II
II
Da sua triste, ampla e reluzente cama, Thereza via pela janella aberta a neblina abafando a manhã. Uma espessa camada de nuvens encobria totalmente o horizonte. Tudo desapparecera, montanhas, praias, ilhas e água. Apenas um foco de luz bronzea indicava o sol nascente, que vinha de longe, atravessando a cerração e marcava um disco de fogo. Na indecisa projecção da luz surge um vapor. A fumaça mancha a neblina. Os mastros vão passando, o casco submerge na nevoa. Thereza entorpecida, os olhos extaticos e todo o longo e estreito corpo amortalhado nos lençóes bordados. Vestido de pyjama de vicunha, côr de macaco, Radagasio entrou. Um movimento de asco arrancou Thereza da nevoa agasalhadora. Rapidamente cobriu-se com um grande chalé. O marido sentou-se numa poltrana. A mulher viu-o ainda inchado de somno, a cara verde-fosco, os batrachios e miudinhos olhos remexendo sobre as bochechas cahidas e o inquieto nariz fungando sobre o bigodinho agressivo. A voz sumida parecia sahir da barriga estufada e ventriloqua. Todas as manhãs repetia-se este ritual do marido, que vinha ajustar contas com a mulher. Thereza esperava a scena miserável e a raiva transformou-lhe a lassidão em rijidez muscular, prompta para a defeza. Os olhos parados e frios, porcelaneos, a bocca cerrada.
— Você tem gasto muito dinheiro este mez. Em que? Thereza não respondeu. — Ahl não quer falar? É um bom systema, gastar, gastar e não dar contas. Mas commigo fia fino. Quero explicações, tudo detalhado, vintém por vintém. — Isso nunca, repücou vivamente a mulher. — Nunca? Porque? Não sou eu o dono da casa, o marido? Quem manda aqui sou eu, ouviu? — Miserável! — Não seja atrevida, que eu lhe bato. — Oh! indigno, infame. Bata, se é capaz. E arremessou o chalé, os lençóes e, em pé, de camisola affrontava Radagasio. — Seu canalha! Se gasto é o meu dinheiro, o dinheiro do meu dote e da minha herança. O que você ganha é uma miséria. O dinheiro é meu. E gasto em que? em fazer prazer aos outros, em dar aos que não têm. Não é em luxo, nem commigo... Radagasio, soffrego por falar, preferiu discutir a avançar para a mulher, cujo rosto estava tumido, os dentes brilhantes, os olhos largos, a cabelleira segura, mas fofa, desordenada, as mãos fechadas. Radagasio resmungava: — É gastar para deante. Presentes a toda a gente, criados, familia de criados, parentes, meninos da visinhança. Agora é esse canalhinha, que lhe come todo o dinheiro. Você consomme toda a fortuna. Verdadeiro Moloch. — Que tem você com isto, miserável, avarento? O dinheiro é meu... A voz de Thereza retenia metálica. Radagasio encolhia a sua expansão verbal. — Mas não grite, mulher louca. O dinheiro é nosso. Se você o trouxe, eu sou o marido, o principal dono. Quem administra o casal sou eu. É a lei. Por isso cale-se. Enojada, abatida, Thereza calou-se e machinalmente vestiu o roupão e foi até a janella. O sol irrompera francamente em Nitheroy e varria, com o jacto de luz, nevoas, nuvens, segredos, mysterios e restituia ás cousas a sua nitidez fatigante. Quando Thereza deixou a janella, Radagasio se tinha sumido, a criada preparava o banho e Thereza fitando a banheira cheia, achava que não havia água bastante no mundo para lavar-lhe a alma de tanta obrigação, que o servilismo tradicional impunha como um dever.
A vida conjugai ia assim, aos trancos. Thereza, humilhada e excitada, tinha pejo dessas reacções violentas, que interrompiam a sua conformação com o isolamento. A existência se lhe confinava naquelle exaltado retiro de vastos horizontes. A bahia farta e o oceano, que se alongava, exprimiam, como todas as grandezas, a melancolia do infinito. A descommunal massa dos morros a soterrava. Lutava por fugir á tristeza e ao anniquilamento e nesta luta se esterilizava a inconsciente actividade espiritual. Tudo em vão e a sua própria feminilidade, cujo mecanismo, rico de formas e movimentos, podia ter Ímpetos perigosos, se reduzira placidamente ao retrahimento quasi infantil. Entorpecera o corpo, como a intelligencia, na submissão. A casa, o jardim, o morro e tudo o que era visão, paizagem incorporada aos sentidos, eram a posse de Thereza. A cidade em baixo, aos seus pés. Thereza raramente descia da sua solidão. Subir sim. Para onde? Se vinha á cidade, logo voltava ao seu morro. Jujú a esperava na ruasinha socegada. Thereza saltava do automóvel e vinha docemente a pé com o menino. Cheio de presentes, agarrado violentamente á mão de Thereza, sorvendo-lhe o perfume, os olhos e a voz, o pequeno transfigurava-se na volúpia bemaventurada. Ao passar pela sua porta queria levar Thereza para dentro da casa e elles se debatiam e ella se libertava e o arrastava comsigo. Uma tarde, a família estava á janella, quando o pequeno, alviçareiro e resoluto, repetiu mais vivo o ataque. Thereza, deante dos extranhos olhos espantados para ella, fraqueou na repulsa. Elles disseram: — Entre um pouco, sem cerimonia, para fazer prazer ao menino. Thereza entrou. Jujú batia palmas, ria, pulava. Rataplan! rataplan! plan! plan! A familia desceu os quatro degráos da escada e arrebatou Thereza para a sala. — Oh! que milagre a senhora nesta casa, casa de pobres, mas honrados, dizia a mãe de Jujú num grande alvoroço hospitaleiro. Este menino é louco pela senhora, temos medo que elle lhe aborreça muito. É teimoso e fujão. Sempre desapparece e corre para a sua casa. "•• Jujú triumphava e, todo mysterioso, entendia-se com Thereza. Esta affirmou o seu encanto com a creança e as doces conversas, que tanto a divertiam. Os que lhe falavam eram três. Pouco a pouco elles se foram descobrindo. Eram a mãe, o pae e um irmão de Jujú. Moravam no morro ha um anno e achavam « muito agradável por causa do socego e da vista ». A casa rasteira á rua interior do morro, provinciana e ausente, descia a pique na frente do outeiro. Levaram Thereza para a sala de jantar, aberta sobre a bahia. Thereza debruçou-se á janella e sorriu á «vista»que era a sua quotidiana e inseparável companheira. Todo o morro alli era revestido de casas, que subiam e desciam em planos variados de formas exóticas, ingenuamente pretenciosas nos seus arremedos mouriscos, feudaes, coloniaes, rubros, brancos, verdes, que por entre as vegetações ousadas, refulgiam ao sol, como exageradas e ardentes araras. Ao lado, o cubo do Gloria incitava, possante e ameaçador, a transformação daquillo tudo. Não eram só os olhos, que gosavam a multiplicidade espectacular. Os ouvidos enchiam-se da alegria de todos os timbres exaltados, confusos, dissonantes. A sala era A viagem maravilhosa t simples e a luz plena separava rudemente os objectos e alargava o espaço. — Não repare, é tudo muito modesto... A senhora vive no luxo, ha de extranhar. Thereza não gostou daquella insistência medíocre da mãe de Jujú. O homem notou e logo remediou: — Não tem importância, Calú, está se vendo que D. Thereza comprehende tudo. Nós somos uma famüia de empregado publico. Eu sou escripturario do Thesouro, este é meu filho mais velho Manuel, estudante de direito, que se forma este anno. O outro que vaè chegar é o Pedro, estudante de engenharia. Conhece a menina, a moça da casa?... Ainda não? Pois ella vive nos bailes, nos footballs, só pensa em se divertir. Está na rua com amigos. — Como se chama? — Aracy. Foi uma historia de minha mulher. Como Aracy é nome indio, aceitei, porque eu penso que devemos conservar os nomes nacionaes. Os meus filhos são Manuel, Pedro e José, este Jujú, o caçula, que nos veiu com uma differença de dez annos da irmã. — Uma bella surpresa, cumprimentou faceira Thereza. Eu que o diga, não é meu Jujú?... O menino deu-lhe um beijo vehemente e quiz metter-selhe no collo. — Deixa a moça, Jujú, imperou a mãe. Senta socegado. E o puxou com força. Batido, encolhido, Jujú afastou-se, humilhado deante de Thereza. — Todos nomes nacionaes. É verdade que me puzeram um nome, que não é da tradição portugueza, nem indígena, mas é clássico, Aristides. O de família é bem nosso, Vieira. — Meu marido chama-se Radagasio... Uma gargalhada festejou a vingança de Thereza, cujos humidos olhos sorriam mais que a bocca luminosa. — Então é um bárbaro? arriscou Manuel e logo recolheu a observação.
Thereza olhou com sympathia o estudante e reparoulhe os olhos escuros pensativos, a cabeça muito cabelluda, o rosto triangular, pallido, tropical e triste. — No Maranhão a mania é dos nomes clássicos, influencia da cultura antiga, observou Vieira. Nós somos do Maranhão, eu e minha mulher, os filhos são cariocas. — Ah! Maranhão! que saudade, gemeu D. Calú, erguendo a grande cabeça, que sahia do pescoço volumoso. Terra boa como aquella, D. Thereza, não ha. O Rio pode ser grandioso, mas falta a intimidade, a simplicidade. E as comidas, então! — Ora deixemos de bairrismos, interrompeu Vieira, levantando-se para melhor.discorrer. O Brasil é um só, um todo e assim é que devemos amal-o. A força da nossa terra está na sua unidade. Pode ser grande, immenso, variado, mas é um só. O povo do Rio Grande do Sul está unido ao do Amazonas. Todos irmãos, uma só língua, uma só religião. Nada de separatismo. Frente unida deante do estrangeiro, o inimigo, que vem nos sugar o sangue e está alerta nas fronteiras. Já somos muito infelizes e se fossemos nos retaliar, adeus pátria. — Eu sei, Aristides, replicou pachorrentamente a mulher, suspirando. Mas isto não impede a saudade da terra da gente. Olhe, minha senhora, estou aqui ha vinte e cinco annos e não me posso acostumar de vez. O meu coração está no Maranhão, luar como o de lá ainda não vi e os rios tão doces e as frutas tão gostosas e as comidas... Nesta casa se come á maranhense. Se eu ousasse, eu convidava a senhora para um dia provar os nossos pratos. Vou lhe mandar uns doces do Maranhão. Jujú é que lhe levará. O menino alvoroçou-se. O seu olhar em êxtase perdeu-se em Thereza. Vieira impaciente não admittia aquella nostalgia inçorrigivel da mulher. — Deixe-se de saudades á toa. Olhemos a vida quotidiana, reparemos na desgraça do paiz.
— Pobre Brasil, disse a voz grave de Manuel. E Thereza: — Oh! Assim desesperançado, um moço! — Não é desesperança, é desespero! A nação está espoliada, suffocada, sem liberdade e martyrisada. — A senhora não sabe o soffrimento do povo. Não ha dinheiro que chegue para os que são pobres, murmurou a mãe. E Vieira vociferava: — Os ladrões governam. Eu sei no Thesouro o que são as contas do governo, os escândalos horríveis e os desfalques vergonhosos. Não se pode dizer nada. Estamos em permanente estado de sitio. — Três annos malditos... accentuou rancoroso Manuel. — É verdade, disse tristemente Thereza. Ha tanto tempo esta oppressão. Que tyrannia! — Mas ha de acabar, minha senhora. E Manuel levantou-se. — Revolucionário? indagou Thereza. — Sim. Aqui somos todos. Cada um a seu modo, até Aracy, affirmou a mãe. Eu não posso pegar em armas mas sou pela gente que padece dos déspotas. E abençôo esles meninos de coragem, que se bateram em Copacabana, que estão no sul e no norte salvando a vergonha nacional. A evocação da mocidade heróica emmudeceu a todos. Thereza recebeu o impeto da revolta contra o despotismo, a rapina e a deshumanidade dos flagelladores do paiz e o seu coração bateu o rythmo da libertação. Ella queria saber mais e mais da agonia do povo e das esperanças de salvação. Manuel respondia-lhe, radiante de se expandir sobre o que era a sua vida: — Um anno de revolução e o governo, com todo o seu poder, o seu dinheiro, a sua corrupção, não venceu. — E não vencerá, já concluía Thereza, espantando-se ella própria da sua fé repentina.
0 sentimento agira bruscamente sobre a intelligencia e criara a convicção precipitada. — Não vencerá, repetiu enthusiasmado Manuel. Pode haver minutos de parada, mas o espirito revolucionário não se detém e não ha força que o abafe. O impulso vem do fundo da alma nacional e procura reagir contra esta onda de lama, esta infâmia das gentes, que se apossaram do governo para depredar o paiz, porque neste despotismo a finalidade é locupletarem-se os governantes e toda a recua que os serve. A revolução vem de longe e é sobretudo uma revolução da mocidade. — É a sua força e a sua belleza, exclamou Vieira, arrebatado pelas palavras resolutas de Manuel, que proseguia: — A mocidade esteve no Brasil longo tempo servil, dando tristes signaes de decrepitude. Ella estava na indolência e formava na clientela dos politicos. Não era mais a mocidade desinteressada, que fez a abolição e a republica, era uma massa indigente, miserável, viciada pela volúpia e procurando o dinheiro no jogo, nos empregos públicos, nos negócios equívocos. Uma materialidade absoluta unia solidariamente velhos e moços. — E como a mocidade se transformou nesta legião de loucos, de revolucionários?... Diga, insistia inquieta Thereza. y — A explicação é dífficil. O facto é que ella se transformou e o ideal a move e a faz heróica. Talvez a guerra européa despertasse o idealismo universal. Talvez o individualismo desse uma nova affirmação ao homem, que se separou do rebanho, viu por si mesmo e teve horror. No Brasil a mocidade é a revolução contra tudo e contra todos. Já homens moços têm vergonha de servir ao governo. Este sentimento de pejo é o mais vivificador sopro da vida nova do paiz. — A revolução está em tudo e em toda a parte, affirmou Vieira.
— Em tudo, continuou Manuel. É todo o pensamento brasileiro, que se renova è isto fecunda ainda mais a revolução. Philippe Miranda proclamou a necessidade da revolução para desenvolver o dynanismo espiritual, moral e physico do Brasil. Thereza prestou profunda attenção á formula renovadora. Philippe Miranda? Philippe? Era esse o Philippe de Jujú? Como será elle? A ardente exigência de concretizar excitava o senso real da mulher. Manuel proseguia: — A revolução, se não se apossar do governo nestes dias, mais tarde ou mais cedo vencerá. Olhe a Rússia, a luta foi de annos e annos até que a revolução se espraiou victoriosa e pela forma mais imprevista. Assim será no Brasil. A formula ainda é uma incógnita. Quem pode com o espirito novo? Miséria esse despotismo execrando. A mocidade bateu-se gloriosamente em Copacabana, em São Paulo, no Paraná, no Rio Grande, no Piauhy, em todo o Nordeste, na Bahia. Os velhos magníficos, que a presidem, são conduzidos por ella, pelo surto sublime do seu enthusiasmo. A grandeza desses velhos está em comprehender o espirito novo e ser por elle inspirados. Que maravilhoso gênio militar o destes chefes de vinte a trinta annos! Prestes, o capitão-general, realizou o maior prodígio militar do Brasil, nesta marcha incomparavel do Rio Grande ao Piauhy, passando pelas linhas governistas, batalhando, vencendo e passando sempre. A marcha de Prestes uniu o Brasil sertanejo e essa união, tornando-se consciente, completará um grande destino patriótico, universal. — Como? perguntou soffrega Thereza. — Muito simples. Os sertanejos permaneciam isolados uns dos outros e as suas preoccupações políticas exclusivamente regionaes. Um gaúcho só se interessava pela dominação do seu Rio Grande, um homem do Contestado não via outra cousa senão a independência da sua região, um jagunço da Bahia limitava-se a rivalidades bahia nas, como os cangaceiros do nordeste brigavam unicamente pela política e pela rapina do seu sertão. Ora os revolucionários levando a gaúchada para o Norte, incorporando ás suas legiões homens do Contestado, jagunços, cangaceiros, propagando a revolução política, geral, despertaram a consciência do sertão. — Como os bandeirantes outrora... — Um pouco. Mas os bandeirantes e os vaqueiros percorreram o Brasil, entrelaçaram as gentes as mais diversas movidos por interesses econômicos, a escravidão dos índios, o ouro, as pedras preciosas, o gado. Os revolucionários fazem a unidade em torno de um pensamento, de um ideal político. Esta admirável acção fecundará os espíritos limitados ao regionalismo, rudimentares no fetichismo político e religioso. As populações sertanejas, unidas pela mesma consciência nacional, são chamadas a uma considerável missão na evolução brasileira. — Mais um beneficio da revolução, exclamou Thereza, adivinhando. — Aqui também no Rio não ha um moço digno, que não seja revolucionário, disse D. Calú. Se a senhora soubesse o que foi a noite da revolução do Protogenes... — A mais bella noite da minha vida! exclamou Manuel. — A maior decepção... commentou soturno o pae. — Decepção? Sim, foi enorme. Mas eu falo do enthusiasmo, que sentimos todos, da esperança que nos exaltou. Foi o minuto mais intenso, mais agudo, mais universal, que jamais vivi, aquelle em que a revolução ia arrebentar. Foi a ascensão gloriosa do meu ser para a libertação. — D. Thereza talvez não saiba tudo, cortou D. Calú. — Ouvi contar tanta cousa. Mas ninguém sabe a verdade verdadeira. — Nós sabemos e não se pode esquecer. Ás vezes temos tanto consolo em lembrar... Era a voz nostálgica de D. Callú, que modulava a evocação.
— Nós estávamos preparados para a primeira occasião. O commandante Protogenes era o chefe de mais prestigio, entre os officiaes da marinha e na marinhagem. Devia ser o chefe do movimento aqui. Até então a revolução estava mais ou menos solidificada no exercito. Na marinha o sentimento revolucionário era vasto e ardente, mas amorpho, sem a menor cohesão de um pequeno grupo, que fosse. A intervenção do commandante Protogenes corporificou o espirito de revolução entre os navaes. E subitamente se teve a revelação de que quasi toda a marinha era revolucionaria. O governo sentiu-se perdido e ficou perplexo. Uma vez decidida a revolução da marinha, o enthusiasmo alastrou-se na mocidade civil, sobretudo das escolas. — Um governo que tem contra si a mocidade é um governo condemnado para sempre, interrompeu Vieira. — O commandante Protogenes soube preparar tudo. O plano a executar era ousado e de acção rápida, violenta. O commandante se apoderaria de um encouraçado e deste ordenaria o ataque. Forças da marinha desembarcariam e protegidas pelos destroyers seguiriam do cáes pelo longo da avenida Beira-Mar até o Cattete. Os corpos do exercito e da policia que, dominados pelos jovens officiaes, entrassem no movimento marchariam para o mesmo alvo. Nós, os moços civis, estaríamos armados nos vários pontos e também no cáes para ajudar a offensiva dos navaes. O Cattete seria tomado de assalto, o presidente prisioneiro... — Se elle não fugisse! rangeu D. Calú. — Não tem importância. A revolução estaria vencedora. Na tarde de vinte de outubro, continuou Manuel, foi dada a ordem para o movimento naquella noite. A uma hora da madrugada um tiro do « Minas » annunciaria a revolução. Nós fremiamos. Jamais maior sopro de enthusiasmo passou nesta cidade, enthusiasmo profundo vindo da ânsia de liberdade, do pudor collectivo, da vontade da desforra contra os bandidos, que nos venceram e mancharam o paiz. Todos os camaradas reuniram-se em grupos e foi uma sublime vigilia para a libertação. 0 Brasil ia renascer. Resurreição! — Vae fazer um anno, em outubro, minha senhora, disse a nostálgica D. Calú. Desta casa sahiram oito moços, armados, corajosos, para morrer ou viver. Ficamos eu, o meu velho e a menina... Eu abençoei a todos... e chorei, chorei de fé e esperança... Pobre da nossa terra! — Desde a meia noite, lembrava Vieira, estávamos de relógio á vista esperando o-signal... Quando chegou uma hora,.nos levantamos. E o tiro? Nada. Estaria certo o relógio? ou seria um atrazo e tudo aconteceria, como fora marcado? os minutos correm, nada de tiro. Angustia. Esta mulher teimava que era engano e o tiro seria ás duas horas. Esperamos. Duas horas, nada. Cançados, inquietos, presumindo cousas horríveis, que não nos diziamos, nos recolhemos, mudos, cada um para o seu lado, sem coragem de nos olharmos... Ás três horas ouço entrar os rapazes. Corri inquieto. Elles estavam anniquilados. Não comprehendiam o allucinante silencio. Viram a bahia, as praias, as proximidades dos quartéis. Um socego vergonhoso e infinito. Encontraram companheiros com a mesma angustia, caminharam, indagaram e sempre o infame socego e a immensa mudez. Cada qual foi deixando as ruas melancólicas. Elles alli estavam em casa moidos, mortos. Pela manhã sahiram e souberam a horrível cousa, a antecipada prisão do commandante, que menoscabou da policia e não previu o golpe da delação. Um ingênuo? pobre Brasil! — É a delação que ajuda o governo, lepra moral deste paiz de escravizados. O governo os compra, o pavor e a infame cobiça os vendem, disse Manuel. Não importa. A revolução não pára mais no Brasil. É a única, solução para acabar com esta corja de politicos, que se apossam cynicamente de tudo, opprimem, assassinam, furtam, enriquecem.
— O perigo é o cháos, pbservou Vieira, cocando a barbicha. — Ora papae, você sempre medroso. — Empregado publico, gritou malcriada a mulher. — Qual empregado publico, deixe de desaforo. O que eu digo é que a revolução é muito justa, mas depois? é um salto nas trevas. — Então não se deve fazer nada com susto deste famoso salto. É deixar tudo correr como está, os ladrões, os déspotas se aproveitando, o povo bestificado, todos resignados como escravos. Ah! não! A revolução é a revolta da honra, da dignidade, é a vida, o movimento que reage contra a apathia covarde. Só por isto, por ser a acção, ella é bella e indispensável. Perturbação? Mas é signal de vida. O movimento é a lei do Universo. Deixe de medo, papae. Para adeante. Varramos esta canalha. E o seu gesto exprimia a violência de limpar, de clarear, de elevar o que era maculado, turvo, baixo e era o Brasil. Thereza entrava numa atmosphera extranha, de ódios generosos, de desaffrontas desinteressadas, de exaltação transcendente. Uma deliciosa combustão a abrazava e a excitava para á revolta. O que ella aspirava a libertar não era uma idealidade, uma ficção, não era um paiz, uma nação política, era o seu próprio eu. Da força ideal e complexa dos revolucionários, Thereza appropriava-se para resolver victoriosamente a sua existência. No meio da conversa, que proseguia, ficou absorta, abysmando-se na illusão. E mal reparou na entrada do outro filho da casa, Pedro, que vinho alviçareiro e estacou quando viu a visinha. Logo o puzeram em equilíbrio. — Boas noticias? perguntou o pae... Os olhos do rapaz faiscavam, eram gaseos, miúdos e moveis. A bocca rasgada, as maçãs do rosto pontudas, moreno carregado de tez, nariz esparramado, todo elle feüno, flexivel, ágil. Não respondeu á pergunta do pae. O irmão o entendeu e os dois afastaram-se. Pedro vibrava e sussurrava revelações, que Manuel recebia ainda mais pensativo e mais rancoroso. — Boas noticias? insistiu o pae. Desembucha rapaz. Aqui a senhora é de confiança. Não trahirá ninguém... — Neste caso eu vou-me embora, cortou Thereza, prompta para partir. Pedro, atrapalhado, interrompeu-a: — Não faça isto que me offende. Posso falar deante da senhora. Olhe, disse soffrego, prepara-se novo movimento para estes dias. — Quem te disse? Viste o capitão? — Vi. Elle está muito animado. O plano é tremendo. Desta vez o Presidente não escapa. É a aeção directa que vae começar. Sabe, a senhora vae ver cousas extraordinárias. Não se espante. — Sou corajosa. Pensa que tenho medo? E Thereza sorria de valente. — Haverá attentados, não a pessoas... — Ah! sempre a generosidade brasileira, esta fraqueza que mais é covardia. Medo, medo, ora, resmungava raivosa D. Calú. — Mamãe é sanguinária... Havemos de chegar lá. Por emquanto não ha necessidade e não devemos chamar a odiòsidade á revolução. — Eu sou pela acção directa, violenta. Morre alguém? Não tem importância. O principal é vencer, liquidar de uma vez isto, objectava D. Calú. — Os chefes decidiram o emprego das bombas, informou Pedro. — Bravo! Agora ao menos é o terror e elles ficarão apavorados, applaudiu Manuel. Vieira cocava a cabeça, mudo e pesando o imponderável. Thereza viu-se compromettida numa tenebrosa conspiração. Mas bravamente aceitou a cumplicidade. Não fez um gesto para reter a fatalidade revolucionaria. — E o governo? perguntou Vieira, que, de decepção em decepção, tinha um respeito secreto á força, que demonstrava o presidente. — Continua na defensiva. Porque somos nós que o atacamos. Elle finge-se indifferente e, para mostrar que não teme a revolução e faz o que lhe parece, promove a reforma da Constituição, explicou Pedro. — Oh! miserável! Será possível que passe afinal? indagou violentamente Manuel. — Sim. Foi Philippe que me disse. — Philippe? Tu o viste? Porque não o trouxeste? — Estive longamente com elle. Viemos a pé da cidade. Não poude vir, até aqui, porque está trabalhando, reservou a noite para escrever e lá se foi solitário... — Que diz elle? Repete. — A reforma da Constituição é um acto de sadismo político do presidente. Este homem sombrio, cruel, vingase. A nação o detesta, elle a faz soffrer e prepara-lhe o martyrio escravizando-a, amordaçando-a, infligindo-lhe o castigo, que perdurará. Sabe que o seu governo é estéril, que não criará cousa alguma, vinga-se esmagando as forças vivas da nação para que esta se torne infecunda. Tortura-lhe as vísceras e o seu regosijo secreto é assombroso. A mocidade o odeia, elle persegue-a e dá-lhe um verdugo. Martyrizou o exercito e a marinha e gosa o extranho goso de ver aos seus pés, generaes e almirantes. Intriga uns com os outros, chefe de policia, chefe da casa militar, ministro da guerra, ministro da marinha, e, nesta atmosphera de baixezas, de ódios, de disputas das suas preferencias, o homem cruel deleita-se e vinga-se. Que maior delicia do que rebaixar tudo, senado, câmara, supremo tribunal, políticos, juizes, jornalistas, todos miudinhos, curvados, annulados e sem pejo. Renunciaram á vergonha para ficar nas posições. O presidente atira uns contra os outros, promette, illude-os e os mantém prisioneiros da esperança do ganho. A cidade o vaiou, celebrou o seu ridículo num carnaval. Para castigaladeu-lhe uma policia infame, que a assassina, a rouba, a abafa. É uma volúpia allucinante ver que ella não se entrega pela violência e elle a martyriza mais na ânsia de possuil-a. Agora é preciso fazer soffrer a nação inteira, nâo só hoje como no futuro, porque elle será execrado nesse futuro. A vingança está preparada e o martyrio do paiz perdurará. A republica era idealista, protegia o indivíduo, desafiava e continha o governo. Acabe-se com a liberdade. Institua-se o despotismo legal. Não será o presidente sádico o presidente da dictadura constitucional, mas vinga-se e rejubila-se, porque entrega aos verdugos vindouros o corpo da nação para ser flagellado e o espirito para ser abafado. Delicia. E Philippe disse mais: — Este sadismo combina-se extranhamente com a volúpia de soffrer, que se apodera do povo brasileiro. O goso está no soffrimento, na dôr que nos humilha, nos rebaixa e nos dá a satisfação ardente de proclamar a nossa infelicidade, a nossa miséria deante dos outros povos. É preciso nos aviltarmos para sermos felizes. Vamos nos annulando, amortecendo, entrando mansamente na podridão. Ser o povo mais desgraçado, mais batido, mais pobre, mais miserável, entregar-se á violência dos nossos flagelladores, é o requinte do prazer. Refinamos a espiritualidade, e, emquanto o corpo geme, a alma delicia-se. Um gemido immenso, soturno, apavora o espaço. Elle vem das camadas inconscientes e dilata-se no alto. É a nação barbara, decadente, allucinada, que geme nos candomblés, nas pagelanças, nas torturas espiritas,, nas egrejas. Quem geme não se revolta, allivia-se, alégra-se na dôr, obedece, curva-se e espera jubiloso mais soffrimento. Desta fonte sombria gera-se o espantoso pessimismo, que entorpece a vida e é o supremo goso do anniquijamento. Os que escapam a esta volúpia miseranda e se revoltam, attingem ao paroxysmo do desespero. Ódio contra os verdugos e os escravos. Surge o mysticismo da liberdade contra o mysticismo da escravidão e da tyrannia. Eis o Brasil, uma luta entre as terríveis subsconcientes correntes mysticas, que o agitam e o allucinam...
A noite apoderou-se do mundo. Thereza ergueu-se rápida, despediu-se. Levando o menino, como um arrimo, atravessou a rua. Thereza sentira ter tocado no real profundo e inexorável de todo um povo. Havia um soffrimento, que dilacerava e suppliciava a nação. O seu soffrimento intimo, a sua angustia, dilatavam-se na dôr mais vasta. Corria veloz pela ruasinha provinciana banhada na mansa luz do gaz, medrosa de encontrar o marido. Parecia-lhe ter commettido uma infidelidade, penetrando naquelle mundo extranho e novo, ao qual ainda ha pouco, ousara dar-se toda, ávida de partilhar o soffrimento collectivo e agir loucamente na revolta redemptora. Agarrou-se. ao menino, protegeu-se com elle e subiu as surdas escadas do jardim. Radagasio a esperava no alto da esplanada, batendo as bochechas de cólera. Thereza recalcou o pavor. Deante do espantalho ridículo reagiu altiva, não murmurou a explicação, que vinha formulando. Aquelle homem odioso, aquella grosseira massa humana era movida pelo mesmo espirito diabólico, covarde, vingativo, que movia os flagelladores do Brasil.