Capítulo XXXIV
Capítulo XXXIV
Durante alguns dias depois daquela noite, o Sr. Heathcliff evitou encontrar-nos às refeições; mas não consentiu formalmente em excluir Hareton e Cathy. Tinha aversão a ceder por completo aos sentimentos e preferia ausentar-se. Comer uma vez em vinte e quatro horas parecia-lhe sustento suficiente.
Certa noite, depois que todos estavam na cama, ouvi-o descer e sair pela porta da frente. Não o ouvi voltar; pela manhã, descobri que ainda estava fora. Era abril. O tempo estava doce e quente, a relva tão verde quanto a chuva e o sol podiam torná-la, e as duas macieiras anãs junto à parede sul estavam em plena floração. Depois do desjejum, Catherine insistiu para que eu trouxesse uma cadeira e me sentasse com o trabalho sob os pinheiros na extremidade da casa. Persuadiu Hareton, já inteiramente recuperado do acidente, a cavar e organizar seu pequeno jardim, transferido para aquele canto por influência das reclamações de Joseph. Eu me deliciava confortavelmente com a fragrância primaveril ao redor e o belo azul suave acima quando minha jovem senhora, que correra até perto do portão para buscar raízes de prímula para uma borda, voltou trazendo apenas metade do que pretendia e informou que o Sr. Heathcliff se aproximava.
“E ele falou comigo”, acrescentou, com expressão perplexa.
“O que disse?”, perguntou Hareton.
“Mandou-me ir embora tão depressa quanto pudesse”, respondeu. “Mas parecia tão diferente do habitual que parei um instante para encará-lo.”
“Como?”, indagou ele.
“Ora, quase luminoso e alegre. Não, quase nada: muito agitado, desvairado e contente!”, respondeu.
“Então caminhar à noite o diverte”, observei, fingindo indiferença. Na verdade, estava tão surpresa quanto ela e ansiosa para verificar a exatidão do relato, pois ver o patrão contente não era espetáculo de todos os dias. Inventei uma desculpa para entrar. Heathcliff estava à porta aberta; pálido e trêmulo, mas havia de fato um brilho estranho e jubiloso em seus olhos que transformava todo o rosto.
“Quer tomar o desjejum?”, perguntei. “Deve estar com fome depois de vagar a noite inteira!”
Eu queria descobrir onde estivera, mas não desejava perguntar diretamente.
“Não, não tenho fome”, respondeu, desviando a cabeça e falando com certo desprezo, como se adivinhasse minha tentativa de descobrir a causa de seu bom humor.
Fiquei perplexa. Não sabia se aquela seria uma oportunidade adequada para oferecer-lhe alguma admoestação.
“Não acho correto vagar ao ar livre”, observei, “em vez de estar na cama. Em todo caso, não é prudente nesta estação úmida. Aposto que pegará um resfriado forte ou uma febre. Já há alguma coisa errada com o senhor!”
“Nada além do que posso suportar”, respondeu. “E com o maior prazer, desde que me deixe em paz. Entre e não me aborreça.”
Obedeci. Ao passar, notei que respirava tão depressa quanto um gato.
“Sim!”, pensei. “Teremos uma crise de doença. Não consigo imaginar o que andou fazendo.”
Ao meio-dia, sentou-se conosco para jantar e recebeu de minhas mãos um prato cheio, como se pretendesse compensar o jejum anterior.
“Não tenho resfriado nem febre, Nelly”, observou, aludindo ao que eu dissera pela manhã. “E estou pronto para fazer justiça à comida que me dá.”
Pegou faca e garfo e ia começar a comer quando a inclinação pareceu extinguir-se de súbito. Pousou-os na mesa, olhou avidamente para a janela, levantou-se e saiu. Vimo-lo andar de um lado para outro no jardim enquanto terminávamos a refeição. Earnshaw disse que iria perguntar por que ele não jantava; pensava que talvez o tivéssemos contrariado de algum modo.
“Bem, ele vem?”, gritou Catherine quando o primo voltou.
“Não”, respondeu. “Mas não está zangado. Parecia extraordinariamente satisfeito; só ficou impaciente porque falei duas vezes com ele. Então me mandou ir para junto de você. Perguntou como eu podia desejar a companhia de qualquer outra pessoa.”
Coloquei o prato junto ao guarda-fogo para mantê-lo aquecido. Uma ou duas horas depois, Heathcliff tornou a entrar, quando o aposento estava vazio, sem estar nem um pouco mais calmo. A mesma aparência antinatural, era antinatural, de júbilo sob as sobrancelhas negras; a mesma cor sem sangue; os dentes aparecendo de vez em quando numa espécie de sorriso; o corpo estremecendo, não como se estremece de frio ou fraqueza, mas como vibra uma corda retesada, um arrepio forte, mais do que um tremor.
Perguntarei o que acontece, pensei. Quem mais deveria fazê-lo? E exclamei:
“Recebeu alguma boa notícia, Sr. Heathcliff? Parece extraordinariamente animado.”
“De onde me viria boa notícia?”, disse. “Estou animado pela fome; e, ao que parece, não consigo comer.”
“Seu jantar está aqui”, respondi. “Por que não o toma?”
“Agora não o quero”, murmurou depressa. “Esperarei até a ceia. E, Nelly, de uma vez por todas, peço que mantenha Hareton e a outra longe de mim. Não quero que ninguém me perturbe; desejo ter este lugar só para mim.”
“Há alguma razão nova para esse banimento?”, perguntei. “Diga-me por que está tão estranho, Sr. Heathcliff. Onde esteve na noite passada? Não pergunto por curiosidade ociosa, mas...”
“Pergunta por uma curiosidade muito ociosa”, interrompeu, com uma risada. “Ainda assim, responderei. Na noite passada, estive no limiar do inferno. Hoje, estou à vista de meu céu. Tenho os olhos postos nele; mal há um metro entre nós! Agora é melhor que vá. Não verá nem ouvirá coisa alguma que a assuste, desde que não se ponha a bisbilhotar.”
Depois de varrer a lareira e limpar a mesa, retirei-me, mais perplexa que nunca.
Ele não tornou a sair de casa naquela tarde, e ninguém invadiu sua solidão. Às oito horas, julguei correto, embora não tivesse sido chamada, levar-lhe uma vela e a ceia. Estava apoiado no peitoril de uma gelosia aberta, mas não olhava para fora; tinha o rosto voltado para a escuridão interior. O fogo se reduzira a cinzas; o aposento estava cheio do ar úmido e brando da noite nublada e tão silencioso que se podia distinguir não apenas o murmúrio do riacho abaixo de Gimmerton, mas também as pequenas ondas e o gorgolejo da água sobre os seixos ou entre as pedras grandes que não conseguia cobrir. Soltei uma exclamação de desagrado ao ver a grade desolada e comecei a fechar as janelas, uma após outra, até chegar à dele.
“Devo fechar esta?”, perguntei para despertá-lo, pois não se moveu.
A luz incidiu sobre suas feições quando falei. Oh, Sr. Lockwood, não posso expressar o terrível sobressalto que tive naquela visão momentânea! Aqueles olhos negros e fundos! Aquele sorriso e aquela palidez medonha! Pareceu-me não o Sr. Heathcliff, mas um duende; no terror, inclinei a vela contra a parede e fiquei no escuro.
“Sim, feche”, respondeu com a voz habitual. “Isso foi pura falta de jeito! Por que segurou a vela na horizontal? Depressa, traga outra.”
Saí correndo num estado tolo de medo e disse a Joseph:
“O patrão quer que leve uma luz e reacenda o fogo.”
Naquele momento, eu não ousava tornar a entrar.
Joseph sacudiu algumas brasas para a pá e foi; mas voltou de imediato, trazendo na outra mão a bandeja da ceia. Explicou que o Sr. Heathcliff iria para a cama e não queria comer nada antes da manhã. Nós o ouvimos subir diretamente. Não foi para o quarto habitual, mas entrou naquele com a cama cercada de painéis. A janela, como mencionei antes, era larga o bastante para qualquer pessoa passar por ela; ocorreu-me que planejava outra excursão à meia-noite, da qual preferia que não suspeitássemos.
“Será um necrófago ou um vampiro?”, pensei. Eu lera sobre esses demônios hediondos encarnados. Depois pus-me a recordar que cuidara dele na infância, vira-o crescer até a juventude e acompanhara quase todo o seu caminho; e concluí que era uma bobagem absurda entregar-me àquele horror. “Mas de onde veio aquela pequena criatura escura, acolhida por um homem bom para sua ruína?”, murmurou a Superstição enquanto eu cochilava até perder a consciência. Meio adormecida, comecei a cansar-me imaginando alguma ascendência adequada para ele e, repetindo as meditações da vigília, percorri novamente sua existência com variações sombrias. Por fim, imaginei-lhe a morte e o funeral. De tudo isso só me lembro de ficar extremamente contrariada por ter de ditar uma inscrição para o monumento e consultar o coveiro; como ele não tinha sobrenome e não sabíamos sua idade, fomos obrigados a contentar-nos com uma única palavra: “Heathcliff”. Isso se tornou verdade. Se entrar no cemitério, lerá na lápide apenas o nome e a data da morte.
A aurora devolveu-me o bom senso. Levantei-me e, assim que pude enxergar, fui ao jardim verificar se havia pegadas sob a janela. Não havia nenhuma.
“Ficou em casa”, pensei, “e hoje estará bem.”
Preparei o desjejum para todos, como de costume, mas disse a Hareton e Catherine que tomassem o deles antes que o patrão descesse, pois ele acordara tarde. Preferiram comer ao ar livre, sob as árvores, e pus uma pequena mesa para acomodá-los.
Ao tornar a entrar, encontrei o Sr. Heathcliff embaixo. Ele e Joseph conversavam sobre algum assunto da fazenda. Dava instruções claras e minuciosas, mas falava depressa, desviava continuamente a cabeça e mostrava a mesma expressão excitada, ainda mais exagerada. Quando Joseph deixou o aposento, sentou-se no lugar que costumava escolher, e pus diante dele uma tigela de café. Puxou-a para perto, depois apoiou os braços na mesa e olhou para a parede oposta, segundo supus, examinando um trecho específico de alto a baixo, com olhos brilhantes e inquietos e interesse tão ávido que deixava de respirar por meio minuto de cada vez.
“Vamos”, exclamei, empurrando um pouco de pão contra sua mão. “Coma e beba enquanto está quente. Isso espera há quase uma hora.”
Não me notou e, ainda assim, sorriu. Eu preferiria vê-lo ranger os dentes a sorrir daquela maneira.
“Sr. Heathcliff! Patrão!”, gritei. “Pelo amor de Deus, não fique olhando como se visse uma aparição de outro mundo.”
“Pelo amor de Deus, não grite tão alto”, respondeu. “Vire-se e diga-me: estamos sozinhos?”
“É claro”, respondi. “É claro que estamos.”
Ainda assim, obedeci involuntariamente, como se não tivesse absoluta certeza. Com um movimento da mão, afastou as coisas do desjejum e abriu um espaço vazio diante de si; então se inclinou para olhar com mais comodidade.
Percebi que não fitava a parede. Quando eu observava apenas seu rosto, parecia exatamente que olhava para algo a menos de dois metros de distância. E o que quer que fosse parecia comunicar-lhe prazer e dor em extremos intensos; ao menos era o que sugeria a expressão ao mesmo tempo angustiada e arrebatada. O objeto imaginado tampouco permanecia imóvel. Seus olhos o seguiam com diligência incansável e, mesmo quando falava comigo, jamais se desviavam. Em vão lembrei-lhe a longa abstinência de alimento. Se, cedendo às minhas súplicas, movia-se para tocar alguma coisa, se estendia a mão para pegar um pedaço de pão, os dedos se fechavam antes de alcançá-lo e ficavam sobre a mesa, esquecidos do objetivo.
Sentei-me como um modelo de paciência, tentando desviar a atenção absorvida daquela contemplação dominante, até que ele se irritou, levantou-se e perguntou por que eu não lhe permitia fazer as refeições no próprio tempo. Disse que, na próxima ocasião, eu não precisava esperar: poderia deixar as coisas e sair. Depois dessas palavras, deixou a casa, caminhou lentamente pela alameda do jardim e desapareceu pelo portão.
As horas arrastaram-se com ansiedade. Veio outra noite. Não me recolhi senão tarde e, quando o fiz, não consegui dormir. Ele voltou depois da meia-noite e, em vez de ir para a cama, fechou-se no aposento de baixo. Escutei, revirei-me e enfim me vesti e desci. Era penoso demais ficar deitada, atormentando o cérebro com uma centena de receios inúteis.
Distingui os passos do Sr. Heathcliff medindo inquietamente o assoalho. Muitas vezes rompia o silêncio com uma inspiração profunda, semelhante a um gemido. Também murmurava palavras soltas; a única que consegui entender foi o nome de Catherine, unido a algum termo desvairado de carinho ou sofrimento, pronunciado como se falasse a uma pessoa presente, baixo e ardente, arrancado do fundo da alma. Não tive coragem de entrar diretamente; mas queria desviá-lo do devaneio e, por isso, comecei a brigar com o fogo da cozinha, remexendo-o e raspando as cinzas. Isso o trouxe para fora mais depressa do que eu esperava. Abriu a porta imediatamente e disse:
“Nelly, venha aqui. Já é manhã? Entre com sua luz.”
“Está batendo quatro horas”, respondi. “Quer uma vela para levar ao andar de cima? Poderia ter acendido uma neste fogo.”
“Não, não desejo subir”, disse. “Entre, acenda um fogo para mim e faça qualquer coisa que haja para fazer no aposento.”
“Primeiro preciso soprar as brasas até ficarem vermelhas, antes de carregar algumas”, respondi, buscando uma cadeira e o fole.
Enquanto isso, ele andava de um lado para outro num estado próximo do desvario; os suspiros pesados sucediam-se tão depressa que quase não deixavam espaço entre eles para uma respiração comum.
“Quando o dia romper, mandarei chamar Green”, disse. “Quero fazer algumas perguntas jurídicas enquanto ainda consigo dedicar pensamento a esses assuntos e agir com calma. Não escrevi meu testamento, e não consigo decidir como deixar meus bens. Queria poder aniquilá-los da face da terra.”
“Eu não falaria assim, Sr. Heathcliff”, intervim. “Deixe o testamento de lado por algum tempo. Ainda será poupado para arrepender-se das muitas injustiças! Nunca esperei que seus nervos se transtornassem; mas agora estão espantosamente transtornados, e quase por completo por sua própria culpa. A maneira como passou estes últimos três dias poderia derrubar um Titã. Coma alguma coisa e descanse. Basta olhar-se num espelho para ver quanto precisa de ambos. Suas faces estão encovadas e os olhos injetados, como os de alguém que morre de fome e perde a visão por falta de sono.”
“Não é culpa minha não conseguir comer nem repousar”, respondeu. “Garanto que não há nisso propósito deliberado. Farei as duas coisas assim que puder. Mas seria o mesmo que mandar descansar um homem que luta na água, a um braço de distância da margem! Preciso alcançá-la primeiro; depois descansarei. Bem, esqueça o Sr. Green. Quanto a me arrepender de minhas injustiças, não pratiquei injustiça alguma e não me arrependo de nada. Estou feliz demais; e, ainda assim, não feliz o bastante. A bem-aventurança de minha alma mata meu corpo, mas não satisfaz a si própria.”
“Feliz, patrão?”, gritei. “Estranha felicidade! Se me ouvisse sem se zangar, eu poderia oferecer um conselho que o tornaria mais feliz.”
“Qual?”, perguntou. “Diga.”
“O senhor sabe, Sr. Heathcliff”, falei, “que desde os treze anos vive uma vida egoísta e anticristã; e provavelmente quase não teve uma Bíblia nas mãos durante todo esse tempo. Deve ter esquecido o conteúdo do livro, e talvez agora não tenha disposição para procurá-lo. Faria algum mal mandar buscar alguém, um ministro de qualquer denominação, não importa qual, para explicá-lo e mostrar quanto se afastou dos preceitos, e quão impróprio estará para o céu que ele promete se não houver uma mudança antes de sua morte?”
“Fico antes agradecido do que irritado, Nelly”, disse, “porque me lembra da maneira como desejo ser enterrado. Devem levar-me ao cemitério à noite. Você e Hareton podem acompanhar-me, se quiserem; e trate particularmente de verificar que o coveiro obedeça às minhas instruções quanto aos dois caixões! Não é preciso ministro algum, nem que se diga coisa alguma sobre mim. Digo-lhe que quase alcancei meu céu; e o dos outros não tem para mim nenhum valor nem desejo.”
“E se perseverasse nesse jejum obstinado, morresse por causa dele e se recusassem a enterrá-lo nos limites da igreja?”, perguntei, chocada com sua indiferença ímpia. “Como gostaria disso?”
“Não farão isso”, respondeu. “Se fizerem, terá de mandar remover-me em segredo; e, se negligenciar a tarefa, provarei na prática que os mortos não são aniquilados!”
Assim que ouviu os demais moradores da casa começarem a se mover, retirou-se para seu covil, e eu respirei com mais liberdade. À tarde, porém, enquanto Joseph e Hareton trabalhavam, voltou à cozinha e, com um olhar desvairado, mandou-me entrar e sentar-me na sala. Queria alguém junto dele. Recusei, dizendo francamente que sua conversa e seus modos estranhos me assustavam e que eu não tinha coragem nem vontade de ser sua única companheira.
“Creio que me considera um demônio”, disse com a risada lúgubre, “algo horrível demais para viver sob um teto decente.”
Então, voltando-se para Catherine, que estava ali e se escondeu atrás de mim quando ele se aproximou, acrescentou, meio zombeteiro:
“Você vem, querida? Não a machucarei. Não! Para você, tornei-me pior do que o diabo. Bem, existe uma que não recuará diante de minha companhia! Por Deus, ela não tem piedade. Oh, maldição! É indizivelmente mais do que carne e sangue podem suportar, até os meus.”
Não tornou a solicitar a companhia de ninguém. Ao crepúsculo, entrou no quarto. Durante toda a noite e até muito depois do amanhecer, ouvimo-lo gemer e murmurar consigo mesmo. Hareton desejava entrar, mas mandei-o buscar o Sr. Kenneth; ele deveria examiná-lo. Quando o médico chegou, pedi passagem e tentei abrir a porta. Estava trancada, e Heathcliff mandou-nos para o inferno. Estava melhor e queria ser deixado sozinho; assim, o médico foi embora.
A noite seguinte foi muito chuvosa; de fato, caiu água até o romper do dia. Ao fazer minha caminhada matinal ao redor da casa, notei a janela do patrão oscilando aberta e a chuva entrando diretamente. Ele não pode estar na cama, pensei; aquelas águas o encharcariam. Deve estar acordado ou fora. Mas não farei mais alarde. Entrarei com coragem e verei.
Consegui abrir a porta com outra chave e corri para afastar os painéis, pois o quarto parecia vazio. Empurrei-os depressa e olhei para dentro. O Sr. Heathcliff estava ali, deitado de costas. Seus olhos encontraram os meus com tal agudeza e ferocidade que estremeci; depois pareceu sorrir. Não consegui acreditar que estivesse morto; mas o rosto e o pescoço estavam lavados pela chuva, as roupas de cama pingavam, e ele permanecia perfeitamente imóvel. A gelosia, batendo de um lado para outro, roçara uma das mãos apoiadas no peitoril. Não saía sangue da pele ferida; quando pus os dedos sobre ela, não pude mais duvidar. Estava morto e rígido!
Fechei a janela com o trinco. Penteei para trás os longos cabelos negros que lhe cobriam a testa. Tentei fechar-lhe os olhos, apagar, se possível, aquele olhar assustador, tão vivo e exultante, antes que outra pessoa o visse. Eles não se fecharam; pareciam zombar de minhas tentativas. Os lábios entreabertos e os dentes brancos e agudos também zombavam. Tomada por outra crise de covardia, gritei por Joseph. Ele subiu arrastando os pés e fez muito ruído, mas se recusou terminantemente a tocá-lo.
“O diabo levou a alma dele”, gritou, “e pode levar a carcaça junto, por mim! Ah, que malvado parece, fazendo careta para a morte!”
O velho pecador abriu um sorriso de escárnio. Pensei que pretendesse dançar ao redor da cama; mas subitamente se recompôs, ajoelhou-se, ergueu as mãos e agradeceu porque o senhor legítimo e a antiga linhagem eram restituídos a seus direitos.
Fiquei atordoada pelo terrível acontecimento, e minha memória voltou inevitavelmente aos tempos passados com uma tristeza opressiva. Mas o pobre Hareton, o mais prejudicado por ele, foi o único que realmente sofreu muito. Sentou-se junto ao cadáver a noite inteira e chorou com amarga sinceridade. Apertou-lhe a mão, beijou aquele rosto sarcástico e selvagem do qual todos os demais recuavam, e lamentou-o com a dor forte que brota naturalmente de um coração generoso, ainda que resistente como aço temperado.
O Sr. Kenneth não conseguiu determinar com segurança de que enfermidade o patrão morrera. Ocultei que ele não engolira nada por quatro dias, temendo que isso causasse problemas; e estou convencida de que não se abstivera de propósito. A privação fora consequência da estranha doença, não sua causa.
Enterramo-lo, para escândalo de toda a vizinhança, como desejara. Earnshaw e eu, o coveiro e seis homens para carregar o caixão formamos todo o cortejo. Os seis partiram depois de baixá-lo à sepultura; nós ficamos para vê-la fechada. Hareton, com o rosto coberto de lágrimas, cavou torrões verdes e os dispôs com as próprias mãos sobre a terra castanha. Hoje a sepultura está tão lisa e verde quanto os túmulos companheiros, e espero que seu ocupante durma com a mesma tranquilidade. Mas os camponeses, se lhes perguntar, jurarão sobre a Bíblia que ele caminha. Há quem afirme tê-lo encontrado perto da igreja, no páramo e até dentro desta casa. Histórias tolas, dirá o senhor; e eu digo o mesmo. Ainda assim, aquele velho junto ao fogo da cozinha afirma ter visto dois deles olhando pela janela do quarto em todas as noites de chuva desde a morte; e aconteceu-me uma coisa estranha cerca de um mês atrás. Eu ia à Grange numa noite escura, ameaçando trovoada, e, bem na curva de Wuthering Heights, encontrei um menino com uma ovelha e dois cordeiros à frente. Chorava terrivelmente, e supus que os cordeiros estivessem assustadiços e não quisessem obedecer.
“O que há, meu pequeno?”, perguntei.
“É Heathcliff e uma mulher ali, debaixo da elevação”, soluçou. “Não ouso passar por eles.”
Não vi nada; mas nem ele nem as ovelhas queriam seguir, então mandei-o tomar a estrada mais baixa. Provavelmente criara os fantasmas por pensar, ao atravessar sozinho os páramos, nas bobagens que ouvira os pais e companheiros repetirem. Mesmo assim, agora não gosto de sair no escuro nem de ficar sozinha nesta casa sombria. Não consigo evitar. Ficarei contente quando eles a deixarem e se mudarem para a Grange.
“Então irão para a Grange?”, perguntei.
“Sim”, respondeu a Sra. Dean, “assim que se casarem, e isso será no dia de Ano-Novo.”
“E quem viverá aqui?”
“Ora, Joseph cuidará da casa, talvez com um rapaz para lhe fazer companhia. Viverão na cozinha, e o restante será fechado.”
“Para uso dos fantasmas que escolherem habitá-lo?”, observei.
“Não, Sr. Lockwood”, disse Nelly, sacudindo a cabeça. “Creio que os mortos estão em paz; mas não é correto falar deles com leviandade.”
Naquele instante, o portão do jardim bateu. Os caminhantes voltavam.
“Eles não temem coisa alguma”, resmunguei, observando-os aproximar-se pela janela. “Juntos, enfrentariam Satanás e todas as suas legiões.”
Quando pisaram nas pedras da entrada e pararam para lançar um último olhar à lua, ou, mais corretamente, um ao outro à luz dela, senti-me irresistivelmente impelido a fugir deles outra vez. Apertei uma lembrança na mão da Sra. Dean e, ignorando seus protestos contra minha falta de educação, desapareci pela cozinha no momento em que eles abriam a porta da sala. Eu teria confirmado a opinião de Joseph sobre as alegres indiscrições da companheira de serviço se, felizmente, ele não me houvesse reconhecido como pessoa respeitável pelo doce tilintar de uma libra de ouro junto aos seus pés.
Meu caminho de volta alongou-se por um desvio na direção da igreja. Ao chegar sob suas paredes, percebi que a ruína avançara mesmo em sete meses. Muitas janelas mostravam vãos negros, sem vidro; telhas projetavam-se aqui e ali para além da linha correta do telhado, prontas para serem arrancadas aos poucos pelas tempestades do próximo outono.
Procurei e logo encontrei as três lápides na encosta voltada para o páramo: a do meio, cinzenta e meio enterrada na urze; a de Edgar Linton já harmonizada pela relva e pelo musgo que lhe subiam pela base; a de Heathcliff ainda nua.
Demorei-me ao redor delas sob aquele céu benigno. Observei as mariposas esvoaçarem entre a urze e as campânulas, ouvi o vento suave respirar na relva e perguntei-me como alguém poderia imaginar sono inquieto para os que dormiam naquela terra serena.