antônio de Azevedo; mas este clarão de alegria foi instantâneo.

—Seria a felicidade perfeita para mim, mas não para ela—disse o bacharel, após instantes de reflexão.

—Como assim?—perguntou o velho—que mais pode ela desejar?!

—Que seus pais e irmãs não sofram as horríveis privações tanto mais amargas, quanto a vida lhes correu abundante e respeitada. Calcule o senhor doutor que desgosto não seria o dela ao lembrar-se que suas

quatro irmãs ficaram encerradas em conventos, e dependentes da esmola de parentas! e que sua mãe, privada delas, e talvez do marido... como poderia eu ser assim feliz, meu amigo?!...

Antônio de Azevedo deixava cair as lágrimas para que o velho não lhas visse enxugar! Há lágrimas que tem um como pudor, e recato que é talvez o medo de serem mal avaliadas. O chorar do homem há de ser assim, ou ficará sendo miserável alardo de sua feminil fraqueza.

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