XIV A Viagem Maravilhosa · Capítulo 14 de 17
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XIV

XIV

Radagasio esqueceu o ódio, esqueceu a policia, e ufanouse da sua formidável clarividencia, quando, de manhã cedo, no jardim, Balbina lhe referiu que tudo se passara como elle tinha « visto ». Sorriu deslumbrado para a negra que, sem comprehender tão extranha ventura naquillo, que ella deformava e gosava como uma medonha tragédia, ficou apatetada, também a sorrir á estúpida alegria. Radagasio engrandecia-se desmesuradamente, orgulhoso dos seus dons sobrenaturaes e do seu cavalheirismo. — Bem, muito bem. Agora é apertar o cerco, prescrevia elle á negra. Tu não arredas pé delles. Se a sem vergonha te mandar embora, quando o aventureiro estiver com ella, não obedece. A palavras ouças, ouças moucas... Quem manda aqui sou eu. É preciso que saibam... Olha lá... Balbina jurou pela luz que a allumiava que só respeitava Deus no céo e Radagasio na terra. — Tu és um quitute, Balbina. Pretidão de amor, como diz o épico. A negra suspirou langorosa e esperou o assalto de Radagasio. Não veiu. Radagasio ruminava sobre o seu gênio intuitivo e o seu dilatado prestigio social. Coordenava o plano de combate contra Thereza e Philippe. Quanto a este, a solução estava na policia. Denuncia anonyma, naturalmente. E o resto é o que se pratica com todos os presos politicos. Fome, surra e deportação para morrer.

Contra Thereza, a tyrannia marital. Balbina desnorteou, quando em vez de arrancos de libidinagem, recebeu ordens de perseguir Thereza. Á proporção que Radagasio mandava, o ódio da negra despeitada, enfurecia-se. — Deixe, Nhonhô, por minha conta... Eu espremo ella que nem canna. Fica bagaço só, que a gente joga fora. Vou já tirar Lili do quarto dessa malvada... A raiva alliviou-lhe o peso e foi em sacudido boleio, que entrou na casa á busca da menina. Lili brincava socegada no tapete. Thereza, da cama, olhava na entrada da bahia a abertura, por entre as ilhas, para o oceano livre. A sua felicidade integral estava na libertação com Philippe. E para attingil-a, renunciar a toda a relatividade, em que a apertavam. A sua mão acariciou a cabecinha de Lili. A criança continuou a brincar, mais quieta, deliciada com aquella meiguice. Na grande languidez, prostada pela angustia, faltavam a Thereza forças para suspender a filha. Lili sentiu esta insufficiencia e pressurosa pulou para a cama. O animalsinho roçou-se na mãe, aspirou-lhe o cheiro, aqueceu-se no corpo febril, beijou o rosto, apertou o nariz, mordeu, riu, riu, contente em reanimar o ser adorado, enlanguecido. As effusões da criança estimularam Thereza, que, no furor da possessão maternal, agarrou a filha com o desespero do pavor da separação e da agonia de perdel-a para sempre. A negra bateu reclamando a menina. Thereza não respondeu. Aquelle chamado exarcerbou-lhe a angustia. Lili ficou muda, quietinha, cúmplice dessa defesa rancorosa. Escondeu-se dentro dos lençóes, ainda mais collada ao corpo, que a prendia por formidáveis fluidos da pelle e da carne absorventes. Era a unidade profunda, ancestral e eterna da maternidade. Contra ella só o milagre da desencarnação pelo amor. De fora, a negra insistiu inutilmente e já gritava desaforada, quando Radagasio veiu interrompel-a. — Não berra, Balbina. Nada de escândalos. Aqui é casa da ordem e compostura. E depois, cuidado... Acabo de ver a policia rondando na frente da casa e eu não quero historias. Sae, 'vae-te embora. Não faltará occasião... O bom bocado não é para quem o faz... A negra olhou-o com desprezo e afastou-se, resmungando, emphatica, a sua odienta decepção: — Todos estes brancos são safados... Ixe... Tudo tem medo um do outro. Para os diabos, que os carreguem. Mas elles me pagam. Santo Onofre valerá á sua devota e Eixú pune pela sua negra na encruzilhada da morte... Thereza queria libertar-se de Radagasio e não se separar da filha. E com esta viver no paraíso do amor de Philippe. A essa ineffavel e suprema aspiração oppunham-se a ganância de Radagasio em conservar intacta a fortuna da mulher, que elle usufruía avarentamente, e a sua vaidade em manter a apparencia da vida Conjugai com a pretensão de dominar. Radagasio não consentiria na separação e, para prender Thereza, havia a força terrível da piedade maternal. Na indizivel angustia, em que se debatia, crescia o ódio de Thereza pelo homem nefasto e, neste desespero, veiu-lhe o Ímpeto obscuro e tenaz de o matar. Seria a libertação e por ella a felicidade eterna. Desde que este pensamento a dominou, Thereza tinha constantemente o revolver á mão. Esperava que chegasse o momento da execução, que ella desejava e temia. Era o segredo do seu sentimento, que nem mesmo a Philippe ousava communicar. Era o que havia de tenebroso, de horrível, no fundo da paixão, que luta pela "sua liberdade absoluta e seu desafogo feliz. Esta obsessão a torturava. A presença de Radagasio allucinava-a. O som da sua voz a enchia de terror. E nesta exaltação do ódio e do pavor, Thereza cahia em prostração, inactiva, inerme. Philippe não a via nessas crises da miseranda intimidade do lar tenebroso. Quando elles se encontravam, Philippe adivinhava na pallidez terrosa da adorada, no hálito febril, a combustão daquelle ser desesperado na maior angustia humana. Não queria pesar sobre ella, mais do que pesava. Quizera libertal-a da tortura nefanda. E ficava perplexo deante da fatalidade ineluctavel. Não podia deixar de amal-a. Por esse amor supremo viviam ambos. Não se ama, nem se deixa de amar, quando se quer. Pensou em morrer por Thereza. Mas Thereza morreria. Pensou em morrerem ambos. Mas a lei de conservação do amor repelle esta traição á plenitude da unidade. Philippe e Thereza soffriam das duras contingências, em que a sua paixão nascera e se tornara maravilhosa e infinita. O que podia esperar de Thereza seria que ella renunciasse á filha e partisse, livre, com elle. Esta renuncia Thereza não tinha animo de praticar. Muitas vezes, propunha esta solução que o amor exige, mas sempre recuava tomada do sentimento entranhado, que a maternidade gera para escravizar a mulher e tornal-a inferior ao homem no amor. Philippe comprehendia e se confrangia na compaixão. E tudo para elles tornava-se triste, indefinido e obscuro. Era nestas trevas dolorosas que a ânsia de supprimir Radagasio se apoderava cada vez mais de Thereza. Quando ella, na doce calma da volúpia, na intimidade bemaventurada, ousou muito firme revelar a Philippe o seu propósito libertador, elle, pasmo da resolução assassina de Thereza, esforçou-se por protegal-a da tentação infernal e, por entre beijos de fogo e de ternura, procurou arrancar daquella alma transcendente a allucinação do crime. Thereza espantou-se da reprovação de Philippe. O que elle achava monstruoso, ella julgava justo. Porque só ella soffrera, toda a sua vida, o martyrio innominavel de ser a mulher do homem funesto e ridículo, porque só ella sentira na sua carne a infâmia de ter pertencido aquelle maldito, ignóbil e asqueroso. Porque elle era o impeçilho, o estorvo da felicidade do amor que a transfigurava, não era humano, não era justo que por um Radagasio cessasse a alegria do universo e não se abrisse o paraíso. Esta lógica de Thereza emmudeceu de admiração Philippe. Sentiu elle a immensidade do amor, mas também o conflicto desesperado, em que Thereza se debatia. Era para conservar Lili, que Thereza resolvera matar Radagasio. E foi com uma piedade immensa que Philippe repelliu o sacrifício e revelou a Thereza a razão profunda e imperiosa do seu propósito. Thereza recebeu uma invasão luminosa no espirito, turvado pelo ódio, quando Philippe lhe mostrou que este terrível sacrifício de commeter o crime ella faria não pelo amor que os unia, mas pelo amor maternal. Thereza não precisaria eliminar Radagasio, se quizesse renunciar a Lili e desapparecer com Philippe para sempre. Para conservar Lili, que Radagasio não consentiria em lhe dar definitivamente, foi que ella pensou em matal-o. Esta claridade no espirito de Thereza a offuscou. Abatida, dolorosa, a amante reconheceu não estar agindo pelo amor do seu amor e sim pelo sortilegio da maternidade. Acabrunhada, infeliz da sua inferioridade, Thereza chorou humildemente nos braços de Philippe. 0 amor exaltava-se na situação insoluvel. Thereza não podia permanecer em casa, onde a existência era intolerável. Procurava estar sempre com Philippe. Na casa dos Vieiras tudo era desolação depois da prisão de Pedro, sempre detido. A doença de Jujú aggravava-se em allucinações e desfallecimentos. O medico, que afinal chamaram, estava apprehensivo. Naquelle mundo infeliz a angustia de Thereza augmentava. Ritinha não podia acompanhal-a, presa aos cuidados pela doença do menino, de quem se fez transbordante enfermeira. Thereza notava que Manuel estava tomado por uma grande saudade de Monteiro. Faziam-lhe falta o enthusiasmo, a penetração, as experiências do revolucionário erradio. Manuel reflectia, cada vez mais, no que delle ouvira sobre as misérias do interior do Brasil, e confrontava estas misérias com as que testemunhava aqui e era, de miséria com miséria, que se formava o fundo doloroso da nação. Pelo angulo da sympathia humana, Manuel se foi despindo dos seus preconceitos jurídicos e se impregnando de um ambiente mais vasto, sentimental e intellectual, germinado pelas ideas de Monteiro. O seu espirito abria-se" para o communismo com o mesmo ardor, com que o combatera. Nada disto interessava' Thereza. Também Philippe se libertara dessas preoccupa-. ções secundarias. Na magia do amor vive-se no absoluto. Ainda assim os companheiros de Philippe não o deixavam totalmente. Vinham ao seu escriptorio, o acompanhavam na rua e era com difficuldades que Philippe se livrava delles, quando tinha de se encontrar com Thereza. Uma tarde na avenida, Philippe, seguido por Manuel e mais outros camaradas, foi interrompido por Laura Moraes. Ella postou-se, desenvolta e resoluta, deante de Philippe. Não lhe deu a mão. Segurou-o pelo braço. — Não fuja, seu malcriado. Agora não o largo sem ajustarmos contas. A vontade que tenho é dar-lhe pancada. Laura ria estridente, victoriosa da sua belleza e da sua ousadia. Este atrevimento enervou Philippe. Os outros ficaram enleiados. — Vamos, explique-se deante de todos, continuou Laura. Porque você foge de mim? Tem medo? Oh! covarde! Porque não cumpre o que prometteu? ir ouvir os meus versos? Ande, responda... Está prisioneiro de alguém? Todo o mundo sabe... Fingido, hypocrita... Agora só o deixo, depois que me jurar que vae me ver. A allusão a Thereza exasperou ainda mais Philippe, que, por um vestígio de respeito, queria occultar, proteger o seu amor. Para se ver livre de Laura, prometteu covardemente ir vel-a. — Sim, meu caro... A promessa está feita. Mas ella ha de ser cumprida amanhã á tarde... Está com medo?... Philippe, estimulado na sua vaidade, cede. Promette ir. Laura exige um juramento. Philippe sacrifica-se. — Ahí bravo. Isto agora é outra cousa. A palavra de Philippe Miranda é sagrada. Eu fico tão contente... Você não quer ir também, Manuel? E os senhores?

$.Comprehenderam que era um convite forçado e desculpjram-se recusando. Philippe ficou desamparado, confuso, estúpido. Laura Moraes ainda os entreteve com ruidosa volubilidade. Disse-lhes que os paes lhe davam toda a liberdade para receber os seus amigos e que vivia muito independente. Apertou-lhes as mãos, sacudindo as pulseiras extravagantes e, arreganhando a bocca grossa e Vermelha, partiu na alegria. Philippe ficou atormentado. Teve vergonha da sua fraqueza e o terror de offender Thereza, no contacto com üquella mulher impudente, anniquilava-o. Porque cedera? Na angustia, que o affligia, Philippe não podia discernir se a sua submissão fora determinada pelos impulsos da vaidade de se ver requestado por uma moça tão bonita, ou pelo orgulho do seu prestigio intellectual e ao mesmo tempo pela vergonha de comprometter Thereza, o pudor de exhibir a sua paixão, recusando o convite. Os companheiros festejaram vulgarmente o seu successo. Na certeza de que tudo isto era passageiro, insignificante e ainda um sacrifício á relatividade, em que se debatia o seu amor, Philippe foi á casa de Laura na tarde seguinte. Era no quarteirão dos arranha-céos e dos cinemas. Do solo elevavam-se musicalmente columnas de cimento armado e guindastes de ferro como torres. Subiam nos sons das serras que, cantando estrepitosamente, enterravam gostosas, devoradoras, os dentes no âmago carnudo das toras brancas de pinho. Reteniam as pancadas metálicas, agudas, ferinas. O ferro alegrava-se sobre o ferro, emquanto um canto chão se formava soturno das marteladas nas madeiras, das baixas vozes humanas, dos ruidos dos carros de cimento, trepando pelos guindastes para despejar a matéria cinzenta, concreta, que se precipitava tumultuosa dentro dos vácuos das fôrmas. Tudo timbrava uo espaço livre. Exaltação do movimento criador da multiplicidade sonora. Philippe foi envolvido pela magia musical, que dava encantação ao trabalho. E nesta abstracção, subiu, no elevador, para o appartamento da familia de Laura. Na sala ella estava de pé conversando com um homem muito alto, para quem levantava os olhos, quando viu Philippe. Deu um pulo e segurou as mãos do desejado, rindo, deslumbrada, sem poder falar. Philippe ficou atordoado. Já esquecido das sensações ineffaveis, que as construcções cantantes tinham gerado, achou aquelle ambiente e aquelles personnagens extranhos e hostis. Afinal Laura desatou a falar. Os seus gestos, as suas attitudes, mais do que as palavras, exprimiam a linguagem secreta, voluptuosa, que vinha dos seus desejos profundos. O homem, que a visitava, era um pintor russo. Sentado, as suas pernas magrissimas empinavam-se para o alto. Sorria sarcástico fechando os olhos cinzentos, mongolicos, enrugando a pelle branca, exangue, da cara longa, desbarbada. Com as suas mãos compridas e tristes estava sempre a alizar os cabellos ralos e desbotados, que não podiam cobrir todo o vasto craneo tartaro. Laura disse a Philippe o que devia aquelle mestre, Era a sua volta ás fontes primitivas da sensibilidade e da formação racial. O seu esforço era applicar a formula despojada, antiliteraria, á poesia brasileira. Esta lição lhe dera o mestre que alli estava, que, pintor, influia poderosamente na musica e na poesia ultra-moderna. Depois dessas explicações, Laura passou a ler os seus poemas. Philippe sentiu nelles Unicamente habilidade technica. Laura seria capaz de todas as virtuosidades artísticas. Era a fatalidade do espirito feminino, destituído da força criadora, prompto para a perpetua fecundação. Aquelles versos eram reflexos das lições recebidas. Faltava-lhes originalidade, seiva. Via-se o esforço para produzir humanamente e tudo resultava artificial e applicado. A outra conclusão de Philippe era a tristeza dessa poesia, que aspira a exprimir o real brasileiro. Rompeu-se uma discussão entre elles sobre o que era a realidade brasileira. Cada um a comprehendia segundo o seu temperamento. Nenjium dos três podia, em uma formula objectiva, definir o que era vago, impreciso, indefinivel. — A realidade, ou pelo menos toda a realidade não é isto, Laura, que você pretende nos seus poemas, affirmava Philippe. O Brasil não é esta cousa perpetuamente triste, informe, miserável, que você julga ser a expressão essencial. Ha outro Brasil, o da energia, da aspiração, da força criadora. Este é o que nos sobreviverá. — Lá vem você, Philippe, com a sua ideologia do dynanismo, com o seu optimismo bemaventurado, com a sua fatigante alegria, gritou Laura, accentuando o sarcasmo. 0 Brasil, que você imagina, não existe. Nós descobrimos outro Brasil, o ingênuo, o primitivo, que está atrapalhado nestas complicadas civilizações européas. Eliminemos tudo isto e libertemos o Brasil, que deve recomeçar a sua existência para fazel-a mais natural, menos literata e artificial. Nada de machinas, nada de escolas, nada de academias, nada de politica, tudo isto faz esquecer a realidade. A selvageria, a barbaria, a miséria, a ingenuidade, eis a realidade brasileira... Ah! se podessemos voltar á taba, aos índios nús, livres, ou aos negros sem a mestiçagem infame dos europeus. — Seriamos nós, que estaríamos a,qui? perguntou Philippe a rir. O Russo interveiu: — No Brasil só o negro e o indio são interessantes. Tudo o que é branco é artificial e postiço. É literatura e não realidade. Esta é barbara, rudimentar. A arte, que a exprimir, deve ser primitiva e rude. O menor vestígio de cultura a desnacionaliza. O que este ambiente devia suscitar seriam escriptores, poetas, artistas, em que o sangue negro ou indígena predominasse. Só estes estariam equilibrados neste ambiente bárbaro. É necessária a gota de sangue negro ou indio para ser o artista desta selvageria. Escriptores e artistas cultos, que fazem propositalmente arte primitiva, fazem literatura. Sentem-se o esforço e a intenção que traem o artificio. Um verso de um poeta mestiço, inculto, tem mais poesia, mais naturalidade. Philippe replicou refutando esta deformação do Brasil. Realidade brasileira? que significa isto? Ninguém sabe. É uma formula mystica, uma expres"são da cabala moderna. Ha mil realidades brasileiras, a realidade da cultura, a realidade barbara, a realidade dos brancos, a dos negros, a dos nacionaes e a dos próprios estrangeiros, tudo realidade brasileira, na sua naturalidade, nos seus desejos e realizações. O Brasil não pode ser visto, sentido, interpretado da mesma forma pelos vários espíritos. Um homem branco não o interpreta, como um negro ou um mestiço. A arte de ambos tem de ser fatalmente diversa e opposta. O Russo insistiu: — Elimine-se tudo o que não for bárbaro para que o Brasil seja verdadeiramente Brasil. Nestes versos, que ouvimos, alem do esforço para exprimir a singeleza natural da mentalidade primitiva, ha a satyra contra tudo o que é civilização, que nesta terra selvagem está deslocada. Isto de arranha-céos, automóveis, aviões, todo o mecanismo urbano, conforto, livros, cultura, todo o apparelhamento da industria, é extravagante, inapplicavel. É preciso manter a barbaria, que caracteriza o Brasil. No dia, em que elle deixar de ser selvagem, bárbaro, mesmo caboclo, mameluco, cafuso, não será mais Brasil. Olhe, renunciem á cultura, integrem-se na selvageria. Já que não podem voltar ao estado de pureza selvagem, ao menos conservem o que ha de tosco, bárbaro e que é a originalidade brasileira. Estive nos sertões de Minas e da Bahia. Que maravilha, que êxtase! É preciso que o sertão domine tudo. A marcha do sertão para eliminar o cosmopolitismo nefasto do litoral e extinguir toda esta vã literatura, que falsifica o Brasil, eis a salvação. Que deücia a vida do sertanejo, vida de vaqueiro, gado, secca, fome, enchentes, samba, cocos, casas de sapê, cerrados, clavinotes, facas de ponta. E que doenças fantásticas! Extranhas maravilhas. Vá ao meu atelier. Verá os meus quadros sertanejos, as caras monstruosas de papos estupendos, barbeiros gigantescos, magestaticos, pernas beribericas, a elephantiase sublime, os ventres hydropicos, estourando ao sol, ou as magrezas espectraes, famelicas, de olhos funereos, os queixos desdentados, batendo o frio tenebroso das maleitas immorredouras. Que magia, que allucinação... Tudo eu recolhi e fixei antes que tudo desappâreça... Este é o meu Brasil, o que me fascinou e me deu a alegria artística, que a Rússia, com as suas misérias, suas pestes, suas fornes, suas torturas, não me causou... Não o perturbem com a civilização, com a sciencia, com a cultura... Laura Moraes, subjugada pela visão do seu mestre, olhava Philippe, desafiando-o a que o refutasse. Philippe desdenhou insistir na sua divergência. O seu Ímpeto era esganar o Russo infame. Resolveu partir, deixal-os neste desvario literário, que se imagina realidade brasileira. Foi o Russo, que os deixou, rindo de olhos fechados em uma serie de caretas tartaras. Laura, quando se viu só com Philippe, tratou de agradal-o para distrahil-o da discussão, em que acabou mudo. Sentiu nesse silencio um signal de irritação. Na mobilidade das impressões, Laura ficou com ódio do mestre, que lhe estragara aquelle encontro com Philippe. Desenvolveu a sua amabilidade, fazendo-se pequena, infantil e reverente na admiração por elle. Levou-o ao balcão, que dava para a bahia. Na claridade dir-se-ia que ella era feita de ar, luz e água, tal era a transparência da pelle, dos olhos, da bocca, dos braços, das mãos e de todo o seu corpo, ligeiramente vestido de roupas leves, coloridas, luminosas. Na faceirice dos movimentos, com que commentava o que viam, abaixou a cabeça sob os olhos de Philippe, que recebia, no aroma ardente, lampejos de ondas douradas. Esta apresentação foi muito violenta e irritou a sensibilidade de Philippe.

Os seus sentidos estavam intensamente impregnados da côr morena, dos cabellos escuros, do aroma de âmbar, da voz calida, da meiguice e da graça de Thereza e o contraste de tudo isto, que era Laura Moraes, exarcerbou a reacção de Philippe. A esta retracção sensorial seguiu-se o pejo, o desespero de estar alli faltando á Thereza, o que o acabrunhou sem dar-lhe força para partir. A covardia physica acompanhava a depressão, em que succumbira e já o suor frio o inundava, como se naquella altura a vertigem o fosse anniquilar. Laura proseguia na seducção, exaltada pelos desejos e pela vaidade. Não percebia a angustia e a repulsa de Philippe, calculando que o silencio nelle era signal da admiração e da violência sexual, que se concentra para agir. Philippe não prestava attenção ao que ella dizia. Atordoado, as palavras lhe chegavam agglomeradas com os sons da rua, os klaxons, os altofalantes, as musicas estrepitosas ou soturnas das construcções. Os seus olhos confusos não se interessavam em discriminar as cousas novas ou eternas, que eram a paizagem urbana, a bahia e os morros. Tudo lhe era indifferente. No seu acabrunhamento, só via Thereza offendida, maguada por elle. Reagiu emfim e poude sahir do torpor, em que se afundara. Disse a Laura que ia partir. Ella espantou-se muito surpreza. Deixaram o balcão e Laura ainda quiz prender Philippe, procurando entretel-o com os objectos artísticos do seu appartamento, sabendo que em Philippe o senso esthetico era profundo e dominador. Laura ignorava que nelle o amor era mais forte do que a arte. Philippe não se deteve em examinar os moveis sem esculptura, as porcelanas pueris, os metaes simples, os estofos já banhados da luz das lâmpadas, que criava o nocturno, desprovido de mysterio. Laura desanimou e, enfurecida, atirou-se sobre o sofá, que era a sua cama de falsa artista. Martyrizando as almofadas, sacudindo as pernas descompostas, ria encarando duramente Philippe:

— Está direito... Tola fui eu em lhe pedir que me viesse ver. Só tive grosserias da sua parte. Para você eu sou uma idiota, que se finge de poeta, uma semvergonha que se offerece... Mas pensa que eu não sei, porque você me trata mal? Philippe para evitar qualquer allusão á Thereza, disse rápido, adeus a Laura. Antes que desapparecesse, ainda ouviu como um latido: — Canalha, fica-te com a tua escuridão. Bom proveito...

Depois da noite miserável, como jamais passara, esperava Philippe, no dia seguinte, Thereza, no Cosme Velho .para o passeio das manhãs domingueiras. Ella não tardou no seu automóvel, que subia a rua alegremente reluzindo os metaes ao sol e cortando as sombras das arvores. Os sentidos sempre activos e agudos de Thereza perceberam uma mudança em Philippe. Elle tomou o automóvel ao lado de Thereza. Ella mal podia manobrar. No meio dos arrancos da machina interrogava ansiosa, brusca: — Que ha? Fala... Estás enygmatico? Aconteceu alguma cousa contra nós? Responde... Não temo nada... Morrer pelo nosso amor é uma gloria... Estas palavras, resolutas e exaltadas, ainda mais affligiam Philippe. A paixão de Thereza affirmava-se soberana e vivaz. E foi a este puro e irreal Sentimento, que elle offendera. Philippe assegurou que nada lhes acontecera, para augmentar a angustia, em que se debatiam. Era unicamente esta mesma angustia, que lhe causava a tristeza, em que ás vezes ella o surprehendia. Thereza não ficou tranquilla e em todo o caminho voltava insistente a reclamar mais alegria, mais vivacidade, mais clareza de Philippe. Não olhavam o que iam vendo e nem escutavam o que ouviam, até que machinalmente chegaram á Quinta da Boa-Vista. Depois de algumas voltas, Thereza estacou o carro deante do tanque dos nenuphares.

A quietude da água, a somnolencia das plantas, que surgiam do fundo para espiar o sol e expandir flores, as densas sombras, que baixavam suavemente das velhas arvores maternaes, impuzeram-lhes silencio. Pisaram o grammado escuro com cautella e foram, subjugados de respeito por aquelle repouso, sentar-se em um banco. Não podiam falar. Mas bem conchegados impregnavam-se dos fluidos dos desejos e acariciavam-se com beijos nas mãos, nos olhos, nas boccas. Suspiravam, arfavam, ardiam, sorriam transfigurados. Thereza começou a sentir nq abandono de Philippe uma angustia occulta, uma tristeza differente da sua tristeza. Havia uma brecha na unidade, que os fundia e por ahi se escapava o extranho desespero de Philippe. Foi com profunda meiguice e dolorosa curiosidade, que ella voltou a interrogal-o. Philippe preferia que Thereza não lhe falasse. Era penoso responder-lhe, era impossível mentir-lhe. Thereza exercia sobre elle a fascinação da verdade. Ficou silencioso. Apenas em um sorriso triste morria a confissão, sem força de exprimir-se, clara e leal. Thereza insistia já persuadida de que na realidade havia alguma cousa de grave, que Philippe não ousava dizer-lhe. E como nada de preciso obtinha, entrou a entristecer. Foi então que Philippe não teve mais animo para esconder a sua attribulação. A dor, em que entrara Thereza, augmentava a sua tortura. Elle não podia vel-a triste sem succumbir de agonia. Veiu-lhe a coragem de falar e elle tomou-lhe a mão com mais exasperado aperto e falou: — Ah! minha santa adorada, entre nós não deve haver mysterios e silêncios... Não duvides do meu amor immenso, immortal... Thereza, que estava prostada, ergueu o corpo e fitou inquieta o amante. Philippe continuou: — Sim... Tu sabes o que é o meu amor, o nosso amor. Nada o pode attingir... Elle plana sobre todas as cousas.

Nada o pode macular, elle é sublime e a sua pureza mcomparavel... Thereza arfava, os seus olhos extaticos cresciam para tragar Philippe. Elle proseguia: — Devo dizer-te tudo, tudo o que se passa commigo. A minha vida te pertence. É o dom da minha paixão... Thereza sacudiu a mão de Philippe, que estava na sua mão e ordenou vibrante: — Fala... quero saber tudo... fala, meu amor... que foi? Oh! eu adivinhava... fala... Philippe desequilibrou-se com a voz imperiosa, metálica, de Thereza. Veiu-lhe uma onda de orgulho, que lhe impoz dominar-se e dominar. Ninguém o commandava sem soffrer. — Nada de grave. Socega. Hontem á tarde estive em casa de Laura Moraes... disse resoluto, forçando o sorriso. Thereza soltou-lhe a mão e deu um salto, pondo-se em pé. — Miserável... Os seus olhos vidrados, mais negros, fulminavam os olhos de Philippe, que se abateram. O rosto ficou congesto e toda a pelle trigueira encheu-se de sangue roxo. O corpo reteso moveu-se no impulso da repulsa, um calor descommunal o queimava e accelerava os seus gestos de desespero. Thereza caminhava sob as arvores sem parar e sem destino. Philippe a seguia, murmurando nervosamente o seu amor, procurando retel-a. Thereza repellia as mãos, que a tocavam, mas queria que ellas não a largassem e a amparassem no abysmo, em que se sentia despejada. Marchava violenta, allucinada, num redomoinho de visões aterradoras. Philippe revoltou-se com o delirio de Thereza e agarrando-a forte, a fez parar. — Tu és louca?... Deixa de tolice... Sou teu, gloriosamente teu. Não fiz nada de mal e eu te juro que foi uma lição, que recebi e dessa estúpida visita sahi com ódio e nojo. Thereza não replicou. Lutava por se desembaraçar da mão firme, que a retinha e inconsciente se ia entregando ao dominador. Philippe a foi levando para um banco. Sentou-a, agarrando-a ao seu peito e Thereza desatou a chorar. Philippe a consolava, a beijava, a animava. Defendeu-se, explicou-se. Pouco a pouco, a sua energia foi amollecendo e sentindo esta fraqueza, Thereza explodiu, allucinada pelo ódio. E falou exasperada: — Ah!... tu pensas que não sou capaz de te fazer mal... Estás muito enganado... Agora mudarei de vida, irei a toda a parte, festas, bailes, jantares, não tem mal nenhum, não é assim? E quero ir á casa dessa Laura, que tu tanto admiras. Também sou artista, sou a tua companheira, a tua discípula... Vou interessar-me pela arte, receberei artistas, poetas, todos os teus amigos... Oh! não tem mal nenhum... Philippe sorria raivoso. A attitude de vingança, de desforra, que Thereza promettia tomar, o irritava e o seu impeto era batel-a, reduzil-a. Mas ella riu irônica e esta alegria de ter feito mal, illuminou-lhe os olhos, apagou no rosto as marcas violentas da cólera, a belleza espraiou-se luminosa e Philippe, fascinado, mordeu-lhe a bocca num beijo longo, ineffavel. Da instantânea volúpia, que a arrebatou, Thereza sahiu alquebrada, vencida e triste. Pegou mollemente a mão de Philippe, contemplou os seus olhos e suspirou fundamente. — Philippe, Philippe! Soffro muito comtigo... Pela arte, pela tua vaidade, tu me abandonas... Foi-se para sempre a minha alegria. Tu não me podes dar a paz, a inquebrantavel harmonia no amor... Eu devia ser indifferente e abandonar-te ao teu enthusiasmo desenfreado. Não posso e faço mal. Eu esperava que deixasses tudo para não me abandonares. Não renunciaste á tua acção nesses desgraçados movimentos artístico e político. Tu imaginas que nisto está a tua gloria. Inconsciente. Que pena tenho de ti, meu louco adorado. Um dia entrarás na consciência e será tarde. O mal está feito. Foi-se a nossa alegria...

Philippe ficou atordoado com este queixume em que, na exageração, se sentia a aspereza da verdade. Deu razão á amante e julgou inútil proseguir na sua defeza. Beijava-lhe as mãos, contricto, humilhado. Thereza apiedou-se. Beijou-o na testa, que estava gelada. Não podiam sahir do silencio. O sol abrazou-os. Thereza olhou o relógio e levantou-se. Philippe seguiu-a. Entraram no automóvel e voltaram para a cidade. Sempre calados, os pensamentos formavam-se e deformavam-se em uma celeridade assombrosa, sem o peso das palavras para os fixar e modelar. No largo da Gloria, Thereza parou o carro e em silencio, suffocando um suspiro, entregou a bocca a Philippe. Elle, í desamparado, saltou e esperou que o automóvel desapparecesse. A casa pareceu a Thereza o espaço maldito a que ella voltava, depois de o ter perdido e esquecido. Naquella hora de angustia, que acabara de viver, transpuzera-se para um mundo ainda desconhecido, em que a sua unidade com Philippe era infrangivel e ininterrupta. No desvairio do ciúme, a paixão impunha a solução de tudo abandonar para não perder o amante. A imaginação realizava o paraiso desejado. A volta á casa foi o desencantamento. Alli encontrou tudo a que tinha renunciado, o quadro quotidiano, os morros, a bahia, as palmeiras, o marido, a filha, a negra. Tudo longínquo, tudo espectral. Thereza não percebia se era ella, a sua pessoa real, que estava entre fantasmas, ou se era o seu fantasma, que surgia naquelle mundo real. Exhausta, sem forças para coordenar os pensamentos, sem ímpeto de revolta, esmagada, triturada, Thereza não disse uma palavra a ninguém. Agia como,uma somnambula, repetindo machinalmente os movimentos habituaes. Almoçou sósinha, como se accostumara depois da ruptura com Radagasio. Elle sahira sem lhe falar, de frack, de chapéo cinzento, binóculo a tiracollo, luvas amarellas. O sportsman ia ás corridas, suando, esbaforido, dentro do automóvel fechado, com medo do vento. Thereza veiu ao seu mirante, onde foi impregnada da brisa, do canto das cigarras, dos aromas e da somnolencia, que o calor filtrava- magneticamente sobre o universo. Agora, naquelle recanto, onde scismara as suas tristezas, os seus desesperos antigos, em que se exaltara na alegria do amor supremo e na esperança, ella pensava a sua dôr. Philippe lhe faltara, arrastado pela ansiedade, intrínseca á sua natureza de criador. Por mais que o amor o absorvesse, restava-lhe sempre a força, que necessita de expansão e domínio. Era esta actividade, que Thereza percebia, como a temerosa adversaria da sua beatitude. E na sua meditação, Thereza reconheceu-se culpada do mal, que soffrera. A ternura da amante absolvia a culpa do adorado. Era ella, que estava em falta com o seu grande amor. Continuavam naquella posição, expostos a tantos perigos e tristezas, pela sua covardia. Não tivera animo de renunciar á filha e mantinha-se na situação equivoca de esperar do acaso a solução, que não viria nunca. O receio de perder a intensidade da paixão de Philippe, o pavor de o ver de novo arrastado ás seduo ções da politica e da literatura, o assalto, que sempre lhe fariam outras mulheres, deu-lhe a resolução firme e absoluta de livrar-se de tudo o que a prendia e ir viver com Philippe exclusivamente. Ella iria para elle, purificada de todas as torpezas. Entrariam, gloriosos, no paraiso do amor immortal. Thereza assim resolvia e sahia da prostração para a bemaventurança de uma alegria transcendente, em que toda ella se transfigurava. Vagamente, os seus olhos viam Lili, que corria na sua direcção. Thereza não acolhe a filha e continua na sua scisma. A menina insiste e a mãe a repelle, como uma cousa aborrecida, a causa de todo o seu martyrio. Lili, espantada, entristece. A negra, que espreitava, corre para buscal-a. Segura a menina acabrunhada, e quando se afastou de Thereza foi vociferando para a criança a sua satisfação.

— Arre, bem feito, ella te despreza e não quer saber mais de ninguém, Está com feitiço no corpo. Também tu és muito sem vergonha... Eu não te disse que tu não fosse mais para junto delia... Safadinha... tu tens a quem puxar... Lili abriu a bocca em um berreiro destemperado, acompanhada dos perus e dos canários. A negra ergueu-a e poz-se a correr, carregando-a para o fundo da chácara. Thereza deu um salto, arrebatou a filha, empurrou a negra, que caiu sobre o grammado com as pernas para o ar, obscena. Thereza beijou doidamente Lili e agasalhou-a no collo, pensando em Philippe e offerecendo-lhe a maravilha da sua desencarnação do amor maternal. Philippe recebeu no dia seguinte a segurança desta libertação nas palavras ardentes de Thereza: — Estou prompta, Philippe. Nada mais me prende. Quero viver comtigo, sósinha comtigo, que és toda a minha única vida... Meu amor, eu te faço soffrer muito... Mas agora será a belleza, a magia eterna, o nosso paraíso... E explicou-lhe toda a sua angustia de o sentir perseguido pelas outras mulheres, o desespero de o ver sempre longe delia. Ou a libertação immediata ou a morte. Philippe, deslumbrado, apertou nos braços a pobre adorada e a beijou no enthusiasmo da paixão victoriosa. — Minha divina, tu és única, e, se fosse possível, a minha adoração augmentaria... respondeu com firmeza. Comprehendo tudo... Esperemos que o tempo fortifique a tua sublime resolução. — Para que esperar, meu amor? perguntava ansiosa Thereza. Não comprehendo... — Minha Thereza da minha eterna paixão... Um dia tudo se consummará. Tu virás a mim, serena, soberana, sem ódios, sem desesperos, eu te sentirei desmaterializada, espiritualizada na paixão. Então, nesse instante incomparavel, sublime, entraremos em nosso paraiso, sem o menor vestígio de tristeza, de arrependimento... Esperemos. Neste momento tu ainda não estás livre. Tu ages pelo ciúme, pelo ódio, pelo soffrimento de me veres longe de ti... Ah! meu bem idolatrado, o meu Ímpeto é te tomar já, para sempre, e desapparecer comtigo longe de todas estas misérias. Mas eu receio por ti, pela perpetua alegria do nosso amor... Se no nosso paraíso fores um instante, um fugaz instante, atormentada pela saudade? e que saudadeI a saudade da tua filha!... Imaginar esta tortura para o meu amor, que vive no absoluto, que é infinito, eterno, immaculado, livre... que martyrio!... Thereza repelliu vivamente toda esta desconfiança de Philippe e reaffirmou, enérgica, a sua resolução e a liberdade, com que a tomara. Philippe ficou maravilhado. Sentiu que tudo ia se cumprir para a maior gloria do amor.

D. Calú dormia, quando, pela madrugada, foi despertada por um grito estridente de Jujú. Correu ao quarto do filho, que era junto ao seu. Jujú debatia-se na cama e não socegava com a cabeça, que apertava com as mãos. D. Calú verificou que a febre augmentara. Aterrada, chamou o marido e abriu a janella. Os dois, atarantados, postaram-se deante da cama, ambos em longas camisolas brancas, que a luz ainda verde da madrugada tornava mais lividas. As mãos de Jujú, quando largavam a cabeça em fogo, crispavam-se e os braços retorciam-se, emquanto nos olhos seccos, vidrados, as pupilas se dilatavam e não se contrahiam. De vez em quando o grito fino, doloroso, sahia da garganta estrangulada. Este apito macabro apavorava D. Calú e Vieira. Permaneciam estarrecidos, incapazes de agir. D. Calú murmurava invocações aos santos da sua devoção, estropiadas, sem nexo. No cérebro de Vieira emmaranhavam-se noções confusas de espiritismo, de que a possessão de Jujú era um testemunho material. E a criança soffria horrivelmente, batendo-se, contorcendo-se ou prostrada, hirta, devorada pela febre. Um dos gritos chegou aos ouvidos finos de Ritinha e acordou-a. Os seus sentidos agudos a orientaram para o quarto dos tios. Quando D. Calú á sentiu ao seu lado, agarrou-se a ella chorando. Ritinha segurou em Jujú experimentando acalmal-o com palavras da sua meiga piedade. Era inútil. O menino não attendia e continuava angustiado, sem socego. Ritinha propoz que chamassem o medico. Mas era muito cedo e aquelles tímidos receiavam acordal-o. Ella correu a chamar Manuel e voltou para junto de Jujú. A presença de Ritinha tirou D. Calú e Aristides da apathia. Quando Manuel appareceu, Aristides já estava meio vestido e D. Calú se cobrira com um roupão. Manuel viu a gravidade da agonia de Jujú e comprehendeu que o mal estava na cabeça. Não havia gelo em casa. Manuel e Ritinha começaram a applicar compressas com a água mais fria, que puderam obter das torneiras. Manuel telephonou ao medico. A casa alvoroçou-se. Os criados vinham espiar no quarto do menino. Muito devagar, Andreza, embrulhada num chalé escuro, sentou-se no chão, aos pés da cama e rezou, esquecida de todos. Aracy tremia, acovardada; não ousava fazer nada pelo doente e mal podia permanecer no quarto. Era Ritinha, que fazia tudo para alliviar Jujú. O sol entrava invasor pelo quarto, Jujú peorava vomitando muito, e o medico sem vir. Manuel telephonou novamente. Prometteram que o doutor viria sem demora. O grito meningitico amiudava-se. Pavor. Lutavam contra os espasmos, contra os vômitos, contra a febre, mas sem sciencia, sem critério, desesperados com o abandono do medico. Afinal este chegou. Manuel o recebeu rispidamente. O medico, com o infallivel sorriso profissional, mentiu algumas desculpas para o seu relaxamento. Manuel foi levando-o para junto de Jujú. O medico, sentou-se na cama e pegou no pulso do doente puxandolhe o braço reteso. A febre era enorme e o pulso arythmico, rápido, louco, miudinho. Examinou as pupilas. Veiu um vomito que Ritinha limpou. Jujú sempre se debatendo, ora procurando agarrar com a mão uma mosca imaginaria; ora segurando a cabeça, os olhos arregalados e ás vezes estrábicos. O medico não escondeu o seu desapontamento!! Começou a dar ordens precisas, seccas. Gelo (Ritinha foi buscar correndo), escuro, silencio. O quarto ficou na sombra. O medico sahiu seguido de Vieira e Manuel. Na sala de jantar fitou os dois homens, que o olhavam inquietos — É. Declarou-se a meningite... Muito grave. A intoxicação bacillar fez explosão. Quando tomei conta do seu tratamento já era muito tarde. O pequeno teve um choque forte, houve uma depressão profunda, a intoxicação sobreveiu, apoderou-se do organismo... Depois é um menino nervoso, intelligente. O cérebro é que paga. Bacillos miseráveis... — Mas, doutor, ha ainda recursos, não?... Faça tudo... insistiu Manuel, cortando a dissertação inopportuna. — Está claro... Olhe... vou tentar além do capacete de gelo, umas bichas... Corra a pharmacia ou melhor telephone em meu nome para que tragam já... Eu mesmo applico... Olhe, dê-me o telephone e eu receito daqui mesmo, porque é urgente um purgativo. Calomelano, o velho calomel... Intoxicação, infecção. O medico ia descambando para o discurso scientifico. Manuel o foi empurrando para o telephone. Vieira, no plano astral, os seguia, apatetado. Os gritos de Jujú vibravam estridentes, na calmaria moribunda. O medico tinha a dedicação dos jovens clínicos. Era amigo de Philippe, da mesma geração. Cheio do ardor da investigação, praticara em laboratórios, fora interno de pediatria e, por sua vez, muito intoxicado de pedanlismo doutrinário. Applicou elle mesmo todos os recursos, que prescrevera, as bichas, o purgativo, o ininterrupto capacete de gelo. Ritinha desvelava-se, ágil, firme, attenta. As qualidades primitivas da matuta maranhense raiavam na desolação geral. D. Calú choramingava, inútil, abraçando-se a cada momento com Vieira e com a filha.

Andreza permanecia silente, sentada no chão, batendo com a cabeça preta o compasso das rezas mudas. Manuel èsforçava-se por manter-se forte. Commandava tudo e mobilizou Aracy para se occupar da casa, pois a mãe estava anniquilada. Ao meio dia, ella presidiu o almoço, pondo ao seu lado o medico, que procurava distrahir a tristeza familiar num falatorio, seguido somente por Aracy. Ella achava graça nas tolices ditas com affectação para os alegrar e disparou a rir, quando o doutor discutiu com Vieira, que espertou para sustentar os três princípios capitães da sua vida, o espiritismo, o vegetarianismo e a temperança. Depois do almoço, que Manuel abreviou, farto da tagarelice do medico, voltaram ao quarto escuro do doente. Nenhuma melhora. A febre persistia muito alta, o pulso começava a cahir na lentidão alarmante, a meningite proseguia na sua devastação. O medico recommendou a Ritinha vários cuidados e retirou-se para soccorrer outros cüentes. A tarde foi passando dolorosamente na funda apprehensão da catastrophe. A ausência do medico augmentava o pavor. Aracy para se proteger naquella angustia, poz-se a dar alarma á visinhança. Mandou prevenir D. Genoca e Thereza. Acompanhada da filha, D. Genoca, pressurosa de novidade, veiu correndo, muito pintada e sem chapéo. O seu rheumatismo desapparecera por encanto. Logo que viu Aracy, atirou-se-lhe nos braços, exclamando, convulsa de choro: — Ah! minha filha, que desgraça. Pobre Jujú. Sejam fortes. Eu sei o que é isto. Tenho assistido a muita morte... Coitada de sua mãe... Onde está ella?... Sem cerimonia, foi se mettendo pelo quarto do menino e rompendo a escuridão descobriu D. Calú, acabrunhada em uma bojuda cadeira. Agarrou-se a ella chorando, soluçando. Assim estimulados, choraram todos copiosamente no silencio e foi D. Genoca, que primeiro suspendeu o pranto, para espiar Jujú. Vendo-o a se debater, ella sacudia a cabeça com desespero e engulia os soluços. Quando veiu um grito dilacerante do doentinho, ella deu um pulo para traz, de medo, e cahiu no collo de D. Calú. Mais tarde chegou Thereza. Os seus olhos estavam seccos e assombrados. A sua marcha era elástica. As mãos quentes apertaram as mãos de Manuel. Por elle teve a explicação do desesperado desfecho da moléstia do seu menino. Manuel levou-a ao quarto do agonisante. Thereza ajoelhou-se junto a cabeça de Jujú e o beijou na face em um longo beijo, em que lhe dera o fluido da sua infinita ternura. Com as mãos ardentes agasalhou-lhe a cabecinha gelada e lhe disse muito baixinho palavras da doçura transcendente do seu amor. Jujú olhou-a lá do fundo das trevas, o seu semblante serenou extatico, angélico, e Thereza imaginou que elle lhe sorrira. Succedeu a agonia, que interrompeu o maravilhoso. Thereza entrou a ajudar Ritinha nos desvelos pelo doente. Estava anoitecendo, quando o medico voltou. Veiu com Philippe. O medico entrou no quarto e Thereza viu Philippe em pé na porta ao lado de Manuel. Levantou-se e dirigiu-se de mansinho'para junto delle e foram para a sala de jantar. Aracy recebia os curiosos. Era gente da visinhança e também pessoas de longe, que ella convocara. Mulheres de varias edades e diversos volumes. A conversa desprendia-se da catastrophe e espraiava-se vulgarmente para se interromper, ao chegar uma pessoa nova, que obrigava a volta ás lamentações. Thereza e Philippe isolaram-se em uma janella sobre a bahia, que toda colorida entrava faustosamente na noite. As mãos pendentes para fora apertavam-se. Philippe sentia o choque doloroso de Thereza, vendo morrer uma criança. Até a revelação do amor, ella fora unicamente mãe. O instincto profundo estava sempre alerta no interesse pela infância e o seu carinho extremado por Jujú era uma modalidade do amor maternal. A morte de Jujú viria renovar, exaltar em Thereza o amor pela filha? Este enigma torturava Philippe. • A VIAGEM MARAVILHOSA 239

Na scisma de Thereza repassava uma saudade risonha e dolorosa de Jujú. Ella o via nos primeiros instantes da sua apparição em sua triste e solitária existência. Era o menino sonhador, seu companheiro do tédio, que a divertia com os carinhos violentos e as allucinações maravilhosas. Era como o embryão, o resumo, a concentração do amor de homem, que a desejava, a transfigurava. Jujú fora a annunciação de Philippe. E Jujú era a inconsciencia, que nunca lhe fizera mal. E Philippe lhe fizera soffrer... Jujú morrera desde o instante, em que sentiu que ella pertencia a Philippe. O seu instincto de mulher sabia este mysterio, de todos nunca imaginado. Jujú desapparecia para se completar mais definitivamente a sua unidade com Philippe. E com Jujú morria tudo que fora o mundo, em que ella esperara Philippe. E os olhos felizes de Thereza abysmaram-se no adorado. O medico chegou-se a elles. A situação era irremediável. Tudo se ia consummar dentro de poucas horas. Agora só restava actuar para diminuir os soffrimentos da agonia. Por isso, elle dera uma pequena injecçao de luminal. Manuel approximou-se. Philippe passou-lhe o braço pelos hombros, estreitando-o discretamente. Thereza apertoulhe a mão. Manuel comprehendeu. Os olhos vermelhos encheram-se de lagrimas. Os curiosos perceberam. Uns vieram agrupar-se em torno de Manuel e indagar do medico a ultima impressão. Outros cercaram Aracy amparada pelo Léo e uma choradeira annunciou á casa toda a apparição da morte. Como o desfecho demorava, restabeleceu-se a calmaria. As conversas sussurravam persistentes. Os curiosos vinham á porta do quarto do agonisante, agora toda aberta, olhavam e.voltavam para communicarem-se as inúteis observações. O medico abandonou Jujú e veiu para o gabinete de Vieira, onde estavam silenciosos, Philippe, Thereza e Manuel. A sua situação lhe dava autoridade para falar alj;o e conversar á vontade. Indagou de Manuel do destino de Pedro. Soube que estava na Correcção sem esperanças de sahir. Ainda não lhe tinham communicado a aggravaçào da moléstia de Jujú. Philippe disse que iria vel-o logo muito cedo. O medico discorreu sobre politica: — Não pensem que reprovo a revolução, affirmou. Acho que deve vir. Mas não para restaurar liberdades perigosa» e reforçar a democracia. Tudo isto já fez o seu tempo. Hoje o que o mundo exige é a concentração da autoridade, a dictadura que seja não somente temporal, mas também espiritual. Porque não? Bolchevismo ou fascismo, sempre dictadura. O Brasil precisa desta omnipotencia do Estado. O que temos é despotismo hypocrita. Viola-se a constituição, abafa-se a liberdade com medo, mentindo. Venha a revolução. Destrua-se tudo e surja o governo forte, livre nos seus movimentos, indifferente aos caducos direitos do homem. O indivíduo morreu para o bem do Estado. Manuel quiz interrompel-o, impellido pelo demônio da dialectica. Philippe obstou e pediu ao medico que explicasse como entendia a dictadura. Thereza achava a discussão deslocada e pretensiosa. O medico, estimulado e contente de expandir-se, proseguiu: — Perfeitamente. O primeiro dever do dictador no Brasil é salvar a raça. Nós caminhamos para a miséria physica, para o descalabro de todas as energias vitaes. Defendamos a raça, não a deixemos ser constantemente invadida por elementos nocivos, que chegam de toda a parte. A esta defeza para o exterior corresponda o saneamento interno. Todos estamos intoxicados. Proceda-se a uma desinfecção geral do paiz. Não é unicamente a desinfecção dos espaços, em que o homem vive, é a desinfecção do próprio homem. Já se pensa estabelecer o exame prenupcial. Muito bem. Mas não basta. É preciso a desintoxicação geral. — A começar pelos governantes, observou Philippe. — Naturalmente. Estes mais do que todos. Que perigo para um paiz ser governado por um homem tarado, irremediavelmente enfermo, infeccionado, intoxicado! Todos os problemas moraes, toda a psycologia, resolvem-se pelas áecreções internas. Augmentem-se ou diminuam-se estas, eis o caracter modificado. Os governantes devem ser submettidos a um tratamento especial. Ninguém poderá exercer um cargo publico sem ser desintoxicado. Estabelecer um regimen dietetico para todos os funccionarios, a começar pelo presidente, pelo dictador, para todos os senadores e deputados. Nada de álcool, de comesainas, de excessos. E uma cura especifica, seja qual for a reacção do sangue. Será o único meio de os tornar melhores, mais equilibrados, mais justos, mais dignos de governar a nação. — De accordo, concluiu sorrindo tristemente Philippe. Todos estes miseráveis estão intoxicados e dahi o delírio em que estão a flagellar o Brasil. Institua-se a dictadura medica para o nosso bem. Desinfecção...

As flores atordoavam com os seus aromas violentos os qüe, pela noite a dentro, velavam o corpo de Jujú. Para a Isomnolencia, café, que serviçaes voluntários distribuíam " regaladamente. Mas nada apagava os traços do cançaço, que se marcavam em todas as caras. Os coloridos artificiaes tornavam-se mais impudentes nos rostos inchados das mulheres, onde se dependuravam enormes olheiras roxas. As physionomias dos homens amarellados ennegreciam-se com as barbas a crescer. Philippe, vendo Thereza também desfeita e acabrunhada, insistiu em arrancal-a daquella decomposição geral. Obrigou-a a recolher á casa e prometteu-lhe ir igualmente repousar. O fresco da rua acariciou-os e tornou mais doce o enlace, em que iam mansamente perdidos em suas scismas. No portão beijaram-se muito. Thereza derreou-se no hombro de Philippe, olhou-o cheia de dôr e de esperança, chorou devagarinho, e, quando socegou, ficou com a cabeça no braço do amante e desvairada, ardente, murmurou:

— Nós que temos o mesmo amor, teremos a mesma morte. Vieira, transfigurado, via o espirito de Jujú, que lhe exprimia a sua alegria da desencarnação. D. Calú imaginava Jujú no céo como um anjo e chorava desesperada. 0 caixãosinho era vermelho e branco com galões dourados. As tampas estavam abertas. Jujú, vestido de São Luiz Gonzaga, o padroeiro dos seus estudos, tinha as mãosinhai rigidamente postas, com as unhas levemente pintadas. Sobre as faces amarellas um suave colorido roseo de carmim. Os olhos se fechavam sobre círculos escuros de azul violeta. Nos cabellos castanhos penteados e perfumados/ um resplendor. As luzes das velas faziam faiscar gloriosamente todo o ouro e o habito de seda branca e setim vermelho do santinho e as flores, que misturavam os seus aromas ao cheiro da cera, prolongavam o encantamento das cores. Em pé, junto á eça, Ritinha contemplava Jujú e por entre lagrimas lhe sorria ternamente, admirando-o naquella apotheose, que ella preparara, seguindo a tradicção maranhense. Á tarde, enterraram Jujú. A cova foi no canto das crianças. Lá estavam o Luiz, o Carlinhos, a Helena, o Joãosinho, nos seus túmulos, velados por anjinhos de pedra. Ritinha ficou contente, vendo que Jujú não estaria só. Quando os vivos os deixassem em paz, aquelles meninos o viriam buscar para brincar de pegador e dansar a cirandinha.

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