XVII A Viagem Maravilhosa · Capítulo 17 de 17
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XVII

XVII

A fazenda fora vendida. Philippe apressou-se em partir para o Rio. Veiu de São Paulo pelo diurno. Somente Thereza sabia da sua chegada. Era um segredo indispensável á alegria do amor. Na nojenta barafunda do trem, isolou-se, já se inebriando do seu encontro com Thereza. Tudo o que lhe vinha do exterior, os cerrados, as culturas, as cidades, lhe foi indifferente. Apenas o Parahyba o despertou da scisma feliz. A principio, a fulguração da luz submergia o rio na phosphorescencia indecisa, volátil e vibrante. Quando não houve mais tanto sol, os volumes das montanhas, dos campos, das mattas e das casas, as figuras dos animaes e das gentes recortaram-se na atmosphera desencandecida. A massa liquida do rio foi limitada pelas linhas das margens e pela espessura das águas. Sobre ella reflectia-se perdidamente a mattaria, que procurava esconder os contornos da corrente. Esta fugia e ostentava-se branca, luminosa, para logo ser velada pelas arvores, pelos bambus, pelos copos de leite, pelas saias de venus, -pelos nenuphares. Philippe ia divertindo-se nesta correria da matta e do rio, nesta porfia do branco e do verde. Não se lembrou de que aquelle rio maravilhoso fora apostrophado como o rio da escravidão. Para elle, era o rio do encanto. Quando o trem, atravessando os tunneis, posou no alto da serra, a vastidão do deserto volumoso exaltou em Philippe o desejo vehemente da libertação. O illimitado era o rythmo do seu espirito. Aquelle mundo de montanhas livres era igual ao seu reino, onde o amor domina e se eleva, puro de toda a servidão. O trem chegou ás terras baixas, abafadas. Philippe ficou impaciente para que passassem os subúrbios barulhentos, infectos, com os seus parques de diversões, os seus mafuás e as lojas funerárias, que mostram aos viajantes caixões de defuntos, i dependurados como brinquedos. Era noite, quando o trem parou na Central. Philippe apressou-se em sahir. Da porta da estação viu logo Thereza, no automóvel, do outro lado da praça. Ella ergueu-se, bateu-lhe ardente com a mão. Philippe entregou a bagagem para que a levassem á casa e correu para Thereza. Os corpos perderam os seus próprios limites para se fundir em uma doçura quente, sem fim. De repente Thereza, impetuosa, pulou para o volante puxando Philippe e moveu o carro. Quiz fugir de todo aquelle atropelo e esgueirou-se por entre o tumulto. As palavras, que dizia, eram apenas para commentar os incidentes da direcção e do movimento. O silencio de Philippe era o do êxtase. Não o espantou o emmagrecimento de Thereza. Era assim magra, febril, torturada, que elle a imaginava pelos soffrimentos, que a consumiam. Não pensava, não analysava a exaltante e dolorida belleza, que a paixão criara para elle. Maravilhava-se, adorava. Fugiam por dentro da noite quente, cortando o abafamento, abrindo brechas para uma tênue corrente de ar, que o motor do carro fabricava. O chão das ruas bufava, cheirando a mofo. Do alto cabiam gottas mornas, como uma transpiração. Fugiram para beira-mar. A lua era brasileira, morena, redonda, carnuda. Thereza desafogara o automóvel na praia fulgurante. O mar reintegrava Philippe na sua cidade transcendente. Foram passando pelas avenidas, que vestidos claros coloriam sobre os escassos grammados nas luzes misturadas do luar e dos reverberosThereza ia levando Philippe para adeante, indifferente a todo o alarido juvenil, estivai. Sorria transfigurada. Apoderava-se, emfim, de Philippe e, emquanto ia conduzindo o carro, acariciava o adorado com as palavras da sua infinita ternura. Philippe, na sua contemplação, dizia-lhe a ventura ineffavel de tel-a de novo e jurava que jamais, jamais, se separariam. As lagrimas encheram os profundos olhos de Thereza. Ellas diziam toda a angustia soffrida e o appello de salvação. Copacabana festiva. Leblon solitário. Thereza parou o automóvel bem junto á praia. Desceram na areia entre o oceano e uma ribanceira, coberta de pitangueiras, que occultavam a avenida em cima. Ficaram alguns instantes paralysados pelo vasto tumulto das ondas, avançando, de longe, sobre a terra e derramando-se espumosas, brancas, fartas, na immensidade das praias condescendentes. A lua dilatava o mundo, tornava o céo mais celeste e as estrellas mais azues. Philippe apertou Thereza nos braços e ambos se foram derreando sobre a areia. Mais se beijavam que falavam. A volúpia foi violenta. Delia participaram o ardor das vagas e o bafo da terra quente. Depois a volúpia foi serena. Thereza repousava no peito de Philippe. O abysmo claro do céo voltado sobre os amantes os absorvia e os fundia na ineffavel inconsciencia. Pouco a pouco foram emergindo a esta vida. Thereza agarrou-se a Philippe para não o deixar nunca mais. Cravou-lhe as unhas no corpo e tenaz, inexorável, exigia a unidade indissolúvel. — Tu não me deixas mais um instante. Quero viver comtigo para sempre. Fujamos de tudo isto. Leva-me, arrebata-me. Tu és todo poderoso... Meu Deus, meu senhor, meu amante... Philippe a f firmou a sua absoluta unidade com a idolatrada e a resolução inabalável, em que estava, de dar-lhe a perpetua alegria. Foi então que Thereza chorou toda a sua miséria, toda a sua esperança, toda a sua paixão. Quando Philippe quiz saber de tudo o que se passara ultimamente, cuja gravidade as cartas deixavam suspeitar. o desejo de não perturbar a excelsa ventura, em que estavam, impoz silencio a Thereza. — Hoje não... São cousas inferiores, tristes... Amanhã, meu amor adorado, saberás tudo... hoje não, fiquemos na magia incomparavel... Para que Philippe não insistisse, matou-o de beijos, ostentou a sua alegria profunda, amimando por entre risos a cabeça do amante, que ella guardava meigamente'ao collo. Muito tarde deixaram a praia e voltaram á cidade. Vieram vagarosamente dentro do luar até ás Águas Férreas. Philippe entrou a pé no largo do Boticário, pequeno, apertado, sombrio. Á mãe e a irmã o esperavam desanimadas. Leonor ainda teve impulso para abraçal-o. D. Isabel não poude esconder na frieza, com que o recebeu, o seu despeito pela demora em chegar á casa. Não ousou censural-o. Esforçou-se por mostrar indifferença. Conversaram sobre os negócios. Philippe explicou os pormenores da venda da fazenda e mostrou-lhes os cheques, que recebera dos Americanos. Ellas ficaram maravilhadas de tanto dinheiro. D. Isabel levantou-se solemne e beijou a testa do filho. Fizeram rapidamente a fácil partilha daquella importância liquida, que os tornava ricos. Philippe disse resolutamente a sua intenção de deixar a casa e ir viver só. Ellas não precisavam mais da sua assistência. Collocariam a fortuna em valores seguros, que dessem boa renda e estariam independentes para sempre. D. Isabel esperava esta decisão do filho e não se magoou. Preferia a separação a um contacto diário, frio e rancoroso. A avarenta temia absurdamente pelo seu dinheiro, de que Philippe, sob o império de Thereza, viesse a abusar. Leonor pensava em outra cousa e disse claramente: — Não faz mal, Philippe. Nós já tínhamos imaginado, mamãe e eu, fazer uma grande peregrinação... Vamos a Lourdes, a Roma, a Terra Santa, não esquecendo Lisieux para agradecer a Therezinha de Jesus todo este milagre, que nos aconteceu pela sua santa intervenção. É verdade que tenho pena de deixar as minhas obras de caridade, os meus pobres. Felizmente ha sempre pobres em toda a parte.

No dia seguinte Thereza narrou a Philippe as misérias da sua casa. Elle ouviu, revoltado, as infâmias e perversidades de Radagasio e Balbina. Que infinita piedade dos martyrios da sua adorada, perseguida pelo par sinistro, do homem imbecil, devasso e nefasto e da negra macumbeira, criminosa. — Meu divino amor, isto vae cessar. Tu não podes continuar neste inferno degradante, exposta á morte. Tu és minha, tu pertences ao amor. Faremos tudo pela gloria da nossa paixão. Deixarás pela tua soberana vontade este mundo infecto, em que te prendem. Penso que devemos ficar na terra do nosso amor, não devemos nos evadir... Mas se receias permanecer aqui, iremos para muito longe, já sem demora. Cada dia que soffres nesta degradação é um crime para o amor, que exige o seu domínio absoluto, acima de todas as contingências. Thereza não esperava outras palavras de Philippe. Sabia-o decidido, sem medo. O seu problema não se resolvia assim tão simplesmente. Lili existia. As tenazes da maternidade ainda a retinham. Teve a suprema coragem de abrir todo o seu complexo sentimento ao amante. A confusão, com que se exprimiu, enterneceu Philippe. Animou-a na situação dolorosa, em que se debatia o supremo amor da mulher, mãe eterna. — Olha, coragem, meu Bem idolatrado. Traze Lili comtigo... Não ha mal... Porque? Ciúmes meus?... Não tem importância... Tu não me abandonarás... A gente se acostuma... O essencial é estarmos unidos para sempre e tu alegre, feliz, feliz... Thereza comprehendeu quanto o amor gera a piedade. O sacrifício, a que se propunha Philippe, era immenso e só ella era covarde em não romper os últimos laços, que a prendiam ao mundo, em que vivera, e entrar pura, desmaterializada, no paraíso da paixão. Sempre a relatividade, sempre a limitação criada pelos homens.

Nesta tarde Philippe appareceu em casa de Vieira. Ritinha, informada desde manhã por Thereza, não se mostrou surprehendida. O seu alvoroço de alegria ainda assim foi maior que o dos outros. Ella respirava sabendo Thereza protegida e adivinhava a próxima libertação dos que se amavam sobre todas as cousas. Crivaram Philippe de perguntas e foram contando o que lhes succedera a cada um. Philippe sabia que Manuel e Pedro estavam formados. Ignorava que Vieira fora removido para o Maranhão. — Os miseráveis se vingaram, commentava em uma resignação rancorosa D. Calú. Seja tudo pelo amor de Deus. Não ha nada como um dia atraz do outro. Elles pensam que nos fizeram um grande mal... Voltar para a sua terra, não é desgraça. Vou bem satisfeita de ver o meu Maranhão e lã, no meio da minha gente, ter um descanço, que não tive aqui nestes últimos tempos. Não sou como Aristides, que está mordendo o freio de raiva... — Já disse á senhora que sou incapaz de ódio e não guardo, rancor, observou Vieira zangado. Só os imbecis que não conhecem a doutrina pura da caridade e da fraternidade podem levantar tamanho aleive. Se eu soffro nesta vida é para me purificar. E na futura reincarnação... — Lá vem asneira, interrompeu sarcástica D. Calú. Este homem, Philippe, está completamente transtornado com o tal espiritismo. — Cale-se, mulher, gritou Vieira. O que você merece é uma sova, que lhe expulse o espirito mau. Os filhos intervieram, procurando impor silencio aos pães. Estas constantes discussões religiosas armavam uma irritante antipathia entre Vieira e D. Calú, que o infortúnio aggravava. — Valha-me Nossa Senhora da Gloria, continuou, irreductível, D. Calú. Agora preciso de muita paciência para aturar este pessoal, que se entende com alma do outro mundo... Vieira avançou possesso para a mulher, esbravejando! sem ninguém poder contel-o. — Alma do outro mundo és tu,, estúpida. Pensas que eu não te reconheço, tu és o espirito das trevas, o espirito de Lucifer, o espirito de Judas, do demônio Mara, que tentou Budha, de Typhon, que matou o divino Osiris, tu és Keres, nocturno gênio do mal, tu és Empusa, criatura da lua maléfica. Eu te ordeno que renuncies a este corpo e voltes aos infernos... Em nome de Osiris, de Ormuz, de Vischnu, do Christo, de AUan Kardec, sáe, Cynocephalo! Manuel, compassivamente, socegou o pae e o levou para o escriptorio. D. Calú suspirou. — É o que você vê, Philippe... O homem está gira e me insulta com todos estes nomes feios, que não sei o que querem dizer... O melhor mesmo é voltar para a minha terra... Ao menos lá, se houver uma calamidade, estou com minha gente, porque os dois meninos vão se dispersar, cada um para o seu lado. Depois da morte do meu Jujú tanto se me dá, como se me faz. Só tenho pena de Aracy... — Não, mamãe, não me lamente... Foi a sorte... Nós estamos pesados, ninguém me tira da cabeça. O melhor mesmo é sahir daqui, onde ninguém nos quer. Tudo isto entristecia Philippe e elle lutava contra a invasão da piedade perturbadora. Procurou uma diversão e interrogou Pedro: — Que isto, Pedro, vaes deixar o Rio? E Manuel também? Que novas resoluções são estas? Pedro ficou radiante em contar a sua felicidade. Pairava indifferente áquellas misérias da familia. — Foi uma surpresa, Philippe. E destas mesmo de enlouquecer de alegria um camarada. A empreza vae mandar o meu chefe aos Estados Unidos comprar material e qual foi o meu espanto, quando o chefe me designou para ir como um dos seus auxiliares. — O que rapaz! exclamou Philippe. Mas que sorte única. E Aracy diz qué vocês estão pesados... Tolices... Estados Unidos... Era do que tu precisavas. Vaes lucrar tanto. Será uma transformação, Pedro. E Manuel? — Ah! este segue outro rumo. Está inteiramente filiado ao communismo. Quem diria? aquelle Manuel, liberal, jurista. E lá se vae á Rússia dos Soviets com o mesmo ardor com que a combateu. Vae enviado pelo partido daqui e também tem contractos de correspondências para alguns jornaes. Philippe não commentou. Testemunhava que os seus amigos eram sempre movidos por uma maravilhosa força • espiritual. Perguntou por Monteiro e ficou alegre em saber que estava de novo refugiado no Rio e o viria sem demora. — E você, Ritinha, que lhe diz esse Maranhão? Ritinha ficou atrapalhada por não poder esconder o seu contentamento. — Agora vou socegada, Philippe. Desde que você voli tou, o meu coração, que esteve tão afflicto, se consolou um pouco com a partida... Tenho uma pena tão grande de deixar Thereza e você... Mas eu não faço falta. — Ah! menina, deixa de ser fingida, gritou rindo D. Calú. Não nego,. Philippe, que ella tenha muita saudade de D. Thereza, que é um anjo para ella, Mas Ritinha vae se casar e o Viriato já está no Maranhão. Fez uns bons cobres no Acre...

A negra notara uma grande transformação em Thereza e na casa. Ritinha desapparecera e Thereza estava alegre, procurando sempre pela filha. Radagasio matutou para decifrar este mysterio. Como sempre, não comprehendeu. Foi Balbina que percebeu a volta de Philippe. Um vago e inexplicável medo preoccupou Radagasio. Elle queria Thereza sob o seu domínio e temia que ella, apoiada por

Philippe, lhe escapasse, explodindo o escândalo, que elle tanto receava, porque seria o desmoronamento da consideração social. Ficava afflicto, oppresso, imaginando a sua desmoralização no banco e no « Educational-Club », Tudo se desvendaria. Elle, Radagasio, o defensor da ordem e da moral, o conservador, o educacionista, o regenerador dos costumes, o futuro banqueiro, exposto na sua nudez de oppressor, explorador, cruel e hypocrita, afundado na devassidão ancillar. Não houve força sensual da negra, que lhe pudesse desanuviar o espirito. Radagasio perdurava acabrunhado, offegante, procurando o meio de prender Thereza, de impedir-lhe a fuga escandalosa. Não era difficil atinar que só Lili podia reter Thereza. A negra redobrou a vigilância para impedir o possível rapto da menina. Thereza seduzia cada vez mais a filha, fascinando-a na exaltação do amor materno. A luta proseguia, tenaz, odienta, entre Thereza e Radagasio. Philippe, deante da hesitação de Thereza, resolveu installar-se. De todos os retiros, que vira, nada lhe agradou e a Thereza, como uma casa nas Paineiras, que um inglez, a partir para a Europa, lhe cedia. Era a solidão luminosa, a floresta sobre o mar, a immensidade do horizonte, a quietude, o esquecimento. Dentro, era a habitação ingleza com o seu descanço, o seu agasalho, a sua civilização. Poucos dias depois, Philippe a occupava, na firme esperança de que alli brevemente fosse a morada da sua Thereza. Que profundo socego, longe do Rio, transfigurado em cidade balnearia. Elles miravam do alto o mar, que domina, absorve a totalidade dos seres e se torna uma obsessão. Mesmo aquelles, que não mergulham nas águas, lhes sentem a presença real em seu pensamento e no rythmo da vida, que ellas cadenciam. É o mar, que não dorme, esperando o sol, que subitamente rubro, fogoso, alvoroça as margens do céo e das praias. Os corpos chegam alviçareiros e a vadiaçãp com as ondas e com os desejos começa ardente, infantil. Cada alma deseja um corpo alheio para a sede da volúpia, que o sol excita e nao mata. As linhas da superfície marítima ondulam, curvam-se, dilatam-se, liquidificam-se. Os volumes dansam, rolam, submergem. O estampido das vagas, alimentadas de vento, e os gritos humanos transfundem planos, profundidades, espaços, luz, em sons. Na musica vasa-se toda a alegria do Universo. Dentro da sonoridade, movem-se os corpos, gesticulam, correm pelas areias compactas da humidade salgada, agarram-se frenéticos, furam as ondas e, por entre as espumas, reluzem como flores enormes, theatraés, as toucas e os capacetes multicores que encarapuçam as cabeças espetadas na água. O sol vae abrazando. A alegria vae cançando. Debandada. Uns embrulham-se nos roupões alacres, outros gottej antes na semi-nudez. Uns correndo, outros morosos. Tudo se vulgariza na volta familiar. Mas outros, ainda, prolongam a alegria marítima nos automóveis, que os levam pelas avenidas, varando a cidade, dando a saborear aos olhos dos passantes, as coxas nuas das mulheres. A manhã continua ardendo. Restam banhistas retardatarios no mar. A cidade enche-se. Tudo escalda. O dia avança. O bafo da terra envolve de fumo tênue as massas verdes, as casas, os morros, a bahia. Os olhos alongam-se, a vista turva-se na bruma quente. Tudo vibra no calor elástico, que tudo distende. A sonoridade trepida, fere, alarga-se. Cigarras, businas,'pássaros, ferros, gritam no ambiente metallico, secco de ventos. Mais tarde cáe a viração. A sonoridade extingue-se na vadiação da aragem marítima. É a volta do mar, que attráe novamente. As praias enchem-se. Nos cáes, nas calçadas, na areia, abeiram-se automóveis. Os curiosos e os vadios contemplam os figurantes de varias raças, varias cores, diversas edades, que se banham e brincam na confraternização da alegria e do jogo. Sobre as águas coloridas pousam, agitám-se skiffs, outriggers, canoes, yoles e os barquinhos a motor. As aves tubulares ou angulosas, gaivotas em bandos e carapiás aos pares, desfilam desdenhosas sobre os jogos humanos. A tarde é longa. A noite custa a chegar. Subitamente o sol tudo doura. As formas tornam-se nitidas. A luz inflamma o mundo de montanhas, de ilhas, vapores, zimborios, cupolas, tijolos, azulejos, pedreiras, até que, fatigado, o sol se esvae. O mar esverdea-se. Os banhistas começam a recolher-se ás suas ruas, enfeitadas pelas acácias amarellas, pelos arbustos vermelhos, roxos, rubros, as primaveras, as unhas de gato, as lauras rosas. As velhas figueiras estão cobertas de ouro. É a hora dos pescadores nos cáes desertos. A viração está escassa. As andorinhas batem nos telhados, as cigarras escondidas porfiam nos desafios estridentes. Primeiras luzes na bahia, nas fortalezas, nas praias, nos navios. Consumase a retirada dos últimos banhistas nos automóveis, nos canoes e a pé. Dentro da noite, os pescadores, silentes, pedregosos, sentados nas escaldadas muradas de granito, esperam os peixes imaginários.

Desde que Thereza começava a subir no seu automóvel da ladeira do Ascurra para as Paineiras, sentia-se tomada pelo impulso da floresta e da montanha, que a transportava vivamente para o alto. Subia envolta pela mattaria verde, que a enchia de frescura e lhe acalmava a inquietação. Assim chegava á casa de Philippe e passavam a tarde inteira na communhão da alegria. A magia exterior, que os cercava e os invadia, arrebatávamos para uma região serena, pura e sobrenatural. Tudo era vasto e illimitado, como o rythmo interior da paixão, que os transfigurava. Quando Thereza deixava Philippe e voltava á sua infernal morada, a angustia a retomava e o seu desespero era cada vez mais intolerável. Persistia a tortura da hesitação. Não podia viver um instante sem Philippe e não tinha força de renunciar a Lili. A sua delicadeza e mesmo um secreto e inconfessável desejo de uma libertação integral não lhe davam animo de carregar a filha para a companhia do adorado. O tempo ia se passando neste martyrio e, por mais que Philippe a sustentasse, Thereza continuava indecisa. Já mesmo aquella communhão de alegria, que apagava toda a angustia, começava a ser perturbada pela tortura crescente. Esta inquietação affligiu Philippe. — Vamos, meu amor, resolve-te de uma vez a trazer Lili. Que temes? Radagasio? Eu saberei contel-o. Mesmo que elle recorra judicialmente para a posse da menina, tu tens por ti a lei. A filha menor fica no poder da mãe. E se te considerassem culpada, saberemos demonstrar a culpabilidade do miserável. Toda a gente da tua casa testemunhará a sua ligação com a negra. E nenhum juiz permittirá uma criança ser confiada a tal pae, que a entrega a uma negra como Balbina. Thereza ouvia o conselho profissional de Philippe, mas não sentia nestas palavras o ardor e a força de uma ordem. Agarrou-se febril ao braço do amante, emquanto iam caminhando devagar pelo caminho do aqueducto, que vae de Paineiras a Tijuca. As linhas rectas iam formando successivos ângulos agudos e obtusos na encosta da montanha coberta pela floresta, que subia intrincada e ardente. Caminhavam sobre a velha calçada colonial, sobre pedras pontudas e lages esparramadas, cobertas de limo e musgo, que eliminavam o ruido dos passos. Iam apertados entre o morro e o abysmo, entupido perfidamente de arvores numerosas, immensas, volumosas, tapando o horizonte e abafando o caminho. Ás vezes abria-se um clarão. Mostram-se outros morros, as casarias, os jardins, as hortas, o mar. Pelo aqueducto descoberto, como uma valia, a água corre rápida, clara e macia. Outras águas descem dos morros, vertidas pelas pedras, zumbindo. Na humidade sombria, Thereza sente frio e não pode falar. As borboletas passam arquejantes, colorindo a negrara verde do caminho. Cruzam-se os sons. Os que sobem da cidade, trepidantes e confusos, ruidos de machinas, estrondos das pedreiras, e os que descem dos morros, gritos das maitacas, dos gaviões e das corujas. Os olhos de Thereza aguçam-se e vêm, nas pedras e no matto, calangos e cobras. Philippe não percebe o doloroso pavor de Thereza. Vae absorvido em resolver o conflicto, em que ella se debate e procura arrancal-a da hesitação. As palavras de Philippe augmentam o desanimo e o medo de Thereza. Chegaram á primeira ponte, o mundo esclareceu-se e abriu-se sobre o abysmo. Thereza segurou-se em Philippe e, sem liberdade de olhar para os horizontes, debruçou-se sobre toda aquella verdura espessa, profunda, infinita, que lhe deu o repouso instantâneo de doce anniquilamento. Philippe a sentiu gelada e arrastou-a para fora da ponte. Entraram novamente no caminho anguloso e escuro. Thereza sahia da prestação para o desvario. Apertou Philippe nos braços, beijou-o febrilmente. — Meu amor, meu amor, precisamos morrer. Acabemos com toda a tortura, repousemos para sempre unidos, eternos. O nosso amor não terá a beatitude que procuramos. O mundo é miserável e não é o paraíso da paixão. Só a morte nos libertará de toda a angustia e que morte mais gloriosa do que a morte na magia do amor, na nossa unidade inquebrantavel! A morte assim implorada por aquella voz, que modulou, como nenhuma outra, as palavras, os cantos, os gritos do amor, por aquelle corpo maravilhoso movido pela paixão transcendente, não allucinou Philippe. Elle cobriu Thereza de beijos, devorou-a de caricias, mas não consentiu na suprema immolação. Agarrados um ao outro, foram andando apressados, fugindo á terrível tentação. Chegaram á grande ponte. Jamais vastidão exprimiu enthusiasmo tão exaltado e tão vario. A serra carioca eleva-se nos massiços do Corcovado, Santa Thereza e Gávea. A Tijuca, e o Andarahy crescem até o bico do Papagaio. Ao longe, as serras do Meyer e São Matheus e, aqui perto, o contraforte das pequenas montanhas pedregosas e nuas, que acabam na Urca e no Pão de Assucar. Em face, a immensidade do oceano, que força o recinto da pedra e da floresta e abre restingas, lagoas e bahias. A desforra vegetal, a invasão verde, sobe da terra e veste as montanhas, mantendo o colorido primitivo, selvagem. O pensamento de Philippe exaltou-se para a victoria. Aquella immensidade era sua e sobre ella a gloria do amor. Comprehendeu a extensão da angustia de Thereza que, não podendo decidir-se a arrancar a filha, preferia morrer. A exaltação e a piedade determinaram Philippe a ordenar a Thereza, que trouxesse Lili. Qommovida de ser mandada com tão grande autoridade, Thereza jurou obedecer. Alegrava-se na obediência. Ella era a escrava da paixão. O tempo começou a escurecer. De toda a parte grandes e pesadas nuvens surgiam, escondendo o sol. Philippe suspeitou tempestade e apressou a volta. Thereza seguia-o lépida, fugindo ao temporal, que já se accentuava na ventania quente, agitando a floresta, balançando tudo, levantando a poeira, espantando a bicharada. Chegaram até o automóvel e Thereza, que tinha a missão de trazer Lili, não quiz se demorar, com medo de ser retida pela chuva. Philippe acompanhou-a no automóvel, ao seu lado, e desceram rapidamente as curvas da estrada. A corrida enthusiasmou-os. Thereza sorria deslumbrada para Philippe, na beatitude da gratidão e da obediência. Separaram-se, em baixo, nas Laranjeiras. Thereza partiu mais veloz e Philippe tomou o trem, que o levou para cima. Na subida foi encontrando as rajadas de um vento indomável, que vinha rasgando as bananeiras e despedaçando as outras arvores. Subitamente o tempo esfriou e a chuva começou a galopar morro abaixo, por entre a trepidação de relâmpagos e o estampido metallico e retumbante de raios e trovões. Philippe desceu na estação e, varando o vendaval, chegou ensopado á casa. Thereza escapou da chuva. Tocou o automóvel pelas Laranjeiras, alcançou Beira-Mar, correndo com fúria por entre outros automóveis, que fugiam precipitados. A resaca estrondava e arremessava violentos repuxos da água sobre o cáes. O vento sul, desencadeado, empurrava autos, bondes, gentes, para a cidade, carregava os barcos á vela desgovernados, embaraçava o vôo das gaivotas, que pousavam alarmadas nas ondas exaltadas ou mergulhavam para se esconder. As grandes aves subiam muito alto, alem dos ventos, e planavam sobre o mar revolto. Thereza chegou á casa, quando desabou o aguaceiro e cahiam os raios. Esteve rápidos minutos no quarto, procurou Lili, no enthusiasmo em que se coordenavam o movimento alegre do seu espirito e o soberbo temporal, que agitava a terra e o mar. Do terraço, as duas viram infantilmente chover, por entre relâmpagos. A chuva era infinita, envolvia tudo, suprimia horizontes, bahia, ilhas, montanhas. Água, água. Torrentes desciam dos morros, avolumavam-se nas ladeiras, desaguavam nos asphaltos e as ruas transformavamse instantaneamente em rios. A alagação foi universal. Pararam os carros. O único barulho, que absorvia todos os outros raidos, era o do vento desesperado, o da chuva desbragada, o do mar enfurecido. Não tardaram a cahir barreiras, que destruíam casas e matavam gentes e animaes. As águas brancas toldaramse de barro e sobre ellas passavam, correndo, dansando, troncos e galhos de arvores. Os minguados ralos entupiram-se. A resaca transbordou impetuosa. A água do mar invadiu o Mangue e todos os boeiros. Inundação. Alegria tropical. Os que não morrem ou não estão apavorados, divertem-se. Homens, mulheres, de roupa de banho, crianças despidas, mettem-se nos rios, que foram ruas e berram alvoroçados. Surgem os barcos empurrados a vara. Passeia-se, brincando, na cidade aquática. Passam ás carreiras, cadáveres de aves, de gatos, de cachorros e, raramente, algum cadáver humano. Dentro das casas a água entrava a mais de um metro de altura,destruindo, devastando. A noite toda persistiu o tufão e o aguaceiro não cessou.

Quando amanheceu, era uma cidade extranha, que substituirá a outra. Thereza não podia sahir. Passou o dia prisioneira no quarto, fazendo jubilosamente os preparativos para a partida. Não se podia mover com liberdade na casa toda, porque Radagasio não sahira e vagava estupidamente, praguejando contra o temporal'. No momento, em que Radagasio se fechou no banheiro, Thereza, arriscando tudo, muito sorrateira, telephonou a Philippe para socegal-o. Elle estava desolado por não se verem todo aquelle dia. Tudo estava incerto, como o tempo. Thereza resignou-se no frêmito da libertação. A negra rodava, espiava, desconfiava. Se Thereza carregava Lili para o quarto, logo a negra vinha reclamar a criança, fariscando novidade. Afinal, descobriu que Thereza fazia grandes arrumações em seus armários e gavetas. Ficou alarmada e denunciou o que espionara a Radagasio, sempre bronco e cada vez mais embrutecido na luxuria. Não atinava com a significação dos movimentos extranhos de Thereza. Foi a negra que o esclareceu. Pela tarde o temporal cessou, mas a cidade continuava innundada. Radagasio não se aventurou a sahir. Depois do jantar, Thereza, lendo no salão, via Radagasio passeando em passo militar no corredor. Resmungava, queimava o ácido urico. De vez em quando parava para verificar o pedometro. Na manhã seguinte as águas tinham escoado, a cidade immunda de lama, cheia de sol. A atmosphera fresca, límpida. Os tons da luz e das cores, muito puros. Philippe telephonou a Thereza que não se arriscasse a vir. A estrada estava esburacada e ainda escorregadia. Recommendou-lhe que aproveitasse o dia em seus preparativos. Por sua vez, elle receberia os amigos, que se iam despedir, subindo pelo trem. Logo depois do almoço, Thereza sahiu para as compras da installação de Lili na casa de Philippe. Alegrouse em escolher a mobilia do quarto da criança. Expandiu-se em gastar largamente, no impulso da fantasia. Queria o quarto mais vivo, mais espirituoso, mais infantil, do que esse já tão pittoresco, que ia ser abandonado. A tarde seria toda absorvida nesse doce entretimento. Depois dos moveis, seriam as roupas da cama, os vestidos para Lili, os adornos, os brinquedos, as almoíadas, as porcelanas, os crystaes, as amêndoas. Seria o paraíso da filha, do anjo, da boneca, no paraíso do amor.

Pedro esperava Manuel no salão da entrada do grande hotel da Avenida. Fora alli, aquella tarde, chamado pelo seu chefe para assumptos da viagem. Depois da inundação, o hall e o bar estavam excessivamente cheios. Na tumultuosa promiscuidade, homens e mulheres bebiam, fumavam, berravam, acanalhavam-se. Pedro viu o Léo entre vadios. Viu o pae do Léo, Adalberto Costa, cercando politicos. Militares, espiões e jornalistas cavadores disputavam, cortezãos, as propinas da verba secreta. As explosões de desanimo misturavam-se ás expansões affrontosas dos que lucravam. Dizia um dos irritados: « Este paiz é inhabitavel.Preciso cavar um negocio, que me; dê dinheiro rapidamente para me ir embora de uma vez. » Dizia outro: « Ufa! É muito difficil a profissão de marido. Elles se aproveitam e não recompensam. Nem uma flor.» Outro alegrava-se a frio, sarcástico: « Está tudo desvalorizado, a moeda, a competência, o caracter, a politica. Venha o cambio baixo. » Os chefes politicos foram cada vez mais perseguidos pela clientela famelica. Cada cliente preparava a sua patota a ser protegida por um senador ou deputado. Os politicos paulistas eram os mais cortejados. Já traziam o presidente na barriga. Manuel appareceu á entrada do hall, ficou atordoado, e não ousou procurar Pedro. Foi este que o viu e, logo, despedindo-se do chefe, veiu ao seu encontro. Sahiram apressados. Manuel, indignado, censurou o irmão. — Que idéa a sua de se metter nesta orgia. Este seu chefe podia marcar o encontro para outro logar. São todos assim os taes homens de negócios, mesmo engenheiros. Gostam de farejar a pândega. Pretextam que este ambiente é um repouso, uma distracção e secretamente esperam vantagens das relações ahi feitas. Receio muito que você volte dos Estados Unidos como os outros, embotado, fatigado, inteiramente materializado. Pedro não replicou. Confiava que não se estragaria, que tinha em si reservas espirituaes sufficientes para reagir contra a materialização. Propoz que tomassem um taxi para chegar mais depressa á estação do Corcovado, nas Laranjeiras, onde Raymundo Monteiro os esperava. Na avenida Beira-Mar, depois da tempestade, tudo estava purificado. Os pontos brancos das fortalezas, dos morros, das avenidas e das praias saltavam crus da pedra escura, das florestas e da água sombria, debaixo de um céo ennegrecido, volumoso. Os morros verdes repousavam do vendaval, que passara. Monteiro estava na calçada em frente á estação. O foragido recebeu os amigos com a maior tranquillidade, despreoccupado de que algum secreta ou delator o reconhecesse. O trem não demorou em partir e foi subindo dentro da atmosphera humida, emanada da farta vegetação ainda ensopada. Fontes, cascatas, regatos tinham sido avolumados, ou mesmo improvizados pela chuva. Sobre as pedras humidas estendia-se o musgo verde, espessamente avelludado. Nos troncos das arvores o limo verde-roseo desenhava flores sumptuosas. Os suaves raios do sol morrente invadiam o bojo verde. As cascatas, as gottas d'água, as folhas das bananeiras, toda a matta refulgia na luz e nas cores. Philippe esperava-os na estação das Paineiras. Tanto elle como Monteiro dominaram-se deante dos extranhos. Affectaram em mostrar uma descuidada naturalidade. Foi quando se viram sós e já em caminho para a casa, que Philippe tomou commovido o braço de Raymundo e lhe disse toda a sua alegria de o rever depois de tanto infortúnio. Raymundo, com o seu permanente desdém dos perigos, não estava deprimido. Ostentava aos amigos a sua tenacidade. — Que querem vocês, o meu destino é combater sempre e nunca esmorecer. Emquanto não me matarem, lutarei firme contra o despotismo neste paiz e não descreio da victoria. Mas mesmo sem esperança de vencer, lutarei. Não dou tréguas ao governo, a este e a qualquer outro que o succeda, provindo da mesma machina, da mesma immoralidade. A affirmação do revolucionário permanente já não teve aquella antiga repercussão no espirito dos camaradas. Outras correntes espirituaes os deslocavam, arrebatando-os deste espaço restricto e irreductivel, em que se entrin-. cheirava Monteiro. Todos elles reconheciam a necessidade, da transformação revolucionaria do paiz. Não havia meio h de purificar o Brasil sem ser pela revolução. O modo de comprehender a revolução é que os separava. A luta prolongara-se demais e o tempo não permittiu que se mantivesse a cohesão primitiva, que restringia a acção revolucionaria a derrubar o governo e destruir a machina de explorar a nação. Vieram outros ideaes, que alargaram o espirito revolucionário, vieram outros sentimentos mais vastos, mais poderosos, que planaram sobre a politica. Manuel queria a revolução social das massas dos trabalhadores, que já não fosse a revolução exclusivamente politica, burgueza e militar. Pedro pensava ser necessário preliminarmente estudar melhor as forças de producção, os modernos processos do trabalho, as grandes linhas da technica industrial e agrícola, para que o governo revolucionário não se visse incapaz de organizar o paiz sobre novas bases. O amor fizera passar no espirito de Philippe para plano inferior as questões políticas e sociaes.

Depois do jantar miravam no terraço o nocturno fabuloso. A luz e a escuridão disputavam o domínio do mundo. Luzes limitavam praias, possuíam cidades, faiscavam nos altos das montanhas. A negrara tornava o oceano mais infinito, mais ignoto, fazia crescer espectralmente os morros e afundava a matta ria em espesso mysterio, ajudada no alto pelas nuvens grossas, que porfiavam em tapar as estrellas. Philippe e os seus companheiros iam separar-se na alegria. Cada um tomava destino diverso na plenitude da vontade, sem constrangimento. Monteiro, Manuel e Pedro deixavam o Rio de Janeiro. Philippe permanecia. Dentro do absoluto do amor não ha evasão. Tudo é universal. O primeiro'que partia era Pedro. Ia cheio do espirito scientifico. Aspirava a desenvolver a intelligencia nos conhecimentos da industria para dominar, organizar as forças naturaes do Brasil. — Quero ser, explicava, um criador de energia. A transformação do Brasil será um esforço da cultura. Somos uma nação moça, que está ameaçada de decrepitude por falta de actividade. O paiz, que devia ser "movei, está parado. É preciso dar-lhe celeridade para que elle adquira a posição a que o impelle o seu destino econômico. Esta força, que elle traz em si, é que o salva e o faz viver. Esta possibilidade é que o torna necessário ao mundo. O nosso valor universal vem do interesse, que têm os outros povos na riqueza natural do Brasil e pelo que elle pode produzir. Defender esta riqueza é a base da nossa independência, organizar a sua producção é assegurar o nosso progresso. O espirito do brasileiro deve adaptar-se a esta solicitação nacional. Não devemos fugir a elle, escapar á pressão do nosso destino econômico. Os Estados Unidos são um laboratório de energia criadora. Para lá me dirijo, ávido de viver na atmosphera de applicação da sciencia á industria. Não podemos reorganizar o Brasil sem saber trabalhar. A nossa revolução não passará de uma convulsão estéril, se lhe faltar a base scientifica da organização da riqueza nacional. Tudo está A viagem maravilhosa M por fazer, desde os laboratórios de investigações desinteressadas, desde o aproveitamento systematico das forças naturaes, das águas, combustíveis, á desobstrucção dos rios, ás irrigações, aos canaes, aos açudes. Tudo ainda estagnado, paralysado, na selvageria e neste desolador despovoamento da terra. É preciso a acção, é preciso mover, accelerar, modernizar o Brasil. O segundo que partia era Manuel. Ia possuído do espirito communista. Queria a revolução integral no mundo, para que a fraternidade dos povos se realizasse pela cessação da luta das classes e o destino das nações entregue aos trabalhadores. — O espirito scientifico que tu procuras, Pedro, replicou elle, não é sufficiente para a transformação do Brasil. Mesmo limitando as nossas cogitações ao ponto de vista restrictamente material, que parece ser o único que te preoccupa, ao progresso industrial, á cultura scientifica, á industrialização das riquezas naturaes e do trabalho, restará sempre a resolver a grande incógnita, a questão do trabalhador. Na formula americana está o predomínio do capital. É a servidão das massas proletárias. Por mais que se tenda a uma alliança do capital e do trabalho, ainda não é sufficiente. Haverá sempre a desigualdade entre os homens, classificados segundo a riqueza. É preciso terminar esta desigualdade injusta e nefasta. Para isto seja abolida a riqueza individual, tudo se torne collectivo, não haja ricos nem pobres, não haja superiores, nem inferiores, que só haja trabalhadores e assim a igualdade será a base indestructivel da fraternidade. Esta igualdade exige um sacrifício total do indivíduo á communhão. Desta forma cessará o anarchismo individualista, que leva ao cháos ou á tyrannia. O anarchismo é um perigo tão grave, como o capitalismo. Germina a desigualdade e a desordem. Cria uma ideologia romântica do indivíduo, que se sobrepõe a toda ordem social. Será o predomínio do sentimento sobre a razão. Se o anarchismo prevalecesse, não haveria mais sociedade. A vida cessaria de ser a coexistência no relativo para ser o choque dos absolutos. Dirão que o communismo é um phenomeno oriental e só, por isto, possível a sua experiência na Rússia, paiz do Oriente, em que o'indivíduo ainda não emergiu da indecisão collectiva. Não se pôde traçar uma fronteira espiritual entre o Oriente e o Occidente. Nelles as civilizações differenciam-se pelo facto econômico. Os paizes orientaes têm a lethargia, que lhes vem da fome, das seccas, das calamidades, das diffículdades terrítoríaes. O mysticismo não é privilegio do Oriente. A metaphysica hindu não é mais ideológica do que a metaphysica allemã: A theosopbia ingleza allia-se á theosophia oriental. As ordens contemplativas abrigam-se nas montanhas do Thibet, como nos Alpes e no claro Mediterrâneo. O christianismo veiu do Oriente e elle está na base do catholicismo romano. O mysterio oriental não é mais poético, nem mais fértil, que o mysterio Occidental. Os milagres, as fontes sagradas, as múltiplas divindades criadoras e os sacerdócios, os feiticeiros, os mágicos, as abnegações, o fanatismo, a exaltação religiosa, excedem á razão no Occidente, como no Oriente. A única differença entre as duas expressões geographicas está na amplitude da civilização material. Desde que a machina imperou no Japão budhista, elle tornou-se uma nação de typo Occidental, de senso geométrico e mecânico, mantendo a sua ideologia religiosa. Assim será na China e em todo o Oriente. A Rússia se transformará pela mecânica. A sua transformação se fará sob a base da igualdade humana. A riqueza collectiva será explorada fraternalmente pelos trabalhadores, que são a totalização das classes e entre elles cessará a infatigavel e dolorosa luta, (que foi o processo histórico para se chegar á dictadura proletária, ao bolchevismo integral. É esta experiência que vou testemunhar e ver como pôde ser applicada no Brasil. Porque mais cedo ou mais tarde, ella será a forma universal da coexistência humana. — Comprehendo, Manuel, disse Philippe, que não exista um critério differencial ideológico entre o Oriente e o Occidente. O que existe é uma variação das condições econômicas. Se houvesse, eu não saberia como explicar o Brasil. Somos orientaes ou occidentaes no sentido desta ülusoria classificação, que se pretende fazer? Somos um paiz de razão ou um paiz de mysticismo? Nossa imaginação é mythica, deformada pelo desmedido. O brasileiro não tem o senso geométrico da coordenação espiritual. Falta-lhe a ordem interior, que organiza o universo. O seu instincto é metaphysico. O lyrismo é a expressão intrínseca dessa metaphysica. Este lyrismo tende á elegia e ao romantismo. Tudo o que não é lyrico ou romântico, não é natural no Brasil. — Oriental, occidental, nem uma cousa nem outra, se tudo é idêntico, disse Monteiro. O Brasil que eu sinto e a que dou o meu sangue é uma terra, em que o homem está esmagado pela tyrannia, em que as populações morrem na miséria, em que ha senhores e escravos, em que não ha justiça nem direito, em que um grupo de indivíduos usurpou o poder para o seu. próprio interesse. Esta dolorosa e premente actualidade absorve o meu espirito. Pela libertação do Brasil de todo o despotismo e de toda a vilania é que me bato. Vou para o centro de Goyaz esperar os meus companheiros de armas, que virão certamente do Norte, e no Araguaya nos encontraremos. Emquanto não chegarem, trabalharei nos garimpos, buscarei aiamantes para custear um pouco a revolução, seguirei, invasor e descobridor, a tradição que agita o meu velho sangue brasileiro, a marcha para o interior. E um dia, todo o sertão flagellado, martyrizado, reclamará a partilha das terras, se levantará contra os latrocínios, contra as cidades burguezas cosmopolitas e traficantes. Nesta marcha do sertão, ajredempção do Brasil.

— E tu Philippe? interrogou Pedro. A resposta de Philippe foi quasi indifferente: — Não sinto necessidade de evadir-me. Permaneço aqui. A minha viagem é outra. Raymundo Monteiro ergueu-se e exprobou Philippe: — É que tu já realizaste a evasão suprema. Tu nos fugiste e ao Brasil. Philippe, serenamente, lhes disse: — Eu desejo a vocês a maravilha, que me aconteceu. Só assim vocês deixarão de ser inquietos.

Thereza voltara para casa ao escurecer. Trazia no automóvel bonecas, brinquedos, vestidinhos para Lili. Queria enfeitiçal-a para a libertação. Subiu pelo jardim klaxonando alegremente. O tempo estava humido e já era tarde para Lili estar de fora. Thereza desceu do automóvel, entrou pelos fundos da casa, carregada com os presentes, gritando alviçareira: — Lili, a Lili da sua mamãe... Uh! Uh! Passou pela sala, onde pensava estar Lili jantando. Não a encontrando, foi desembaraçar-se do chapéo no seu quarto e depois correu alegre ào quarto da filha. Também alli não estava. Thereza deixou os embrulhos e as caixas em cima da caminha da menina. — Lili, Lili... Thereza foi á porta da frente e berrou: — Minha filhai Lili... Muita frescura," muito silencio e já tudo escuro. Thereza desceu ao jardim gritando pela filha, deu a volta correndo pelo caramanchão e, não ouvindo a voz de Lili, entrou angustiada em casa, bradando pela criada. Na sala de jantar encontrou-a, aterrada, sem falar. Thereza segurou-a violentamente pelo braço e ordenou-lhe: —Diga já onde está Lili? Doente? Assistência? Desastre? Fale, mulher, fale... A criada balbuciou palavras atrapalhadas, confusas.

— Não, não. A menina está bem, não lhe aconteceu nada, graças a Deus. O espanto de Thereza augmentou. Ficou hirta, allucinada, exigindo o resto. A criada continuou, gaguejando: — Foi o patrão mais a Balbina, que levaram a menina para a fazenda da ti tia... Thereza cahiu por cima da criada, que, chorando alto, exclamando maldições contra Radagasio e a negra, foi levando-a desfallecida, gelada, para o sofá. Os gritos da criada alarmaram toda a casa. Vieram os empregados e acudiram Thereza. Pouco a pouco, com os cuidados, que lhe deram, foi recuperando os sentidos. Emergia de longe, do torpor da inconsciencia, atordoada com a sensação do vácuo e com os vapores de ether e de amoníaco, por entre os carinhos e consolos, que lhe faziam ruidosamente. De súbito lhe veiu a plenitude da reacção. O sangue avivou-se, todo o corpo esquentou, o rosto enrubesceu. Com os olhos ardentes, colérica, impoz silencio e, já de pé, interrogou os criados. Contaram-lhe que ás três horas Radagasio voltara á casa. Muito desconfiado de todos, encerrou-se com Balbina no escriptorio, emquanto a menina dormia. Algum tempo depois appareceu a negra, accordou Lili, engabelou-a com um passeio de automóvel. Fechou-se com a criança e ninguém, por mais que procurassem saber, poude descobrir o que se passou. Não demorou que Radagasio mandasse levar umas maletas para o carro. Balbina mandou outras e partiram carregando Lili. Na occasião da sahida, Radagasio disse, se perguntassem por elles, que respondêssemos terem ido para a fazenda da tia em Valença. Balbina ainda ralhou com o patrão por ser falador. — E a menina, minha filha, que ella dizia? Não chorava? Não chamou por mim? indagava rapidamente Thereza. — A menina estava assim meia boba, meia com somno, respondeu a criada. Nestes casos, a senhora sabe, a criança fica tola mesmo, parece apatetada. Nós também ficamos zonzos, vimos que era uma maldade, que faziam á senhora e que tudo isto era uma porcaria do patrão e de Balbina. — Vocês são todos uns covardes... Assistem a um crime horrível e não fazem nada. Nem previnem a policia, quando elles partiram. Raça desgraçada... vociferou Thereza. Mas vão ver que isto não fica assim. Hei de me vingar. Ah! elles me entregarão a minha filha. Corja de bandidos, porcos, assassinos. Recolheu-se ao seu quarto esbravejando, o sangue queimando, o coração desordenado, as pupillas dilatadas, os olhos escancarados, vibrantes sobre o rosto congesto. Marchava aggressiva para a frente, apertava as mãos e estendia os punhos fechados como para bater em Radagasio e na negra. O seu desespero era não poder correr para alcançal-os, arrancar-lhes a menina e esmagal-os. Era tarde para a desforra immediata, que a sua cólera reclamava. Pensou em Philippe, seu único salvador, seu companheiro eterno e idolatrado. Sahiu do quarto para lhe telephonar. Em caminho hesitou. Era tarde. Os fugitivos estariam longe. Philippe nada mais poderia fazer para detel-os. Teve pena de o alarmar e dar-lhe uma angustia inútil. Elle não podia acudir ao seu chamado e vir aquella hora da noite á sua casa e ella não devia ir á casa de Philippe, onde ainda estariam os seus amigos. Não telephonou. Voltando pelo corredor, o quarto de Lili escancarado, deserto, immenso de solidão e tristeza, a attraiu. Thereza entrou. O pavor transfigurou a cólera. Como se Lili morrera. Thereza estava livida. O sangue affluira ao coração. O corpo tremia, a garganta seccara, as pernas fraquearam e Thereza cahiu em cheio sobre a cama de Lili. Gelada de suor, aterrada por um súbito vasio, fechou os olhos e afundou a cabeça nos travesseiros. O cheiro da filha foi infiltrando-se em Thereza. No desespero, no pavor, sem desenterrar a cabeça os lábios beijavam docemente, surdamente, a fronha, impregnada da quentura longínqua, que

Thereza buscava, e do aroma da cabecinha de Lili. Com o beijo esmagado, veiu o choro, que era um abafado mugido maternal. O tempo foi passando, dissolvendo a cólera, no anniquilamento da saudade. Thereza revolveu-se na cama da filha. Levantou a cabeça do travesseiro e parou os olhos nos moveis festivos e nos brinquedos extaticos, também á espera da criança, que os fazia viver e que os abandonara. Passou a mão em uma boneca, apertou-a nos braços, beijou-a loucamente. Era Lili, para quem Thereza de olhos fechados sorria como a um anjo morto, que voltara ao céo. Sentou-se na cama chorando e sorrindo, alquebrada. Os brinquedos foram agitando-se aos seus olhos desvairados. Animaes, polichinelos, arlequins, negros, palhaços, príncipes, princezas, camponezes, bahianas, moviam-se, dansavam, transfiguravam a tristeza e a immobilidade do quarto em uma alegria compassada de autômatos e cercavam Thereza. Tudo era a magia de Lili, viva no espirito de Thereza, de onde animava o seu mundo. Cambaleando, transtornada, Thereza levantou-se e foi tacteando os brinquedos, falandolhes uma linguagem de balbucios, de monosylabos, monólogo, conversa infantil, incoherente, a linguagem de Lili. Se deixava os brinquedos era para se apegar aos vasos, ás almofadas, aos adornos do quarto, cheios da admiração e do interesse carinhoso de Lili. Abriu o armário. As roupinhas dependuradas eram as fôrmas coloridas, alegres, maravilhosas, do corpo de Lili. Agarrou-as com desesperada violência, beijou-as febrilmente, chorou alto e implorou o destino. — Lili, minha Lili, onde estás, volta, volta á tua mãesinha. No apavorante silencio, Thereza, apertando nas mãos um vestidinho da criança, cahiu prestada em uma poltrona junto do armário repleto de fantasmas de Lili. Aquelles vestidos apresentavam mil imagens da criança. Era Lili em casa, no jardim, nos passeios. No espirito de Thereza estas imagens vivas, actuaes, iam se decompondo para o passado, recuando, trazendo outras imagens das edades de Lili mais criança, mais bebê, até aquella do instante miraculoso, em que Thereza sentiu o prodígio da maternidade e de seu corpo brotar outro corpo humano, palpitante, quente, que depois ella agasalhou no seio, alimentou, criou, amimou, infiltrou de carinhos e de intelligencia, e que era a sua filha, a sua Lili, o seu amor, o seu brinquedo, o seu feitiço, a sua projecção, que subitamente desapparecera, talvez para nunca mais voltar. Esse recuo e essa angustia foram entretendo Thereza, prendendo-a no acabrunhamento, até que um somno lethargico a paralysou. Os criados não se animaram a despertal-a. Receavam a sua cólera. Fecharam a casa e desappareceram. Vieram os sonhos atrapalhados e dolorosos com uma celeridade assombrosa, não deixando se fixarem as imagens e o complexo das acções superactivas. Só mais tarde pelo amanhecer, quando os nervos se foram acalmando, um sonho se precisou nítido. Thereza se vê muito pequenina, abandonada, andando sósinha na floresta em cima da cidade e á beira do mar. Vae andando e encontra um casal de enormes bichos pretos, que a perseguem. Corre, corre. Os bichos eram macacos pulando pelos galhos, gritando, assobiando, alarmando o matto. De repente ella cáe no abysmo. Mas quem cahiu não foi ella, foi Lili, a quem soccorre. A criança cahiu no jardim de Thereza, foi ferida e agonizou no delírio da meningite. Lili morreu e os bichos monstruosos apparecem para levar o caixãosinho. Thereza dá um grito de horror. Os monstros eram Radagasio e Balbina. Vão enterrar Lili. Philippe os expulsa. Lá vem sorrindo, muito meigo, Jujú, que carrega o caixãosinho para o canto das crianças no cemitério. De longe, ella e Philippe olham os meninos mortos brincando. Thereza traz Philippe para a chácara das Laranjeiras. Passam a noite no banco de pedra debaixo do jasmineiro. Thereza gosa os beijos de Philippe, a sua volúpia de amante. Porque o jasmineiro não cheira?

Philippe também desapparecera. O sonho é confuso, obscuro. Thereza-só tem socego quando se viu vestida de branco, de véo e grinalda. Vae casar com Philippe e elle não chega. Quem apparece é Radagasio, fungando, espirrando, lagrimejando, gaguejando. Thereza treme de remorsos. Faltara a Philippe não indo morar com elle. Angustia. Revolta. Thereza foge, correndo, atira-se do morro da Gloria para morrer. Sente que vôa. O véo é a aza branca. A grinalda é a aureola, a coroa. Vae subindo, subindo. O céo está puro, o mar luminoso. Thereza vôa no azul, mais alto, sempre mais alto. No Corcovado, Philippe recebe a sua noiva, a santa, a immaculada, a livre Thereza. Foi neste ultimo sonho, que Thereza despertou, quando a claridade da manhã invadia o quarto, cheio das luzes das lâmpadas. Thereza achou-se extranha naquella desordem de brinquedos espalhados, de armários abertos, de vestidos pelo chão e a cama de Lili, amarrotada. O sonho proseguia em Thereza, acordada, a magia da libertação. O seu entranhado desejo por Philippe governou os seus movimentos. Quiz correr para junto do idolatrado. Levantou-se apressada e resoluta abandonou o quarto de Lili. Quando a criada a viu pallida e serena, ficou assombrada. Thereza mandou que lhe trouxessem as malas guardadas e fechouse para mudar de roupa e banhar-se. Mais tarde ella estava ansiosamente alegre, ajudada pelos criados, preparando a sua partida.

Philippe e Thereza tinham pago em misérias, soffrimentos, martyrios, lagrimas, a suprema libertação. Desencarnaram-se de todas as tristezas, alliviaram-se do peso das perturbadoras lembranças, abysmaram-se no êxtase da paixão. Na terra, carregada de volúpia, fundiam-se na vida universal. Havia tanta densidade de innocencia nelles, que eram perpetuamente attrahidos por tudo o que parece immensamente inconsciente, o céo, o mar, a floresta. Nesta attracção a infatigavel volta á inconsciencia. Não havia um gesto de belleza no mundo, que não fosse na intenção do amor. A natureza completava-se maravilhosamente nos Amantes. O sentido mysterioso do universo revelava-se para Philippe na forma e nas expressões de Thereza. Só ellas tinham a realidade absorvente. O corpo de Thereza, na nudez solar, concentrava a côr e a sombra, que a luz gera, a vegetação que o ligava á terra, as longínquas molleculas e o infinito segredo do mar. Os aromas imperiosos e fascinantes. A voz dos desejos. Tudo se unia, tudo continuava. A sensualidade tropical vagava naquelle paraíso. Philippe e Thereza estavam serenos na alegria do amor. O encantamento alargava-se na magia espiritual da libertação. Não entendiam mais os ódios, as lutas, as misérias humanas. Possuíam o repouso divino, o mysterio dos mysterios, a eternidade na relatividade. O amor tudo resolve. Só elle contenta e dá a perpetua alegria.

Alguns dias depois explode em baixo o Carnaval. Maravilha do ruído, encantamento do baralho. Zépereira, bumba, bumba. Falsetes azucrinam, zombeteam. Viola chora e espinotea. Melopéa negra, melosa, feiticeira, candomblé. Tudo é instrumento, flautas, violões, récosrécos, saxofones, pandeiros, latas, gaitas e trombetas. Instrumentos sem nome inventados subitamente no delírio da improvização, do ímpeto musical. Tudo é canto. Os sons sacodem-se, berram, lutam, arrebentam no ar sonoro de ventos, vaias, klaxons e aços, estrepitosos. Dentro dos sons movem-se as cores, vivas, ardentes, pulando, dansando, desfilando sob o verde das arvores, em face do azul da bahia, no mundo dourado. Dentro dos sons e das cores movem-se os cheiros, cheiro negro, cheiro mulato, cheiro branco, cheiro de todos os matizes, de todas as excitações e de todas as náuseas. Dentro dos cheiros, o movimento dos tactos violentos, brutaes, suaves, lubricos, meigos, allucinantes. Tactos, sons, cores, cheiros que se fundem em gostos de gengibre, de mendobim, de castanhas, de bananas, de laranjas, de boccas e de mucosas. Libertação dos sentidos, envolventes das massas frenéticas, que maxixam, gritam, tresandam, deslumbram, saboreiam, de Madureira á Gávea, na unidade do prazer desencadeado. Carnaval. Tudo effemina-se. Gloria da mulher. Ella, para ella e por ella. Inversão universal. Homens-femeas. Mulheres-machos. Retorno ancestral ao culto lunar, ao mysterio nocturno. Desforra da fêmea. Resurreição das bacchantes, das bruxas, das diabas. Missa negra, tragédia negra, magia negra. Triumpha a negra, triumpha a mulata. Musica, fanfarra, prestito, maxixe, samba. No nocturno da praça Onze o negro e o castanho dominam os vermelhões das caras, das carnes, das mascaras e das vestimentas alacres, vibrantes. Automóveis e bondes faiscam, illuminam, enfeitam. Tudo aperta-se, roça-se freneticamente, gostosamente. Os ranchos cantadores rompem a massa colorida, esquentada. Os cheiros doidos alvoroçam-se e embriagam. Para matar a sede dos cantadores, dos berradores, os refrescos de coco, os gelados de limão e abacaxi. Para a fome os bolos de negrâ-mina, pé de moleque, alcaçar, tapioca, manauê. África, Bahia, Brasil. Irrupção de benguelas, congos, carapinhás, beiçolas, ancas, peitarias. Sobre os corpos pretos a illuminação do ouro, da prata, das contas e das roupas, de onde as cores saltam em delírio, amarellas, vermelhas, azues, verdes. Musica de coreto. Bateria. Cantoria infinita, confusa, das boccas pretas, abysmaes. Melopéa pungente para palavras canalhas. Fura a immobilidade ondulante um grupo de bahianas, dansando, cantando, saracoteando a grossa luxuria negra, farejadas, seguidas por gorilas assanhados de beiços compridos, tocando pandeiros, pulando lascivos. As bahianas cheiram a cravo, à baunilha e- a fêmea. O mondronguinho também fareja, aspira, entonfece, empallidece, suspira, exclama: — Se em Portugal houvesse bahianas, eu não sahiadelá!

As bahianas suspendem as saias rodadas e dansam, nos requebros das ancas, no arranco das umbigadas. A sensualidade é religiosa. O rythmo dos ranchos é sacerdotal. É o drama sacro, grave e profundo. Na base da magia, o culto O carnaval espiritualiza-se. No seu immenso manancial recebe as correntes das crenças, dos cultos, que se transformam em festas. Também abi desaguam os cantos e as melodias de todo o povo do Brasil.

Por entre a excessiva alegria musical dos ranchos, dos cordões, seguindo a fila vagarosa dos automóveis de mascarados retumbantes, de mulheres fantasiadas, barulhentas, pingadas de confettis, lançando serpentinas, vem um automóvel fechado, lugubre. Dentro, um homem sombrio. Ao lado do chauffeur, duas maletas. É um viajante, que foge do carnaval e vae tomar o trem. Os carnavalescos investem contra o automóvel triste. Berram esganiçados: — O coronel veiu de um enterro? Como se chamava o defunto? O coronel enterrou o pae e vae chorar no Paty? O homem escuro exasperou-se e mandou o chauffeur tocar. Os carnavalescos param o carro e vaiam o homem funereo. As bahianas cantam e gingam excitando a multidão. « O' Maria, Maria Antonietta. Teu pae toca trombone. Tua mãe toca corneta. » A alegria transborda no coro, que é uma vaia crescente. Abrem a porta e arrancam o homem. É Radagasio. — Coroné, coroné, dansa, meu bem, um maxixe com a tua nega. As bahianas apertam o cerco. A negrada apossa-se de Radagasio. Abafado, apertado, sacudido, maltratado, Radagasio debate-se para escapar. — Me larguem, me larguem. As gargalhadas avolumam-se e dão o rythmo bárbaro, descompassado ao prazer furioso. Cantos berram: « O

Maria, Maria Antonietta. » Cantos berram: « Eu fui no samba lá no morro da Mangueira... Claudionor, Claudionor. » A musica encrespa, a dansa negra envolve Radagasio. Exasperado, Radagasio ainda teve fôlego para vociferar soturno: — Larga, Carnaval. Eu detesto Momo. As bahianas assanhadas, alegres, vão empurrando Radagasio para dentro da multidão. Os homens violentos o atiram, uns para os outros. Maxixe, macumba, candomblé. Foi o samba de Radagasio.

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