VI A Viagem Maravilhosa · Capítulo 6 de 17
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Por aquelles dias uma grande amargura torturava Manuel e Pedro. A revolução estacionara. Os libertadores estavam nos sertões e as capitães, abafadas pela compressão dictatorial, não se moviam. Não havia a ligação indispensável para a coordenação do movimento. — Assim somos, sempre, commentava Philippe, quando caminhava com os antigos pela avenida Beira-Mar. Faltanos o espirito de organização. É o mal nativo, que enfraquece e inutiliza os nossos esforços. Nada aqui é organizado, tudo é amorpho, inorgânico. Não existe aquelle senso da associação, que está na raiz da vida collectiva. Não falta a coragem nem a decisão para vencer. Somos valentes, mas somos brasileiros. — Anarchicos? perguntou Pedro. — Desorganizados por falta de disciplina para corrigir a herança de vagabundagem e de imprevisão, que nos veiu no sangue mestiço. Manuel sentiu o desalento e, impetuoso, tentou sacudir o desanimo, que os apavorava. — Não, Philippe. Organização não falta. Prestes é um chefe... — Uma excepção... corrigiu Philippe. E os outros? E porque estamos aqui desamparados e desligados do exercito libertador?... — É a nossa vergonha, exasperou-se Manuel. É a covardia geral, a passividade. Ninguém quer agir. Todos esperam tudo de Prestes e seus companheiros. Elles levam a revolução por toda parte e de nenhum lado lhes vem um apoio efficaz.O paiz assiste com enthusiasmo o heroísmo desses guerreiros, orgulha-se do gênio militar, que demonstram, e vê o seu ideal nas qualidades que ostentam, bravura, tenacidade, tactica. É um magnífico espectaculo consolador, mas só espectaculo para todos estes covardes, que não agem... — Nós já tentamos agir, arriscou Pedro. — Mas falhamos e não continuamos... cortou Manuel. E calou-se. Manuel não ousava interrogar Philippe sobre as causas do desanimo, que lhe vinha notando. Seria desanimo ou desinteresse? Philippe não examinava a mutação, por que estava passando. Um impulso transcendente o arrebatava da realidade brasileira. Uma ansiedade de infinito o tomara e elle, transfigurado, aspirava á ineffavel inconsciencia em um universo de imagens maravilhosas, de cores, de sons, de formas. Os três amigos separaram-se, carregando os seus rancores e os seus sonhos. No alto, a casa de Thereza.

Na noite escura, no terraço do Hotel Gloria, uma armação de luz electrica e tiras de papel multicor, agitadas pelo vento simulava uma fogueira de São João. Era a transfiguração das grandes toras de jacarandá e sucupira, que ardiam deante dos olhos antigos e tornavam espectraes os indios pagés e as feiticeiras negras. Sobre a cidade passavam balões, que Nitheroy, pyrotechnica, mandava como mensagens petulantes de desafio á cidade moderna, que respondia com o estouro de bombas. E Nitheroy, inexpugnável, divertia-se em foguetões fantásticos, espectaculesos, de lagrimas alegres, que coloriam o céo e o mar. Os elevadores do hotel vomitavam no salão mulheres de carnes nuas e sedas molles e homens de preto e branco, que o cheiro feminino.já vinha transtornando. Entravam farejando e sem demora installavam-se nas mesas por entre as luzes das lanternas japonezas. Vmham do mundo inteiro, anièricanos e argentinos, judeus internacionaes, francezese'britannicos,allemães, italianos e os portuguezes pelludos. Os americanos embriagavam-se. Os argentinos berravam. Os cariocas namoravam, emquanto os outros bebiam, fumavam e debochavam-se na algazarra e nos maxixes. Philippe perguntava a Manuel por Thereza. — Não a vi. Mas o marido está... —' Onde? indagou rápido Philippe. Quero conhecel-o... Manuel esforçou-se por descobril-o... Radagasio não lhes appareceu. Philippe ainda buscou Thereza pelos salões e pelo terraço, onde a fogueira artificial projectava para o espaço um clarão rubro. Thereza não estava e a sua ausência era inexplicável, porquanto animara Philippe a vir ao baile. Por entre as mesas dansava-se furiosamente. Gargulas exóticas representavam-se no inglez vermelho, enorme, jovial moinho inglez a rodar com uma americana esguia, desbotada, de cabellos amarellos, namarqueza prostituta, no marquez de cabeça cubista, no negro, preguiça gagá, ruminante, no treme-treme bêbado, na machina de falar, na escura hyena teuto-brasileira, no hypopotámo de bocca extranha, em outras múltiplas apparições das deformações humanas. Outras figuras eram graciosas e magnificentes. Nestas a dansa era a magia da forma e do movimento. Toda a essência da esculptura concentrava-se para se desenvolver succesivamente em imagens vivas, ireaes, seductoras. Era a arte e o seu mysterio no corpo humano, exaltado pela musica. Era assim Laura Moraes, que dansava com Manuel. A cabeça alteava-se e, como um signo de fascinação, os olhos glaucos eram redondos, archaicos. O nariz, levemente aquilino, dava-lhe a expressão soberana de dominio, emquanto a bocca pequena e mansa enfeitiçava, no sorriso claro, o semblante predestinado. A cabeça movia-se suavemente, parava rápida, vibrante, e uma irradiação dos olhos maj estáticos paralysava a admiração, que a seguia. O corpo leve, airoso, retomava a marcha graciosa e a cabeça erguia-se coroada pelos cabellos finos, claros, volumosos e ardentes. Quando a musica cessou, approximaram-se de Philippe, parado á porta do terraço. E Laura Moraes o interpellou, resoluta: — Que isto? succumbido? Philippe sorriu desdenhoso. Foi Manuel que respondeu. — Nunca. Hoje é noite de espectaculo para Philippe... Não age, contempla. É o segredo da sua philosophia. Manuel desabafava a sua angustia deante da abstração, em que se abysmava Philippe ultimamente. — Oh! espectaculo. Sim. Tudo é espectaculo. Philippe tem razão e por isto, eu, como sua discípula... Está orgulhoso? Como sua discípula atirei-me á nova poesia. Estou inteiramente modernista... Neste momento preparo alguma cousa para você, Philippe. — Que será? indagou Philippe. — Você verá. Desejo criar como a natureza. Você não disse que a arte não deve ser a imitação da natureza? Pois, muito bem, eu sou criadora como a natureza e não a temo. Laura sorria, sorria. Ella mystificava a sua adoração por Philippe nesta exhibição artificiosa de um poder esthetico imaginário. O que ella queria era attrahir, seduzir o homem, que a fascinara. Os seus olhos vibravam e toda ella exhalava um aroma capitoso de perfumes e de calor feminino. — Faça o seu próprio poema, murmurou Philippe, e i.será uma maravilha... — Só você poderia fazel-o. Você é poeta. — O modelo escapa-me. — Porque você quer, Philippe. É o artista que exaspera o modelo... Porque você não apparece mais? Prpmetteu voltar e não cumpriu a palavra... Manuel veiu ao soccorro de Philippe. — Neste momento a nossa attenção está absorvida na política... — A politica! Que bobagem! Deixem-se disto. Cuidem da belleza da vida, da arte, do prazer... Que lucram vocês com a politica? É sempre a mesma cousa. E ainda se arriscam á prisão... — Que nos importa a perseguição, Laura, declarou Philippe... — Ah! está assim resoluto?... Que pena! Tudo isto, que os preoccupa, eu acho inferior. Deixem estas manias para os imbecis, para os mendigos ou para os ladrões. Vocês são intelligentes. Vivam da sciencia e da arte... E porque não do amor? — O amor! O amor não se procura... Elle nos vem como uma fatalidade, disse ardente Philippe. — Ohl Como você está exaltado... accentuou Laura despeitada. Philippe estremeceu, arrependido da vibração, que conteve. Por um momento Laura Moraes ficou silenciosa ao lado de Philippe, olhando, desattenta, a fogosa dansa, que ' novamente se desenrolava. Manuel desapparecera para dansar. O baile excitava os sentidos. Os corpos transformavam-se em linhas voluptuosas e as mulheres ostentavam a carnação, que os olhos dos homens devoravam e as mãos tocavam lubricas. As luzes realçavam as cores ousadas. Os sons da musica, das vozes, dos passos, fundiam-se nas vagas de odores, que aboliam a consciência e sublimavam a sensualidade. As intelligencias adormeciam. Talvez somente os espíritos de Laura e Philippe reagissem contra as sensações desencadeadas. Ella despeitada com o que surprehendia em Philippe. Este desesperado por se libertar delia e do resto. — Você não dansa, Philippe?... Era a indagação interesseira de Laura para arrancal-o de qualquer cousa, que suspeitava e queria saber. — Não, Laura. Não me interessa. Dansaria por comprazer, mas entre nós seria uma attitude constrangida e falsa. — Não o estou convidando, replicou vivamente Laura. Que pretensão! Você está hoje insupportavel. Maluco! Até logo. Philippe deixou o salão e veiu ao terraço. A brisa espalhava a fumaça dos charutos, que palpitavam fogo verdadeiro. A fogueira electrica espadanava as labaredas do artificio e as toras de arvores de cimento continuavam inconsumiveis. Os foguetes não cançavam de deitar lagrimas sobre a bahia, que se enfeitava absorvendo as cores flammej antes. O outeiro da Gloria, quieto na sombra antiga, adormecia embalado pelas palmeiras do jardim de Thereza.

Em uma grande doçura humida toda a vastidão nocturna velava-se. A evaporação enchera o espaço, encobrira os morros, a própria água da bahia. Um manto espesso de neblina era o céo, onde os balões rubros, incandescentes simulavam estrellas moventes e tornavam o universo artificial e humano. Dentro da sombra cheia de perfumes, no grande silencio das plantas, Thereza desesperava-se de não estar ao lado de Philippe. Acovardara-se de apparecer em companhia do marido. Faltara a Philippe. As suas artérias batiam acceleradas. Os olhos cravavam-se na noite para descobrir Philippe. Vinha do baile a musica nefasta. Era a dansa. Homens e mulheres enlaçavam-se misturando cheiros e desejos. Philippe a arrebataria, ella se entregaria radiosa e o enfeitiçaria com todo o seu ser, capitoso e exasperado. Philippe. Philippe. A bocca secca não articulava as palavras de ódio e anseios, que a suffocavam. Os olhos cavavam, cavavam as sombras. As arvores subiam Cada folha era uma aza. As plantas moviam-se rastejantes para de repente saltarem no espaço. Arfavam frementes. O bafo, que éxhalavam, cheirava a jasmin, a canella, a laura-rosa, a baunilha, a magnolia. Ellas sentiam o corpo de Thereza e o attrahiam á total e imperiosa volúpia vegetal. O corpo entregava-se aquella vontade extranha e fundia-se no universal. Os olhos perdiam-se no céo e no mar. Tudo balançava. O outeiro, o jardim, a casa alteavam-se e afundavam-se na cadência dessas vagas abstractas da vertigem interior. Todas as cousas viviam a sua vida profunda, secreta e fatal. A vibração mollecular ligava o universo. O fluido humano vinha da mesma longínqua e eterna crepitação, que transfigurava as pedras, as plantas e os animaes. Thereza não tinha consciência, mas recolhia a magia desta interdependência da vida universal, que é a trama da unidade infinita. Os sentidos humanos são insufficientes para perceber e dominar a totalidade do universo. Além do que apprehendem essas antennas, prosegue a vida em suas infinitas expressões. A vida é a transfiguração perpetua. Nesta transformação, nesta fuga, a consciência abre-se como um relâmpago. O pensamento de Thereza concentrava-se em Philippe. Era o ponto real, em que fixava o seu ser, em que se baseava para ella toda a vida, todo o universo. Aspirava á unidade com Philippe, quizera estar ao seu lado, abysmar-se na sua profunda e esquecedora doçura. O martyrio da separação a torturou. Thereza, no silencio immemorial das pedras e das plantas, chorou. O orvalho das lagrimas fundiu-se na humidade dos vegetaes. A consciência da mulher desprendia-se da inconsciencia total e buscava Philippe. Porque esta angustia? Esta ansiedade por outro ser humano? Thereza ignorava-se. Desejava e não comprehendia o arrebatamento, que a possuía, a magia da infiltração, que se apoderava delia enchendo-a de volúpia, de exaltação, de abnegação, encantando-a, martyrisando-a, transfigurando-a. O frio da noite impregnou-se no corpo de Thereza e a estremeceu, como o frio da morte universal. Pela morte ella se viu em Deus. Pavor de se sentir longe de Philippe. Pavor do desejo violento e obscuro, que a impellia para Philippe. Era um mal? Um peccado? Desobedecia aos preceitos, que a confinavam na familia e na obediência? Christo não desobedecera ás leis humanas, á sua própria mãe, para obedecer á sua lei interior e cumprir o seu destino divino?

Philippe não encontrava recolhimento no terraço, em que meditava face a face ao jardim e á scisma perdida de Thereza. Approximaram-se delle vários homens e logo começaram a perorar sobre as angustiosas preoccupações. que os apavoravam. Dizia um: — As noticias da revolução são más para o governo., O Norte está nas mãos dos revolucionários, que vão installar-se em Therezina e estabelecer um governo regular... — Então será a belligerancia, concluía outro. Constituído o governo com probabilidades de permanência, serão reconhecidos belligerantes pelas nações estrangeiras. — Bravo! É o que merece este governo cana... acudiu um delles e logo enguliu o resto, porque os outros já o apontavam como sedicioso. — Tudo isto é boato miserável. O governo está solido e inabalável. Continuará a sua missão de regenerar o sangue brasileiro perdido pelo anarchismo, affirmou um homem escuro, de voz soturna, fungando e lacrimejando nos apertados olhos lacustres. Era Radagasio. — Anarchismo? Mas isto é historia antiga. Quer dizer communismo, bolchevismo... interrompeu-o irônico Philippe, enjoado daquella estúpida discussão. — É a mesma cousa, retrucou categórico Radagasio. E já encolerisado: O governo deve ser impiedoso com estes mashorqueiros, pau nelles, cadeia, deportação, fusilamento... — Em nome de que? perguntou vivamente íKilippe.

— Em nome da ordem, respondeu Radagasio, triumphante. — Ordem de que? accentuou sarcástico Philippe. Ordem de despotismo, de tyrannia, ordem de selvagem, ordem para depredar, assassinar, locupletar-se com os bens públicos, attentar contra a personalidade humana? Esta é a ordem, que prega o governo. Esta ordem é uma infâmia, e ella é que provoca toda a desordem nacional. Contra ella se insurge a dignidade do brasileiro, revoltam-se os que amam esta pátria e a querem mais nobre, mais justa, mais humana. Radagasio mastigou o que ia responder e afinal colérico qúiz provocar uma questão pessoal com Philippe, a quem não conhecia. — Vejo que o senhor é revolucionário para exprimir-se assim contra o nosso governo. Eu não o denunciarei, mas o senhor se arrisca a falar deste modo. — Nada temo, pode denunciar-me, como quizer. Será mais um espião, que se descobrirá. Vamos... Faça... explodiu resoluto Philippe. 4 Radagasio acovardou-se. — Não se exalte. Eu estava falando por hypothese. Não sou capaz de denunciar ninguém. Sou amigo do governo, respeito as autoridades legitimas, detesto a revolução. Sou do partido da ordem. Assim é o sentimento geral do commercio e dos que têm o que perder... — É negociante? indagou um sujeito, curioso de identificar o defensor da legalidade. — Sou banqueiro, affirmou Radagasio, com empáfia. Mas logo receiando que o conhecessem, diminuiu-se: — Isto é, pertenço a um banco. Sorriram e desinteressaram-se de Radagasio. Continuaram os commentarios sobre as cousas políticas. A rápida discussão tinha inflammado Philippe, que se poz a examinar a situação do paiz. Todo elle era acção no pensamento vivo, agudo, que analysava e synthetisava fulminante a massa inorgânica, convulsa, em combustão, que é o Brasil. E Philippe apresentou o quadro das elites sociaesj que dirigem o paiz. Eram formadas de politicos, advogados, médicos, engenheiros, professores, funccionarios militares, homens de negócios, industriaes, financeiros. Quaes são as carecteristicas destas elites? interrogou Philippe. E, respondendo á sua própria indagação elle concluía: — O que nellas predomina é a ausência de responsabilidade. Ninguém se julga responsável deante de si mesmo ou de uma opinião publica. Dahi uma absoluta ausência de escrúpulos na conquista do dinheiro, das posições, do goso. Ha uma falta de amor próprio. Não ha orgulho pessoal. Ha vaidade. Não ha lógica nos actos. Não ha coherencia. Ninguém se preoccupa de respeitar e se fazer respeitar. Obedece-se aos instinctos do lucro e do prazer. São aduladores, são escravos, são cynicos. Tudo é aventura. A existência é um jogo e tudo se espera do acaso. Não ha esforço, nem perseverança. Aproveitam-se as occasiões. A falta de escrúpulos harmoniza-se com este espirito aleatório, aventureiro. Não se dá importância a cousa alguma. Não se liga a nada. Rir-se de tudo e não se sentir preso a qualquer sentimento. Ruptura de todos os laços para a livre expansão da luxuria, do dinheiro, da posição. Servis e ganhadores. Ha uma perversão da sensualidade, na avidez de volúpia desbragada, na sodomia, na lascívia, na intoxicação. Uma forte ausência de idealismo determina uma indifferença total ás idéas em qualquer manifestação transcendente do espirito. Horror á philosophia, á esthetica. Ausência de religião. Desdém pelas idéas políticas. A politica é um negocio. E como conseqüência desta indifferença intellectual, a inércia sentimental. Estas elites embrutecem no sensualismo vulgar, no jogo, nos

— Cruel! puxa! commentou Radagasio...

Um estrondo immenso de uma enorme bomba estremeceu o edifício e apavorou as gentes. Viva São João! gritavam na rua. O grito alegre tornou-se sinistro no recolhimento do terror. No terraço repleto, todos se empurravam sem recato para receber da rua a explicação daquelle bum medonho. Os estrangeiros riam do espanto dos brasileiros e queriam mais bombas. Logo se espalhou que os revolucionários tinham arremessado uma bomba contra o palácio do presidente da republica e que ella estourara nas grades do jardim. E o medo criou legendas. Eram mil bombas, que haviam estourado na cidade, eram autoridades mortas, eram casas derrocadas, a devastação e a dominação vingadora dos revolucionários. Na avenida Beira-Mar voavam automóveis e motocycletas policiaes, galopavam cavallerianos desorientados. Tudo se esvasiava subitamente, covardemente. Só a policia se agitava. No baile a musica esforçava-se em despertar a dansa. Ninguém dansava. Procuravam fugir dalli, estupidamente temendo o perigo, que passara. Philippe e Manuel abandonaram o hotel e muito unidos, vibrando de uma alegria cheia de inquietação e esperança, procuravam saber da rara gente, estacionada nas calçadas, a verdade. Recolheram apenas conjecturas, filhas do pavor. — Vamos até lá em casa, propoz Manuel. Talvez Pedro ainda esteja na cidade e quando se recolher nos dirá tudo direito. Subiram a ladeira, mudos, de braços enlaçados, por onde communicavam as ondas vibratórias do enthusiasmo. Um homem subia também a ladeira, apressado e offegante. Passou por elles e, arfando, sem parar, ia exclamando com esforço: — Boa noite. A cousa está cheirando a chamusco. Seguro morreu de velho. Vou para a cama, que é logar quente. Não quero saber de historias... Quem vê a barba do visinho arder, põe a sua de molho. É verdade que não tenho barba, mas « Jam proximus ardet Ucalegon »... Boa noite... E, cantarolando para se animar, subiu, foi-se. — Quem é este cretino? perguntou Philippe reconhecendo o defensor da ordem. — É o marido de Thereza, respondeu Manuel. — Miséria!... murmurou Philippe. E foi, esquecido da revolução, absorto em Thereza, que elle chegou á casa de Vieira. Desde que Manuel abriu a porta, a luz de dentro arremessou-se sobre a rua sombria. Logo a voz de Pedro ordenava do fundo do corredor: — Fecha. Entrem.

De vagarinho Manuel cerrou a porta e conduziu Philippe á sala de jantar. Pedro estava em companhia de um homem pequeno, moreno, cujos olhos faiscavam sob uma ampla testa, emquanto a bocca resumida se apertava sob um nariz curvo e sobre um queixo curto, sumido. Pedro disse a Philippe o nome do companheiro. Era um official foragido. O seu nome era glorioso na revolução. Dentro do recinto maldito, em que se defendia o governo, era elle o chefe da conspiração tenaz, implacável, que punha o presidente em cheque. O official sorriu e não falou. Pedro explicou que as bombas foram lançadas pelos revolucionários, por ordem desse capitão, contra edifícios, evitando-se intencionalmente o attentado pessoal. Era uma advertência. A revolução vivia, a revolução devia apavorar. Ficaram silenciosos. Uma profunda alegria os ligava na violência e na esperança. Na mascara senhoril do official espraiava-se a doçura ineffavel da libertação de um secreto tormento, da angustiada tortura da inacção, de que emfim se evadira.

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